quinta-feira, 17 de junho de 2004

Inferno

Reino de morte, ossuário em mim,
um vazio de morte e de sono me invade...
transforma em catacumbas minhas entranhas:
ossos, poeira, frio, vazio, silêncio cadavérico
tudo seco em mim.

O inferno é o nada em mim mesmo,
são os ossos sem vida que me levam.
O inferno é esse frio:
sem abraço, sem dor, sem luz.
O inferno é o não-existe, é o nada, é o vazio:
a morte que eu temo.
O inferno é anestesia dessa música sem som.
O inferno é esse vazio desértico que assumi,
que assumo a cada "não" que berro.
O inferno é esse "não" sem passado nem futuro:
o gozo eternamente instantâneo desse "não".
O inferno é a eterna efemeridade de um "não" repetido instante após instante.
O inferno é a incapacidade do dizer.

O inferno? Onde?
O inferno é dentro de mim.
É dentro de mim,
quando um lamento idiota me enche de preguiça,
de sono e de distração.
O inferno é desejar a mulher que está em perpétua partida.
O inferno é um instante que não passa e domina e mata...
O inferno é o átimo da percussão da bala no peito...
O inferno é o fio cego da navalha sobre a pele...
é aquela dor para sempre anestesiada...
O inferno é aquele rosto de prazer que se apaga e se apaga
e se apaga eternamente...
O inferno é a ausência de tristeza e de alegria...
O inferno é a escravidão de uma beleza que passa
e que enche de suposta alegria...
O inferno é essa lágrima que não vem aos olhos nunca...
O inferno é aquele nó na garganta que nunca se desfaz...
é aquele amor mesquinho que possui o nada de um abraço vazio...

O inferno, o meu inferno, são palavras flutuando insensatas,
é o não-dito e não-compreendido e silenciado e mumificado...
são olhos sem brilho
são bocas caladas
são braços sem calor
são línguas estranhas
são corpos sem forma.

O inferno? Onde?
O inferno é dentro de mim.
O inferno são essas palavras escuras
e malditas e sem sentido
e mal ditas e não-sentidas
O inferno sou eu, agora...

Mas, o inferno,
essa imensidão,
esse sem-fim vazio,
o inferno se dilui com essa lágrima.

Paris, 09/07/2003

Um comentário:

Ana disse...

Gostei do poema, mas posso fazer um comentário crítico? Acho que a linguagem deveria ser mais enxuta, mais econômica, para ampliar o efeito da mensagem...
Um abraço!