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segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Mesmo a maior dor não pode ofuscar o sentido da vida




Por Gianluigi Da Rold

É amável e rigoroso, envolvente e ao mesmo tempo meticuloso. Não são adjetivos de uma circunstância, mas aquilo que nos vem em mente imediatamente depois que se termina de ler Se la vita si rianima [Se a vida se reanima, sem tradução para o português ainda; ndt], livrinho de Giuseppe Baiocchi e Patrizia Fumagalli, com um prefácio de Giancarlo Cesana, editado pela Ares no final de fevereiro desse ano. Baiocchi é um grande profissional, jornalista do Avvenire, por 23 anos do Corriere della Sera e, depois, diretor da La Padania, mas também um historiador da escola de Giorgio Rumi, junto com amigo Walter Tobagi. A mais jovem, Patrizia Fumagalli, é médica especialista em anestesia reanimadora, pessoa que esta em contato constante, portanto, com o sofrimento e com as esperanças de ver um paciente seu se recuperar, para obter o objetivo pelo qual fez o juramente de Hipócrates.
O livro entra com rigor quase científico no debate sobre  a vida e sobre a “morte controlada” e, às vezes, declaradamente solicitada, sobre o significado da vida mesmo em caso de coma profundo ou de retorno daquele estado que parece um outro mistério impenetrável. Insere-se, portanto, num debate bastante atual, que há um tempo ecoa nos meios políticos e se detém também sobre o caso de Eluana Englaro, um dos casos que mais dividiu a Itália nos últimos anos.
Desde o prefácio de Giancarlo Cesana  já se pode perceber algumas passagens lógicas precisas que não se casam com aquela a que se chama eufemisticamente de “eutanásia”. Cesana lembra: “Os hospitais nasceram no início daquilo que chamamos Idade Média (...). Não nasceram porque se sabiam curar as doenças (...). Os hospitais nasceram para hospedar, para acolher e assistir os homens e as mulheres em dificuldade, golpeados pela desventura, nos quais frequentemente doença e miséria eram uma só coisa”.
Se nesta frase há a grande tradição cristã da ajuda, na premissa dos autores nos detemos sobre uma palavra que, de um ponto de vista hospitalar, parece um semantema de maus presságios, “reanimação”: “para a língua italiana, e isso pode ser encontrado em todos os dicionários, é um termo esplêndico – escrevem Baiocchi e Fumagalli – que significa restituição e retomada da vitalidade, de animação, de confiança, de coragem (...). E no entanto, na deterioração da linguagem e na preguiçosa rotina jornalística ou burocrático-sanitária, acabou por se associar quase exclusivametne a um sentido prevalente de perda, de antecâmara do fim, de um templo afastado onde se realizam os ritos mistéricos de uma ciência cada vez menos traduzível para o senso comum”.
Entre estas duas considerações de partida, que lembram a esperança da vida, a luta pela vida, a necessidade de honrar a vida em todos os modos, passando também através do sofrimento e dos mistérios não apenas da medicina moderna como também da natureza humana mesma, da mente e do coração de um pessoa, o relato dos dois autores de Se la vita si rianima fundamenta-se sempre sobre escrupulosas definições científicas, reconstruções de casos a partir de um ponto de vista médico e, ao mesmo tempo, episódios reais de quem voltou do incrível estado neurovegetativo, de quem tinha programado a “sua morte” em caso de graves deformações de caráter físico e, depois, aceitou viver da mesma forma.
Leva-se em consideração também o impacto emocional, psicologico, que revira não apenas o doente, mas toda uma família, alargada para os amigos que estão próximos. Não obstante todo esse complexo de fatores, chega-se ao um núcleo profundo: a vida é uma aventura irrepetível que nos é dada, provavelmente em qualquer condição física que seja. Porque trocar um dom como esse e uma aventura como essa por uma eficiência física?
Assim, desse modo tão motivado, chega-se ao último capítulo, intitulado Eluana, a exceção. Aqui, o relato ilumina uma derrubada da lógica: “(...) na memória coletiva de tantos anos e de tantos casos vividos e experimentados emerge um único caso no qual, praticamente desde o início, manifesta-se a rejeição da pessoa cuidada na reanimação e com deficiência de natureza cerebral: o caso Englaro. A exceção, a única exceção está aqui, na postura da família que se recusa a aceitar a realidade”.
Poderá parecer paradoxal, mas para quem escreve e para quem leu com paixão este livro, parece que o “caso Englaro” seja um “emblemático exemplo dos tempos”, uma “mentalidade que se afirma”, uma “tragédia causada pela uma dor terrível” que, porém, ofusca a realidade. o mal moderno mais insidioso. Ninguém julga. Somente se quer raciocionar segundo uma lógica.

* Extraído do IlSussidiario.net, do dia 6 de setembro de 2010. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Cartas do P.e Aldo 147

Asunción, 9 de junho de 2010.

Caros amigos,
Que bonito o artigo de Carrón que foi publicado no Observatório Romano de hoje (leia a íntegra do artigo, em português, clicando aqui; ndt).
Enquanto o “devorava”, pensava no diálogo que tive, ontem à noite, com minha filhinha Verônica, de oito anos, que me havia pedido para conversar. Ela ficou órfã porque os pais morreram de AIDS na minha clínica e, antes de a mãe morrer, me confiaram Verônica como minha filha.
Verônica está diante de mim, sentada. Olha-me com os olhos úmidos e me diz: “Estou com saudade da mamãe, sinto sua falta. Estou triste e não sei por quê”. Peço-lhe que tente responder o “porquê”. Depois de alguns minutos, chorando, me disse: “porque sinto que me falta alguém e não sei quem é”.
Imaginem vocês a minha surpresa e comoção. Somente o gênio, somente a criança provada por tanta dor é capaz desta intuição. Que soco no estômago para nós burgueses, anestesiados pela carreira, pelo sucesso, pelo trabalho! E no meio disso, Carrón nos reconduz, em cada momento, a Verônica... inclusive a nós padres, que pensamos em educar à força de uma psicologia ou da psicanálise, ou insistindo sobre as consequências éticas ao invés de nos mantermos diantes do Mistério, tal como fomos provocados pelo caso Eluana, pela questão dos crucifixo, pelo artigo de Natal e o belíssimo juízo “Feridos, voltamos a Cristo”.
Sem este juízo estaríamos terrivelmente sozinhos, vítimas das regras (mesmo que importantes) e cheios de medo, especialmente nós que vivemos 24 horas por dia com crianças. Porém, Verônica, com seus oito anos, me fez reviver o percurso deste último ano, fazendo-me entender que ou retornamos à originalidade do nosso coração, ou nos descobriremos tristes e perdidos.
Partilhei, no Brasil, alguns dias com Marcos e Cleuza e os responsáveis últimos da América Latina. Uma festa cujo centro foi o drama de Verônica, com suas perguntas... mas também a pergunta sobre o que significa seguir Carrón. Cleuza dizia: “só se, em nós, existir uma célula de Giussani, poderemos entender o que significa o movimento, e então viver como filhos de Carrón”.
Se for o contrário disso, o Movimento será sempre algo eficaz agora que, porém, tornará a vida triste, metendo-nos no grupo dos ex-combatentes, dos aposentados... Talvez até com muitas medalhas, porém tristes e nostálgicos.
É mesmo belo o desafio.
Ciao
Padre Aldo.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Cartas do P.e Aldo 72

Asunción, 11 de junho de 2009.

Caros amigos,
desculpem-me se os incomodo com uma outra carta... mas não acreditava que aquela que lhes mandei ontem, sobre a “Caridade”, fosse suscitar tanto interesse e perguntas.
Vê-se que todos temos necessidade de “um carinho do Nazareno”. Entre os tantos emails que recebi há o de uma pessoa consagrada, acusada de pedofilia que conta o seu calvário. Não tanto ou apenas por aquilo que lhe cobram, mas particularmente pela dor de se ver abandonado pelos seus superiores e confrades, com exceção de um alguns bons samaritanos. Senti uma dor terrível. Não entendo e nunca entenderei uma semelhante atitude desumana. Mas, puxa vida, nós padres, quando comentamos o capítulo 25 de São Mateus, o que dizemos às pessoas e a nós mesmos – “eu estava na prisão e não me visitates, doente e não cuidastes de mim” etc.?
Não consigo uma explicação para tanta maldade, para tanta frieza, particularmente entre homens de igreja. Mas, entendo: “poderá uma mãe abandonar o seu filho?”. “Eu nunca me esquecerei de ti”, diz a Bíblia. Por isso, as palavras de Carrón, depois daquela carta, me comovem instante depois de instante.
Mas, será que nós entendemos que mesmo o pior delinquente é um homem, é relação com o Mistério, é um outro Cristo se tiver sido batizado?
Mas, se, para Deus, existe apenas o filho, o homem Seu filho, por que, para nós, existe o adjetivo “bom” ou “mau” para definir um filho de Deus? O pecado é pecado, o delito é delito, e será condenado, mas o homem, o homem – sim, o homem – “o fizeste pouco abaixo dos anjos, coroando-o de glória e de esplendor”.
“Paixão por Cristo, paixão pelo homem”, nos lembra o Movimento e, então, o que quer dizer isso quando um confrade está em jogo? Se eu vivesse na Itália, ninguém, mas ninguém, me impediria de procurá-lo, encontrá-lo e abraçá-lo. Francamente, não entendo.
Depois de um ano de padre – porque está emburrecido pela ideologia marxista –, me enviaram para a casa de Salerno para assistir os filhos dos encarcerados e visitar as prisões do sul da Itália. Eu tinha 27 anos e naqueles lugares comecei a entender um pouco a vida. Lembro-me de uma cena: uma velhinha vinha muito frequentemente visitar um homem que, se me lembro bem, era da quadrilha de Vallanzasca (Renato Vallanzasca Constantini é um famoso criminoso italiano que está cumprindo 260 anos de prisão; ndt) – já se passaram 40 anos! Os guardas estavam já cansados de ver sempre esta mulher, que eles definiam como “insuportável”. Um dia, um policial lhe disse: “mas, senhora, você vem frequentemente visitar este delinquente...”. Aquela mulher, levantou a voz e lhe gritou: “para o senhor, ele é um delinquente, mas, para mim, será sempre e apenas o meu filho”. Era sua mãe. Nunca mais esqueci aquela cena, muito menos a esquecerei hoje em dia, quando vivo com todos aqueles que estão às margens da vida.
Na clínica, eu tenho um paciente com AIDS e lepra. Abandonado pela família porque violentou todas as suas quatro filhas. Não descreverei para vocês os dramas, os encontros que tive para tentar uma reconciliação, uma possibilidade de perdão, vistas as graves condições do paciente. Quase nenhum resultado. Porém, pessoalmente, três vezes ao dia, quando passo com o Santíssimo, me ajoelho diante dele e o beijo. Não vejo nele um monstro, um pedófilo ou o nada daquilo que o mundo define dele, mas vejo nele o rosto de leproso e doente de AIDS, vejo nele o rosto de Cristo. Muitos dos meus pacientes abusaram de menores e eles mesmos, quando eram crianças, foram abusados... porém, são Jesus, são o Seu rosto e eu não posso não me comover, abraçando-os, beijando-os, porque abraço e beijo Jesus. Poderia escrever-lhes contando de cem desses fatos se servissem para que pudéssemos pedir a Nossa Senhora a graça de entender que se, de fato, encontramos Jesus, não podemos celebrar a Missa ou nos aproximarmos da Eucaristia se não temos pelo menos o pedido, o desejo de abraçar quem quer que seja.
A carta daquela pessoa consagrada me rasgou o coração e como gostaria que ele pudesse ler o que eu escrevo.
Jesus morreu por mim... eu que era um lixo humano e o sou ainda. Giussani fez festa naquele dia, abraçando-me... e eu era um cadáver moral. Aquele abraço, aquela ternura me salvaram. Depois, aquelas palavras de Carrón ditas depois daquela belíssima carta do Papa me encheram de alegria, de comoção cotidiana. Por caridade, que a instituição nunca tome o lugar das pessoas. Ou se salva tudo ou não se salva nada.
Recentemente, encontrei uma esquizofrênica abandonada. Não lhes digo as condições nas quais ela estava e as suas reações violentas. Passaram-se já dois meses e já é uma outra mulher.
Amigos caros, por que temos cada vez menos coragem de olhar o Crucifixo? Mas, o mal, o meu mal é o motivo da Sua paixão, morte e ressureição. Que alegria! E olhem que não quero justificar nem uma vírgula do meu e do mal de vocês, porque o mal é mal e se paga. Porém, o homem, esta criatura divina, este filho de Deus, que será filho de Deus mesmo se escolher o inferno, me comove.
Obrigado pelo que vocês me escreveram, porque entendo ainda mais do que todos temos necessidade. E Carrón nos disse isso em março passado. Mas também Jannacci (Enzo Jannacci é um cantor italiano, ateu, que, em recente crônica publicada no Corriere della Sera, escreveu, comentando o drama de Eluana, que “seria necessário um carinho do Nazareno”. Quem quiser, pode ler sua crônica, clicando aqui; ndt). Não esqueçamos nunca: o homem é sempre e apenas “Tu que me fazes”, mesmo quando a minha liberdade não reconhece isso.
E, finalmente, para ajudá-los a comprender o que significa que “quero misericórdia e não sacrifícios”, anexo este email que me chegou hoje. Deus queira que sejamos nós a desejar misericórdia: é o que pedíamos, hoje, eu, meus confrades e alguns amigos na oração... que fóssemos os primeiros a seguir o exemplo.
Agradeço a Deus porque Paolino, Daf e eu nos olhamos assim. Se não fosse assim, aqui, Deus não poderia fazer o que está fazendo, porque tudo é sinal de um acréscimo da misericórdia que Deus tem por nós três.
P.e Aldo

Olá, Padre Aldo!
Acabei de ler o seu email e pensei: “mas, quem sou eu para que Tu cuides assim de mim?”.
Como eu entendo o que diz, quando diz que o homem é Cristo! Sabe, também o meu marido foi acusado de pedofilia por causa de coisas que fez com o nosso pequenino... Mas, depois, a acusação foi arquivada: ele deu um jeito para que a senhora do serviço social que seguia o caso fosse transferida e, agora, o responsável dos serviços sociais que nos acompanha é um aliado seu e não quer ter problemas. Mas, eu não posso não olhá-los com “simpatia”! Como posso não ver no rosto deles Cristo crucificado? Pobres coitados: eles são tristes, têm que inventar um montão de mentiras, têm que me insultar para se sentirem “vivos”, e eu, ali, diante deles (acabei de voltar de um encontro com eles), invocando o Espírito Santo, pedindo que O possam encontrar. É mesmo bela a vida! Sabe, posso olhá-los assim porque ANTES fui olhada assim... que ternura o Mistério tem pela minha vida.
Obrigada, Padre Aldo. Sabe, não conheço você pessoalmente, porém você já faz parte da minha família. Trata-se de uma familiaridade que apenas um Outro pode dar!! Quero muito o seu bem e agradeço-lhe de todo coração.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Cartas do P.e Aldo 67

Asunción, 06 de fevereiro de 2009.

Caros amigos,
O texto enviado ao senhor Presidente da República italiana é o seguinte (…). O texto foi encaminhado à embaixada de Asunción, redigido como segue.
O secretario
Guillermo Lesmes

Estimado Senhor Presidente da República Italiana

S.r Giorgio Napolitano,

Depois que V.Ex.a negou a assinatura – segundo suas palabras, “porque inconstitucional” – do decreto urgente adotado pelo governo para obstar a suspensão da alimentação e da hidratação de Eluana Englaro, em coma há 17 anos, venho expressar a minha RECUSA ao título que V.Ex.a me concedeu de “Cavaleiro da Ordem da Estrela da Solidariedade Italiana”, em 2 de junho de 2008.
Como eu posso, cidadão italiano, receber semelhante honra de Cavaleiro da Ordem da Estrela da Solidariedade da República Italiana, quando V.Ex.a, com a sua intervenção, permite a morte de Eluana, em nome da República Italiana?
Estou indignado e repito a minha recusa ao Título concedido por V.Ex.a.
Padre Antonio Trento
Missionário no Paraguai

sábado, 9 de maio de 2009

Cartas do P.e Aldo 49







Asunción, 19 de novembro de 2008.

Caros amigos,
Eis os meus pequenos “Eluana”.
A dor pela barbárie do tribunal e – permitam-me –, com todo o respeito, do pai dela foram vividos por mim e por estas pequenas hóstias brancas com a consciência de que não existe condição que impeça alguém de afirmar, como nos lembra a cada dia Carrón, “eu sou Tu que me fazes” e mesmo os cabelos das minhas crianças (quase todas sem cabelos e, no caso de Victor, mesmo sem crânio... ou, no caso de Maria, com um câncer no lugar do rosto) “estão todos contados”.
Meu Deus, que animais são estes juízes!
Sofremos e oferecemos para que se recordem de que “com a medida com a qual julgarem serão julgados”.
Com afeto
P.e Aldo
* Nas fotos, de cima para baixo: Victor, Maria, Cristina, Celeste, André e Aldino.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Cartas do P.e Aldo 42


Asunción, 18 de novembro de 2008.

Que dor e que barbárie matar Eluana.
Olhem para o meu pequeno Victor. Sofre e oferece a vida para que Deus perdoe este homicídio.
O seus gemidos são o grito de um corpo, o corpo místico de Cristo que, a cada instante, se oferece como hóstia de expiação pelas nossas atrocidades contra os inocentes.
Nunca pensei que um tribunal do meu país pudesse chegar a tamanha desumanidade, assim como nunca pensei que pudesse existir um pai que pedisse a morte da própria filha. Digo isso com uma imensa dor, porque eu sou, de fato, o pai de Victro e de Celeste, de André (tudo deformado, com 22 anos e 15 kg de peso), de Cristina e de Aldo.
Olhem para eles... Eluana está viva e os meus filhos são ela viva.
Com afeto
P.e Aldo

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Cartas do P.e Aldo 33




Asunción, 19 de dezembro de 2008.

Caros amigos,
Olhem as burrices que um jornal de intelectualóides de esquerda escreveu, no último dia 17 de dezembro, depois de ler, no jornal “Tempi” de setembro, uma carta minha.

Il Manifesto, 17 de dezembro de 2008
As loucuras de um missionário
Aconteceu, por acaso, de eu ver na internet (Tempi.it de 23 de setembro) a fotografia desconcertante de uma criança irremediavelmente doente, e de ler as palavras ainda mais desconcertantes de padre Aldo Trento (missionário no Uruguai [sic]), a respeito da infeliz criatura. Recorto algumas frases: “o pequeno Victor de um ano... geme continuamente... mmm, ah, ah, ah... A sua cabeça é enorme e, improvisamente, a parte inferior é afundada deixando uma pequena fossa, ali onde não tem crânio... Atravesso de um aparato médico, retiraram toda a água da cabeça... outro dia, o olho direito saiu da órbita: restou uma cavidade vazia que deixa escapar de tudo... Victor, o meu filhinho, não apenas é um cadaverzinho que vive, mas é todo deformado, ferido, cheio de tubos que entram e saem do seu corpo... O mundo diz: por que não o deixam morrer?... Victor é Jesus, o meu pequeno Jesus que agoniza, que sofre, que geme... Beijo-o, beijo-o sempre... os gemidos se acalmam. Acaricio-lhe o rosto... não é mais uma cabeça, murcha, com a pele afundada como um laguinho de montanha... e sinto que acaricio a Jesus... Como gostaria que este escrito, com a foto, chegasse a quem decidiu que Eluana ‘deve’ morrer. Não, não pode morrer se Deus não decidiu ainda. A vida é Sua, de Deus... se a matarem, seremos todos mais pobres e desgraçados”. Não seriam necessários comentários. Limito-me a observar que atribuir a Deus a decisão de fazer morrer cada homem numa hora estabelecida por ele, é uma absurdidade, já que devemos atribuir a Deus a responsabilidade da morte de criaturas ainda no seio materno, ou recém-nascidas; crianças arrancadas dos genitores, genitores arrancados de seus filhos. Teologicamente impossível. Seria uma ofensa ao Criador. Padre Trento, neste caso, está persuadido de que cabe a Deus querer que continue o suplício daquele serzinho “cheio de tubos”. Ele, o bom padre Aldo, na espera da decisão divina, enquanto o acaricia, o mima – ao “cadaverzinho deformado” – persuadido de que está mimando a Jesus na cruz; e tem, além do mais, a coragem de tirar fotografias do “pequeno Jesus que agoniza”, o que, cegos pela dor, os apóstolos nunca teriam feito, na absurda hipótese de que pudessem fazê-lo. Uma só pergunta ao missionário: tubinhos e remédios que impedem Victor de abandonar a cruz devem ser atribuídos a uma decisão do Senhor?


Entendo uma coisa e me é claríssima: o problema é se Deus existe ou não. Se não existe, qualquer bobagem é possível e o “Il Manifesto” é a evidência maior disso. A minha resposta é a foto dessa velhinha que é hóspede da nossa Casa Família para idosos – “São Joaquim e Sant’Anna” – adjacente à clínica.
Alguns dias atrás, quando eu estava na selva, uma irmã me ligou – uma dos tantos anjos da guarda que vivem entre os “escombros humanos”: “Padre Aldo, por favor, me ajude. Encontrei uma senhora na sarjeta. Mas, paciência... o problema mais grave é que todas as noites ela é abusada sexualmente pelo seu neto. As violências sofridas destruíram até mesmo a consciência de ser uma mulher, de ser um ser humano: não fala mais, vive com medo de tudo e de todos e, quando a noite chega, grita. Padre, me ajude!”.
Ei-la comigo em uma bela casinha. Ainda tem um terrível medo, porém o sentir-se acariciada, beijada delicadamente no rosto por mim e pelos amigos, permitiu que ela recuperasse um pouco de paz. Está destruída em todos os níveis. As suas partes íntimas são uma ferida só e a sua psiqué está destruída. Mas, tenho a certeza de que o amor de Deus – e Deus existe! – a transformará e ela voltará a descobrir a sua dignidade belíssima de mulher.
Amigos, o que podem entender disso tudo aqueles do “Il Manifesto” e de outros jornais aparentados a ele? O meu coração, cada dia, é destroçado por mil dessas violências e, como nos recorda o Papa, “quanto mais a pessoa ama a Cristo, mais sofre”.
Por isso, ler certas coisas me dilacera o coração, porque Victor é Jesus. Victor, como esta senhora que se chama Verônica, faz parte de um desígnio amoroso de Deus. Não é Deus que criou a dor, ou a morte. Foi o pecado. Porém, é também verdade que tudo, tudo o que acontece, faz parte da Providência Divina que ama os seus filhos. São Paulo escreve: “tudo concorre para bem daqueles que amam a Deus”. Para mim está claro como o sol, como é claro que 20 anos de depressão foram e são uma graça para que o meu coração se purifique e para que Deus pudesse fazer com este asno o que Ele está fazendo.
Uma noite dessas, veio jantar aqui o caro amigo Vice-Presidente da República com todos os homens do seu governo. No seu discurso de fim de ano, ele disse: “Estou aqui, estamos aqui, na companhia do padre Aldo e de seus confrades porque este lugar é a evidência do ‘céu novo, da terra nova’. Estamos aqui para aprender como construir o novo Paraguai. Esta terra que pisamos é o caminho do meu governo, é um exemplo a seguir. E, por isto, como ceia de Natal e de Fim de Ano, escolhemos este lugar para economizar e para dar uma ajuda a esta grande obra de caridade”.
Certamente o nosso Vice-Presidente não é um intelectualóide de esquerda; pelo contrário, é um liberal... mas, sobretudo, é um homem. Um homem que, a cada semana, vem buscar a nossa companhia, recitando, às 6 da manhã, as Laudes, tomando café da manhã conosco e falando comigo quase todos os dias por telefone, para nos lembrar de uma coisa apenas: “eu sou Tu que me fazes”, que aprendeu não apenas de cor mas como constitutivo do seu “Eu”.
Somos subdesenvolvidos, do terceiro mundo, mas, se no primeiro mundo – não apenas aquele do Il Manifesto mas de qualquer outra classe social – se aprendesse aquilo que Carrón nos tem ensinado (“eu sou Tu que me fazes”), entenderia mais não apenas a minha vida, mas entenderia que tudo isso é obra da Divina Providência... e entenderia também o quanto é necessário que Eluana viva.
Que tristeza! Soube que a levarão para a minha cara Udine para morrer... justo ali, onde, há 20 anos, iniciou para mim a vida.
Perdoai-nos, Jesus.
Com afeto
P.e Aldo.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Cartas do P.e Aldo 24

Asunción, 26 de janeiro de 2009.

Caros amigos,
A boca fala daquilo de que é cheio o coração. E, de fato, trago o coração transbordante de alegria depois da experiência com os Zerbini, com Alexandre e Carlos do Grupo Adulto (o primeiro de São Paulo e o segundo do Rio de Janeiro), dois médicos excepcionais que foram embora me dizendo: “vimos o Paraíso... e, se dependesse de nós, viríamos para cá para trabalhar”. Alexandre, pediatra, e superior da casa de São Paulo é o médico que encontrou os Zerbini; Carlos é ginecologista e professor universitário no Rio de Janeiro.
Cleuza e Marcos ficaram também com desejo de voltar e voltarão em maio próximo, porque descobriram que o Movimento (refere-se ao Movimento Comunhão e Libertação; ndt) é para todos. Viram o Vice-Presidente da República rezar e almoçar conosco; viram um travesti, doente de AIDS, fazer sua primeira comunhão; viram mendigos pedindo comida e vindo dormir na paróquia; viram velhos abandonados morando numa casa; viram crianças doentes de AIDS ou violentadas ou vítimas de todo tipo de violência tendo uma família. “Vimos que o movimento é para todos. Estamos felizes e nos sentimos confortados”.
Imaginem como eu estou... eu que vejo este povo a cada dia, “sujeito”, protagonista de tudo, da economia à assistência... que amor é esse! É, de fato, o início da nova evangelização, um relacionamento novo entre países desenvolvidos e subdesenvolvidos... o início do fim do assistencialismo.
Ver como 38 pessoas – a maioria universitários de São Paulo e do Rio, muitos deles empenhados com os Zerbinis – fizeram cerca de 3 mil quilômetros para verem a clínica, a Redução de São Rafael e para estarem, por três dias, diante deste Acontecimento com os mesmos olhos de Marcelino (refere-se a Marcelino, personagem do filme “Marcelino, pão e vinho”, de Lasdislao Vajda; ndt), é mesmo algo desconcertante.
Domingo passado, juntos com o padre Julián de la Morena (da São Carlos e responsável, com Alexandre, pelo CLU de São Paulo), celebramos a Santa Missa na clínica. Nela, aconteceu a crisma de Celeste e a primeira comunhão de Ruben (antes Jéssica) que, apenas entrado na clínica, desejou ser reconhecido como um homem e não como uma mulher. Não consigo descrever tudo o que aconteceu.
Por três dias visitaram tudo e todos os detalhes, perguntando e sendo perguntados sobre tudo, estabelecendo uma relação de amizade com cada um a fim de crescerem juntos na fé. Nunca vi em ninguém tanta curiosidade, tanta paixão, tanto desejo de aprender. Pareciam crianças diante do pai, isto é, diante dos sinais inconfundíveis da Presença do Mistério.
Ficamos juntos por três dias – umas 18 horas por dia – sem nunca nos cansarmos. Nada de projetos, ou perguntas econômicas ou de gestão, mas apenas a apaixonante comunicação de Cristo, da realidade. Olhando para eles, eu entendia porque, na Idade Média, quando um rei, um chefe, se convertia todo o povo encontrava a fé. É o que está acontecendo com eles e, devagar, também aqui.
Como eu gostaria que Jesus e Nossa Senhora nos dessem aquela humildade da razão de que fala Carrón no texto escrito antes do Natal (refere-se ao texto "O Natal e a esperança", publicado no jornal La Reppublica, do dia 23 de dezembro de 2008; ndt); a humildade para reconhecermos, no que ele indica, os traços inconfundíveis do Mistério presente. Pessoalmente, peço apenas isto a Nossa Senhora e desejo somente esta posição para mim e para os meus amigos.
Agora, eu corro apenas para aqueles lugares onde me é indicada a vida, o sinal presente do Mistério. Com 62 anos de idade, tenho pouco tempo para perder... o tempo se fez breve e estou cansado de discussões, de problemáticas estéreis. Preciso apenas de amigos, de companheiros de caminho que me acompanhem na preparação para o encontro definitivo com Cristo. O futuro me fascina porque é como se, vendo o tempo que corre, eu quisesse chegar à meta tendo gasto cada respiração para que Jesus seja conhecido e amado, conhecido e amado por este povo que, cada dia, cresce em quantidade e em qualidade. Que aventura, amigos! “Sinto um fogo nos meus ossos que não consigo conter”. E, além do mais, tenho a certeza ,mais límpida que o sol, de que tudo o que acontece aqui é da Providência que vem... e Ela se encarrega e se encarregará de levar adiante tudo. Mas, vocês entendem? O que existe aqui não nasceu de mim, mas dEle... e, portanto, são negócios dEle. A mim, a nós, cabe apenas reconhecer e crer nEle. Em suma, esta obra tem necessidade apenas e exclusivamente de santos. Isto é, de pecadores para quem Cristo é tudo – dos cabelos à carteira de dinheiro, passando pela sexualidade, do pensamento à memória, passando pela vontade... passando por tudo, tudo.
Um abraço cheio de Cristo
P.e Aldo

P.S.: Gostaria de acrescentar um belíssimo exemplo do que significa o que Carrón nos tem indicado, quando fala da realidade e da humidade da razão. Nestes dias, tivemos um belíssimo e dramático diálogo entre médicos, falando sobre o pequeno Victor (a criança em estado vegetativo e sem crânio): fazer ou não fazer uma transfusão de sangue. Obviamente, não entro no mérito da questão porque – sou um pobre asno – é o outro o meu papel. A decisão última era de não fazer a transfusão, porque não melhoraria tanto assim a sua condição. Porém, o pediatra da clínica não estava de acordo com a decisão tomada. E, assim, se reabriu a discussão. Deus quis que Alexandre, o amigo dos Zerbini, do Grupo Adulto e pediatra, estivesse aqui. E ele também era da mesma opinião de nosso pediatra. Então, telefonei para o médico responsável, que estava no Brasil, e depois de um longo diálogo, Alexandre me disse: “as razões do médico responsável são razoáveis, não têm sequer um defeito. Ele trabalha com medicina paliativa e é razoável aquilo que diz. Porém, eu sou um pediatra e é inevitável dizer que, se se pode fazer ainda que uma vírgula a mais, eu faria. Porém, repito, o oncologista e sua equipe têm motivações razoáveis nesta discussão”. Mazzotti, o médico responsável pelo setor de oncologia, me telefona outra vez e me diz: “mesmo se fosse meu filho eu não faria a transfusão, porém escutemos o que nos diz o reitor do ‘João Paulo II’, de Roma”... Há dois dias eu já havia mandado a Padre Lívio todo o material necessário, preparado pelo médico responsável, para um juízo definitivo... Nesse meio tempo, Alexandre se encontrou com o nosso pediatra e, juntos, decidiram fazer a transfusão, depois que o médico responsável se disse de acordo com a tentativa desde que se usasse uma via periférica. Fizemos, então, segunda passada, a transfusão e o resultado se demonstrou positivo. Todos ficamos contentes. Porém, a coisa ainda mais bela foi a resposta que, hoje, sábado, pude ler do meu caro amigo Padre Lívio, o reitor da “João Paulo II” e que lhes mostro:

Caro Padre Aldo,
Tomei conhecimento do caso do pequeno Victor, que você me encaminhou.
Não sendo um especialista em medicina, pedi o parecer de uma professora do nosso Instituto, médica e especialista em bioética.
Com ela e com um outro colega, o Padre Noriega, revisamos toda a problemática que você nos expôs.
Ao final, a Doutora Di Pietro propôs o seguinte parecer, que reflete a opinião amadurecida em conjunto, e que lhe dou a conhecer:
“Tomado conhecimento das condições clínicas de Victor Quinones, nascido no dia 14 de abril de 2007 e, atualmente, internado na Casa Divina Providência de Asunción (Paraguai), sustentamos que – esperando uma definição diagnóstica das causas da anemia progressiva – seja oportuno proceder com a hemotransfusão, a partir de uma via venosa central. No caso em exame, de fato, a hemotransfusão parece ser a intervenção mais significativa para melhorar a qualidade de vida do paciente ou, ao menos, não permitir uma piora do quadro, eliminando a presente sintomatologia. A progressiva redução da hemoglobina e da oxigenação poderia expor os tecidos – e particularmente o cérebro – a uma condição de baixa oxigenação, que agravaria as suas já comprometidas condições. Em um segundo momento, deve-se continuar com o tratamento previsto no protocolo clínico.”
Espero que este parecer seja uma ajuda para você.
Asseguro-lhe uma viva recordação na minha oração ao Senhor da Vida.
Um abraço
P.e Lívio

Amigos caros, este é um exemplo que diz ainda mais o que compreendo por colaboração, por amizade, por humildade, por comunhão. Uma satisfação ainda maior é ver que o gesto precedeu a resposta, indicando uma sintonia... uma sintonia sobre temas delicados é apenas uma obediência à realidade que nos permite ter.
Paraguai, Brasil, Itália: a cooperação é apenas uma amizade, uma obediência à realidade, a um relacionamento. É isto o que está acontecendo entre os médicos da Itália, do Brasil etc.
Grandes perguntas exigem pessoas grandes para responder... assim como, há um tempo atrás, procurei por Giussani e, hoje, por Carrón... neste caso, procurei Monsenhor Melina Lívio. E Victor, decididamente, melhorou.
Mas, que graça é esta clínica... ou melhor: esta companhia!
Ah, se também com Eluana existisse um olhar assim... esta humildade da razão!

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Cartas do P.e Aldo 21

Publico uma carta que o P.e Aldo escreveu pouco depois da morte de Eluana Englaro... dando sequência à publicação das cartas mais antigas.
Asunción, 06 de fevereiro de 2009.

“Se meu pai não vive, então ninguém tem o direito de viver” e, voltando para casa, matou todos os animaizinhos domésticos aos quais era afeiçoado e que cuidava com tanto amor.
Falo de Fabrício, um menino da nossa escola, que tem 8 anos de idade. Quando a mãe me contou a reação de Fabrício, que viu seu pai morrer afogado nas águas do Rio Paraguay, domingo passado, meu pensamento correu para o pai de Eluana. “Se Eluana não vive, então ninguém tem direito à vida”... e se Fabrício, na sua ingenuidade desesperada, voltou para casa e matou todos os animaizinhos domésticos, o que acontecerá àquele “pobre” homem, o pai de Eluana, uma vez que matou sua filha?
À dor por Eluana se une a minha dor pelo pai que, uma vez eliminada a filha, apagadas as luzes da balbúrdia ideológica, se encontrará sozinho como um cão e atormentado pelo remorso. E quais serão as consequências para ele? Não ouso nem mesmo pronunciar a terrível palavra “suicídio”... porém, a realidade não dá descontos a ninguém, quando não é respeitada. Olhado para Fabrício, rezo pelo pai de Eluana, porque ela já está, há um tempo, no Paraíso... mas, este homem onde está? Acredito que no inferno do desespero... desespero censurado, por enquanto, pela ideologia de que é vítima.
Rezemos por ele, para que Deus o ilumine... antes que seja tarde e ele tenha que prestar contas com o gesto que o meu filhinho Fabrício realizou.
Não esqueçamos: a ideologia engana sempre e, se primeiro ela nos coloca no pedestal, depois nos mata e nos empurra a nos matarmos. Que Jesus tenha piedade de nós e daquele pobre homem.
Com afeto
P.e Aldo

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Cartas do P.e Aldo 10


Asunción, 05 de fevereiro de 2009.

Caros amigos,
olhar para a realidade, vivê-la, é sempre um estar em pé olhando para o Mistério, com aquela dramaticidade que lhe faz dizer continuamente “eu sou Tu que me fazes”. O Mistério de que a realidade é sinal e caminho me faz viver comovido e sempre como as “scolte di Asisi”. Por isso, vivo surpreso por tudo e cada coisa é um imprevisto, uma novidade.
Ontem de manhã, o Arcebispo de Asunción me telefonou: “Padre Aldo, preciso de um favor seu. O Arcebispo emérito Dom Santiago Benitez Avalo (nasceu no dia 1° de maio de 1926, na cidade de Piribebuy, no Paraguay, e faleceu no último dia 19 de março, na cidade de Asunción; ndt) está quase chegando na meta e gostaríamos de interná-lo na clínica São Riccardo Pampuri, pois acabou de se recupear de uma infecção hospitalar (estava internado no mais belo hospital de Asunción). Por favor, vocês têm um quarto?”. “Claro que sim, Eminência. Desde a construção da clínica o primeiro pensamento que tive foi que deveria ser para sacerdotes, religiosos, bispos, que nessa terra não têm nenhuma estrutura que os acolha. Além do mais, D. Benitez, além de ser um dos maiores bispos do Paraguai e da América Latina (padre conciliar; redator, com o Papa atual, do Catecismo da Igreja Católica; desempenhou papéis fundamentais no CELAM etc.), foi o padre que, há 20 anos, me acolheu e primeiro quis CL no Paraguai. Deus se serviu dele para acolher este filho pródigo mandado por Giussani e, agora, o filho pródigo acolhe o Pai que tanto se prodiga por ele. Bem, que venha D. Benitez”.
Imaginem a minha alegria: assistir àquele que me acolheu, aquele que foi, aqui, a dilatação do grande abraço de Giussani para mim! Que graça este hospital, onde todo tipo de pessoa é acolhida, amada, ajudada a morre em letícia. Vocês já se perguntaram por que São Francisco chamava “nossa santa morte corporal” ou “irmã morte”?
A realidade é o corpo de Cristo. Olhem esta foto: é um doente de AIDS que está se casando. Aconteceu no domingo passado, dia 1° de fevereiro. Logo depois que disse “sim” e colocou o anel no dedo de sua mulher, entrou em coma. Impressionante: SIM e, depois, perdeu os sentidos. Alguém poderia dizer: mas de que lhe serviu se casar naquelas condições? Amigos, o amor é eterno. O que acaba é o aspecto fenomênico da sexualidade, mas a sexualidade, dimensão constitutiva do eu e origem de cada relação, é para sempre. Não esqueçamos o dogma da Assunção...
O SIM deles não era ligado ao uso dos genitais, mas ao destino deles, depois de 35 anos de concubinato. De outra forma, não conseguirei entender porque todos os meus doentes, antes de morrer – aqueles que vivem em concubinato –, querem se casar, usando como motivo: “quero morrer em paz”. Deixo a vocês o desafio de entrar na profundidade dessa afirmação que, como nada mais, explica o que significa amar, o que significa o sacramento do Matrimônio. Para mim, a morte, o olhar para ela em cada instante, encará-la é, de fato, reviver a beleza, a majestade de cada detalhe da liturgia para os defuntos. Peço-lhes, experimentem pedir a um padre que lhes mostre como a Igreja educa para a morte. Para não falar dos cantos, da Missa de Requiem, no “Dies Irae” (hino composto, no século XIII, por Thomas de Celano; ndt) ou no “De Profundis” (trata-se do salmo 130 - 129 da Vulgata; ndt) etc. Como é bela a realidade, porque a liturgia é a realidade na sua máxima expressão. Sempre mais a clínica está se tornando um lugar de missão. Muitos dos internados são evangélicos que se afastaram da Igreja católica por diversos motivos, mas um motivo em particular se repete: não tem espaço para escutar o homem.
Obviamente que o simples pensamento de encontrar um padre ou um quadro de Nossa Senhora pendurado na parede ou a Eucaristia já cria neles um mal-estar... que, porém, dura poucos dias. O que acontece? Três vezes ao dia faço a procissão com o Santíssimo Sacramento, mas nos quartos onde estão evangélicos paro à porta e lhes dou uma bênção. Enquanto que, com os outros, não apenas os abençoo, mas me coloco de joelhos e beijo a cada um deles. Com os evangélicos, pelo contrário, coloco-me de joelhos e lhes dou um beijo, sem Jesus nas mãos. Ou seja, parto deles, da certeza de que a realidade é o corpo de Cristo. Parto deles, não de Cristo, para que consigamos nos entender... e, com o tempo, aquela realdiade que é o corpo de Cristo lhes conduz a pedir os Sacramentos, a beijar um santinho, a gritar pela Eucaristia. Como é verdade que a missão é a alegria de viver a realidade com a certeza de que ela é o corpo de Cristo.
Assim, vocês entendem o quanto me faz sofrer ler, nos jornais daqui, notícias a respeito de Eluana... sofro porque ela é o corpo de Cristo. E olho para Victor que está em condições muito piores: mas ele é o corpo de Cristo. Amigos, a batalha por Eluana é somente para que o capítulo décimo d’O Senso Religioso se torne nosso e de todos. De outra forma, cairemos na ideologia. Se vocês viverem aquele capítulo como comoção, poderão entender porque falo, olho a morte com certos olhos e desejo que todos a olhem assim, porque é a única maneira de olhar para a vida, para a realidade.
P.e Aldo

terça-feira, 31 de março de 2009

Cartas do P.e Aldo 09

Asunción, 06 de fevereiro de 2009.

Caros amigos,
Mesmo aqui os jornais deram a notícia do que está acontecendo na Itália, no caso de Eluana. Mesmo aqui eles falam a linguagem do mundo: a Itália, a Igreja divididas em duas – conservadores versus progressistas. A raiva é humana, e mesmo a dor: como a minha pátria, a pátria do Direito Romano etc., chegou a este ponto? Todos nós somos responsáveis pelo que está acontecendo no Corpo de Cristo. Todos nós que, como dizia Giussani, “nos envergonhamos de Cristo”. Sejamos sinceros: não é assim? Se penso no que se reduziu a nossa Presença, hoje, na realidade, no que é a realidade para nós, não posso não perguntar isso.
Carrón, em La Thuile (vilarejo no Vale da Aosta, na Itália, onde se realizam anualmente alguns encontros de Comunhão e Libertação; ndt), falava de “intimismo”. Aquelas palavras são, para mim, um soco no estômago. Olho para Eluana e revejo o capítulo décimo d’O Senso Religioso e me pergunto: mas, eu pulo da cadeira diante da comoção daquelas palavras, diante da realidade? E se não é assim, eu, você, nós somos claramente responsáveis pelo que está acontecendo com Eluana. O que quer dizer, para nós, que a “realidade é providencial”? Mas, o mundo no qual vivemos pula da cadeira pela alegria de nos ver vivendo, trabalhando no hospital?
Olho para a minha clínica, olho para o pequeno Victor, em coma irreversível, cheio de feridas na cabeça, sem crânio, que se alimenta apenas através de uma sonda, e não posso não me comover diante do Mistério palpável que ele é... ele que, inexplicavelmente, continua vivendo. Ele é, está ali, na sua caminha, está ali, me lembrando de que a “realidade é providencial”, tal como nos diz o capítulo décimo d’O Senso Religioso... e do meu coração sai um grito impressionante pelo Infinito: vem, Senhor Jesus... cada vez que eu penso em como nós nos movemos diante da pergunta: “fazemos ou não uma transfusão de sangue (sobre o que já lhes falei)? É possível melhorar a sua qualidade de vida mesmo que por um instante (o mundo diz que eu sou louco)?”. Então, resolvemos incomodar o Instituto João Paulo II, em Roma, para ter uma luz sobre o assunto... e me permito mostrar-lhes de novo a resposta deles.

Caro Padre Aldo,
Tomei conhecimento do caso do pequeno Victor, que você me encaminhou.
Não sendo um especialista em medicina, pedi o parecer de uma professora do nosso Instituto, médica e especialista em bioética.
Com ela e com um outro colega, o Padre Noriega, revisamos toda a problemática que você nos expôs.
Ao final, a Doutora Di Pietro propôs o seguinte parecer, que reflete a opinião amadurecida em conjunto, e que lhe dou a conhecer:
“Tomado conhecimento das condições clínicas de Victor Quinones, nascido no dia 14 de abril de 2007 e, atualmente, internado na Casa Divina Providência de Asunción (Paraguai), sustentamos que – esperando uma definição diagnóstica das causas da anemia progressiva – seja oportuno proceder com a hemotransfusão, a partir de uma via venosa central. No caso em exame, de fato, a hemotransfusão parece ser a intervenção mais significativa para melhorar a qualidade de vida do paciente ou, ao menos, não permitir uma piora do quadro, eliminando a presente sintomatologia. A progressiva redução da hemoglobina e da oxigenação poderia expor os tecidos – e particularmente o cérebro – a uma condição de baixa oxigenação, que agravaria as suas já comprometidas condições. Em um segundo momento, deve-se continuar com o tratamento previsto no protocolo clínico.”
Espero que este parecer seja uma ajuda para você.
Asseguro-lhe uma viva recordação na minha oração ao Senhor da Vida.
Um abraço
P.e Lívio

Isto porque o homem é um Mistério e eu, nós devemos nos render e reconhecê-Lo de joelhos. Dolorosamente, não sendo mais a realidade o ponto de partida, consigo entender (se é mesmo verdade) que tenha havido mesmo alguns padres de Udine que assinaram um apoio à morte de Eluana. Somente quem vive comovido diante da “realidade providencial”, quem está diante do fato, da realidade, pode viver adorando o Mistério de Eluana, de Victor.
Amigos, nunca, como agora, entendo que a nossa batalha é levar a sério o que Giussani nos tem dito através de Carrón. Partamos daqui e Eluana sairá vitoriosa, viva, qualquer que seja a sentença diabólica de quem ficou cego pela ideologia e perdeu a cabeça.
Para mim, olhando os meus doentes em coma há tempos, vejo a beleza de Eluana, que continuará viva na medida em que eu, nós estivermos comovidos diante do que nos diz Giussani no capítulo décimo d’O Senso Religioso.
Creiam-me, é preciso aprendê-lo de cor, pular da cadeira de tanta comoção, para que o caso Eluna não se repita outra vez.
Com afeto
P.e Aldo, Victor, Celeste, Cristina, Aldo etc.

domingo, 29 de março de 2009

Cartas do P.e Aldo 07

Asunción, 09 de fevereiro de 2009.

Caros amigos,
Hoje, pela manhã:
Olhando os meus amigos que estão engarrafando a nova água mineral “San Rafael”, me lembrei de Giussani que, diante de cada iniciativa, exclamava: “que belo!”. O contrário do que nós dizemos: “mas... conseguirei? Vale a pena?...”. Ele reaia sempre com maravilha, com comoção. E somente num segundo momento, nos olhando em ação, corrigia. Por isso, fascinava imediatamente.

18h:
Estou aqui, em adoração, ao lado do pequeno Victor, que, hoje, não bastasse tudo aquilo que já tem, está atormentado por uma pneumonia. Não pode tossir, disseram-me os médicos, e isso é um problema para o catarro, mas os médicos, com o coração de carne e a razão humildemente dobrada diante do Mistério, o estão ajudando bem. Ele gem. Olho para ele: é quase pior do que Jesus na cruz, porque pelo menos Jesus estava inteiro, mas Victor... E resiste, apertando sempre os pequenos punhos.
Outro dia, celebrava a Missa no seu quarto. A primeira leitura dizia: “Deus castiga o seus filhos prediletos”, “corrige aqueles que ama” (carta aos Hebreus). Eu olhava para o meu Victor. Era difícil entender aquele versículo... mas, em seguida, eu vi o crucifixo e o meu coração, o meu rosto, se iluminaram. Victor, Eluana, Celeste, Cristina, Aldo, são os prediletos de Deus e, por isso, os associou, os tornou participantes da condição de Seu Filho na cruz. Que privilégio, meus amigos! Celebrei a Missa com uma comoção única: Eucaristia e Victor, Cristina, Aldo eram a mesma coisa e eu, o padre que oferecia no altar esta única hóstia branca, em remissão pelos nossos pecados.
Por isso, aqui, na clínica, se vive, se caminha, se trabalha com o coração e a mente de joelhos.
Por isso, quem passar por aqui sai mudado, se tem o coração simples dos meus médicos, enfermeiros e pessoal da limpeza. A razão é humilde quando vive de joelhos diante do Mistério.
O Mistério nos surpreende através da realidade. O imprevisto é, acredito, uma das mais belas e fascinantes características do Mistério.
N. N. foi encontrada nua, na estrada, há 400 km daqui. Um rápido teste médico: AIDS. Levada comigo, em como, para Asunción, foi deixada, durante a noite, diante da porta do hospital de medicina tropical. Colocaram-lhe uma fralda. Quando os médicos se deram conta disso, a internaram. Deve ter 19 anos de idade, e eu a chamo Patrícia. Está também morta de fome. Come os papelões que encontra. É abandonada. Trouxeram-na para cá. Coloco-me de joelhos diante dela e a beijo com ternura. As lágrimas molham o meu rosto. Cristina, a santa doutora infectóloga do meu hospital, formada em Cuba, mas com uma fé grande e bonita como o sol, me conta, em detalhes, a situação de Patrícia. Fico com o coração partido. A única coisa que consigo fazer é adorar a sua pessoa, aquele corpo desfigurado, abusado, violentado... e mesmo assim templo do Espírito Santo. Olho para ela coberta pelo lençol branco. É muito bela e perfumada... beijo-a. É exatamente igual a Jesus, é a Madalena que me veio encontrar.
Assim, depois que celebramos a crisma de Jéssica – agora, Rubens – que reencontrou a sua identidade masculina, fizemos festa também para Patrícia. Que belos são estes meus filhinhos! Todos, há um tempo, transsexuais ou travestis e, hoje, aqui comigo, seu padrinho, fazendo festa. Mas que grande cenário é esta clínica, onde, a cada minuto, se vive a parábola do Filho Pródigo, onde, a cada domingo, fazemos festa porque um filho voltou para o pai. Agora, mesmo Patrícia, de quem não sabemos nada sobre suas origens – nada de nada do seu passado –, faz parte desta história de salvação.
Amigos, o homem é um mistério, assim como é quando o encontre... e eu vivo apenas para adorá-lo.
Rezem por Patrícia e por André, o rapaz de apenas 22 anos, todo deformado e que pesa 18 kg, que está, nesse momento, em estado muito grave. Estamos acompanhando seu retorno para casa, lá onde está Jesus, esperando a todos nós. É mesmo belo viver com esta certeza!
Hoje, nós rezamos – nós, os pacientes terminais – por Eluana, para que possa viver.
Com afeto
P.e Aldo e amigos

sexta-feira, 27 de março de 2009

Cartas do P.e Aldo 06

Asunción, 10 de fevereiro de 2009.

Caros amigos,
Matamos Eluana e, agora, neste exato momento, morreu o pequeno André. Tinha 22 anos, pesava 18kg. Santo Hermano, o Coxo (o monge cirteciense Hermann der Lahme, nascido em 1013, na cidade de Altshausen, e falecido no ano de 1054, no mosteiro alemão de Reichenau, foi o compositor do Salve Regina; ndt), era saudável e “perfeito” se comparado com o meu filho. Além do mais, vivia como em estado vegetativo, se alimentando através de uma sonda. Morreu quando matamos Eluana.
Estou aqui, ao lado do seu cadáver. Será um problema colocá-lo em um caixão por causa do seu corpo todo deformado. Eu olho para ele... mas, hoje, os meus olhos e o meu coração estão sendo duramente provados, como o são todos os dias, quando vejo morrer todos os meus filhos que chegam aqui. Mais de 600 em quatro anos e meio. Só quem já perdeu um filho pode me entender. Ou melhor, só quem perdeu um filho, tendo o coração apaixonado por Cristo. É uma dor como a de Nossa Senhora aos pés da cruz, mas cheio de paz. Sinto o coração dobrado até mesmo fisicamente e, ao mesmo tempo, vejo as portas do Paraíso abertas. André morreu cercado por nós, que estávamos de joelhos ao seu lado, celebrando a Missa. A sua longa e dolorosa agonia... Os seus gemidos me sufocavam as palavras na garganta, durante a Missa. Ver, pela seiscentésima vez, um filho morrer... É sempre uma dor nova e profunda. É sempre reviver o Mistério da morte e da ressurreição de Cristo.
Muitos me perguntam: “mas, como você consegue resistir?”. O que responderia um pai apaixonado por Cristo? Eis aí o coração de tudo... É vivendo a realidade, a dor da realidade, a partir de um abraço como aquele de Giussani por mim, que transformamos a dor em uma porta que introduz mais à realidade, de forma a descobrir a beleza do Mistério que, mediante a morte, nos leva consigo para poder vê-Lo “face a face”.
O corpinho frio de André está aqui, ao meu lado. Caberia dentro de um saquinho. Mas, ele, André, é o meu Jesus nos braços de Nossa Senhora, aos pés da cruz. Que belo é este seu corpo, que tanto adorei na companhia dos meus amigos médicos e de todo o pessoal. Como gostaria que Eluana, neste momento, nos dissesse: “tenham a coragem de olhar na cara a realidade... retomem o 'Capítulo X' d’O Senso Religioso... é o único caminho para que não continuemos matando a realidade, o coração de cada pessoa”. Os meus filhos que morrem, as minhas crianças completamente mudas pela doença, todos com a sonda para se alimentar... são todas pequenas Eluanas... e me remetem ao Mistério feito carne neles. Eles são Jesus na cruz.
Mas, vocês entendem o que quer dizer, para mim, e por que escrevo para vocês desta maneira?... dessa maneira que pode cansar a quem não é uma pai, a quem nunca perdeu um filho... a quem é burguês. É possível estar diante da morte de Eluana da mesma maneira como estamos, normalmente, diante da realidade: distraídos.
A Virgindade é uma plenitude de paternidade e de maternidade, com uma ferida que se fechará apenas quando me encontrar definitivamente com Cristo. A Virgindade exige as feridas do coração e somente assim se torna a forma mais alta de dor, de amor e de alegria, de paternidade. Que Eluana nos perdoe o pouco amor à realidade, o pouco sentido do Mistério que vivemos... e que André nos conceda a graça de morrer como ele: na companhia de Jesus, Maria e José. A companhia de quem nos quer bem.
Confio sua alma às orações de vocês. Amanhã, o levarei comigo para o cemitério. Vem-me à mente aquela mulher de “Os Noivos” (romance de Alessandro Manzoni; ndt), que saia de casa com o pequeno corpo de seu filho morto pela peste, nos braços... É como o meu André, pequeno como ele, enterrado entre os meus outros filhos mortos, na companhia desse pobre pecador e dos meus amigos. Gostaria tanto que fosse sempre a maravilha a nos mover, porque só assim descobriremos que a realidade é Providencial... única possibilidade de entender como Eluana e André podem se tornar caminho para o reconhecimento do Mistério.
Termino esta carta e já é manhã. Dormi pouco e nem mesmo o sonífero serviu para me fazer dormir. Ou melhor, serviu para que a primeira coisa que eu fizesse esta manhã tenha sido confessar-me... porque, sendo o corpo místico de Cristo, todos somos responsáveis pelo que aconteceu a Eluana. “Deem-me quatro pessoas apaixonadas por Cristo e colocarei fogo na Itália”, dizia Santa Catarina de Sena. Deus queira que estejamos entre estes quatro.
Com afeto
P.e Aldo

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Caso Eluana


Caso Eluana
Em 13 de novembro último, o Supremo Tribunal da Itália autorizou os médicos a desligarem os sistemas de alimentação e hidratação assistidas que mantêm viva Eluana Englaro, de 37 anos, em coma desde janeiro de 1992 devido a um acidente automobilístico.
As freiras da instituição religiosa onde Eluana é atendida desde 1993 se ofereceram para continuar a fazê-lo gratuitamente, "sem pedir nada em troca". "Se há quem a considere morta, que deixe Eluana conosco, pois a sentimos viva".
A seguir o juízo preparado pelo Centro do Movimento Comunhão e Libertação, na Itália.

Caridade ou violência?

“Entender as razões do esforço é a coisa mais importante da vida, pois a maior objeção à vida é a morte, e a maior objeção a viver é o esforço de viver; a maior objeção à alegria são os sacrifícios. [...] O sacrifício maior é a morte”
Luigi Giussani

Que sociedade é essa que chama à vida “um inferno” e à morte, “uma libertação”? Qual é a origem de uma razão enlouquecida, capaz de virar o bem e o mal de ponta-cabeça e, portanto, incapaz de chamar as coisas por seu verdadeiro nome?
A anunciada suspensão da alimentação de Eluana Englaro é um homicídio. O fato é ainda mais grave na medida em que impede o exercício da caridade, já que existem pessoas que assumiram a tarefa de cuidar dela e continuariam a fazê-lo.
Na longa história da medicina, seu desenvolvimento se tornou mais fecundo precisamente quando, na era cristã, teve início a assistência aos “incuráveis”, que antes eram expulsos da comunidade dos homens “sãos”, deixados para morrer do lado de fora das muralhas da cidade ou eliminados. Aqueles que cuidassem desses homens poriam em risco a própria vida. Por isso, quem começou a tomar conta dos incuráveis o fez por uma razão que era mais forte que a própria vida: uma paixão pelo destino do outro homem, por seu valor infinito, oriundo do fato de ser imagem de Deus criador.
Assim, o caso Eluana nos põe diante da primeira evidência que se apresenta em nossa vida: nós não nos fazemos sozinhos. Somos desejados por um Outro. Somos arrancados do nada por Alguém que nos ama e que disse: “Até os cabelos da vossa cabeça estão contados”.
Refutar essa evidência significa, cedo ou tarde, refutar a realidade. Mesmo quando essa realidade tem o rosto das pessoas que amamos.
Eis por que o fato de chegar a reconhecer Quem é que nos doa hoje a presença de Eluana não é um acréscimo “espiritual”, próprio para aqueles que têm fé. É uma necessidade para todas as pessoas que, possuindo a razão, buscam um significado. Sem esse reconhecimento, torna-se impossível abraçar Eluana e viver o sacrifício de acompanhá-la; pelo contrário, o que se torna possível é matá-la e, com toda a boa-fé, tomar esse gesto por um gesto de amor.
O cristianismo nasceu precisamente como paixão pelo homem: Deus se fez homem para responder à exigência dramática – que todos percebemos, tenhamos fé ou não – de um significado para viver e para morrer; Cristo teve piedade do nosso nada, a ponto de dar a vida para afirmar o valor infinito de cada um de nós, qualquer que seja a nossa condição.
Precisamos d’Ele, para sermos nós mesmos. E precisamos ser educados a reconhecê-Lo, para viver.

Comunhão e Libertação
Novembro de 2008