segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Cartas do P.e Aldo 121

Asunción, 29 de novembro de 2009.

Caros amigos,
perdoem-me se os incomodo retornando a um assunto sobre o qual já lhes havia pedido ajuda, em nome da Divina Providência. Mas, como vocês sabem, eu sou um mendigo de Deus, aquele Deus que se fez carne em Jesus: e Jesus vive, como nos recorda o capítulo 25 de Mateus, também nos pobres mais pobres como são os meus filhos. Jesus é cada um deles e, por isso, três vezes ao dia, eu me ajoelho diante de cada um deles, em adoração. Que belo: cada um é Jesus.
Vocês entendem qual é a graça que Jesus me dá? Ontem, acolhi um rapazinho de rua com um tumor de um quilo no pescoço, metástase generalizada e, além do mais, drogadicto. Eu o olhei, me ajoelhei... quanta dor, desde seu nascimento na rua. “Padre, que bonito que é aqui”, ele me disse.
Hoje, o Conselho Econômico me disse: “Padre, precisamos de 90 mil euros até o dia 31 de dezembro, para conseguir pagar aos 150 que trabalham aqui (novembro, dezembro, décimo terceiro, mais as despesas usuais)”. “Não se preocupem: eu sou as mãos, os pés, a língua da Providência... mas é Ela que resolve tudo. Então, rezem e fiquem certos de que, até o dia 31 de dezembro, tudo estará resolvido”.
Por isso, me permito pedir-lhes, para o Natal, que se recordem dos meus filhos. Vocês são tantos, e todos juntos permitiremos à Mãe da Divina Providência resolver a questão. Cada leito da clínica custa, para nós, 2.500 euros por mês, ou seja, 83 euros por dia. Os leitos, atualmente, são 27; de forma que, a cada mês, precisamos de 63.500 euros. Há cinco anos, Jesus e Maria têm, sempre e pontualmente, resolvido tudo. E este é o custo da Clínica, sem falar nas cazinhas para os idosos – que são duas, cujo custo mensal é de 7 mil euros ao todo – e a Casinha de Belém, cujo custo mensal é de 6 mil euros.
Assim, confio em cada um de vocês. E lembro-lhes de que a revista “Tempi”, no Natal, vai distribuir um DVD filmado pelo maior e mais famoso jornalista daqui, Humberto Rubin, que, depois de ter visitado a Clínica (lembrem-se de que ele é judeu e agnóstico), me disse chorando: “Se o que eu vi é Deus, então eu também posso acreditar”. Peço-lhes que comprem este DVD, porque, no seu dramático realismo, diz um pouco do que se vive aqui.
Recordo-lhe o número de minha conta corrente:
Trento Antonio
UNICREDIT BANCA – Filiale di Fonzaso (Belluno)
Codice IBAN : IT14Z0200861120000004701742
Bom Natal!
Padre Aldo

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Cartas do P.e Aldo 120


Asunción, 22 de novembro de 2009.

Natal 2009
Caros amigos,
“Ele está aqui” como há 2000 anos. Ele está aqui na presença destes meus filhos, moribundos, idosos abandonados, crianças que sofreram todo tipo de violência, na presença dos milhares de pobres que, nestes anos, encontraram assistência médica e comida neste “lugar de Deus” ou “asilo de Deus”, como foi definido pelo maior jornalista ateu do Paraguai, judeu, depois de ter estado aqui conosco há alguns meses atrás: “Se o que eu vi é Deus, então posso acreditar também”, concluiu ele, saudando-nos.
Por este motivo, caros amigos, cristãos ou não, se vocês reconhecem que o homem é relação com o Mistério, que também vocês são relação com o Mistério, permito-me, na aproximação do Natal, recordá-los de nós que damos a vida (não um mês, vinte dias ou um ano... a vida) pelo homem que não tem ninguém que o olhe no rosto, senão Aquele que o criou, e pedir-lhes que nos ajudem, porque mesmo um centavo, para quem vive de Cristo, pode ser útil para um sorriso.
O que eu peço a vocês é um pequeno gesto que nos educa a sentir em nós o início de uma gratuidade que é o modo com o qual Deus se relaciona conosco.
O número de minha conta corrente é:
Trento Antonio
UNICREDIT Banca
Filial di Fonzaso (BL)
IBAN: IT14Z0200861120000004701742
Para aqueles que desejam nos ajudar evitando as taxas podem enviar para a ONLUS “Amici di Padre Aldo”.
Obrigado e bom Natal.

P.S.: Colaborem para que, em 2010, possamos inaugurar a nova clínica para doentes terminais, com AIDS e câncer, abandonados.

Cartas do P.e Aldo 119


Asunción, 22 de novembro de 2009.

Caros amigos,
Como podem ver pelas fotos, também Arrigo Sacchi veio nos encontrar... não para ver se existem bons garotos para o futebol, mas para ver a vida, para ver como tudo (saúde, doença, morte) faz parte de uma grande partida, cujo destino, certo e bom, é o protagonista; de forma que, cada um, nas condições em que se encontra, joga bem na sua posição.
Padre Paolino o recebeu com todas as honras que um juventino, como ele, consegue exprimir. De qualquer maneira, Sacchi ficou comovido, diria um amigo torcedor do Milan, da forma como um milanista vitorioso é capaz. Ele viu, tocou com a mão a vitória de Cristo, sem a qual muito (mesmo o Milan ou a Juventus) seria nada.
Que um homem reconheça isto é a evidência daquilo que o Carrón nos disse: “Somente na experiência é possível, não apenas dar-se conta disto, mas permanecer maravilhado e grato pelo dom da fé”. É o que Marcos, Cleuza, Julián de la Morena e eu vivemos nestes dias no México, onde, depois de mais de 80 anos de perseguição contra os cristãos e de hostilidade dura e aberta contra a Igreja, um pequeno grupo de jovens de CL, cheios de humanidade e certos da experiência que vivem, conseguiu obter do poder laicista e massônico (que tomou conta da universidade mais laicista do mundo) [a frase, na carta original, parece estar incompleta e dá a entender que Marcos e Cleuza estiveram na universidade para dar uma palestra; ndt]. Para que pudessem falar disso, Marcos e Cleuza parte da sua experiência, ou melhor, do fato que o nome do desenvolvimento humano é Jesus Cristo... além do mais, tudo isso se deu na Aula Magna da faculdade mais ideologicamente aguerrida: a de sociologia e ciência política. Mas, não há muro de Berlim, ou aquele entre Israel e Palestina, ou entre o México e os EUA, que impeça de melhorar, no tempo, a experiência de vencer qualquer muro ideológica que construamos dentro de nós.
Padre Aldo Trento.

P.S.: Olhem o juventino Paolino... com essa cara um pouco carnavalesca. Porém, Sacchi fez festa para ele... já se conheciam... mas não por causa do futebol.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Poema em linha reta

Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Educação ou deformação?

Por Olavo de Carvalho

O pronunciamento do MEC, que considerou inconstitucional a legalização do homeschooling por violar o direito de todos à educação gratuita, é só mais um exemplo do barbarismo que, a pretexto de educar nossos filhos, lhes impõe todo um sistema de deformidades mentais e morais para fazer deles idiotas criminosos à imagem e semelhança de nossos governantes.
Lembrem o que eu disse dias atrás, sobre as afirmações que não podem ser discutidas, apenas analisadas como sintomas da demência que as produziu. O parecer do MEC sobre o homeschooling inclui-se nitidamente nessa categoria. Desde logo, um direito que, sob as penas da lei, se imponha ao seu alegado beneficiário como uma obrigação, não é de maneira alguma um direito. Direito, como bem explicava Simone Weil, é obrigação reversa: se tenho um direito, é porque alguém tem uma obrigação para comigo. Ter direito a um salário é ter um empregador que está obrigado a pagá-lo. Se, ao contrário, sou eu mesmo o titular do direito e da obrigação de satisfazê-lo, é claro que não tenho direito nenhum, apenas a obrigação. É assim que os luminares do MEC entendem a educação gratuita: as pobres crianças brasileiras, por serem titulares desse direito, são obrigadas a engolir a cafajestada estatal inteira que se transmite nas escolas, sob pena de que seus pais sejam enviados à cadeia. Isso não é um direito: é uma imposição e um castigo. Para sofrê-lo, basta ser criança e inocente.
O pior é que os apologistas dessa coisa nem reparam na impropriedade do vocabulário com que a defendem, indício não só de suas más intenções como também da sua falta da cultura superior indispensável aos cargos que ocupam na Educação nacional. Segundo a agência de notícias da Câmara dos Deputados, o diretor de Concepções e Orientações Curriculares do Ministério, Carlos Artexes Simões, acredita que "a obrigatoriedade de o Estado garantir o ensino fundamental, conforme prevê a Constituição, deve ser exercida na escola". Qual o nexo lógico que essa criatura crê enxergar entre a obrigação estatal de garantir isto ou aquilo e o direito de o governo mandar para a cadeia quem prescinda desse suposto benefício? Desde quando a obrigação de um se converte automaticamente em obrigação de outro, e, pior ainda, em obrigação do titular do direito correspondente? O Estado tem também a obrigação de garantir assistência médica: deveriam então ser processados e presos os cidadãos que recorram a um médico particular, poupando aos cofres públicos uma despesa desnecessária? O Estado tem a obrigação de pagar aposentadorias: nunca fui buscar a minha, à qual tenho direito há mais de uma década. Não fui buscá-la porque ainda estou forte e saudável, graças a Deus, e fico feliz de poupar ao Estado uma quantia que será melhor empregada em benefício de doentes e incapacitados. Devo ser preso por isso? Quanto custa ao Estado a educação de uma criança? Se um indivíduo tem seus impostos em dia e ainda, possuindo dons de educador, dá instrução a seus filhos em casa, cabe ao Estado ser grato ao cidadão exemplar que o auxilia duplamente, com seu dinheiro e com seus serviços, sem nada pedir em troca. Punir essa conduta honrosa é inversão total da moralidade. Sendo nosso governo o que é, não se poderia mesmo esperar dele outra coisa.
Em terceiro lugar, qual a oposição lógica que esses loucos crêem existir entre o homeschooling e o direito à educação gratuita? Imaginam eles que os pais cobram mensalidades dos filhos para educá-los em casa? A coisa é de um contrasenso tão evidente que não percebê-lo à primeira vista indica deficiência mental.
Por fim, o próprio Carlos Artexes Simões não percebe a monstruosidade comunofascista que profere ao declarar que "a escola ainda é a vanguarda do ponto de vista do conhecimento necessário para a construção de um Estado republicano". Por que as crianças deveriam ser usadas como tijolos para a construção deste ou daquele regime político que interesse ao sr. Simões? Se o regime fosse monárquico, isso mudaria em alguma coisa o conteúdo das disciplinas essenciais, como gramática, aritmética e ciências? Mesmo a História e a informação básica sobre direitos humanos não têm por que ser alteradas conforme as preferências do regime. Bem ao contrário: qualquer regime que exista só se legitima na medida em que se submeta aos valores e critérios universais dos quais a educação é portadora, em vez de torcê-los para amoldá-los à política do dia. Como expressão da cultura, a educação deve moldar o governo, não este a educação. Transformar a cultura e a educação em instrumentos do Estado foi o que fizeram Stalin, Hitler, Mussolini, Mao, Fidel Castro e Pol-Pot. O sr. Simões defende essa concepção com a naturalidade sonsa de quem não é capaz de enxergar nada acima de uma política mesquinha, abjeta, oportunista. Talvez ele não o note, mas o que ele entende por educação é manipulação, é abuso intelectual de menores.
Mais desprezível ainda se torna a sua opinião quando ele acrescenta que a escola não visa só à educação, mas à socialização. Não sabe ele que tipo de socialização nossas crianças encontram nas escolas públicas? Não sabe que estas são fábricas de desajustados, de delinqüentes, de criminosos? Não sabe que, em nome da socialização, as condutas piores e mais violentas são ali incentivadas pelo próprio governo que ele representa? Não sabe que agredir professores, destruir o patrimônio das escolas, consumir drogas, entregar-se a obscenidades em público, são atos considerados normais e até desejáveis nessas instituições do inferno? Não sabe ele que há um crescimento proporcional direto da criminalidade infanto-juvenil à medida que se amplia a escolarização?
Por que se faz de inocente, defendendo a escola em abstrato, como um arquétipo platônico, fingindo ignorar a realidade miserável que as escolas públicas brasileiras impõem a seus alunos, ou melhor, às suas vítimas? Por que finge ignorar que, além da deformidade moral e social que ali aprendem, tudo o que os nossos estudantes adquirem nessas instituições é a formação necessária para tirar, sempre e sistematicamente, as piores notas do mundo nas avaliações internacionais?
Com que direito o fornecedor de lixo, de veneno, de dejetos, há de punir quem se recuse a ingeri-los, ou a dá-los a seus filhos?
O que se deve questionar não é o direito de os pais educarem seus filhos em casa: é o direito de politiqueiros e manipuladores ideológicos interferirem na educação das crianças brasileiras. É o próprio direito de o Estado mandar e desmandar numa instituição que o antecede de milênios e à qual ele deve o seu próprio ingresso na existência. Muito antes de que o Estado moderno aparecesse sequer como concepção abstrata, as escolas para crianças e adolescentes, anexas aos monastérios e catedrais (e nem falo das grandes universidades), já haviam alcançado um nível de perfeição que nunca mais puderam recuperar desde que a educação caiu sob o domínio dos políticos.
Se queremos melhorar a educação nacional, a primeira coisa que temos de fazer é tirá-la do controle de manipuladores e demagogos que não se educaram nem sequer a si próprios, a começar pelo sr. presidente da República, que se vangloria obscenamente de sua incapacidade de ler livros.

* O presente artigo foi publicado no dia 23 de outubro de 2009 no website: http://www.olavodecarvalho.org/semana/091023dc.html.

domingo, 22 de novembro de 2009

Cartas do P.e Aldo 118

Asunción, 22 de novembro de 2009.

Caros amigos,
São sempre muitas as pessoas que desejam vir para nos visitar... e estamos gratos ao Senhor por este gesto de amizade. Diante destes pedidos, depois de verificar a questão com meus confrades e outros amigos, pareceu-nos necessário sublinhar alguns aspectos importantes para o crescimento de todos.
1. O novo pároco é Padre Paolino, de modo que será a ele que os pedidos deverão ser dirigidos. De forma que é necessário que se dirijam a ele também os meus amigos mais caros... como aqueles que vêm habitualmente da Itália ou os que vêm duas vezes por ano.
2. Aqueles que pedem para vir trabalhar deverão ficar pelo menos um ano aqui e conhecer o espanhol. Menos de um ano, preferimos, por motivos concretos, que não seja o caso de vir. De qualquer forma, verificaremos caso a caso.
3. Para aqueles que são de CL, parece-nos um bem que verifiquem também com os responsáveis da comunidade. Parece-nos bela esta comunhão que Giussani sempre sublinhou.
4. Da experiência vivida até agora, parece-nos necessário pedir que as eventuais visitas tenham como limite um ano e, como dissemos, que se conheça a língua espanhola. De outra forma, arrisca-se, como aconteceu tão frequentemente, a desordem, e geram-se problemas que não são indiferentes. Como vocês sabem, a nossa realidade é uma realidade de dor, de sofrimento, de morte; recolhemos crianças vítimas de todo tipo de violência, idosos e crianças de rua etc., e quase todos falam guarani e são carregados de problemas, e desejam personalidades de fé. Isto exige que se entre na lógica de vida de nós padres dedicados completamente a eles, ao projeto educativo com as crianças e com os doentes terminais. É uma realidade “feia”, dramática, diria uma amiga, onde se vê apenas gente que sofre, que morre... Aqui, de belo existe apenas o olhar com o qual olhamos e abraçamos estes filhos de Deus, e a presença viva do Mistério. Assim sendo, não podemos não vigiar para que este clima esteja presente em cada instante. Tivemos algumas experiências negativas, onde a generosidade criou muitos poblemas. A gratuidade é uma outra coisa e começa com o fato de que a pessoa responde a um chamado que nós lhe fazemos, para que nos ajude numa necessidade. É disso que deve partir tudo, porque é quem vive aqui que conhece a realidade. A amizade e a dependência dos padres é, em tudo, essencial. Nós, com todos os poblemas que a vida aqui nos dá, não podemos assumir outros que venham da Itália. Também Jesus, mesmo podendo curar a todos, contentou a poucos.
5. Padre Aldo não é um guru. É um pobre homem abraçado por dom Giussani e que, agora, vive como filho de Giussani, seguindo como um filho, a Carrón, em quem vê, com clareza, a presença viva, bela e dramática de Giussani. Então, vocês que são da Itália e têm a graça de segui-lo a cada 15 dias, na Escola de Comunidade, o que querem a mais? Aqui, existem alguns amigos que se sentem filhos de Carrón, trabalhando duro sobre tudo aquilo que ele nos diz, e fazendo experiência. E tudo isto ou acontece também para quem quer vir aqui ou é melhor que não venha, porque ficará desiludido... como já aconteceu.
San Rafale é uma experiência que qualquer um é chamado a viver onde está. Não se trata de inventar novas formas ou arriscar sonhar com uma varinha de condão. Viver o Movimento onde se está: este é o problema de se fazer um trabalho pessoal. Se for diferente disso, arrisca-se, como dizia uma pessoa do Diretivo, a fazer “turismo religioso”, com todas as comodidades que um europeu aqui pode se permitir (de uma empregada doméstica à vida cômoda).
Finalmente, esperamos que todos aqueles que estão interessados a passar conosco pelo menos um ano nos compreendam. Queremos também avisar a todos que pedimos a uma das secretárias que seja ponto de referência para todos os pedidos que, depois, serão avaliados pelo Padre Paolino, com todos nós. Porém, lembro que a referência última é Padre Paolino, sendo ele o novo pároco a quem, também eu, em primeiro lugar, devo obedecer. A secretária a quem deverão ser enviados exclusivamente os pedidos é a Andréa, cujo email é sanrafael.andrea@gmail.com
Com afeto,
Padre Aldo

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Emergência educativa...

Visita Pastoral a Bréscia e Concesio
Encontro oficial de Inauguração da nova sede e
indicação do Prêmio Internacional Paulo VI
Discurso do Santo Padre Bento XVI


Auditório Vittorio Montini, do Instituto Paulo VI – Concesio
Domingo, 08 de novembro de 2009


Senhores Cardeais,
Venerados Irmãos Bispos e Sacerdotes,
Caros amigos,
Agradeço-vos cordialmente por me terem convidado a inaugurar a nova sede do Instituto dedicado a Paulo VI, construída ao lado de sua casa natal. Saúdo a cada um de vós com afeto, a começar pelos Senhores Cardeais, os Bispos, as Autoridades e as Personalidades presentes. Dirijo uma saudação particular ao presidente Giuseppe Camadini, grato pelas palavras cordiais que me dirigiu, ilustrando as origens, o objetivo e as atividades do Instituto. Tomo parte, com muita alegria, da solene cerimônia do “Prêmio Internacional Paulo VI”, destinado, neste ano, à coletânea francesa “Sources Chrétiennes”. Uma escolha dedicada ao âmbito educativo, que pretende colocar em evidência – como foi bem sublinhado – o grande empenho desta histórica coletânea, fundada em 1942, entre outros, por Henri De Lubac e Jean Daniélou, para uma renovada redescoberta das fontes cristãs antigas e medievais. Agradeço ao Diretor Bernard Meunier pela saudação que dirigiu a mim. Aproveito esta ocasião propícia para vos encorajar, caros amigos, a trazer sempre mais à luz a personalidade e a doutrina deste grande Pontífice, não tanto do ponto de vista hagiográfico e celebrativo, mas sobretudo – e isto já foi muito justamente lembrado – no âmbito da pesquisa científica, para oferecer uma ajuda ao conhecimento da verdade e à compreensão da história da Igreja e dos Pontífices do século XX. Na medida em que é melhor conhecido, o Servo de Deus Paulo VI se tornará cada vez mais apreciado e amado. Desde os primeiros anos do Concílio Vaticano II, me vi unido ao grande Papa por um vínculo de afeto e de devoção. Como não lembrar que, em 1977, foi Paulo VI que me confiou o cuidado pastoral da diocese de Mônaco, criando-me Cardeal? Sinto dever a este grande Pontífice tanta gratidão pela estima que manifestou por mim em diversas ocasiões.
Gostaria, nesta sede, de aprofundar os diversos aspectos da sua personalidade; limitarei, porém, as minhas considerações a um aspecto apenas do seus ensinamento, que me parece bastante atual e em sintonia com a motivação do Prêmio deste ano: a sua capacidade educativa. Vivemos em tempos nos quais se percebe uma verdadeira “emergência educativa”. Formar as jovens gerações, das quais depende o futuro, nunca foi fácil, mas neste nosso tempo parece ter se tornado ainda mais complexo. Sabem bem disso os pais, os educadores, os sacerdotes e aqueles que têm alguma responsabilidade educativa direta. Difundem-se uma atmosfera, uma mentalidade e uma forma de cultura que levam a duvidar do valor da pessoa, do significado da verdade e do bem, e em última análise da bondade da vida. E, no entanto, se percebe com força uma sede de certezas e de valores cada vez mais difundida. É preciso, então, transmitir às gerações futuras algo de válido, das regras sólidas de comportamento, indicar objetivos altos em direção aos quais seja possível orientar, com decisão, a própria existência. Aumenta o desejo por uma educação capaz de se encarregar das expectativas da juventude; uma educação que seja, antes de mais, testemunho e, para os educadores cristãos, testemunho de fé.
A propósito, vem-me a mente esta incisiva frase programática de Giovanni Battista Montini, escrita em 1931: “Quero que a minha vida seja um testemunho da verdade... entendo por testemunho a custódia, a busca, a profissão da verdade” (Spiritus veritatis, in Colloqui religiosi, Brescia 1981, p. 81). Tal testemunho – escrevia Montini, em 1933 – se tornou urgente a partir da constatação de que “no campo profano, os homens de pensamento, também e talvez especialmente na Itália, não pensam nada de Cristo. Ele é um desconhecido, um esquecido, um ausente, em grande parte da cultura contemporânea” (Introduzione allo studio di Cristo, Roma 1933, p. 23). O educador Montini, estudante e sacerdote, Bispo e Papa, sempre percebeu a necessidade de uma presença cristã qualificada no mundo da cultura, da arte e do social, uma presença radicada na verdade de Cristo, e, ao mesmo tempo, atenta ao homem e às suas exigências vitais.
Eis porque a atenção ao problema educativo, a formação dos jovens, constitui-se em uma constante no pensamento e na ação de Montini, atenção que nasce também do seu ambiente familiar. Ele nasceu em uma família pertencente ao catolicismo bresciano da época, empenhado e fervoroso em obras, e cresceu na escola de Padre Giorgio, protagonista de importantes batalhas pela afirmação da liberdade dos católicos na educação. Em um de seus primeiros escritos dedicados à escola italiana, Giovanni Battista Montini observava: “Só pedimos um pouco de liberdade para educar como queremos àquela juventude que chega ao Cristianismo atraída pela beleza da sua fé e das suas tradições” (Per la nostra scuola: un libro del prof. Gentile, in Scritti giovanili, Brescia 1979, p. 73). Montini foi um sacerdote de grande fé e de cultura ampla, um guia de almas, um agudo indagador do “drama da existência humana”. Gerações de jovens universitários encontraram nele, como Assistente da FUCI (Federazione Universitaria Cattolica Italiana; ndt), um ponto de referência, um formador de consciências, capaz de entusiasmar, de chamar atenção à tarefa de serem testemunhas em cada momento da vida, deixando transparecer a beleza da experiência cristã. Ouvindo-o falar – atestam os seus estudantes de então –, percebia-se o fogo interior que dava alma às suas palavras, em contraste com o físico que parecia frágil.
Um dos fundamentos da proposta formativa dos círculos universitários da FUCI guiados por ele consistia no tender à unidade espiritual da personalidade dos jovens: “não compartimentos estagnados separados na alma – ele dizia –, cultura de um lado, e fé de outro; escola de um lado, Igreja de outro. A doutrina, como a vida, é única” (Idee=Forze, in Studium 24 [1928], p. 343). Em outros termos, para Montini, eram essenciais a plena harmonia e a integração entre dimensão cultural e religiosa da formação, com particular atenção ao conhecimento da doutrina cristã, e aos reveses práticos da vida. Exatamente por isso, desde o princípio de sua atividade, no círculo romano da FUCI, em consonância com um empenho espiritual e intelectual sério, ele promoveu, para os universitários, iniciativas caritativas a serviço dos pobres, com a conferência de São Vicente. Nunca separava aquilo que definia como “caridade intelectual” da presença social, da necessidade de se encarregar da necessidade dos últimos. De tal modo, os estudantes eram educados a descobrir a continuidade entre o rigoroso dever do estudo e as missões concretas entre os sem-teto. “Acreditamos – escrevia – que o católico não é um atormentado por cem mil problemas mesmo que de ordem espiritual... Não! O católico é aquele que tem a fecundidade da segurança. E é assim que, fiel à sua fé, pode olhar para o mundo não como um abismo de perdição, mas como um campo para semear” (La distanza dal mondo, in Azione Fucina, 10 febbraio 1929, p. 1).
Giovanni Battista Montini insistia sobre a formação dos jovens, para torná-los capazes de entrar em relação com a modernidade, um relacionamento, este, difícil e frequentemente crítico, mas sempre construtivo e dialógico. Da cultura moderna sublinhava algumas características negativas, seja no campo do conhecimento que no da ação, como o subjetivismo, o individualismo e a afirmação ilimitada do sujeito. Ao mesmo tempo, porém, entendia que era necessário o diálogo a partir sempre de uma sólida formação doutrinal, cujo princípio unificante era a fé em Cristo; uma “consciência” cristã madura, portanto, capaz de confronto com todos, sem porém ceder às modas do tempo. Quando era Pontífice, disse aos Reitores e Diretores das Universidades da Companhia de Jesus que “o mimetismo doutrinal e moral não é, certamente, conforme ao espírito do Evangelho”. “De resto, aqueles que não compartilham as posições da Igreja – acrescentou – pedem a nós extrema clareza de posições, para poder estabelecer um diálogo construtivo e leal”. E, portanto, o pluralismo cultural e o respeito não devem nunca “permitir que o cristão perda de vista o seu dever de servir à verdade na caridade, de seguir aquela verdade de Cristo que, só ela, concede a verdadeira liberdade” (cfr Insegnamenti XIII, [1975], 817).
Para o Papa Montini, o jovem é educado a julgar o ambiente no qual vive e trabalha, a considerar-se como pessoa e não como número na massa: em uma palavra, ele é ajudado a ter um “pensamento forte”, capaz de “agir forte”, evitando o perigo, que corremos agora, de antepor a ação ao pensamento e de fazer da experiência a fonte da verdade. Afirmou acerca disso: “A ação não pode ser luz para si mesma. Se não quer obrigar o homem a pensar como ele age, é preciso educá-lo a agir como ele pensa. Também no mundo cristão, onde o amor, a caridade têm importância suprema, decisiva, não se pode prescindir do lume da verdade, que ao amor apresenta os seus fins e os seus motivos” (Insegnamenti II, [1964], 194).
Caros amigos, os anos da FUCI, difíceis pelo contexto político da Itália, mas entusiasmantes para aqueles jovens que reconheceram no Servo de Deus um guia e um educador, ficaram impressos na personalidade de Paulo VI. Nele, Arcebispo de Milão e depois Sucessor do apóstolo Pedro, nunca diminui o desejo e a preocupação com o tema da educação. Atestam isso as suas numerosas intervenções dedicadas às novas gerações, em momentos tempestuosos e difíceis, como o ’68. Com coragem, indicou o caminho para o encontro com Cristo como experiência educativa libertadora e única verdadeira resposta aos desejos e às aspirações dos jovens, que se tornaram vítimas da ideologia. “Vós, jovens de hoje – ele repetia – são, às vezes, seduzidos pelo conformismo, que pode se tornar habitual, um conformismo que dobra inconscientemente a vossa liberdade ao domínio automático das correntes externas de pensamento, de opiniões, de sentimento, de ação, de moda: e depois, presos assim por um gregarismo que vos dá a impressão de serdes fortes, vos tornais rebeldes em grupo, em massa, sem nem mesmo saber por quê”. “Mas, no tempo – escrevia ainda – se adquiris consciência de Cristo, e a Ele aderis... acontece que vos tornais interiormente livres... sabereis por que e para quem viver... E, ao mesmo tempo, algo maravilhoso!, sentireis nascer em vós a ciência da amizade, da sociabilidade, do amor. Não sereis isolados” (Insegnamenti VI, [1968], 117-118).
Paulo VI definiu a si mesmo como “velho amigo dos jovens”: sabia reconhecer e compartilhar o tormento deles quando se debatiam entre o desejo de viver, a necessidade de certeza, o desejo de amor, e o sentido de confusão, a tentação do ceticismo, a experiência da desilusão. Tinha aprendido a compreender a alma deles, e lembrava que a indiferença agnóstica do pensamento atual, o pessimismo crítico, a ideologia materialista do progresso social não bastam ao espírito, aberto a outros horizontes de verdade e de vida (cfr Insegnamenti XII, [1974], 642). Hoje, como então, emerge nas novas gerações um iniludível desejo de significado, uma busca pó relacionamentos humanos autênticos. Dizia Paulo VI: “o homem contemporâneo escuta mais as testemunhas que os mestres, ou, se escuta os mestres, o faz porque são testemunhas” (Insegnamenti XIII, [1975], 1458-1459). Mestre de vida e corajosa testemunha de esperança foi este meu venerado Predecessor, nem sempre compreendido, mas isolado e mal-quisto pelos movimentos culturais dominantes de então. Mas, sólido, mesmo que fisicamente frágil, ele conduziu a Igreja sem hesitação; nunca perdeu a confiança nos jovens, renovando a eles e não apenas a eles, o convite a confiar-se a Cristo e a segui-Lo no caminho do Evangelho.
Caros amigos, uma vez mais obrigado por me terdes dado a oportunidade de respirar, aqui, na sua cidade natal e nestes lugares cheios de recordações da sua família e da sua infância, o clima no qual o Servo de Deus Paulo VI, o Papa do Concílio Vaticano II e do pós-Concílio, se formou. Aqui, tudo fala da riqueza da sua personalidade e da sua vasta doutrina. Aqui, existem memórias significativas também de outros Pastores e protagonistas da história da Igreja do século passado, como por exemplo do Cardeal Bevilacqua, do Bispo Carlo Manziana, do Monsenhor Pasquale Macchi, e de seu fiel secretário particular, Padre Paolo Caresana. Desejo de coração que o amor deste Papa pelos jovens, o encorajamento constante a confiar-se a Jesus Cristo – convite retomado por João Paulo II e que também eu quis renovar no início do meu Pontificado – seja ouvido pelas novas gerações. Por isso, asseguro a minha oração, enquanto abençoo a vós todos aqui presentes, às vossas famílias, ao vosso trabalho e às iniciativas do Instituto Paulo VI.

sábado, 14 de novembro de 2009

Uma Presença irredutível

A propósito da sentença da Corte Europeia sobre os crucifixos

A sentença da Corte Europeia dos direitos do homem contra os crucifixos nas salas de aula das escolas suscitou vastos protestos: justamente, quase todos os italianos – 84%, segundo uma pesquisa realizada pelo Corriere della Sera – ficaram escandalizados com a decisão.
“E vós, quem dizeis que eu sou?” Esta pergunta de Jesus aos discípulos nos alcança e nos desafia agora.
Aquele Cristo no crucifixo não é apenas um troféu da piedade popular por quem só se pode nutrir, quando muito, uma devota recordação.
Não é nem mesmo um genérico símbolo da nossa tradição social e cultural.
Cristo é um homem vivo, que trouxe ao mundo um juízo, uma experiência nova, que diz respeito a tudo: ao estudo e ao trabalho, aos afetos e aos desejos, à vida e à morte. Uma experiência de humanidade realizada.
Os crucifixos podem ser tirados, mas não se pode tirar da realidade um homem vivo. Ainda que o tenham matado, como aconteceu... mas, agora, é mais vivo do que antes!
Iludem-se aqueles que querem arrancar os crucifixos, se pensam que estão, assim, contribuindo para cancelar do “espaço público” o Cristianismo como experiência e juízo: se está no poder deles – mas se trata de algo para se verificar ainda, e nós confiamos que serão desmentidos – abolir os crucifixos, não está nas mãos deles arrancar os cristãos vivos da realidade.
Mas, há um inconveniente: que nós, cristãos, podemos não ser nós mesmos, esquecendo-nos do significado do Cristianismo; então, defender o crucifixo seria uma batalha perdida, porque aquele homem não diria mais nada à nossa vida.
A sentença europeia é um desafio para a nossa fé. Por isso, não podemos ficar tranquilos nas coisas de sempre, depois de termos protestado cheios de escândalo, evitando questões fundamentais: crucifixo sim, crucifico não, onde está o acontecimento de Cristo, hoje? Ou, dito com as palavras de Dostoievski: “Um homem culto, um europeu dos nossos dias pode crer, crer de verdade, na divindade do filho de Deus, Jesus Cristo?”.

Novembro de 2009
Comunhão e Libertação

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Cartas do P.e Aldo 117

Asunción, 12 de novembro de 2009.

Caros amigos,
Um doente de câncer me disse: “as pessoas dizem: a saúde é tudo. Padre, isto é paganismo. Apenas Cristo é tudo. Não se pode confundir a saúde com a salvação. A saúde é um aspecto, mas apenas Cristo, a salvação, é tudo”.
A finalidade da minha clínica é apenas este, por isso a doença não é um menos, mas uma graça, porque nos permite reconhecer que Cristo é tudo.
Com afeto
Padre Aldo

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Cartas do P.e Aldo 116



Asunción, 10 de novembro de 2009.

Caríssimos amigos,
outro dia, eu dizia a alguns amigos brasileiros, no nosso habitual encontro com os Zerbini, Julián etc., que a única “coisa prevista na minha vida é o imprevisto” e isto me torna alguém como os sentinelas de Assis, da canção. A origem da dramaticidade que, por pura graça, caracteriza a minha vida consiste exatamente nisto – que “a única coisa prevista é o imprevisto” – que vivo 24 horas por dia, e que, desde sempre, foi o modo com o qual consigo ficar desperto. E o lugar onde isto acontece, em cada instante, é a realidade. É ela que me indica o caminho, instante depois de instante... e deixo a vocês imaginarem como ela me “organiza” o tempo ou como permite à minha liberdade dizer sempre “sim”.
Dia desses, eu dizia a um amigo que tinha dúvidas sobre Jesus que o problema não era Jesus, mas as reservas que ele tinha com relação à realidade. Quando são Paulo disse que a realidade é o corpo de Cristo, ele esclareceu este problema de modo muito particular. Não disse que “o corpo de Cristo é a realidade”, porque se fosse assim eu seria sempre vítima das minhas imagens de Cristo, com todas as consequências que cada um de nós vê em si mesmo. Mas, se a realidade é o corpo de Cristo, é impossível reduzir Cristo a uma imagem minha, porque a realidade (res em latino) é um dado preciso que não nos ilude. Se parto de Cristo, quando o despertador toca eu o desligo; se parto daquilo que o despertador me revela – sim ou sim –, para me levantar da cama, devo gritar: “eu sou Tu que me fazes“.
Na Clínica, em cada ambiente há uma belíssima foto com a frase “a realidade é o corpo de Cristo”, e também há um monte de pequenas fotografias abraçadas por uma grande árvore cheia de flores. As pequenas fotos mostram uma faxineira varrendo o chão, um homem fechando a porta com cuidado, um vaso sanitário, um sapato, um altar com o padre celebrando a missa e uma cama bem arrumada. A pessoa quando topa com isso deve decidir: ou está diante da realidade com a consciência de que tudo está dentro do Mistério que o faz, ou foge nas imagens que tem de Cristo... imagens que permitem à pessoa lixar-se de tudo, com as consequências que podemos imaginar.
Por isso, foi tão comovente quando o agnóstico judeu, Rubin, o jornalista mais famoso e inteligente do Paraguai, veio visitar a clínica, gravando uma hora de programa ao vivo... e ao final disse: “Se o que eu vi é Deus, então também eu posso crer”.
Amigos, Celeste, a menina que foi trazida para cá para ser sepultada, não está mais na clínica. Foi para a Casinha de Belém, para viver junto com os meus filhinhos. Está feliz. Vejam vocês mesmos... É como Lázaro, o amigo de Jesus, ressuscitado.
Dez dos meus filhos, alguns deles vítimas de violências sexuais, fizeram a primeira confissão. Estavam felizes. Mais de um chorava, pensando na misericórdia, no amor de Jesus.
Com afeto,
Padre Aldo

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Para onde vamos?

Por Fernando Henrique Cardoso
A enxurrada de decisões governamentais esdrúxulas, frases presidenciais aparentemente sem sentido e muita propaganda talvez levem as pessoas de bom senso a se perguntarem: afinal, para onde vamos? Coloco o advérbio “talvez” porque alguns estão de tal modo inebriados com “o maior espetáculo da Terra”, de riqueza fácil que beneficia poucos, que tenho dúvidas. Parece mais confortável fazer de conta que tudo vai bem e esquecer as transgressões cotidianas, o discricionarismo das decisões, o atropelo, se não da lei, dos bons costumes. Tornou-se habitual dizer que o governo Lula deu continuidade ao que de bom foi feito pelo governo anterior e ainda por cima melhorou muita coisa. Então, por que e para que questionar os pequenos desvios de conduta ou pequenos arranhões na lei?
Só que cada pequena transgressão, cada desvio vai se acumulando até desfigurar o original. Como dizia o famoso príncipe tresloucado, nesta loucura há método. Método que provavelmente não advém do nosso príncipe, apenas vítima, quem sabe, de apoteose verbal. Mas tudo o que o cerca possui um DNA que, mesmo sem conspiração alguma, pode levar o País, devagarzinho, quase sem que se perceba, a moldar-se a um estilo de política e a uma forma de relacionamento entre Estado, economia e sociedade que pouco têm que ver com nossos ideais democráticos.
É possível escolher ao acaso os exemplos de “pequenos assassinatos”. Por que fazer o Congresso engolir, sem tempo para respirar,uma mudança na legislação do petróleo mal explicada, mal-ajambrada? Mudança que nem sequer pode ser apresentada como uma bandeira “nacionalista”, pois, se o sistema atual, de concessões, fosse “entreguista”, deveria ter sido banido, e não foi. Apenas se juntou a ele o sistema de partilha, sujeito a três ou quatro instâncias político-burocráticas para dificultar a vida dos empresários e cevar os facilitadores de negócios na máquina pública. Por que anunciar quem venceu a concorrência para a compra de aviões militares, se o processo de seleção não terminou? Por que tanto ruído e tanta ingerência governamental numa companhia (a Vale) que, se
não é totalmente privada, possui capital misto regido pelo estatuto das empresas privadas? Por que antecipar a campanha eleitoral e, sem nenhum pudor, passear pelo Brasil à custa do Tesouro (tirando dinheiro do seu, do meu, do nosso bolso...) exibindo uma candidata claudicante? Por que, na política externa, esquecer-se de que no Irã há forças democráticas, muçulmanas inclusive, que lutam contra Ahmadinejad e fazer mesuras a quem não se preocupa com a paz ou os direitos humanos?
Pouco a pouco, por trás do que podem parecer gestos isolados e nem tão graves assim, o DNA do “autoritarismo popular” vai minando o espírito da democracia constitucional. Esta supõe regras, informação, participação, representação e deliberação consciente. Na contramão disso tudo, vamos regressando a formas políticas do tempo do autoritarismo militar, quando os “projetos de impacto” (alguns dos quais viraram “esqueletos”, quer dizer, obras que deixaram penduradas no Tesouro dívidas impagáveis) animavam as empreiteiras e inflavam os corações dos ilusos: “Brasil, ame-o ou deixe-o.” Em pauta temos a Transnordestina, o trem-bala, a Norte-Sul, a transposição do São Francisco e as centenas de pequenas obras do PAC, que, boas algumas, outras nem tanto, jorram aos borbotões no Orçamento e mínguam pela falta de competência operacional ou por desvios barrados pelo Tribunal de Contas da União. Não importa, no alarido da publicidade, é como se o povo já fruísse os benefícios: “Minha Casa, Minha Vida”; biodiesel de mamona, redenção da agricultura familiar; etanol para o mundo e, na voragem de novos slogans, pré-sal para todos.
Diferentemente do que ocorria com o autoritarismo militar, o atual não põe ninguém na cadeia. Mas da própria boca presidencial saem impropérios para matar moralmente empresários, políticos, jornalistas ou quem quer que seja que ouse discordar do estilo “Brasil potência”. Até mesmo a apologia da bomba atômica como instrumento para que cheguemos ao Conselho de Segurança da ONU – contra a letra expressa da Constituição – vez por outra é defendida por altos funcionários, sem que se pergunte à cidadania qual o melhor rumo para o Brasil. Até porque o presidente já declarou que em matéria de objetivos estratégicos (como a compra dos caças) ele resolve sozinho. Pena que se tenha esquecido de acrescentar: “L’État c’est moi.” Mas não se esqueceu de dar as razões que o levaram a tal decisão estratégica: viu que havia piratas na Somália e, portanto, precisamos de aviões de caça para defender o “nosso pré-sal”. Está bem, tudo muito lógico.
Pode ser grave, mas, dirão os realistas, o tempo passa e o que fica são os resultados. Entre estes, contudo, há alguns preocupantes. Se há lógica nos despautérios, ela é uma só: a do poder sem limites. Poder presidencial com aplausos do povo, como em toda boa situação autoritária, e poder burocrático-corporativo, sem graça alguma para o povo. Este último tem método. Estado e sindicatos, Estado e movimentos sociais estão cada vez mais fundidos nos altos-fornos do Tesouro. Os partidos estão desmoralizados. Foi no “dedaço” que Lula escolheu a candidata do PT à sucessão, como faziam os presidentes mexicanos nos tempos do predomínio do PRI. Devastados os partidos, se Dilma ganhar as eleições sobrará um subperonismo (o lulismo) contagiando os dóceis fragmentos partidários, uma burocracia sindical aninhada no Estado e, como base do bloco de poder, a força dos fundos de pensão. Estes são “estrelas novas”. Surgiram no firmamento, mudaram de trajetória e nossos vorazes, mas ingênuos capitalistas recebem deles o abraço da morte. Com uma ajudinha do BNDES, então, tudo fica perfeito: temos a aliança entre o Estado, os sindicatos, os fundos de pensão e os felizardos de grandes empresas que a eles se associam.
Ora, dirão (já que falei de estrelas), os fundos de pensão constituem a mola da economia moderna. É certo. Só que os nossos pertencem a funcionários de empresas públicas. Ora, nessas, o PT, que já dominava a representação dos empregados, domina agora a dos empregadores (governo). Com isso os fundos se tornaram instrumentos de poder político, não propriamente de um partido, mas do segmento sindical-corporativo que o domina. No Brasil os fundos de pensão não são apenas acionistas – com a liberdade de vender e comprar em bolsas –, mas gestores: participam dos blocos de controle ou dos conselhos de empresas privadas ou “privatizadas”. Partidos fracos, sindicatos fortes, fundos de pensão convergindo com os interesses de um partido no governo e para eles atraindo sócios privados privilegiados, eis o bloco sobre o qual o subperonismo lulista se sustentará no futuro, se ganhar as eleições. Comecei com para onde vamos? Termino dizendo que é mais do que tempo de dar um basta ao continuísmo, antes que seja tarde.
* Extraído d'O ESTADO DE S. PAULO - Domingo, 1 de novembro de 2009 – p. A2.