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sábado, 8 de outubro de 2011

"Tu estás comigo": esta é a certeza que nos sustenta


Bento XVI

Audiência Geral

Praça São Pedro
Quarta-feira, 5 de outubro de 2011

O homem em oração

Caros irmãos e irmãs,
Voltar-se para o Senhor na oração implica um radical ato de confiança, na consciência de se confiar a Deus que é bom, “misericordioso e piedoso, lento para a ira e rico de amor e de fidelidade” (Ex 34, 6-7; Sl 85, 15; cf. Jl 2, 13; Gn 4, 2; Sl 102, 8; Sl 144, 8; Ne 9, 17). Por isto, hoje, gostaria de refletir convosco sobre um Salmo todo permeado de confiança, no qual o Salmista exprime a sua serena certeza de ser guiado e protegido, colocado em segurança contra todo perigo, porque o Senhor é o seu pastor. Trata-se do Salmo 23 – segundo a datação greco-latina 22 –, um texto familiar a todos e amado por todos.
“O Senhor é meu pastor, não me faltará”: assim começa esta bela oração, evocando o ambiente nômade do pastoreio e a experiência de conhecimento recíproco que se estabelece entre o pastor e as ovelhas que compõem o seu pequeno rebanho. A imagem remete a uma atmosfera de confiança, intimidade, ternura: o pastor conhece as suas ovelhas uma a uma, as chama pelo nome e elas o seguem porque o reconhecem e se confiam a ele (cf. Jo 10, 2-4). Ele cuida delas, as custodia como bens preciosos, pronto para defendê-las, garantir o seu bem-estar, fazê-las viver na tranquilidade. Nada pode faltar se o pastor está com elas. O Salmista se refere a esta experiência, chamando Deus de seu pastor, e deixando-se guiar por Ele rumo a pastos seguros: “Em verdes prados ele me faz repousar. Conduz-me junto às águas refrescantes, restaura as forças de minha alma. Pelos caminhos retos ele me leva, por amor do seu nome” (vv. 2-3).
A visão que se abre aos nossos olhos é a de prados verdes e fontes de água límpida, oásis de paz rumo aos quais o pastor acompanha o rebanho, símbolos dos lugares de vida para os quais o Senhor conduz o Salmista, que se sente como as ovelhas deitadas na erva ao lado de uma fonte, em situação de repouso, não em tensão ou em estado de alarme, mas confiantes e tranquilas, porque o lugar é seguro, a água é fresca, e o pastor as vigia. E não esqueçamos aqui que a cena evocada pelo Salmo é ambientada numa terra em grande parte desértica, ferida pelo sol escaldante, onde o pastor seminômade do Oriente Médio vive com o seu rebanho nas estepes secas que se estendem ao redor dos vilarejos. Mas, o pastor sabe onde encontrar erva e água fresca, essenciais para a vida, sabe levar para o oásis no qual a alma “se refresca” e é possível retomar as forças e novas energias para se colocar outra vez no caminho.
Como diz o Salmista, Deus o guia para “verdes prados” e “águas refrescantes”, onde tudo é superabundante, tudo é dado copiosamente. Se o Senhor é o pastor, mesmo no deserto, lugar de ausência e de morte, não diminui a certeza de uma radical presença de vida, a ponto de poder dizer: “nada me faltará”. O pastor, de fato, traz no coração o bem do seu rebanho, adéqua os seus ritmos e exigências às de suas ovelhas, caminha e vive com elas, guiando-as por caminhos “retos”, ou seja, adequados para elas, com atenção às suas necessidades e não às suas próprias. A segurança do seu rebanho é a sua prioridade e ele obedece a ela quando o guia.
Caros irmãos e irmãs, também nós, como o Salmista, se caminhamos atrás do “Bom Pastor”, por mais difíceis, tortuosos ou longos que possam parecer ser os percursos da nossa vida, frequentemente também em zonas desérticas espiritualmente, sem água e com um sol de racionalismo escaldante, sob a guia do bom pastor, Cristo, estaremos certos de estar seguindo por caminhos “retos” e de que o Senhor nos guia e sempre estará por perto e nunca nos faltará.
Por isto, o Salmista pode declarar uma tranquilidade e uma segurança sem incertezas ou temores: “Ainda que eu atravesse o vale escuro, nada temerei, pois estais comigo. Vosso bordão e vosso báculo são o meu amparo” (v. 4).
Quem segue com o Senhor, mesmo nos vales escuros do sofrimento, da incerteza e de todos os problemas humanos, se sente seguro. Tu estás comigo: esta é a nossa certeza, a que nos sustenta. O escuro da noite causa medo, com suas sombras mutantes, a dificuldade para distinguir os perigos, o seu silêncio cheio de ruídos indecifráveis. Se o rebanho se move depois que o sol se põe, quando a visibilidade se faz incerta, é normal que as ovelhas fiquem inquietas, há o risco de tropeçar ou mesmo de se afastar e se perder, e há ainda o temor de possíveis agressores que se escondem na obscuridade. Para falar do vale “escuro”, o Salmista usa uma expressão hebraica que evoca as trevas da morte, de forma que o vale a ser atravessado é um lugar de angústia, de ameaças terríveis, de perigo de morte. E mesmo assim, o orante segue seguro, sem medo, porque sabe que o Senhor está com ele. Aquele “tu estás comigo” é uma proclamação de confiança firme, e sintetiza a experiência de fé radical; a proximidade de Deus transforma a realidade, o vale escuro perde toda periculosidade, se esvazia de toda ameaça. O rebanho, agora, pode caminhar tranquilo, acompanhado pelo ruído familiar do bastão que bate no terreno e assinala a presença tranquilizadora do pastor.
Esta imagem reconfortante encerra a primeira parte do Salmo, e deixa o lugar para uma cena diferente. Estamos ainda no deserto, onde o pastor vive com o seu rebanho, mas agora somos transportados para a sua tenda, que se abre para oferecer hospitalidade: “Preparais para mim a mesa à vista de meus inimigos. Derramais o perfume sobre minha cabeça, e transborda minha taça” (v. 5).
Agora, o Senhor é apresentado como Aquele que acolhe o orante, com os sinais de uma hospitalidade generosa e cheia de atenção. O anfitrião divino prepara a refeição sobre a “mesa”, um termo que, em hebraico, indica, no seu sentido primitivo, a pele de animais que era estendida no chão e sobre a qual os convivas se assentavam para comer juntos. É um gesto de compartilhamento não apenas do alimento, mas também da vida, numa oferta de comunhão e de amizade que cria vínculos e exprime solidariedade. E ainda há o dom munificente do óleo perfumado sobre a cabeça, que dá alívio para o calor do sol do deserto, refresca e acalma a pele e eleva o espírito com sua fragrância. Enfim, o cálice transbordante acrescenta uma nota de festa, com o seu vinho delicioso, compartilhado com generosidade superabundante. Alimento, óleo, vinho: são os dons que fazem viver e dão alegria porque vão além daquilo que é estritamente necessário, e exprimem a gratuidade e a abundância do amor. O Salmo 103 proclama, celebrando a bondade providente do Senhor: “Fazeis brotar a relva para o gado, e plantas úteis ao homem, para que da terra possa extrair o pão e o vinho que alegra o coração do homem, o óleo que lhe faz brilhar o rosto e o pão que lhe sustenta as forças” (vv. 14-15). O Salmista é feito objeto de tantas atenções, de forma que se vê como um viandante que encontra abrigo numa tenda acolhedora, enquanto que seus inimigos são obrigados a parar e olhar, sem poder intervir, porque aquele que consideravam sua presa foi colocado em segurança, se tornou hóspede sagrado, intocável. E o Salmista somos nós se crermos realmente e estivermos em comunhão com Cristo. Quando Deus abre a sua tende para nos acolher, nada nos pode fazer mal.
Quando, depois, o viandante vai embora, a proteção divina se prolonga e o acompanha na sua viagem: “A vossa bondade e misericórdia hão de seguir-me por todos os dias de minha vida. E habitarei na casa do Senhor por longos dias” (v. 6)
A bondade e a fidelidade de Deus são a escolta que acompanha o Salmista que sai da tenda e se coloca no caminho outra vez. Mas, é um caminho que adquire um novo sentido, e se torna peregrinação rumo ao Templo do Senhor, o lugar santo no qual o orante quer “habitar” para sempre e para o qual quer também “retornar”. O verbo hebraico utilizado aqui tem o sentido de “voltar”, mas, com uma pequena modificação vocálica, pode ser compreendido como “habitar”, e assim é traduzido pelas antigas versões e pela maior parte das traduções modernas. Ambos os sentidos podem ser mantidos: voltar para o Templo e nele habitar é o desejo de todo Israelita, e habitar perto de Deus próximo dEle e de sua bondade é o anseio e a nostalgia de todo crente: poder habitar realmente onde Deus está, próximo de Deus. Seguir o Pastor leva à sua casa, é esta a meta de todo caminho, oásis desejado no deserto, tenda de refúgio na fuga dos inimigos, lugar de paz onde se experimenta a bondade e o amor fiel de Deus, dia após dia, na alegria serena de um tempo sem fim.
As imagens deste Salmo, com a sua riqueza e profundidade, acompanharam toda a história e a experiência religiosa do povo de Israel e acompanham os cristãos. A figura do pastor, particularmente, evoca o tempo originário do Êxodo, o longo caminho no deserto, como um rebanho sob a guia do Pastor divino (cf. Is 63, 11-14; Sl 76, 20-21; Sl 77, 52-54). E na Terra Prometida era o rei que tinha a tarefa de pastorear o rebanho do Senhor, como Davi, pastor escolhido por Deus e figura do Messias (cf. 2Sam 5, 1-2; 2Sam 7, 8; Sl 77, 70-72). Além do mais, depois do exílio na Babilônia, quase num novo Êxodo (cf. Is 40, 3-5.9-11; Is 43, 16-21), Israel é levado de volta para a sua pátria como ovelha dispersa e recuperada, reconduzida por Deus a pastor verdejantes e lugares de repouso (cf. Ez 34, 11-16.23-31). Mas é no Senhor Jesus que toda a força evocativa do nosso Salmo alcança a completude, encontra a sua plenitude de significado: Jesus é o “Bom Pastor” que vai em busca da ovelha perdida, que conhece as suas ovelhas e dá a vida por elas (cf. Mt 18, 12-14; Lc 15, 4-7; Jo 10, 2-4.11-18), Ele é o caminho, a estrada reta que nos leva à vida (cf. Jo 14, 6), a luz que ilumina o vale escuro e vence todo o nosso medo (cf. Jo 1, 9; Jo 8, 12; Jo 9, 5; Jo 12, 46). Ele é o anfitrião generoso que nos acolhe e nos coloca a salvo dos inimigos, preparando-nos a mesa do seu corpo e do seu sangue (cf. Mt 26, 26-29; Mc 14, 22-25; Lc 22, 19-20) e a mesa definitiva do banquete messiânico no Céu (cf. Lc 14, 15ss; Ap 3, 20; Ap 19, 9). É Ele o Pastor real, rei na mansidão e no perdão, entronizado sobre o lenho glorioso da cruz (cf. Jo 3, 13-15; Jo 12, 32; Jo 17, 4-5).
Caros irmãos e irmãs, o Salmo 22 nos convida a renovar a nossa confiança em Deus, abandonando-nos totalmente nas suas mãos. Peçamos, portanto, com fé, que o Senhor nos conceda, mesmo nos caminhos difíceis do nosso tempo, poder caminhar sempre em seus caminhos como rebanho dócil e obediente, nos acolha na sua casa, à sua mesa, e nos conduza para “águas refrescantes”, para que, no acolhimento do dom do seu Espírito, possamos beber em suas fontes, fontes daquela água viva que “jorra para a vida eterna” (Jo 4, 14; cf. Jo 7, 37-39). Obrigado

* Extraído do site do Vaticano, do dia 5 de outubro de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?


Bento XVI

Audiência Geral

Sala Paulo VI
Quarta-feira, 14 de setembro de 2011

O homem em oração

Caros irmãos e irmãs,
Na catequese de hoje gostaria de apresentar um Salmo de fortes implicações cristológicas, que continuamente aflora nos relatos da paixão de Jesus, com a sua dupla dimensão de humilhação e de glória, de morte e de vida. É o Salmo 22, segundo a tradição judaica, ou 21, segundo a tradição greco-latina, uma oração sincera e tocante, de uma densidade humana e de uma riqueza teológica que fazem com este seja um dos Salmos mais rezados e estudados de todo o Saltério. Trata-se de uma longa composição poética, e nós nos dedicaremos particularmente à sua primeira parte, que está centrada no lamento, a fim de aprofundar algumas dimensões significativas da oração de súplica a Deus.
Este Salmo apresenta a figura de um inocente perseguido e cercado por adversários que querem a sua morte; e ele recorre a Deus num lamento doloroso que, na certeza da fé, se abre misteriosamente para o louvor. Na sua oração, a realidade angustiante do presente e a memória consoladora do passado se alternam, numa sofrida tomada de consciência da própria situação desesperada que, porém, não quer renunciar à esperança. O seu grito inicial é um apelo dirigido a um Deus que parece distante, que não responde e parece havê-lo abandonado:
“Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes? E permaneceis longe de minhas súplicas e de meus gemidos? Meu Deus, clamo de dia e não me respondeis; imploro de noite e não me atendeis.” (vv. 2-3)
Deus silencia, e este silêncio despedaça o espírito do orante, que chama incessantemente, mas sem encontrar resposta. Os dias e as noites se sucedem, numa busca incansável de uma palavra, de uma ajuda que não chega; Deus parece tão distante, tão esquecido, tão ausente. A oração pede escuta e resposta, solicita um contato, busca uma relação que possa dar conforto e salvação. Mas, se Deus não responde, o grito de ajuda se perde no vazio e a solidão se torna insustentável. No entanto, o orante do nosso Salmo, por mais três vezes, no seu grito, chama o Senhor de “meu” Deus, num extremo ato de confiança e de fé. Não obstante toda aparência, o Salmista não pode acreditar que o vínculo com o Senhor tenha sido interrompido totalmente; e enquanto pergunta sobre o presumido abandono incompreensível, afirma que o “seu” Deus não o pode abandonar. 
Como se vê, o grito inicial do Salmo – “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?” – é referido pelos Evangelhos de Mateus e de Marcos como o grito lançado por Jesus morrendo na cruz (cf. Mt 27, 46; Mc 15, 34). Ele exprime toda a desolação do Messias, Filho de Deus, que está diante do drama da morte, uma realidade totalmente contrária ao Senhor da vida. Abandonado por quase todos os seus, traído e renegado por discípulos, circundado por quem o insulta, Jesus está sob o peso  esmagador de uma missão que deve passar pela humilhação e pela aniquilação. Por isso, grita ao Pai, e o seu sofrimento assume as palavras doloridas do Salmo. Mas, o seu grito não é desesperado, da mesma forma que não o era o grito do Salmista, que, na sua súplica, percorre um caminho atormentado que chega, finalmente, numa perspectiva de louvor, na confiança da vitória divina. E visto que, no costume judaico, citar o início de um Salmo implicava uma referência ao poema inteiro, a oração desoladora de Jesus, mesmo mantendo a sua carga de indizível sofrimento, se abre para a certeza da glória. “Porventura não era necessário que Cristo sofresse essas coisas e assim entrasse na sua glória?”, dirá, mais tarde, o Ressuscitado para os discípulos de Emaús (Lc 24, 26). Na sua paixão, em obediência ao Pai, o Senhor Jesus atravessa o abandono e a morte para chegar à vida e dá-la a todos os crentes.
A este grito de súplica inicial, no nosso Salmo 21(22), segue-se, em doloroso contraste, a recordação do passado:
“Nossos pais puseram sua confiança em vós, esperaram em vós e os livrastes. A vós clamaram e foram salvos; confiaram em vós e não foram confundidos.” (vv. 5-6).
Aquele Deus que, para o Salmista, hoje, parece tão distante, é, porém, o Senhor misericordioso que Israel sempre experimentou na sua história. O povo a que pertence o orante foi objeto do amor de Deus e pode testemunhar a sua fidelidade. A começar dos Patriarcas, passando pelo Egito e pela longa peregrinação no deserto, a permanência na terra prometida em contato com povos agressivos e inimigos, até à escuridão do exílio, toda a história bíblica foi uma história de grito de ajuda por parte do povo e de respostas salvífica por parte de Deus. E o Salmista se refere à fé constante de seus pais, que “confiaram” – esta palavra é repetida por três vezes – sem que nunca fossem desiludidos. Agora, porém, parece que esta cadeia de invocações confiantes e respostas divinas tenha sido interrompida; a situação do Salmista parece desmentir toda a história da salvação, tornando ainda mais dolorosa a realidade presente.
Mas, Deus não pode desmentir a si mesmo, e eis que, então, a oração volta a descrever a situação penosa do orante, a fim de induzir o Senhor a ter piedade e intervir, como sempre fez no passado. O Salmista se define um “verme, não sou homem, o opróbrio de todos e a abjeção da plebe” (v. 7), é objeto de zombaria e escárnio (cf. v. 8) e é ferido exatamente na fé: “Esperou no Senhor, pois que ele o livre, que o salve, se o ama” (v. 9), dizem. Sob os golpes zombeteiros da ironia e do desprezo, quase parece que o perseguido tenha perdido exatamente as características humanas, assim como o Servo sofredor descrito pelo Livro de Isaías (cf. Is 52, 14; 53, 2b-3). Ou como o justo oprimido do Livro da Sabedoria (cf. 2, 12-20), ou ainda como Jesus no Calvário (cf. Mt 27, 39-43). O Salmista também vê colocado em questão o seu relacionamento com o seu Senhor, quando sublinham cruel e sarcasticamente aquilo que o está fazendo sofrer: o silêncio de Deus, a sua aparente ausência. E no entanto, Deus esteve presente na existência do orante com uma proximidade e uma ternura incontestáveis. O Salmista lembra o Senhor disso: “Sim, fostes vós que me tirastes das entranhas de minha mãe e, seguro, me fizestes repousar em seu seio. Eu vos fui entregue desde o meu nascer” (vv. 10-11a). O Senhor é o Deus da vida, que faz nascer e acolhe o recém-nascido e cuida dele com afeto de pai. E se, antes, havia sido feita a memória da fidelidade de Deus na história do povo, agora o orante reevoca a própria história pessoal de relacionamento com o Senhor, chegando até ao momento particularmente significativo do início da sua vida. E ali, não obstante a desolação presente, o Salmista reconhece uma proximidade e um amor divinos tão radicais a ponto de poder, então, exclamar, numa confissão cheia de fé e de geradora de esperança: “desde o ventre de minha mãe vós sois o meu Deus” (v. 11b).
O lamento se torna, nesse ponto, uma súplica sincera: “Não fiqueis longe de mim, pois estou atribulado; vinde para perto de mim, porque não há quem me ajude” (v. 12). A única proximidade que o Salmista percebe e que o assusta é a dos inimigos. É, portanto, necessário que Deus se faça próximo e socorra, porque os inimigos rodeiam o orante, como leões que escancaram suas fauces para rugir e devorar (cf. vv. 13-14). A angústia altera a percepção do perigo, engrandecendo-o. Os adversários parecem invencíveis, tornaram-se como animais ferozes e muito perigosos, enquanto que o Salmista se vê como um vermezinho, impotente, sem nenhuma defesa. Mas estas imagens usadas no Salmo servem também para dizer que, quando o homem se torna brutal e agredi o irmão, algo de animalesco toma a frente nele, parece perder tudo o que é de humano; a violência sempre tem, em si, algo de bestial e somente a intervenção salvífica de Deus pode restituir o homem à sua humanidade. Ora, para o Salmista, objeto de uma agressão tão feroz, parece não haver saída, e a morte começa a se apoderar dele: “Derramo-me como água, todos os meus ossos se desconjuntam; (...) minha garganta está seca qual barro cozido, pega-se no paladar a minha língua (...). Repartem entre si as minhas vestes, e lançam sorte sobre a minha túnica” (vv. 15.16.19). Com imagens dramáticas, que podemos encontrar de novo nos relatos da paixão de Cristo, descreve-se o desfalecimento do corpo do condenado, o sede insuportável que atormenta o moribundo e que encontra eco no pedido de Jesus – “Tenho sede” (cf. Jo 19, 28) –, até chegar ao gesto definitivo dos algozes que, como os soldados sob a cruz, repartem as vestes da vítima, já considerada morta (cf. Mt 27, 35; Mc 15, 24; Lc 23, 34; Jo 19, 23-24).
Eis então, urgente, novamente o pedido de socorro: “Porém, vós, Senhor, não vos afasteis de mim; ó meu auxílio, bem depressa me ajudai. Salvai-me” (vv. 20.22a). Este é grito que abre os céus, porque proclama uma fé, uma certeza que vai além de toda dúvida, de toda escuridão e de toda desolação. E o lamento se transforma, deixa o lugar para o louvor na acolhida da salvação: “Vós me respondestes. Anunciarei, então, vosso nome a meus irmãos, e vos louvarei no meio da assembleia” (vv. 22c-23). Assim, o Salmo se abre à ação de graças, ao grande hino final que envolve todo o povo, os fiéis do Senhor, a assembleia litúrgica, as gerações futuras (cf. vv. 24-32). O Senhor veio em socorro, salvou o pobre e lhe mostrou seu rosto de misericórdia. Morte e vida se cruzaram num mistério inseparável, e a vida triunfou, o Deus da salvação se mostrou Senhor inconteste, que todos os confins da terra celebram e, diante de quem, todas as famílias dos povos se prostrarão. É a vitória da fé, que pode transformar a morte em dom da vida, o abismo da dor em fonte de esperança.
Irmãos e irmãs muito queridos, este Salmo nos levou ao Gólgota, aos pés da cruz de Jesus, para reviver a sua paixão e compartilhar a alegria fecunda da ressurreição. Deixemo-nos, portanto, invadir pela luz do mistério pascal mesmo na aparente ausência de Deus, mesmo no silêncio de Deus, e, como os discípulos de Emaús, aprendamos a discernir a verdadeira realidade para além das aparências, reconhecendo o caminho da exaltação exatamente na humilhação, e o pleno manifestar-se da vida na morte, na cruz. Assim, colocando outra vez toda a nossa confiança e a nossa esperança em Deus Pai, em todas as angústias poderemos, também nós, rezar a Ele com fé, e o nosso grito de ajuda se transformará em canto de louvor. Obrigado.

* Extraído do site do Vaticano, do dia 14 de setembro de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Meditar: "ruminar" os mistérios de Deus e Sua vontade


Bento XVI

Audiência Geral

Pátio do Palácio Apostólico de Castel Gandolfo
Quarta-feira, 17 de agosto de 2011

O homem em oração

Caros irmãos e irmãs,
Ainda estamos sob as luzes da Festa da Assunta, que – como eu disse – é uma Festa da esperança. Maria chegou ao Paraíso e este é o nosso destino: todos nós podemos chegar ao Paraíso. A questão é: como? Maria chegou; Ela – disse o Evangelho – é “Aquela que acreditou no cumprimento daquilo que o Senhor lhe disse” (Lc 1, 45). Portanto, Maria acreditou, confiou-se a Deus, entrou com a sua vontade na vontade do Senhor e, assim, estava exatamente no caminho mais direto, na estrada que leva ao Paraíso. Acreditar, confiar-se ao Senhor, entrar na sua vontade: esta é a direção essencial.
Hoje, não gostaria de falar sobre todo este caminho da fé, mas apenas sobre um pequeno aspecto da vida da oração que é a vida do contato com Deus, ou seja, falar sobre a meditação. E o que é a meditação? Quer dizer “fazer memória” daquilo que Deus fez e não esquecer os tantos benefícios que Ele nos faz (cf. Sl 103, 2b). frequentemente, vemos apenas as coisas negativas; temos que manter na nossa memória também as coisas positivas, os dons que Deus nos fez, estar atentos aos sinais positivos que veem de Deus e fazer memória deles. Portanto, falamos de um tempo de oração que, na tradição cristão, é chamada “oração mental”. Conhecemos, em geral, a oração com palavras, naturalmente também a mente e o coração devem estar presentes nesta oração, mas falamos hoje sobre uma meditação que não é feita de palavras, mas é um deixar que nossa mente entre em contato com o coração de Deus. E Maria, aqui, é um modelo muito real. O evangelista Lucas repete, diversas vezes, que Maria “de sua parte, guardava todas estas coisas, meditando-as no seu coração” (Lc 2, 19; cf. 2, 51b). Guarda, não esquece, Ela é atenta a tudo o que o Senhor lhe disse e fez, e medita, ou seja, entra em contato com diversas coisas, aprofunda-as no seu coração.
Aquela, portanto, que “acreditou”, no momento do anúncio do Anjo, e que se fez instrumento para que a Palavra eterna do Altíssimo pudesse se encarnar, acolheu também no seu coração o maravilhoso prodígio daquele nascimento humano-divino, meditou-o, concentrou-se na reflexão sobre aquilo que Deus estava operando nEla, para acolher a vontade divina na sua vida e corresponder a ela. O mistério da encarnação do Filho de Deus e da maternidade de Maria é tão grande que requer um processo de interiorização, não é apenas algo de físico que Deus opera nEla, mas é algo que exige uma interiorização por parte de Maria, que tenta aprofundar a inteligência do que aconteceu, interpretar seu sentido, compreender as implicações. Assim, dia após dia, no silêncio da vida ordinária, Maria continuou a guardar no seu coração os sucessivos eventos maravilhosos de que foi testemunha, até à prova extrema da Cruz e à glória da Ressurreição. Maria viveu plenamente a sua existência, os seus deveres cotidianos, a sua missão de mãe, mas soube manter em si um espaço interior para refletir sobre a palavra e sobre a vontade de Deus, sobre tudo o que acontecia nEla, sobre os mistérios da vida do seu Filho.
No nosso tempo, somos absorvidos por tantas atividades e compromissos, preocupações, problemas; frequentemente, tendemos a preencher todos os espaços do dia, sem ter um momento para parar e refletir e nutrir a vida espiritual, o contato com Deus. Maria nos ensina como é necessário encontrar, nos nossos dias, com todas as atividades, momentos para nos recolhermos em silêncio e meditar sobre aquilo que o Senhor nos quer ensinar, sobre como está presente e age no mundo e na nossa vida: ser capazes de parar um momento e meditar. Santo Agostinho compara a meditação sobre os mistério de Deus à assimilação da comida e usa um verbo que aparece repetidas vezes em toda a tradição cristão: “ruminar”; ou seja, os mistérios de Deus devem ser continuamente ecoados em nós para que se tornem familiares para nós, guiem a nossa vida, nos nutram como acontece com o alimento necessário para nos sustentar. E São Boaventura, referindo-se às palavras da Sagrada Escritura, diz que “devem ser sempre ruminadas para que possam ser fixadas, com ardente aplicação do espírito” (Coll. In Hex, ed. Quaracchi 1934, p. 218). Meditar, pois, quer dizer criar em nós uma situação de recolhimento, de silêncio interior, para refletir, assimilar os mistérios da nossa fé e aquilo que Deus opera em nós; e não apenas as coisas que vão e vêm. Podemos fazer esta “ruminação” de vários modos, tomando, por exemplo, um breve trecho da Sagrada Escritura, sobretudo dos Evangelhos, dos Atos dos Apóstolos, das Cartas dos apóstolos, ou então uma página de um autor de espiritualidade que nos aproxima e torna mais presente as realidades de Deus para o nosso hoje, ou mesmo deixando-se aconselhar por um confessor ou por um diretor espiritual, ler e refletir sobre o que se leu, centrando-se sobre isto, tentando compreender, entender o que diz para mim, o que diz hoje, abrir o nosso espírito àquilo que o Senhor quer nos dizer e ensinar. Também o Santo Rosário é uma oração de meditação: repetindo a Ave Maria somos convidados a repensar e a refletir sobre o Mistério que proclamamos. Mas podemos nos concentrar também sobre alguma intensa experiência espiritual, sobre palavras que permaneceram impressas em nós ao participar da Eucaristia dominical. Portanto, como podeis ver, existem muitos modos de meditar e, dessa forma, tomar contato com Deus e nos aproximar de Deus e, assim, estar no caminho em direção ao Paraíso.
Caros amigos, a constância no dar tempo a Deus é um elemento fundamental para o crescimento espiritual; será o Senhor mesmo que nos concederá o gosto dos Seus mistérios, das Suas palavras, da Sua presença e ação, sentir como é belo quando Deus fala conosco; nos fará compreender, de modo mais profundo, o que quer de mim. Enfim, é exatamente este o objetivo da meditação: confiar-se sempre mais às mãos de Deus, com confiança e amor, certos de que somente fazendo a Sua vontade seremos, no fim, verdadeiramente felizes.

* Extraído do site do Vaticano, do dia 17 de agosto de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Ler a Bíblia para aprofundar nosso contato com o Eterno...

Bento XVI

Audiência Geral

Praça da Liberdade, Castel Gandolfo
Quarta-feira, 3 de agosto de 2011

O homem em oração

Caros irmãos e irmãs!
Estou muito feliz de vos ver aqui, na praça, em Castel Gandolfo, e poder retomar as audiências interrompidas no mês de julho. Gostaria de continuar com o tema que começamos, ou seja, uma “escola de oração”, e também hoje, de maneira um pouco diferente, sem me afastar do tema, gostaria de acenar alguns aspectos de caráter espiritual e concreto, que me parecem úteis não apenas para quem vive – numa parte do mundo – o período das férias de verão, como é o nosso caso, mas também para todos aqueles que estão comprometidos com o trabalho cotidiano.
Quando temos um momento de pausa nas nossas atividades, de modo especial durante as férias, frequentemente pegamos um livro que desejamos ler. É exatamente este o primeiro aspecto sobre o qual gostaria de me dedicar. Cada um de nós precisa de tempos e espaços de recolhimento, de meditação, de calma... Graças a Deus que é assim! De fato, esta exigência nos diz que não somos feitos apenas para o trabalho, mas também para pensar, refletir, ou então para simplesmente acompanhar, com a mente e o coração, um relato, uma história com a qual nos identificamos, num certo sentido “perdermo-nos” para, em seguida, nos redescobrirmos enriquecidos.
Naturalmente, muitos destes livros de leitura, que pegamos nas férias, são, no mais das vezes, para uma evasão, e isto é normal. Todavia, várias pessoas, particularmente se podem ter espaços de pausa e de relaxamento mais prolongados, se dedicam a ler algo de mais trabalhoso. Gostaria, então, de fazer uma proposta: por que não descobrir alguns livros da Bíblia, que normalmente são desconhecidos? Ou dos quais, talvez, tenhamos escutado algum trecho durante a Liturgia, mas que nunca tivemos a oportunidade de ler por inteiro? Com efeito, muitos cristãos nunca leem a Bíblia, e têm dela uma consciência muito limitada e superficial. A Bíblia – como diz o nome – é uma coletânea de livros, uma pequena “biblioteca”, nascida no curso de um milênio. Alguns destes “livrinhos” que a compõem ficam quase sempre desconhecidos para a maioria das pessoas, mesmo que sejam bons cristãos. Alguns são muito breves, como o Livro de Tobias, um relato que contém um sentido muito elevado da família e do matrimônio; ou o Livro de Ester, no qual a Rainha judia, com a fé e a oração, salva o seu povo do extermínio; ou, ainda mais breve, o Livro de Rute, uma estrangeira que conhece a Deus e experimenta a Sua providência. Estes livros pequenos podem ser lidos por inteiro no espaço de uma hora. Mais trabalhosos, e autênticas obras-primas, são o Livro de Jó, que enfrenta o grande problema da dor inocente; o Eclesiastes, que toca pela desconcertante modernidade com a qual coloca em discussão o sentido da vida e do mundo; o Cântico dos Cânticos, estupendo poema simbólico do amor humano. Como podeis ver, estes são todos livros do Antigo Testamento. E o Novo? Certo, o Novo Testamento é mais conhecido, e os gêneros literários são menos diversificados. Porém, a beleza de ler um Evangelho de uma só vez é algo que precisa ser descoberto, assim como é recomendável que se leia todo o Atos dos Apóstolos, ou uma das Cartas.
Para terminar, caros amigos, gostaria hoje de sugerir que se tenha ao alcance das mãos, durante o período de férias, ou nos momentos de pausa, a Santa Bíblia, para saboreá-la de uma maneira diferente, lendo de uma só vez alguns de seus Livros, aqueles menos conhecidos e também os mais conhecidos, como os Evangelhos, mas numa leitura contínua. Fazendo assim, os momentos de repouso podem se tornar, mais do que momentos de enriquecimento cultural, momentos de nutrição do espírito, capazes de alimentar o conhecimento de Deus e o diálogo com Ele, a oração. E esta parece ser uma bela ocupação para as férias: tomar um livro da Bíblia, e assim ter um pouco de repouso e, ao mesmo tempo, entrar no grande espaço da Palavra de Deus, e aprofundar o nosso contato com o Eterno, exatamente como objetivo do tempo livre que o Senhor nos dá.

* Extraído do site do Vaticano, do dia 3 de agosto de 2011. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.