sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

No Menino de Belém, gratidão e missão...


Homilia do Santo Padre Bento XVI

Sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Caros irmãos e irmãs!
No final de um ano, encontramo-nos nesta noite, na Basílica Vaticana, para celebrar as Primeiras Vésperas da solenidade de Maria Santíssima, Mãe de Deus, e elevar um hino de gratidão ao Senhor pelas inumeráveis graças que nos deu, mas também e sobretudo pela Graça em pessoa, ou seja, pelo Dom vivo e pessoal do Pai, que é o Filho seu predileto, o Senhor nosso Jesus Cristo. Exatamente esta gratidão pelos dons recebidos de Deus no tempo que nos é dado viver nos ajuda a descobrir um grande valor inscrito no tempo: marcado por seus ritmos anuais, mensais, semanais e cotidianos, ele é habitado pelo amor de Deus, pelos seus dons de graça; é tempo de salvação. Sim, o Deus eterno entrou e permanece no tempo do homem. Entrou e permanece nele com a pessoa de Jesus, o Filho de Deus feito homem, o Salvador do mundo. É o que nos foi recordado pelo apóstolo Paulo na breve leitura que acabamos de proclamar: “Quando veio a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho (...) para que recebêssemos a sua adoção” (Gal 4, 4-5).
Portanto, o Eterno entra no tempo e o renova a partir da raiz, libertando o homem do pecado e tornando-o filho de Deus. Desde “o princípio”, ou seja, com a criação do mundo e do homem no mundo, a eternidade de Deus fez o tempo florescer, no qual transcorre a história humana, de geração em geração. Ora, com a vinda de Cristo e com a sua redenção, estamos “na plenitude” do tempo. Como ressalta São Paulo, com Jesus o tempo se faz pleno, atinge a sua realização, adquirindo aquele significado de salvação e de graça querido por Deus antes mesmo da criação do mundo. O Natal nos chama a atenção para esta “plenitude” do tempo, ou seja, para a salvação renovadora trazida por Jesus a todos os homens. Chama-nos a atenção para isso e, misteriosa e realmente, no-la dá sempre de novo. O nosso tempo humano é tão carregado de males, de sofrimentos, de dramas de todos os tipos – daqueles provocados pela maldade dos homens até àqueles que derivam dos infelizes eventos naturais –, mas guarda, desde sempre e de maneira definitiva e indelével, a novidade feliz e libertadora de Cristo salvador. Exatamente no Menino de Belém podemos contemplar de modo particularmente luminoso e eloquente o encontro da eternidade com o tempo, como a liturgia da Igreja gosta de se exprimir. O Natal nos faz encontrar Deus na carne humilde e frágil de um menino. Não há aqui, talvez, um convite a para encontrar a presença de Deus e do seu amor que dá a salvação mesmo nas breves e  cansativas horas da nossa vida cotidiana? Não seria este, talvez, um convite a descobrir que o nosso tempo humano – mesmo nos momentos difíceis e pesados – é incessantemente enriquecido pelas graças do Senhor, ou melhor, pela Graça que é o Senhor mesmo?
Ao final deste ano de 2010, antes de entregar os dias e as horas a Deus e ao seu juízo justo e misericordioso, sinto mais viva no coração a necessidade de elevar o nosso “obrigado” a Ele e ao seu amor por nós. Neste clima de reconhecimento, desejo saudar particularmente o Cardeal Vigário, os Bispos Auxiliares, os sacerdotes, as pessoas consagradas, assim como os tantos fiéis leigos aqui reunidos. Saúdo o Senhor Prefeito e as Autoridades presentes. Uma recordação especial aos que estão em dificuldade e vivem, entre inconvenientes e sofrimentos, estes dias de festa. A todos e a cada um o meu afetuoso pensamento, que acompanho com a oração.
Caros irmãos e irmãs, a nossa Igreja de Roma está empenhada em ajudar a todos os batizados a viver fielmente a vocação que receberam e a testemunhar a beleza da fé. Para poder ser autênticos discípulos de Cristo, uma ajuda essencial no vem da meditação cotidiana da Palavra de Deus que, como escrevi na recente Exortação Apostólica Verbum Domini, “é a base de toda autêntica espiritualidade cristã” (n. 86). Por isto, desejo encorajar a todos a cultivar um intenso relacionamento com ela, particularmente através da lectio divina, para ter aquela luz necessária para discernir os sinais de Deus no tempo presente e para proclamar eficazmente o Evangelho. Mesmo em Roma, de fato, há sempre mais uma necessidade de um renovado anúncio do Evangelho, para que os corações dos habitantes da nossa cidade se abram ao encontro com aquele Menino que nasceu por nós, com Cristo, Redentor do homem. Visto que, como recorda o Apóstolo Paulo, “a fé vem da escuta e a escuta diz respeito à palavra de Cristo” (Rm 10, 17), uma ajuda útil a esta ação evangelizadora pode vir – como já foi experimentado durante a Missão Cidadã em preparação do Grande Jubileu do ano 2000 – dos “Centros de escuta do Evangelho”, que eu encorajo a fazer renascer ou a revitalizar não apenas nos condomínios, mas também nos hospitais, nos lugares de trabalho e naqueles onde se formam as novas gerações e se elabora a cultura. O Verbo de Deus, de fato, se fez carne para todos e a sua verdade é acessível a cada homem e a toda cultura. Tomei conhecimento, com prazer, do último empenho do Vicariado na organização dos “Diálogos na Catedral”, que transcorrerão na Basílica de São João de Latrão: estes encontros significativos exprimem o desejo da Igreja de encontrar todos aqueles que estão em busca de respostas às grandes perguntas da existência humana.
O lugar privilegiado para a escuta da Palavra de Deus é a celebração da Eucaristia. O Encontro diocesano de junho passado, do qual participei, quis evidenciar a centralidade da Santa Missa dominical na vida de toda comunidade cristã e ofereceu indicações para que a beleza dos divinos mistérios possa resplandecer ainda mais no ato celebrativo e nos frutos espirituais que deles derivam. Encorajo os párocos e os sacerdotes a colocarem em ação aquilo que foi indicado no programa pastoral: a formação de um grupo litúrgico que anime as celebrações, e uma catequese que ajude a todos a conhecerem ainda mais o mistério eucarístico, de onde jorra o testemunho da caridade. Nutridos por Cristo, também nós somos atraídos ao mesmo ato de oferta total, que impulsionou o Senhor a dar a própria vida, revelando dessa forma o imenso amor do Pai. O testemunho da caridade possui, portanto, uma dimensão essencial teologal e é profundamente unida ao anúncio da Palavra. Nesta celebração de agradecimento a deus pelos dons recebidos durante o ano, lembro de modo particular a visita que fiz ao Albergue da Caritas na Estação Termini onde, através do serviço e da generosa dedicação de numerosos voluntários, tantos homens e mulheres podem experimentar concretamente o amor de Deus. O momento presente ainda gera preocupação pela precariedade na qual vivem tantas famílias e pede a toda a comunidade diocesana para ficar próxima daqueles que vivem em condições de pobreza e de desconforto. Deus, infinito amor, inflame o coração de cada um de nós com aquela caridade que o impulsionou a dar-nos o seu Filho unigênito.
Caros irmãos e irmãs, somos convidados a olhar para o futuro e para olhá-lo com aquela esperança que é  palavra final do Te Deum: “In te, Domine, speravi: non confundar in aeternum! – Senhor, Tu és a nossa esperança, nunca seremos confundidos!”. Quem nos dá Cristo, nossa Esperança, é sempre ela, a Mãe de Deus: Maria Santíssima. Como, naquele tempo, aos Pastores e aos Magos, os seus braços e ainda mais o seu coração continuem a oferecer ao mundo Jesus, seu Filho e nosso Salvador. NEle está toda a nossa esperança, porque dEle vieram, para todos os homens, a salvação e a paz. Amém!

* Texto extraído do site do Vaticano, do dia 31 de dezembro de 2010. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

Feliz ano novo...

Ganhamos, de uma grande amiga, este presente: é uma pintura medieval, feita por um monge no monte Subiaco, na Itália. Compartilhamos com vocês!


Gratos pelo ano que passou e cheios de esperança pelo ano que vai chegar, desejamos aos amigos que passam por aqui um ano novo marcado pela certeza de Cristo presente.
Um abraço,
Paulo, Renata e Francisco

Cartas do P.e Aldo 174

Asunción, 30 de dezembro de 2010.

“Cantarei eternamente a Tua misericórdia, ó Senhor”
Olhando para este ano que me foi dado, como todos os outros 64 anos que já pertencem à minha história, uma história cheia de misérias, de fragilidade e de graça, estas palavras do salmista saem, quase como um soluço de alegria, de dentro do meu coração.
Quando me ordenaram sacerdote, olhando para a minha fragilidade, para a minha desobediência, para a minha incapacidade intelectual, coloquei no santinho, me lembro, a frase de São Francisco de Assis: “Aceita-me como sou e faz-me como queres”.
Quando fiz 25 anos de sacerdote, há quase 15 anos atrás, deixei para os amigos como recordação a frase: “Cantarei eternamente a Tua misericórdia, Senhor”.
O que pode haver de mais comovente, de mais humano, no fim de cada ano, assim como de cada dia, do que reconhecer que a misericórdia do Senhor não apenas é eterna, como também é a razão mesma do meu ser, do meu existir! O que pode haver de mais belo, no fim deste ano, cheio de fragilidade, de miséria, do que poder reconhecer como São Paulo que “onde abundou o pecado, superabundou a graça!”. Que graça, meu Deus, reconhecer que sou pecador, reconhecer que Te fizestes homem, meu Deus, graças aos meus pecados; reconhecer que se eu fosse um ser coerente, perfeito, honesto, bom, cheio de valores, Tu, meu Deus, não te terias feito carne para mim e para os meus irmãos pecadores!
Que maravilha, Senhor, ver-Te descer do céu e tomar a minha carne, o meu sangue, os meus pecados, para mostrar-me como sou pecador aos Teus olhos, quão grande é a Tua estima por mim, porque eu sou Teu, como nos lembra o profeta Isaías! Que dor, ó Jesus, me provocam aqueles homens que, para eliminar-Te da própria história, se afanam para construir sistemas perfeitos para anular a Tua presença no mundo dos pecadores!
Que angústia, ó Jesus, experimento, dia após dia, quando os meus irmãos, mesmo os sacerdotes como eu, preocupados em propor uma moral, uma ética, um compromisso social, convencidos de que isto seja o cristianismo, esquecem-se de que o cristianismo é Tu, ó Jesus, presente hoje entre e conosco!
Por que, ó Jesus, temos vergonha de Ti, a Igreja tem vergonha de Ti? Por que, ó Jesus, não levamos a sério as reiteradas palavras do Santo Padre que convidam à conversão, conversão que significa dizer “Tu, ó meu Cristo”?
Por que, como escutamos, nos últimos dias, da boca de quem “governa” este país, não reconhecemos que não estamos mais no Antigo Testamento, esperando o Messias, o mundo novo, mas que o mundo novo é um fato, um Presente? Por que não reconhecer a Tua Presença que age hoje na Igreja, casta meretrice, nos traços de milhares e milhares de pessoas que são o sinal vivo da Tua Presença?
A cristandade não é algo que começa agora, como afirma ideologicamente uma certa teologia da libertação no nosso país, porque finalmente chegou ao poder, ma é um Fato Presente há 2000 anos.
O menino não deve nascer, nasceu, nasce em cada momento na santidade de quem Te reconhece, ó Cristo, como a razão última da vida, o fim último da existência.
Por este motivo, neste fim de ano, o meu coração e o de muitos amigos, os amigos de Jesus, como o Papa define os cristãos, queremos agradecer-Te, porque, graças aos nossos pecados, Tu te fizeste carne por mim e por todos os homens.
Ó Jesus, peço-Te que acabe em mim e em todos o escândalo pelas nossas misérias, acabe em nós a mania pelos valores, o orgulho de sermos os primeiros da sala e o orgulho de sermos os protagonistas, sem Tu, da utopia de um mundo melhor.
Ó Jesus, peço-te que a Tua graça me ilumine, nos ilumine, para que tomemos consciência de que o ideal pelo qual viver não é a coerência mas a pertença a Ti, como uma criança pertence aos seus pais e, deste modo, cresce feliz.
Este ano foi grande porque grande foi a experiência da Tu infinita misericórdia que, na confissão semanal, ou mais de uma vez por semana, se tornou palpável, visível, enchendo-me de alegria.
Senhor, “eu não sou digno de que Tu entres em minha morada, mas basta uma palavra Tua e a minha alma será curada”.
Por este motivo, as palavras que mais me comoveram durante este ano foram aquelas do sacerdote que, frequentemente, traçando sobre mim o sinal da cruz, me dizia: “Eu te absolvo dos teus pecados, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém”.
"Te Deum laudamus: te Dominum confitemur... In te, Domine, speravi: non confundar in aeternum".
Padre Aldo

Te Deum



Te Deum laudamus: te Dominum confitemur.
Te æternum Patrem omnis terra veneratur.
Tibi omnes Angeli, tibi Cæli, et universæ Potestates: Tibi Cherubim et Seraphim incessabili voce proclamant: Sanctus, Sanctus, Sanctus Dominus Deus Sabaoth.
Pleni sunt cæli et terra majestatis gloriæ tuæ.
Te gloriosus Apostolorum chorus, Te Prophetarum laudabilis numerus, Te Martyrum candidatus laudat exercitus.
Te per orbem terrarum sancta confitetur Ecclesia, Patrem immensæ majestatis: Venerandum tuum verum et unicum Filium: Sanctum quoque Paraclitum Spiritum. Tu Rex gloriæ, Christe.
Tu Patris sempiternus es Filius, Tu, ad liberandum suscepturus hominem, non horruisti Virginis uterum.
Tu, devicto mortis aculeo, aperuisti credentibus regna cælorum. Tu ad dexteram, Dei sedes, in gloria Patris. Iudex crederis esse venturus.
(Ao versículo seguinte, todos se inclinam) Te ergo quæsumus, tuis famulis subveni, quos pretioso sanguine redemisti.
Æterna fac cum Sanctis tuis in gloria munerari.
Salvum fac populum tuum, Domine, et benedic hereditati tuæ.
Et rege eos, et extolle illos usque in æternum.
Per singulos dies benedicimus te; Et laudamus Nomen tuum in sæculum, et in sæculum sæculi.
Dignare, Domine, die isto sine peccato nos custodire.
Miserere nostri domine, miserere nostri.
Fiat misericordia tua, Domine, super nos, quemadmodum speravimus in te.
In te, Domine, speravi: non confundar in æternum.
V. Benedicamus Patrem, et Filium, cum Sancto Spiritu.
R. Laudemus, et superexaltemus eum in sæcula.
V. Benedictus es, Domine, in firmamento cæli.
R. Et laudabilis, et gloriosus, et superexaltatus in sæcula.
V. Domine, exaudis orationem meam.
R. Et clamor meus ad te veniat.
V. Dominus vobiscum.
R. Et cum spiritu tuo.
Oremus.
Deus, cujus misericordiæ non est numerus, et bonitatis infinitus est thesaurus: + piissimæ maiestati tuæ pro collatis donis gratias agimus, tuam semper clementiam exorantes; * ut, qui petentibus postulata concedis, eosdem non deserens, ad præmia futura disponas. Per Christum Dominum nostrum.
R. Amen.

A Vós, ó Deus

A Vós, ó Deus, louvamos e por Senhor nosso Vos confessamos.
A Vós, ó Eterno Pai, reverencia e adora toda a Terra.
A Vós, todos os Anjos, a Vós, os Céus e todas as Potestades;
A Vós, os Querubins e Serafins com incessantes vozes proclamam:
Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus dos Exércitos!
Os Céus e a Terra estão cheios da vossa glória e majestade.
A Vós, o glorioso coro dos Apóstolos,
A Vós, a respeitável assembleia dos Profetas,
A Vós, o brilhante exército dos mártires engrandece com louvores!
A Vós, Eterno Pai, Deus de imensa majestade,
Ao Vosso verdadeiro e único Filho,
digno objecto das nossa a adorações,
Do mesmo modo ao Espírito Santo, nosso consolador e advogado.
Vós sois o Rei da Glória, ó meu Senhor Jesus Cristo!
Vós sois Filho sempiterno do vosso Pai Omnipotente!
Vós, para vos unirdes ao homem e o resgatardes
não Vos dignastes de entrar no casto seio duma Virgem!
Vós, vencedor do estímulo da morte,
abristes aos fiéis o Reino dos Céus,
Vós estais sentado à direita de Deus,
no glorioso trono do vosso Pai!
Nós cremos e confessamos firmemente
que de lá haveis de vir a julgar no fim do mundo.
A Vós portanto rogamos que socorrais os vossos servos
a quem remistes como vosso preciosíssimo Sangue.
Fazei que sejamos contados na eterna glória,
entre o número dos vossos Santos.
Salvai, Senhor, o vosso povo e abençoai a vossa herança,
E regei-os e exaltai-os eternamente para maior glória vossa.
Todos os dias Vos bendizemos
E esperamos glorificar o vosso nome agora e por todos os séculos.
Dignai-Vos, Senhor, conservar-nos neste dia
e sempre sem pecado.
Tende compaixão de nós, Senhor,
compadecei-Vos de nós, miseráveis.
Derramai sobre nós, Senhor, a vossa misericórdia,
pois em Vós colocamos toda a nossa esperança.
Em Vós, Senhor, esperei, não serei confundido.

Comentário ao evangelho do dia

São Silvestre

Evangelho - Jo 1,1-18
No princípio era a Palavra, e a Palavra estava com Deus; e a Palavra era Deus. No princípio estava ela com Deus. Tudo foi feito por ela e sem ela nada se fez de tudo que foi feito. Nela estava a vida, e a vida era a luz dos homens. E a luz brilha nas trevas, e as trevas não conseguiram dominá-la. Surgiu um homem enviado por Deus; Seu nome era João. Ele veio como testemunha, para dar testemunho da luz, para que todos chegassem à fé por meio dele. Ele não era a luz, mas veio para dar testemunho da luz: daquele que era a luz de verdade, que, vindo ao mundo, ilumina todo ser humano. A Palavra estava no mundo - e o mundo foi feito por meio dela - mas o mundo não quis conhecê-la. Veio para o que era seu, e os seus não a acolheram. Mas, a todos que a receberam, deu-lhes capacidade de se tornarem filhos de Deus isto é, aos que acreditam em seu nome, pois estes não nasceram do sangue nem da vontade da carne nem da vontade do varão, mas de Deus mesmo. E a Palavra se fez carne e habitou entre nós. E nós contemplamos a sua glória, glória que recebe do Pai como filho unigênito, cheio de graça e de verdade. Dele, João dá testemunho, clamando: "Este é aquele de quem eu disse: O que vem depois de mim passou à minha frente, porque ele existia antes de mim". De sua plenitude todos nós recebemos graça por graça. Pois por meio de Moisés foi dada a Lei, mas a graça e a verdade nos chegaram através de Jesus Cristo. A Deus, ninguém jamais viu. Mas o Unigênito de Deus, que está na intimidade do Pai, ele no-lo deu a conhecer.

Comentário feito por São Máximo de Turim (?-c. 420)
bispo 

Caríssimos irmãos, há dois nascimentos em Cristo, e tanto um como o outro são a expressão de um poder divino que nos ultrapassa absolutamente. Por um lado, Deus gera o Seu Filho a partir de Si mesmo; por outro, Ele é concebido por uma virgem por intervenção de Deus. [...] Por um lado, Ele nasce para criar a vida; por outro, para eliminar a morte. Ali, nasce de Seu Pai; aqui, é trazido ao mundo pelos homens. Por ter sido gerado pelo Pai, está na origem do homem; por ter nascido humanamente, liberta o homem. Uma e outra formas de nascimento são propriamente inexprimíveis e ao mesmo tempo inseparáveis. [...] Quando ensinamos que há dois nascimentos em Cristo, não queremos com isto dizer que o Filho de Deus nasça duas vezes; mas afirmamos a dualidade de natureza num só e mesmo Filho de Deus. Por um lado, nasceu Aquele que já existia; por outro, foi produzido Aquele que ainda não existia. O bem-aventurado evangelista João afirma isto mesmo com as seguintes palavras: "No princípio existia o Verbo; o Verbo estava em Deus; e o Verbo era Deus"; e ainda: "E o Verbo fez-Se homem".Assim, pois, Deus, que estava junto de Deus, saiu Dele, e a carne de Deus, que não estava Nele, saiu de uma mulher. Assim, o Verbo fez-Se carne, não de maneira que Deus Se diluísse no homem, mas para que o homem fosse gloriosamente elevado em Deus. É por isso que Deus não nasce duas vezes; mas, por estes dois géneros de nascimentos – a saber, o de Deus e o do homem –, o Filho único do Pai quis ser, a um tempo, Deus e homem na mesma pessoa: "E quem poderá contar o Seu nascimento?" (Is 53, 8 Vulg).

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Comentário ao evangelho do dia

Evangelho - Lc 2,22-35
Quando se completaram os dias para a purificação da mãe e do filho, conforme a Lei de Moisés, Maria e José levaram Jesus a Jerusalém, a fim de apresentá-lo ao Senhor. Conforme está escrito na Lei do Senhor: "Todo primogênito do sexo masculino deve ser consagrado ao Senhor". Foram também oferecer o sacrifício - um par de rolas ou dois pombinhos - como está ordenado na Lei do Senhor. Em Jerusalém, havia um homem chamado Simeão, o qual era justo e piedoso, e esperava a consolação do povo de Israel. O Espírito Santo estava com ele e lhe havia anunciado que não morreria antes de ver o Messias que vem do Senhor. Movido pelo Espírito, Simeão veio ao Templo. Quando os pais trouxeram o menino Jesus para cumprir o que a Lei ordenava, Simeão tomou o menino nos braços e bendisse a Deus: "Agora, Senhor, conforme a tua promessa, podes deixar teu servo partir em paz; porque meus olhos viram a tua salvação, que preparaste diante de todos os povos: luz para iluminar as nações e glória do teu povo Israel". O pai e a mãe de Jesus estavam admirados com o que diziam a respeito dele. Simeão os abençoou e disse a Maria, a mãe de Jesus: "Este menino vai ser causa tanto de queda como de reerguimento para muitos em Israel. Ele será um sinal de contradição. Assim serão revelados os pensamentos de muitos corações. Quanto a ti, uma espada te traspassará a alma".

Comentário feito por Santo Inácio de Antioquia (?-c. 110)
bispo e mártir 

Hoje, começo a ser discípulo. Que criatura alguma, visível ou invisível, me impeça de ir ter com Jesus Cristo. [...] Nem os mais cruéis suplícios me perturbam, a única coisa que desejo é estar com Jesus Cristo. De que me servem as doçuras deste mundo e os impérios da terra? Mais vale morrer por Cristo Jesus que reinar até aos confins do universo. É a Ele que procuro, a Ele que morreu por nós; é a Ele que desejo, a Ele que ressuscitou por nós. Aproxima-se o momento do meu nascimento. [...] Deixai-me abraçar a luz puríssima. Nessa altura, serei um homem. Permiti-me imitar a paixão do meu Deus. [...] Os meus desejos terrenos estão crucificados, já não tenho em mim fogo para amar a matéria, mas apenas a "água viva" (Jo 7, 38) que murmura e me segreda ao coração: "Vem para junto do Pai". Não quero continuar a saborear os alimentos perecíveis nem as doçuras desta vida. É do pão de Deus que tenho fome, da carne de Jesus Cristo, Filho de David, e como bebida quero o Seu sangue, que é o amor incorruptível. 

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Cartas do P.e Aldo 173



Asunción, 23 de dezembro de 2010.

Caros amigos,
Jesus levou consigo, para o céu, a minha pequena Liz de 5 anos de idade. Estava conosco na clínica há três meses, por causa de um câncer na cabeça. Morreu ontem, deixando-nos a todos com o coração em pedaços e cheio de perguntas: “Padre, nesta manhã tive medo de não dar mais conta de ver tanta dor”, me disse a secretária da Clínica. E teria razão se Cristo não estivesse aqui, agora. Sem aquela criança que o Natal nos repropõe como um Fato vivo, contemporâneo, será que valeria a pena viver?
Pessoalmente, não conseguiria viver um minuto a mais rodeado por tanto dor como o sou, pelos mil “por ques” da mãe de Liz, uma mulher que me fez lembrar a mãe da pequena Cecília, que morreu de cólera, no romance de Manzoni. Quanto anos se passaram desde a leitura daquele capítulo, e no entanto ainda hoje me comove, como um sinal profético daquilo para o que eu seria chamado a viver todos os dias. Vocês entendem agora por que não posso ficar um segundo sequer sem gritar “Tu, ó meu Cristo”? Ou sem fazer de vocês partícipes daquilo que me acontece, para que, juntos, aprendamos aquilo que Carrón nos testemunha? Ontem, quando Liz morreu, pensei imediatamente nele, nas últimas Escolas de Comunidade sobre o sacrifício, sobre o valor que tem e no que consiste. Só assim me torno sempre mais consciente do fato de que é desumano, insuportável viver, respirar um segundo que seja sem que ele seja tudo para nós, sem que também para nós seja vibrante aquilo que São Paulo diz – “para mim, viver é Cristo e morrer é um ganho”. Quando, ontem, eu estava ao lado do leito de Liz, agonizante, os olhos semicerrados, as respiração difícil, a mãe de pé com uma lágrima nos olhos, quase paralisada pela dor, eu não conseguia, beijando Liz, não sentir presente o Mistério que estava para levar para si, no Paraíso, a pequena. Ela morreu como Jesus: por mim, por meus pecados e os de todos nós. O meu sacrifício é a estima de Jesus que, por mim, por vocês, desceu do céu  e se fez uma criança e, depois, morreu e ressuscitou por mim e por vocês.
É desconcertante, comovente, dar-se conta de que Jesus, antes da minha pequena Liz, fez o mesmo percurso humano. Nós a vestimos como um anjo, com uma coroa na cabecinha, como se fosse um pequena rainha. Sim, porque ela é uma rainha, como todos nós que fomos batizados. E, depois, a colocamos num caixão branco – a caixinha onde os seus ossos esperarão a ressurreição final.
Hoje, enquanto Liz era sepultada, fizemos um presépio vivo: o Menino Jesus foi um dos bebês da Casinha de Belém, de apenas três meses de vida. Depois, as outras crianças representando as ovelhinhas; os doentes, os ancião representando os pastores e os reis magos; e também alguns de nós que vivemos com eles. Cada um fez a sua parte. Foi, neste mar de dor, uma explosão de vida e de alegria. De fato, aqui, reina a vida, porque aquele “Tu, ó meu Cristo” é a única razão daquilo que existe e vive aqui. Amigos, que os nossos olhos, nestes dias e sempre, dentro de toda situação, mesmo a mais negra, estejam exclusivamente fixos em Jesus, para que possamos viver comovidos em cada instante da vida.
Amigos, mas o que pode haver de mais belo do que dizer “Tu, ó meu Cristo”?
Padre Aldo

domingo, 26 de dezembro de 2010

Comentário ao evangelho do dia

Sagrada Família de Jesus, Maria e José

1ª Leitura - Eclo 3,3-7.14-17a (gr.2-6.12-14)
Deus honra o pai nos filhos e confirma, sobre eles, a autoridade da mãe. Quem honra o seu pai, alcança o perdão dos pecados; evita cometê-los e será ouvido na oração cotidiana. Quem respeita a sua mãe é como alguém que ajunta tesouros. Quem honra o seu pai, terá alegria com seus próprios filhos; e, no dia em que orar, será atendido. Quem respeita o seu pai, terá vida longa, e quem obedece ao pai é o consolo da sua mãe. Meu filho, ampara o teu pai na velhice e não lhe causes desgosto enquanto ele vive. Mesmo que ele esteja perdendo a lucidez, procura ser compreensivo para com ele; não o humilhes, em nenhum dos dias de sua vida, a caridade feita a teu pai não será esquecida, mas servirá para reparar os teus pecados e, na justiça, será para tua edificação.

2ª Leitura - Cl 3,12-21
Irmãos, vós sois amados por Deus, sois os seus santos eleitos. Por isso, revesti-vos de sincera misericórdia, bondade, humildade, mansidão e paciência, suportando-vos uns aos outros e perdoando-vos mutuamente, se um tiver queixa contra o outro. Como o Senhor vos perdoou, assim perdoai vós também. Mas, sobretudo, amai-vos uns aos outros, pois o amor é o vínculo da perfeição. Que a paz de Cristo reine em vossos corações, à qual fostes chamados como membros de um só corpo. E sede agradecidos. Que a palavra de Cristo, com toda a sua riqueza, habite em vós. Ensinai e admoestai-vos uns aos outros com toda a sabedoria. Do fundo dos vossos corações, cantai a Deus salmos, hinos e cânticos espirituais, em ação de graças. Tudo o que fizerdes, em palavras ou obras, seja feito em nome do Senhor Jesus Cristo. Por meio dele dai graças a Deus, o Pai. Esposas, sede solícitas para com vossos maridos, como convém, no Senhor. Maridos, amai vossas esposas e não sejais grosseiros com elas. Filhos, obedecei em tudo aos vossos pais, pois isso é bom e correto no Senhor. Pais, não intimideis os vossos filhos, para que eles não desanimem.

Evangelho - Mt 2,13-15.19-23
Depois que os magos partiram, o Anjo do Senhor apareceu em sonho a José e lhe disse: "Levanta-te, pega o menino e sua mãe e foge para o Egito! Fica lá até que eu te avise! Porque Herodes vai procurar o menino para matá-lo". José levantou-se de noite, pegou o menino e sua mãe, e partiu para o Egito. Ali ficou até à morte de Herodes, para se cumprir o que o Senhor havia dito pelo profeta: "Do Egito chamei o meu Filho". Quando Herodes morreu, o anjo do Senhor apareceu em sonho a José, no Egito, e lhe disse: "Levanta-te, pega o menino e sua mãe, e volta para a terra de Israel; pois aqueles que procuravam matar o menino já estão mortos". José levantou-se, pegou o menino e sua mãe, entrou na terra de Israel. Mas, quando soube que Arquelau reinava na Judéia, no lugar de seu pai Herodes, teve medo de ir para lá. Por isso, depois de receber um aviso em sonho, José retirou-se para a região da Galiléia, e foi morar numa cidade chamada Nazaré. Isso aconteceu para se cumprir o que foi dito pelos profetas: "Ele será chamado Nazareno".

Comentário feito por Santo Afonso Maria de Ligório (1696-1787)
bispo e Doutor da Igreja

Um anjo apareceu em sonhos a São José, e avisou-o de que Herodes andava à procura do Menino Jesus para Lhe tirar a vida: "Levanta-te, toma o Menino e Sua Mãe e foge para o Egito". Assim pois, ainda mal nasceu, já Jesus é perseguido de morte. [...] José obedece sem demora à voz do anjo, acordando sua santa esposa. Pega em algumas ferramentas que pudesse levar consigo, a fim de exercer a sua profissão no Egito e de ter com que sustentar a família. Maria, por seu turno, reúne as roupas necessárias a seu divino Filho; e depois, aproximando-se do berço onde Ele repousava, ajoelha-se, beija os pés de seu querido Filho e, por entre lágrimas de ternura, diz-Lhe: "Meu Filho e meu Deus, que vieste ao mundo para salvar os homens; ainda mal nasceste e já os homens vêm à Tua procura para Te dar a morte!". Pega Nele e, continuando a chorar, os dois santos esposos fecham a porta e põem-se a caminho durante a noite. [...] Meu bem-amado Jesus, Tu és o Rei do Céu e vejo-Te errar como fugitivo sob a aparência de uma criança. Que procuras? Diz-me. A Tua pobreza e o Teu abaixamento emocionam-me de compaixão; mas aquilo que me aflige mais é a negra ingratidão com que Te vejo tratado por aqueles que vieste salvar. Tu choras, e também eu choro, por ter sido um daqueles que Te desprezaram e Te perseguiram; a partir de agora, porém, preferirei a Tua graça a todos os reinos do mundo. Perdoa-me todos os ultrajes que Te fiz; permite-me que, na viagem desta vida para a eternidade, Te leve no meu coração, a exemplo de Maria, que Te levou nos seus braços durante a fuga para o Egito. Meu Redentor bem-amado, foram muitas as vezes em que Te expulsei da minha alma, mas tenho confiança, agora que voltaste a tomar conta dela. E suplico-Te que a prendas a ti pelas doces correntes do Teu amor.

No mistério da encarnação, o homem e a história: o prodígio que todos esperamos

Por Julián Carrón

“Toda a minha vida foi também atravessada pelo sentimento de que o cristianismo traz alegria, dá dimensão. Por fim, também seria impossível suportar a vida como alguém que é sempre do contra.” (Luz do Mundo, p. 21). Estas palavras de Bento XVI lançam-nos um desafio: o que significa ser cristãos hoje? Continuar a crer simplesmente por tradição, devoção ou costume, fechando-se na própria concha, não está à altura do desafio. Da mesma forma, reagir com força e ir contra para recuperar o terreno perdido é insuficiente. O Papa chega a dizer que é “insuportável”. Um e outro caminho – retirar-se do mundo ou ser do contra – não são capazes, no fundo, de suscitar interesse pelo cristianismo, porque nenhum dos dois respeita aquilo que sempre será o cânone do anúncio cristão: o Evangelho. Jesus colocou-se no mundo com uma capacidade de atração que fascinou os homens do seu tempo. Como diz Péguy. “Ele não perdeu os seus anos gemendo e interpelando a maldade dos tempos. Ele cortou fundo... Fazendo o cristianismo”. Cristo introduziu na história uma presença humana tão fascinante que quem que se deparava com ela tinha de levá-la em consideração. Para recusá-la ou aceitá-la. A ninguém deixou indiferente.
Hoje estamos todos diante de uma “crise do humano”, que se atesta como cansaço e desinteresse pela realidade e que envolve todos os âmbitos que dizem respeito à vida das pessoas. É uma desgraça para todos, com efeito, que as pessoas não se ponham em jogo com a sua razão e a sua liberdade. E exatamente neste momento a Igreja tem diante de si uma aventura fascinante, a mesma das origens: testemunhar que existe algo capaz de despertar e suscitar um interesse verdadeiro. “Também o meu coração espera, / olhando para a luz e para a vida, / outro prodígio da primavera”. Todos nós, como o poeta Antonio Machado, esperamos o milagre da primavera no qual possamos ver realizar-se a nossa vida. E se alguém disser, ainda com o poeta, que é um sonho, por que o esperamos? Porque essa espera nos constitui no íntimo, como escreve Bento XVI: “Vimos como o homem anseia por uma alegria infinita, deseja o prazer até ao extremo, quer o infinito” (Luz do Mundo, p. 68). Mas o homem pode decair, o mundo pode procurar arrancar esse desejo do infinito minimizando-o; pode até zombar dele oferecendo algo que atrai por certo tempo, mas que não dura, e no fim nos deixa só mais insatisfeitos e mais céticos. Ora, a prova da veracidade daquilo que fascina e desperta um interesse é que deve durar. Mas mesmo as coisas mais bonitas – vê-se isso quando se ama uma pessoa ou quando se inicia um novo trabalho – acabam. O problema da vida, então, é se existe alguma coisa que dure.
O cristianismo tem a pretensão – porque a sua origem não é humana, embora possa ser vista nos rostos dos homens que o encontraram – de ser portador da única resposta capaz de durar no tempo e na eternidade. Porém, um cristianismo reduzido não é capaz de oferecer isso. Sabemos por experiência que existe um modo abstrato de falar da fé que não suscita a mínima curiosidade. Se o cristianismo não for respeitado na sua natureza, tal como se apresentou na história, não poderá lançar raízes no coração. O cristianismo é sempre colocado à prova perante o desejo do coração, e não se pode libertar disso: foi o próprio Cristo que se submeteu a esta prova. O aspecto fascinante é que Deus, despojando-se do Seu poder, fez-se homem para respeitar a dignidade e a liberdade de cada um. Encarnando, é como se tivesse dito ao homem: “Observa um pouco se, vivendo em contato comigo, encontras algo interessante que torne a tua vida mais plena, maior, mais feliz. Aquilo que não és capaz de obter com teus esforços, podes obter se me seguires”. Foi assim desde o início. Quando os dois primeiros discípulos perguntam: “Onde moras?”, Ele responde: “ Vinde e vede”. A sua simplicidade é desarmante. Deus confia-se ao juízo dos primeiros dois que O encontram. O homem não pode evitar comparar continuamente aquilo que acontece com as suas exigências fundamentais.
Qualquer um poderia argumentar que no tempo de Jesus viam-se os milagres, mas que hoje já não é tempo de prodígios. Não é assim, pois essa experiência continua a ter lugar, como no primeiro dia: quando encontras pessoas que despertam em ti um interesse e uma atração tais que te obrigam a fazer contas com o que te aconteceu. Como disse o Papa, “Deus não Se impõe, [...] A sua presença é um encontro que chega ao que há de mais íntimo e profundo no homem,” (Luz do Mundo, p. 166-167).
Há alguns anos um amigo meu foi estudar árabe no Cairo. Conheceu um professor muçulmano. O encontro podia ter-se desenvolvido conforme os estereótipos de um e de outro. Mas aconteceu algo inesperado: eles ficaram amigos. O muçulmano perguntou ao meu amigo por que era cristão, e este o convidou para vir à Itália, onde conheceu o Meeting de Rímini. Arrastado pelo encontro com uma realidade humana diversa, quis realizar o Meeting do Cairo, envolvendo muitos jovens egípcios, muçulmanos e cristãos.
Recentemente, em Moscou, conheci pessoas que até há pouco tempo nada tinham que ver com a fé. Descobriram-na encontrando cristãos que despertaram nelas a curiosidade. Algumas eram batizadas na Igreja ortodoxa e interessaram-se pelo cristianismo – coisa que nunca tinham feito antes – graças a amigos que o viviam com intensidade e plenitude. Não são histórias do passado, mas algo que acontece agora, no presente. Na sua recente visita à Espanha, Bento XVI convidou a um diálogo entre laicidade e fé. E como fez isso? Indicando uma presença, uma testemunha, Gaudí, que com a Sagrada Família “foi capaz de criar [...] um espaço de beleza, de fé e de esperança, que leva o homem ao encontro com Aquele que é a Verdade e a própria Beleza”. O Papa desafiou a todos tornando contemporâneo o olhar de Cristo e indicando a experiência nova que Ele introduz na vida: qualquer um pode interessar-se por ela ou rejeitá-la. Quando Bento XVI nos chama à conversão está dizendo-nos que, para dar testemunho de Cristo, para sermos “transparência de Cristo para o mundo”, precisamos percorrer um caminho até descobrir a pertinência da fé com as exigências da nossa vida. Não sei se algum católico pode sentir-se excluído do chamamento do Papa. Eu não.

* Texto extraído do site oficial de Comunhão e Libertação, do dia 23 de dezembro de 2010. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Quid est veritas? Est Vir qui adest...

Discurso do Santo Padre Bento XVI

À Federação Italiana dos Semanários Católicos

Sala Clementina, sexta-feira, 26 de novembro de 2010.

Prezados irmãos e irmãs!
Estou feliz por me encontrar convosco, por ocasião da Assembleia da Federação Italiana dos Semanários Católicos. Dirijo a minha cordial saudação a Mons. Mariano Crociata, Secretário da Conferência Episcopal Italiana, aos Prelados e Sacerdotes presentes, bem como a Padre Giorgio Zucchelli, Presidente da Federação, a quem agradeço as amáveis palavras. Saúdo todos vós, dirigentes e colaboradores dos 188 jornais católicos representados na Federação; de modo particular, o Diretor da Agência SIR e o Diretor do jornal Avvenire. Estou grato por este encontro, com o qual vós manifestais a vossa fidelidade à Igreja e ao seu magistério; agradeço-vos também o apoio que continuais a oferecer para a coleta do Óbolo de São Pedro e para as iniciativas benéficas promovidas e sustentadas pela Santa Sé.
A Federação Italiana dos Semanários Católicos reúne as publicações semanais diocesanas e os vários órgãos de imprensa de inspiração católica de toda a península itálica. Ela surgiu em 1966 para responder à exigência de desenvolver sinergias e colaborações, destinadas a favorecer a preciosa tarefa de fazer conhecer a vida, a atividade e o ensinamento da Igreja. Criando canais de comunicação entre os diversos organismos de imprensa locais, espalhados por toda a Itália, desejou-se responder à exigência de promover a colaboração e dar uma certa organicidade às várias potencialidades intelectuais e criativas, precisamente para aumentar a eficácia e a incisividade do anúncio da mensagem evangélica. Esta é a função peculiar dos jornais de inspiração católica: anunciar a Boa Nova através da narração dos acontecimentos concretos que são vividos pelas comunidades cristãs e das situações reais em que elas mesmas estão inseridas. Como uma pequena quantidade de fermento, misturado com a farinha, faz levedar toda a massa, assim também a Igreja, presente na sociedade, faz crescer e amadurecer aquilo que nela existe de verdadeiro, de bom e de belo; quanto a vós, tendes a tarefa de prestar contas desta presença, que promove e fortalece aquilo que é autenticamente humano e que transmite ao homem de hoje a mensagem de verdade e de esperança do Senhor Jesus.
Como bem sabeis, no contexto da pós-modernidade em que vivemos, um dos desafios culturais mais importantes diz respeito ao modo de entender a verdade. A cultura predominante, aquela que é mais difundida no areópago midiático, assume em relação à verdade uma atitude cética e relativista, considerando-a como simples opinião e, por conseguinte, legitimando como compatíveis e legítimas muitas "verdades". Mas o desejo que existe no coração do homem dá testemunho da impossibilidade de se contentar com verdades parciais; por isso, a pessoa humana "tende a uma verdade superior, que seja capaz de explicar o sentido da vida; trata-se, por conseguinte, de algo que só pode encontrar êxito no absoluto" (João Paulo II, Encíclica Fides et ratio, 33). A verdade, da qual o homem tem sede, é uma pessoa: o Senhor Jesus. No encontro com esta Verdade, ao conhecê-la e amá-la, nós encontramos a paz autêntica e a felicidade genuína. A missão da Igreja consiste em criar as condições para que se realize este encontro do homem com Cristo. Colaborando para esta tarefa, os órgãos de informação são chamados a servir a verdade com coragem, em vista de ajudar a opinião pública a observar e a interpretar a realidade a partir de um ponto de vista evangélico. Trata-se de apresentar as razões da fé que, enquanto tais, vão além de qualquer visão ideológica e têm pleno direito de cidadania no debate público. É desta exigência que nasce o vosso compromisso constante de dar voz a um ponto de vista que reflita o pensamento católico em todas as questões éticas e sociais.
Estimados amigos, a importância da vossa presença é testemunhada pela difusão minuciosa dos jornais por vós representados. Esta difusão passa através do instrumento do papel impresso que, precisamente pela sua simplicidade, continua a ser uma caixa de ressonância eficaz daquilo que acontece no interior das diversas realidades diocesanas. Por isso, exorto-vos a dar continuidade ao vosso serviço de informação a respeito das vicissitudes que marcam o caminho das comunidades, da sua vida cotidiana e das numerosas iniciativas caritativas e benéficas que elas promovem. Continuai a ser jornais do povo, que procuram favorecer um diálogo autêntico entre os vários componentes sociais, academias de confronto e de debate leal entre diversas opiniões. Deste modo os jornais católicos, enquanto cumprem a importante tarefa de informar, realizam ao mesmo tempo uma insubstituível função formativa, promovendo uma inteligência evangélica da realidade complexa, assim como a educação de consciências críticas e cristãs. Com isto, vós respondeis também ao apelo da Conferência Episcopal Italiana, que pôs no centro do compromisso pastoral da próxima década o desafio educativo, a necessidade de dar ao povo cristão uma formação sólida e robusta.
Caros irmãos e irmãs, cada cristão, através do sacramento do Batismo, torna-se templo do Espírito Santo e, imerso na morte e na ressurreição do Senhor, é consagrado a Ele e pertence-lhe. Também vós, para cumprir a vossa importante tarefa, tendes de cultivar em primeiro lugar um vínculo constante e profundo com Cristo; somente a profunda comunhão com Ele vos tornará capazes de transmitir o anúncio da Salvação ao homem contemporâneo! Na laboriosidade e na dedicação ao vosso trabalho cotidiano sabei dar testemunho da vossa fé, o grande dom gratuito da vocação cristã. Continuai a manter-vos na comunhão eclesial com os vossos Pastores, de maneira a poderdes colaborar com eles como diretores, redatores e administradores de semanários católicos, na missão evangelizadora da Igreja.
Ao despedir-me de vós, gostaria de vos assegurar a minha recordação em sufrágio do saudoso Mons. Franco Peradotto, falecido recentemente, primeiro presidente da Federação Italiana dos Semanários Católicos e, durante muito tempo, diretor da Voce del Popolo, de Turim. Enquanto confio a Federação e o vosso trabalho à intercessão celestial da Virgem Maria e de São Francisco de Sales, concedo-vos de coração, a vós e a todos os vossos colaboradores, a Bênção Apostólica.

* Texto extraído do site do Vaticano, do dia 26 de novembro de 2010. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

Acreditar em Jesus exige novo olhar sobre o homem


Homilia do Papa Bento XVI

Basílica Vaticana, sábado, 27 de novembro de 2010.

Prezados irmãos e irmãs!
Com esta celebração vespertina, o Senhor concede-nos a graça e a alegria de inaugurar o novo Ano litúrgico, a começar pela sua primeira etapa: o Advento, o período que faz memória da vinda de Deus no meio de nós. Cada início traz consigo uma graça particular, porque é abençoado pelo Senhor. Neste Advento, mais uma vez, poderemos fazer a experiência da proximidade daquele que criou o mundo, que orienta a história e que cuidou de nós, chegando até ao ápice da sua condescendência, fazendo-se homem. É precisamente o mistério grandioso e fascinante do Deus-conosco, aliás do Deus que se faz um de nós, que celebraremos nas próximas semanas, caminhando rumo ao Santo Natal. Durante o tempo de Advento, sentiremos a Igreja que nos toma pela mão e, à imagem de Maria Santíssima, exprime a sua maternidade levando-nos a experimentar a expectativa jubilosa da vinda do Senhor, que a todos nos abraça no seu amor que salva e consola.
Enquanto os nossos corações se preparam para a celebração anual do nascimento de Cristo, a liturgia da Igreja orienta o nosso olhar para a meta definitiva: o encontro com o Senhor que há de vir no esplendor da glória. Por isso nós que, em cada Eucaristia, "anunciamos a sua morte, proclamamos a sua ressurreição e aguardamos a sua vinda" vigiamos em oração. A liturgia não se cansa de nos encorajar e animar, pondo nos nossos lábios, nos dias de Advento, o clamor com o qual se encerra toda a Sagrada Escritura, na última página do Apocalipse de São João: "Vinde, Senhor Jesus!" (22, 20).
Estimados irmãos e irmãs, a nossa reunião desta tarde, para dar início ao caminho de Advento, enriquece-se com outro motivo importante: juntamente com toda a Igreja, queremos celebrar solenemente uma vigília de oração pela vida nascente. Desejo manifestar o meu agradecimento a todos aqueles que aderiram a este convite, bem como a quantos se dedicam de modo específico ao acolhimento e à conservação da vida humana nas diversificadas situações de fragilidade, de modo particular no seu início e nos seus primeiros passos. É precisamente o começo do Ano litúrgico que nos faz viver novamente a expectativa de Deus que se faz carne no seio da Virgem Maria, de Deus que se faz pequenino, que se torna menino; fala-nos da vinda de um Deus próximo, que quis voltar a percorrer a vida do homem desde os primórdios, e isto para a salvar totalmente, em plenitude. E assim, o mistério da Encarnação do Senhor e o início da vida humana estão íntima e harmoniosamente ligados entre si, no único desígnio salvífico de Deus, Senhor da vida de todos e de cada um. A Encarnação revela-nos com uma luz intensa, e de modo surpreendente, que cada vida humana tem uma dignidade altíssima, incomparável.
O homem apresenta uma originalidade inconfundível em relação a todos os outros seres vivos que povoam a terra. Apresenta-se como sujeito único e singular, dotado de inteligência e de vontade livre, mas também composto de uma realidade material. Vive, simultânea e inseparavelmente, na dimensão espiritual e na dimensão corporal. Sugere-o também o texto da primeira Carta aos Tessalonicenses, que foi proclamado: "O Deus da paz — escreve São Paulo — vos conceda a santidade perfeita. Que todo o vosso ser, espírito, alma e corpo, seja conservado irrepreensível para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo!" (5, 23). Portanto somos espírito, alma e corpo. Fazemos parte deste mundo, estamos ligados às possibilidades e aos limites da condição material; ao mesmo tempo, estamos abertos a um horizonte infinito, capazes de dialogar com Deus e de O receber em nós. Trabalhamos nas realidades terrenas e, através delas, podemos sentir a presença de Deus e tender para Ele, que é verdade, bondade e beleza absoluta. Saboreamos fragmentos de vida e de felicidade, enquanto aspiramos à plenitude total.
Deus nos ama de modo profundo, total, sem distinções; chama-nos à amizade com Ele; torna-nos partícipes de uma realidade que está acima de toda a imaginação e de qualquer pensamento e palavra: a sua própria vida divina. Com emoção e gratidão, tomamos consciência do valor, da dignidade incomparável de cada pessoa humana e da grande responsabilidade que temos para com todos. "Cristo, novo Adão — afirma o Concílio Vaticano II — na própria revelação do mistério do Pai e do seu amor, revela o homem a si mesmo e descobre-lhe a sua vocação sublime... pela sua encarnação, Ele, o Filho de Deus, uniu-se de certo modo a cada homem" (Constituição Gaudium et spes, 22).
Acreditar em Jesus Cristo exige também um novo olhar sobre o homem, um olhar de confiança, de esperança. De resto, a própria experiência e a reta razão dão testemunho de que o ser humano é um sujeito capaz de entender e querer, autoconsciente e livre, irrepetível e insubstituível, ápice de todas as realidades terrenas, que deve ser reconhecido como valor em si mesmo e merece o acolhimento com respeito e amor. Ele tem o direito de não ser tratado como um objeto a possuir, ou como algo que se pode manipular a bel-prazer, o direito de não ser reduzido a puro instrumento, em vantagem de outrem e dos seus interesses. A pessoa é um bem em si mesma, e é necessário buscar sempre o seu desenvolvimento integral.
Além disso, se for sincero, o amor por todos tende espontaneamente a tornar-se preferencial pelos mais fracos e pobres. É nesta linha que se insere a solicitude da Igreja pela vida nascente, a mais frágil, a mais ameaçada pelo egoísmo dos adultos e pelo obscurecimento das consciências. A Igreja reitera continuamente aquilo que já o Concílio Vaticano II declarava contra o aborto e contra toda a violação da vida nascente: "A vida deve, pois, ser salvaguardada com extrema solicitude desde o primeiro momento da sua concepção" (Ibid., n. 51).
Existem tendências culturais que procuram entorpecer as consciências com motivações oportunistas. No que se refere ao embrião no ventre materno, é a própria ciência que põe em evidência a autonomia do mesmo, capaz de interagir com a mãe, a coordenação dos seus processos biológicos, a continuidade do seu desenvolvimento e a crescente complexidade do seu organismo. Não se trata de um acervo de material biológico, mas sim de um novo ser vivo, dinâmico e maravilhosamente ordenado, um novo indivíduo da espécie humana. Assim foi Jesus no seio de Maria; assim é para cada um de nós, no ventre da própria mãe. Com o antigo autor cristão Tertuliano, podemos afirmar: "Já é um homem, aquele que o será" (Apologético, IX, 8); não há qualquer razão para não o considerar pessoa, desde a sua concepção.
Infelizmente, mesmo depois do nascimento, a vida das crianças continua a estar exposta ao abandono, à fome, à miséria, à enfermidade, aos abusos, à violência e à exploração. As múltiplas violações dos seus direitos, que se verificam no mundo, ferem dolorosamente a consciência de cada homem de boa vontade. Diante do triste panorama das injustiças cometidas contra a vida do homem, antes e depois do seu nascimento, faço meu o apaixonado apelo do Papa João Paulo II à responsabilidade de todos e de cada um: "Respeita, defende, ama e serve a vida, cada vida humana! Unicamente por esta estrada encontrarás justiça, progresso, verdadeira liberdade, paz e felicidade!" (Encíclica Evangelium vitae, 5). Exorto os protagonistas da política, da economia e das comunicações sociais, a fazer tudo quanto estiver ao alcance das suas possibilidades para promover uma cultura sempre respeitosa da vida humana, para alcançar condições favoráveis e redes de apoio ao seu acolhimento e desenvolvimento.
À Virgem Maria, que recebeu o Filho de Deus feito homem com a sua fé, o seu cuidado cheio de desvelo, o seu acompanhamento solidário e vibrante de amor, confiemos a oração e o compromisso a favor da vida nascente. Façamo-lo na liturgia — que é o lugar onde vivemos a verdade e onde a verdade vive em nós — adorando a Eucaristia divina, na qual contemplamos o Corpo de Cristo, aquele Corpo que recebeu a carne de Maria por obra do Espírito Santo, e dela nasceu em Belém, para a nossa salvação. Ave, verum Corpus, natum de Maria Virgine!

* Texto extraído do site do Vaticano, do dia 27 de novembro de 2010.

Comentário ao evangelho do dia

Evangelho - Lc 1,39-45
Naqueles dias, Maria partiu para a região montanhosa, dirigindo-se, apressadamente, a uma cidade da Judéia. Entrou na casa de Zacarias e cumprimentou Isabel. Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança pulou no seu ventre e Isabel ficou cheia do Espírito Santo. Com um grande grito, exclamou: "Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre! Como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar? Logo que a tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança pulou de alegria no meu ventre. Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido, o que o Senhor lhe prometeu".

Comentário feito por Santa Teresa do Menino Jesus (1873-1897)
carmelita, Doutora da Igreja 

Como te amo, Maria, quando te dizes serva
do Deus que conquistaste pela tua humildade (Lc 1, 38),
tornou-te onipotente essa virtude oculta.
Trouxe ao teu coração a Santíssima Trindade 
e quando o Espírito de Amor te cobriu com a Sua sombra (Lc 1, 35),
o Filho, igual ao Pai, em ti encarnou.
Inúmeros serão os Seus irmãos pecadores,
Uma vez que Jesus é o teu primogênito! (Lc 2, 7)

Ó Mãe muito amada, apesar da minha pequenez,
trago em mim, como tu, o Todo-Poderoso,
mas não tremo ao ver em mim tanta fraqueza.
Os tesouros da Mãe pertencem aos filhos
e eu sou tua filha, ó Mãe querida.
As tuas virtudes e o teu amor não me pertencerão também?
E quando ao meu coração chega a Hóstia santa,
Jesus, teu suave Cordeiro, crê repousar em ti!

Fazes-me sentir que não é impossível
seguir os teus passos, ó Rainha dos eleitos,
porque tornaste o trilho do céu visível,
vivendo cada dia as mais humildes virtudes.
A teu lado, Maria, gosto de ser pequena 
para ver como são vãs as grandezas do mundo.
Ao ver-te visitar a casa de Isabel,
aprendo a praticar uma caridade ardente.

Aí, escuto arrebatada, doce Rainha dos anjos,
o canto sagrado que jorrou do teu peito (Lc 1, 46 ss.);
ensinas-me a cantar os divinos louvores
e a gloriar-me em Jesus, meu Salvador.
Tuas palavras de amor são rosas místicas
que perfumarão os séculos vindouros.
Em ti, o Todo-Poderoso fez maravilhas,
desejo meditá-las a fim de delas usufruir.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Cartas do P.e Aldo 172

Asunción, 20 de dezembro de 2010.

Caros amigos,
No jornal local “Ultima Hora” foi publicado este artigo assinado pelo jornalista Cristian Cantero.
Desejo a todos um Bom Natal!!!

“No meio do correio eletrônico e dos votos de Natal e tantos outros cumprimentos, encontrei um que me chamou a atenção pelo seu título ‘De zero a um’.
Lendo o conteúdo, descobri que se trata de uma associação sem fins lucrativos, fundadas por amigos do Padre Aldo Trento, para ajudar as obras que se desenvolvem na paróquia San Rafael, neste caso em particular da Casinha de Belém. Para relatar a história da origem desta denominação, Padre Aldo, um dia, disse que, tendo recebido os boletins escolares de seus ‘filhos’ da Casinha de Belém, deu-se conta de que quase todos tinha tomado bomba; e, então, pensou que, ao invés de chamar a atenção deles e censurá-los, como qualquer pai de família faria, deveria organizar uma festa.
Segundo o relato do mesmo Padre Aldo, ele disse aos garotos naquele momento: ‘Meus filhos, eu os cumprimento porque a coisa mais importante da vida não é ter nota 5; ou seja, vocês eram considerados ‘ninguém’ e passaram a ser protagonistas da própria vida!’.
Para entender isto, é necessário recordar quem são estas crianças recolhidas por Padre Aldo: estão com ele porque foram abandonadas pelas suas famílias e esquecidas pela sociedade. Alguns são filhos órfãos dos doentes de AIDS que morreram na clínica Divina Providência ‘São Riccardo Pampurri’.
Poder-se-ia dizer que são crianças a quem a vida deu uma segunda oportunidade, por que encontraram um lugar, um lar, onde são valorizados e tratados com dignidade; um lugar onde aprendem a ser protagonistas da própria vida.
No mundo onde os parâmetros com os quais se medem as pessoas são o êxito, o poder, o dinheiro ou a fama a que se pode chegar, escutar ou ler histórias deste tipo nos permite compreender qual é o valor e o sentido verdadeiro da vida.
Tantas vezes, os pais nos preocupamos demais com o assegiurar o bem-estar material aos nossos filhos, reduzindo a educação à simples instrução ou à transmissão de dados, e é por isso que nos habituamos a medir a capacidade das crianças a partir dos resultados que obtêm, como se fosse uma simples fórmula matemática.
Mas, educar é muito mais ajudar uma pessoa a se tornar verdadeiramente homem. qualquer pessoa pode gerar filhos, mas poucos são aqueles que educam verdadeiramente os próprios filhos, isto quer dizer que o educam a enfrentar a vida, as circunstâncias de modo adequado e razoável. Se queremos educar, devemos respeitar e usar a razão e a liberdade dos nossos filhos, conscientes de que são pessoas diferentes de nós; o seu futuro não nos pertence.
É revelador o testemunho do psiquiatra vienense Viktor Frankl, que contava a confidência que um estudante americano lhe fez: ‘Tenho 22 anos, sou graduado, tenho um carro de luxo, sou economicamente independente, e tenho à disposição mais sexo e prestígio do que eu precisaria. Mas, apesar de tudo isso, me pergunto: que sentido tem ter tudo isto?’.
A educação verdadeira é ajudar a pessoa a entender o sentido da realidade em geral e o seu significado último. Mas, para fazer isto, é preciso que existam genitores que se deixem educar mesmo se tiverem 50 anos! Porque este processo dura a vida inteira e ninguém nunca termina de aprender. Como disse Padre Aldo, ‘apenas a partir da experiência de um abraço humano é que o meu eu desperta, se comove e se move’. E, assim, se converte em um desafio o passar de zero a um.
Cristian Cantero”

Ciao
Padre Aldo

Cartas do P.e Aldo 171





Asunción, 19 de dezembro de 2010.

Caros amigos,
Bom Natal! Particularmente aos muitíssimos amigos que, com seus emails, me confiaram suas dores, dificuldades, seus sofrimentos e, frequentemente, sua falta de vontade de viver. Para mim, foi uma graça, porque seja quem for que estiver sofrendo eu o sinto comigo e com o mar de dor que me circunda, da dor de Cristo, daquilo que falta à paixão de Cristo pelo seu corpo que é a Igreja. Agradeço a vocês de coração, porque as feridas que carregam não apenas me impedem de ser um burguês, ou seja, um homem sem pergunta, sem dramaticidade, como também me ajudam a viver dentro das circunstâncias da vida com os olhos fixos no Mistério. É como se o dor de vocês, a nossa dor, me tornasse sempre mais consciente do significado de estar suspenso sobre um cheio, sobre uma certeza.
Confesso a vocês que todas as noites, quando já tarde, vou dormir, depois de ter visitado as várias obras da paróquia onde vejo e sinto somente a dor dos meus filhos, dos recém-nascidos abandonados, das meninas vítimas da violência, dos doentes terminais e dos velhos recolhidos das ruas, reconheço como o Mistério domina a minha vida, enchendo-a de paz. Que bonito é ser tomado, dominado por aquele “Tu” a cujos olhos sou precioso e digno de estima, porque sou Seu, como nos recorda o profeta Isaías. Como eu gostaria que as muitas pessoas deprimidas, cansadas de viver, vítimas das mil fantasias, que conheço muito bem, reconhecessem, mesmo quando a angústia parece sufocá-los, que, seja como for, o Mistério é um Fato presente, é um abraço que nunca permite que nos percamos. O problema não é a dor, a depressão, a doença, mas é a liberdade de reconhecer naquele “Tu que me fazes” a própria consistência. Há momentos em que não vejo nada, mas o juízo é claro e eu repito para mim mesmo continuamente: “Tu, ó meu Cristo!”, e sempre reencontro a energia para caminhar.
Peço a vocês, enquanto peço por mim mesmo, de não colocar os “se”, os “mas”, os “porém” entre Cristo e nós, porque isto seria a única grande fraude e perderíamos a festa da vida. O Mistério ama quem se arrisca, que não tem medo da realidade, e em geral se diverte permitindo-nos chegar até à borda do abismo, mas depois, de repente, quando tudo parece perdido, nos salva, pegando-nos pelos cabelos. Há vinte anos experimento este fato mesmo em nível econômico. Pensem nas centenas de milhares de euros de que precisam estas obras! E, no entanto, chega o último dia do mês e a Providência chega. No início, quem trabalhava comigo se assustava, a administração entrava em crise, enquanto que, para mim, era tudo simples e ainda o é: “Senhora (disse à administradora), estão faltando dois dias para pagar o salário dos 180 dependentes do Mistério, único chefe destas obras; por isso, por que você se preocupa?”. E no dia seguinte, a Providência chegava com o dinheiro necessário – e nada a mais ou a menos. Mesmo com respeito a isso o Mistério me mantém sempre suspenso e, portanto, sempre mendicando. Não sei como pagarei o salário de janeiro às 180 pessoas, ou melhor, famílias, mas, por isto, não perco o sono, porque tenho a certeza absoluta de que o Senhor, aquele “Tu que me fazes”, no momento certo, estará ali para pagar. Que liberdade eu sinto quando estou diante, diante daquele Tu que me domina, me abraçando.
Ontem, Ele me deu dois novos filhinhos. Olhem para eles nas fotos. São gêmeos, foram abandonados por sua mãe e, por causa dos maltratos que sofreram da “mãe”, ambos possuem uma paralisia cerebral, de forma que isso era motivo suficiente para recebê-los. Têm 1 ano e oito meses e pesam, cada um, 6 quilos. A história deles é de um sofrimento terrível. No entanto, o Mistério ocupou-se deles e os deu a mim. Na primeira noite, choraram durante toda a noite, mas nesta última noite, já estavam mais tranquilos entre os meus braços.
No fundo, se o nosso abraço é o fruto da experiência do “Tu que me fazes”, ele se transmite como que por osmose mesmo a eles, cuja inocência foi lacerada pelas violências de todos nós, quando nos esquecemos de ser relação com o Mistério.
Olhando-os, penso naquela pobre mulher que, certamente, mesmo ela, terá sido vítima de outra violência. Confio-os às orações de vocês, assim como confio a terceira Casinha de Belém e a nova casa para as meninas violentadas e grávidas, que iremos inaugurar na vigília de Natal.
Como vocês podem ver, Jesus me enche de presentes, presentes que também são para vocês. É mesmo bonito ser queimados pelo amor por Cristo, porque, assim, o coração queima de amor pelo homem.
Bom Natal.
Padre Aldo

P.S.: Amigos, desculpem o italiano, mas, não sabendo usar o computador, confio-me ao excelente secretário que faz o impossível para me traduzir. Olhem para a essência, para o coração.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Imagens raras de São Pio de Pietrelcina


Oração de São Pio de Pietrelcina
Jesus, Que nada me separe de Ti, nem a vida, nem a morte. Seguindo-Te em vida, ligado a Ti com todo amor, seja-me concedido expirar contigo no Calvário, para subir contigo à glória eterna; Seguirei contigo nas tribulações e nas perseguições, para ser um dia digno de amar-Te na revelada glória do Céu; para cantar-Te um hino de agradecimento por todo o Teu sofrimento por mim. Jesus, Que eu também enfrente como Tu, com serena paz e tranqüilidade, todas as penas e trabalhos que possa encontrar nesta terra; uno tudo a Teus méritos, às Tuas penas, às Tuas expiações, às Tuas lágrimas a fim de que colabore contigo para a minha salvação e para fugir de todo o pecado – causa que Te fez suar sangue e Te reduziu à morte. Destrói em mim tudo o que não seja do Teu agrado. Com o fogo de Tua santa caridade, escreve em meu coração todas as Tuas dores. Aperta-me fortemente a Ti, de maneira tão estreita e tão suave, que eu jamais Te abandone nas Tuas dores. Amém!

Oração de São Pio de Pietrelcina para depois da comunhão
Ficai comigo, Senhor, porque Vossa presença me é necessária para não Vos esquecer. Bem sabeis quão facilmente Vos abandono… Ficai comigo Senhor, porque sou fraco e preciso de Vossa fortaleza para não cair tantas vezes. Ficai comigo Senhor, porque sois minha vida e sem Vós me esmorece o fervor. Ficai comigo Senhor, porque sois minha luz e sem Vós me acho em trevas. Ficai Senhor comigo, para me mostrardes Vossa vontade. Ficai Senhor comigo, porque desejo amar-Vos muito e estar sempre em Vossa companhia. Ficai comigo Senhor, se quereis que eu Vos seja fiel. Ficai comigo Jesus, porque minha alma, conquanto paupérima, todavia quer ser para Vós um habitáculo de consolação, um ninho de amor. Ficai, Jesus, comigo, que entardece e o dia se vai… isto é, a vida passa… a morte se avizinha… avizinha o juízo, a eternidade… e é mister redobrar minha forças para não desfalecer no caminho, e para tal preciso de Vós. Entardece e vem a morte… Inquietam-me as trevas, as tentações, a aridez, as cruzes, as penas, e ah! como preciso de Vós, meu Jesus, nesta noite de exílio. Ficai, Jesus comigo, pois preciso de Vós nesta noite da vida e dos perigos. Fazei que eu Vos conheça como Vos conheceram os discípulos de Emaús ao partir do pão, isto é, que a união Eucarística seja a luz que dissipa as trevas, a força que me sustenta e a única felicidade do meu coração. Ficai, Senhor comigo, porque, ao chegar a morte, quero estar unido a Vós, se não pela Santa Comunhão, ao menos pela graça e pelo amor. Ficai, Jesus, comigo! Não Vos peço Vosso divino consolo, pois não o mereço, mas o dom de Vossa santíssima presença. Oh! sim, Vo-lo peço! Ficai, Senhor, comigo! Busco somente a Vós, o Vosso amor, a Vossa graça, a Vossa vontade, o vosso Espírito, porque Vos amo e não peço recompensa alguma, senão aumento de amor. Amor sólido, prático. Amar-Vos com perfeição por toda a eternidade. Assim seja.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Quem defenderá uma criança de um adulto cético?


Por Carlo Fedeli 

No clima geral de discussão que, nos últimos meses, investiu o sistema escolar e formativo, voltou às primeiras páginas dos jornais e para a boca da opinião pública a ideia de “cursos de filosofia”, propostos às crianças desde a infância. A França parece estar na vanguarda, se for verdade que estão encontrando um certo sucesso os “atelier filo” [atelier de filosofia"; ndt] e as coleções de livros para “Petits Platons” ["Pequenos Platões"; ndt].
Do que se trata? Em poucas palavras, trata-se da difusão de projetos didáticos e formativos que declinam, em várias modalidades, a proposta da philosophy for children, trazida à baila pelo estudioso americano Matthew Lipman nos anos 1970. Essa proposta objetiva preparar, desde a mais tenra infância, a criança para o “filosofar”, ou seja, para a arte de pensar criticamente a si mesmo e à própria relação com a realidade e com os outros, num contexto de relações sociais e intelectuais que deveriam promover, a partir da escola, uma reforma e um projeto da toda a sociedade na direção de uma ideal “comunidade de pesquisa”.
O que está na origem de tais projetos? Essencialmente, uma “filosofia da educação” que afunda as próprias raízes no pragmatismo e no cognitivismo do século XX, particularmente nas teorias de seus grandes mestres – Dewey e Piaget. Podemos resumir assim (perdoem-me a simplifiação) os princípios fundamentais: a natureza convencional do conhecimento; a concepção da mente humana como refinado elaborador de informações; os critérios e as metodologias do construtivismo social e da hermenêutica como linhas-guias do diálogo entre as gerações; a fé na comunicação e na pesquisa como vias mestras da construção de uma verdadeira democracia – entendia, sob o ponto de vista tanto intelectual quanto político, como processo contínuo de reconstrução crítica da experiência individual e coletiva. 
Até este ponto é que chega o núcleo teórico e a profundidade de campo, histórico-cultural, da philosophy for children – sobre a qual existe uma literatura científica, à qual é possível se remeter para eventuais aprofundamentos. Agora, vejamos duas ideais de reflexão sobre a pertinência educativa de propostas deste tipo, ou similares.
A primeira vem da verificação do “alcance” de que seria capaz, segundo as tradições de pensamento recordadas, o nosso conhecimento. De acordo com a matriz deweyana, os projetos da philosophy for children movem-se principalmente por dois pressupostos de métodos, que se podem resumir nas seguintes equivalências: “conhecer” significa “pensar”, e “pensar” significa “pesquisar”. Agora, porém, estaremos seguros de que estes dois atos ou momentos sejam capazes de esgotar toda a inteira gama cognoscitiva da razão humana e representar a fonte única que está no centro do seu dinamismo? Não seria necessário que se apontassem outros atos ou dimensões suas, também constitutivos, fecundos e expressivos da sua tensão estrutural para o conhecimento? E, por isso mesmo, tão dignos de serem colocados como fundamentos de um programa – mesmo escolar – de educação intelectual? 
Talvez, a nossa inteligência tenha um espectro cognoscitivo mais amplo do que apenas “pensar” e “pesquisar” – flexões, deve se dizer, nobilíssimas da razão. Sem ser filósofo, Alessandro Manzoni chegou mais perto do que muitos, naquele trecho de Os Noivos que tem valor de tratado de gnoseologia e de lógica: “observar, escutar, comparar, pensar, antes de falar”. Eis uma bela criteriologia para o exercício racional de que tem necessidade o homem desde a mais tenra infância (porque é verdade: o peso do conformismo, das convenções e do preconceito se faz sentir desde pequenos) e para um programa de educação intelectual equilibrado, que não corra o risco de enfatizar o papel do raciocínio ou da dialética, em detrimento da importância insubstituível, de um lado, da atenção, da observação e da exploração do real, de outro lado, da escuta das civilizações e das culturas do passado, que nos falam através da tradição. Risco de enfatizar, que seja dito entre parênteses, tanto mais deletério e perturbador na infância, sobretudo se for verdade, como demonstraram Piaget e Bruner, que, para se desenvolver, a inteligência precisa do relato, da representação e da ação, antes que do conceito lógico-formal.
A segunda ideia de ponderação crítica nasce da consideração de que, por mais que seja formalmente semelhante, a pergunta sobre o “por que” e o “pensar através das palavras” (ou seja, segundo a etimologia, o “dialogar”) podem assumir formas e direções diversas na boca e na mente de uma criança e de um adulto, e conduzir a sua conversa a resultados também muitos diferentes.
Na criança, a pergunta nasce, normalmente, como movimento de busca por uma explicação, diante de coisas ou acontecimentos para ela ainda parcialmente “desconhecidos”: ou seja, sem causa evidente, nem manifesta. Sem a comunicação e o relato, por parte do adulto, de uma evidência mediata, “raciocinada”, realmente percebida como hipótese de explicação adequada, a criança continuará inexoravelmente a pedir. Nela, a pergunta – certamente que com todo o “realismo ingênuo” do caso; mas também “a partir de dentro” de um relacionamento de confiança com o adulto (ao qual, de outra forma, não se voltaria) e com uma exigência, uma instância de verdade que não admite traição (quem, ainda que apenas uma vez, desiludiu uma criança sabe muito bem disso) – exprime a tensão ao verdadeiro, própria e constitutiva da razão comum a ambos.
Como tal, por isso, do ponto de vista pedagógico, toda pergunta da criança é uma graça para o início do processo cognoscitivo e do relacionamento educativo. Como primeiríssimo “movimento” pedagógico, a pergunta solicita que o adulto leve a sério a provocação de busca expressa “pela” e “na” pergunta: recolhendo humildemente a antecipação de verdade que urge nela, como indicação de percurso (ou seja, da direção na qual a inteligência é provocada a se mover), e valorizando cada outro sinal proveniente do contexto no qual a pergunta se acendeu, ou da realidade que a suscitou.
Exatamente neste ponto se coloca a questão mais delicada – que, obviamente, vale não apenas para a “filosofia para crianças”, mas também para qualquer outro ensinamento ou prática formativa; e também, se pensarmos bem, para todo pai e mãe. Exatamente porque desenvolvido cognitivamente (ou seja, equipado com competências reflexivas, críticas e metodológicas) e eticamente (por isso, melhor dotado de poder e de planejamento), o adulto pode sim acolher o desafio da pergunta da criança, e acompanhá-la na busca pela verdade. Então, mesmo ela se tornará “filósofa”, mesmo quando você não ensinar filosofia, mas ensinar português, aritmética, música, história (e assim por diante), ou mesmo quando você desenvolver com ela qualquer outra ocupação (mesmo a mais humilde).
Mas, as coisas podem seguir outro caminho. O nosso adulto poderia escapar, de um modo ou de outro, da pergunta da criança. Poderia lhe dar uma resposta puramente conveniente. Poderia também tentar desativar o seu potencial de verdade, tentando fazê-la parecer algo “relativo” (à época histórica, ao contexto cultural, ao nível social etc.) ou “funcional” (à realização do interesse individual ou coletivo, ao progresso da sociedade, à afirmação de uma ideia política, ao crescimento do “saber crítico”, e assim por diante).
Agora, na medida em que se reporta aos seus pais e, dentro e fora da escola, aos adultos (professores ou não), um pré-adolescente ou um adolescente pode contar com a consciência de si e do verdadeiro, amadurecida aos poucos em si, para poder reconhecer nesse ou naquele adulto um “interlocutor credível” para a própria educação, e estabelecer livremente, sobre este fundamento, os vínculos necessários e as defesas oportunas. Ele, certamente, será tanto mais afortunado quanto mais “Sócrates” encontrar (parece-me, porém, que figuras desse nível intelectual e moral, hoje em dia, sejam bastante raras, um pouco em todos os campos...). Mas se se tratar de uma criança da educação infantil ou fundamental?
Como exercitar a liberdade de busca intelectual e o exercício do discipulado, se as perguntas a serem colocadas, os conceitos a serem analisados e discutidos, os métodos de pensamento predispuseram e compuseram neles outros? Se o seu relacionamento com a realidade é “filtrado a priori” por um esquema adulto (muito seletivo ou decididamente orientado), sem que ele tenha tido a possibilidade de avaliá-lo criticamente? Por causa da evidente assimetria, a criança não pode competir em pé de igualdade com o professor que conduz o jogo; nem tem a possibilidade de se libertar, quando pressentisse que, na sua busca pela verdade, ele não foi leal até ao fundo com a exigência de significado, mas se afirmou um pouco antes – já perto das Colunas de Hércules do ceticismo, do relativismo, do “politicamente correto”.
Se não se leva realmente a sério, até ao fundo, o mote que marcou a fundação do Instituto J. J. Rousseau em Genebra, em 1912 (Discat a puero magister – O mestre aprenda da criança), e todas as formas de ensino e de educação, correr-se-á o risco, mesmo com as melhores ou “mais filosóficas” boas intenções, do autoritarismo (mesmo na forma mais branda e mascarada do paternalismo iluminado). A menos que tomemos igualmente a sério (e contra sua própria opção imanentista) a aguda intuição que fez Dewey dizer, em Democracia e educação, que “toda pesquisa é nativa, originária, para aquele que a efetua, mesmo se o resto do mundo já esteja seguro daquilo que ele ainda está buscando”. Ou seja, mesmo se a geração adulta estivesse de tal forma segura de si, a ponto de se esquecer, ou de se ter esquecido, de que “todos os grandes foram pequenos uma vez” e de que “há mais coisas entre o céu e a terra, Horácio, do que pensa a tua vã filosofia”.

* Texto extraído do IlSussidario.net, do dia 15 de dezembro de 2010. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Sonhos e medos em Adélia Prado

Flash Mob - Aleluia de Händel


Hallelujah
G. F. Händel

Hallelujah
For the lord God omnipotent reigneth
The kingdom of this world is become
The kingdom of our Lord, and of His Christ, and of His Christ
And He shall reign forever and ever
King of kings forever and ever
And Lord of lords forever and ever
Hallelujah 

Comentário ao evangelho do dia

São João da Cruz

Evangelho - Mt 21,28-32
Naquele tempo, Jesus disse aos sacerdotes e anciãos do povo: "Que vos parece? Um homem tinha dois filhos. Dirigindo-se ao primeiro, ele disse: 'Filho, vai trabalhar hoje na vinha!'. O filho respondeu: 'Não quero'. Mas depois mudou de opinião e foi. O pai dirigiu-se ao outro filho e disse a mesma coisa. Este respondeu: 'Sim, senhor, eu vou'. Mas não foi. Qual dos dois fez a vontade do pai?". Os sumos sacerdotes e os anciãos do povo responderam: "O primeiro" . Então Jesus lhes disse: "Em verdade vos digo, que os publicanos e as prostitutas vos precedem no Reino de Deus. Porque João veio até vós, num caminho de justiça, e vós não acreditastes nele. Ao contrário, os publicanos e as prostitutas creram nele. Vós, porém, mesmo vendo isso, não vos arrependestes para crer nele".

Comentário feito por Beato Guerric d'Igny (c. 1080-1157)
abade cisterciense

Esta lamparina destinada a iluminar o mundo traz-me uma alegria nova, pois foi graças a ela que reconheci a verdadeira Luz que brilha nas trevas, mas que as trevas não receberam (Jo 1, 5). [...] Podemos admirar-te, João, a ti que és o maior de todos os santos; mas imitar a tua santidade, disso já não somos capazes. Dado que te apressas a preparar para o Senhor um povo perfeito de publicanos e pecadores, é urgente que lhes fales, não tanto através da tua vida, mas com uma linguagem mais ao seu alcance. Propõe-lhes um modelo de perfeição que não seja tanto segundo a tua maneira de viver, mas que esteja adaptado à fraqueza das forças humanas. "Produzi dignos frutos de penitência" (Mt 3, 8), exorta ele. Ora nós, irmãos, gloriamo-nos de falar melhor do que vivemos. Quanto a João, cuja vida é de uma sublimidade que os homens não podem compreender, coloca a sua linguagem ao alcance da inteligência destes: "Fazei dignos frutos de penitência!". "Falo-vos de maneira humana, em razão da fraqueza da carne. Se ainda não conseguis fazer o bem em plenitude, que se encontre em vós, ao menos, um arrependimento verdadeiro daquilo que está mal. Se não podeis ainda produzir os frutos de uma justiça perfeita, que a vossa perfeição consista para já em produzir dignos frutos de penitência."

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Comentário ao evangelho do dia

Santa Luzia

Evangelho - Mt 21,23-27
Naquele tempo, Jesus voltou ao Templo. Enquanto ensinava, os sumos sacerdotes e os anciãos do povo aproximaram-se dele e perguntaram: "Com que autoridade fazes estas coisas? Quem te deu tal autoridade?". Jesus respondeu-lhes: "Também eu vos farei uma pergunta. Se vós me responderdes, também eu vos direi com que autoridade faço estas coisas. Donde vinha o batismo de João? Do céu ou dos homens?". Eles refletiam entre si: "Se dissermos: 'Do céu', ele nos dirá: 'Por que não acreditastes nele?". Se dissermos: 'Dos homens', temos medo do povo, pois todos têm João Batista na conta de profeta". Eles então responderam a Jesus: "Não sabemos". Ao que Jesus também respondeu: "Eu também não vos direi com que autoridade faço estas coisas".

Comentário feito por Santo Agostinho (354-430)
Bispo de Hipona (norte de África) e Doutor da Igreja 

"Muitos profetas e justos desejaram ver o que estais a ver, e não viram" (Mt 13, 17). Estes santos personagens, com efeito, cheios do Espírito de Deus para anunciar a vinda de Cristo, desejavam com ardor gozar da Sua presença sobre a terra, se assim fosse possível. Foi por essa razão que Deus adiou a partida de Simeão deste mundo; queria que ele pudesse contemplar, na pessoa de uma criança recém-nascida, Aquele por Quem o mundo foi criado (Lc 2, 25 ss.). [...] Simeão viu-O com feições de menino; João, ao contrário, viu-O quando Ele já ensinava e escolhia os Seus discípulos. Onde? Nas margens do rio Jordão. [...] É aí, neste batismo de preparação que Lhe abria caminho, que encontramos um símbolo e uma aproximação do baptismo de Jesus Cristo: "preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas" (Mt 3, 3). O próprio Senhor quis ser batizado pelo Seu servo para fazer compreender a graça que recebem àqueles que recebem o batismo em nome do Senhor. Foi aí que começou o Seu reino, como que a cumprir a profecia: "dominará de um ao outro mar, do grande rio até aos confins da terra" (Sl 72 (71), 8). Nas margens do rio onde o domínio de Cristo começa viu João o Salvador: viu-O, reconheceu-O e prestou-Lhe testemunho. João humilhou-se perante a grandeza divina a fim de merecer que a sua humildade fosse ressalvada pela mesma grandeza. Declara-se o amigo do esposo (Jo 3, 29). Que amigo? Aquele que caminha em pé de igualdade? Longe disso! Qual é a distância que ele guarda? Diz ele: "não sou digno de me inclinar para Lhe desatar as correias das sandálias" (Mc 1, 7).