segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Realismo razoável e revolucionário


A audiência geral de quarta-feira, 05 de agosto de 2009, foi uma audiência à la Ratzinger: sóbria, concisa, mas sobretudo cheia de significado. Renato Farina, no jornal Libero, definiu esta audiência de forma sublime: Bento XVI, com o seu sorriso encantador e a sua voz de serafim, morde. Repetiu o nome do diabo, declarando-lhe guerra. Chama-se “Ditadura do Relativismo” (SamizdatOnLine).

O Papa, a Igreja e a República
150 anos depois da morte de São Cura d’Ars, Bento XVI quis recordá-lo, colhendo a força profética que marcou a sua personalidade humana e sacerdotal, evidenciando o aspecto de altíssima atualidade desta figura. Considerando-se que, na França pós-revolucionária, existia a “ditadura do racionalismo”, na época atual – explicou o Santo Padre – registra-se, em muitos ambientes, um tipo de “ditadura do relativismo”. Ambos são respostas inadequadas à justa urgência do homem no uso pleno da própria razão como elemento distintivo e constitutivo da própria identidade. O racionalismo foi inadequado porque não levou em consideração os limites humanos e pretendeu elevar a razão à única medida de todas as coisas, transformando-a em uma deusa; o relativismo contemporâneo mortifica a razão, porque, de fato, chega a afirmar que o ser humano não pode conhecer nada com certeza para além do campo científico positivo. Hoje, porém, como então, o homem “mendicante de significado e de realização” busca respostas exaustivas para as perguntas de fundo que não cessa de se colocar.
E as perguntas sobre si, que o homem de todos os tempos, se coloca são exatamente aquelas que o poder, em todas as suas variantes, tenta suprimir com todos os meios; são perguntas que fazem com que a Igreja se torne um inimigo a ser combatido e abatido porque somente nela conseguem encontrar uma resposta adequada e realização. Para entender como as palavras de Ratzinger não são falatório vazio de um velhinho senil basta ler o jornal La Repubblica que, cada vez mais, se está configurando no dispensador da moral, mais do que em jornal cotidiano. Num artigo de Stefano Rodotà, a Igreja não só é acusada de querer colocar “as mãos na vida” (sic!), como também de mostrar uma pretensão autoritária e ilegal de fazer da Itália um lugar onde às mulheres é impedida a possibilidade de fazer as mesmas escolhas que é possível fazer em quase todos os outros países europeus, portanto, é acusada de limitar a liberdade de escolha das mulheres. Enfim, para o La Repubblica, a Igreja estaria agindo somente em função de pretensões fundamentalistas, de falsificações de dados científicos e de irados protestos.
Certamente nem o La Repubblica, nem o exímio Rodotà – para quem a única coisa que conta é, no caso, dar às mulheres a possibilidade de escolher entre uma intervenção cirúrgica, definida como dolorosa, e uma “milagrosa” pílula – usarão a RU486. Se o La Repubblica e Rodotà fossem honestos até o fim não se subtrairiam, porém, da necessidade de esclarecer um importante aspecto: quem recorre ao aborto cirúrgico o faz em um hospital, pagando o preço de uma diária hospitalar; no aborto farmacológico, porém, a mulher não apenas se encontra sozinha em casa, mas também, para que o aborto seja completo, deverá esperar 15 dias que serão tudo menos indolores.
Portanto, a Igreja pode até ter “pretensões fundamentalistas”, mas La Repubblica e Rodotà propagam deformações ideológicas a mancheias.

LEIA MAIS:
- Por que acusam o Papa de ignorância e dogmatismo, quando ele nos convida à pesquisa do infinito?
Constantino Esposito, no IlSussidiario.net

* Editorial de SamizdatOnLine, do dia 12 de agosto de 2009 (escrito por Censurarossa). Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

Cartas do P.e Aldo 101

Milano, 17 de agosto de 2009.

Caros amigos,
de fato, a Presença do Mistério que me faz em cada momento me acompanha de modo surpreendente. Hoje, parti em direção a La Thuile para, em seguida, passar brevemente pelo Meeting (de Rímini; ndt). Custou-me muito ter que deixar por 15 dias os meus doentes, porque sei que, quando voltar, alguns deles eu não os verei mais... e as minhas crianças, preocupadas com quando eu volto.
A consolação, porém, não se fez esperar. Quando cheguei em São Paulo, os Zerbini estavam me esperando. Sendo que eu teria seis horas disponíveis, pedi à polícia para sair... e me permitiram. E, assim, uma grande alegria tomou conta de mim, por poder ficar 2 horas com eles. Que belo! O coração do nosso diálogo era o texto dos Exercícios Espirituais de Rímini (refere-se aos Exercícios da Fraternidade de 2009; ndt). Tirei da mala o livreto com o texto... e começamos a trabalhar.
O tema: as circunstâncias.
Conto para vocês, brevemente, alguns dos pontos do diálogo que foram sublinhados pela Cleuza: “As circunstâncias podem ser vividas de três maneiras: a primeira é aquela que o Carrón lembra, como positividade; a segunda, rebelando-se; a terceira, escondendo-se atrás das circunstâncias para fazer aquilo que se quer fazer. Se a pessoa se rebela ou se esconde, as circunstâncias se tornam inimigas do eu. As circunstâncias podem se transformar em um modo de fugir da realidade. Pensa, por exemplo, em quantas vezes, com a desculpa das mil coisas que temos para fazer, evitamos aquilo que nos ajuda a amadurecer... a começar pela falta de um trabalho sério sobre o que o Carrón nos tem lembrado”.
Outro ponto: “A vida é um dom para ser dado”.
Outro ponto ainda: “Por que vivemos na dúvida, na incerteza? Porque enfrentamos a vida com reservas. Quanto maior é a reserva que temos na vida, maios é a dúvida que nos paraliza”.
Outro: “Podemos nos esconder atrás das circunstâncias”.
E outro: “Qual foi a última vez que nos olhamos com ternura?”
E ainda: “Cristo veio para livrar os homens da prisão na qual vivem”.
E, finalmente: “Estou tão feliz que tenho medo de perder esta graça... mas, por isto, estamos aqui, no aeroporto, enquanto você espera o avião para Milão”.
Amigos, sem nos darmos conta, passaram-se 2 horas, e as pessoas nos olhavam curiosas... estes três tipos estranhos que falavam com o entusiasmo das crianças.
Mas esta é a amizade que, por pura graça e seguindo a Carrón, hoje, me foi presenteada. Um dom único que nos permite viver o tempo, mesmo no aeroporto, de um modo humano e missionário.
Mas, vocês entendem o que quer dizer que cada vez que eles sabem que estou de passagem pelo aeroporto, não importam os seus compromissos, eles me esperam e, depois, ainda pagam a multa por não terem respeitado as leis contra a saída de passageiros em trânsito do aeroporto?!! Que belo é o aeroporto... 20 anos atrás, Giussani me acompanhou a Linate... hoje, no aeroporto de São Paulo, Giussani vive nos Zerbini que olham para o Carrón. Como crianças olham para o pai... eles me esperaram para fazer Escola de Comunidade... E que Escola de Comunidade.
Cada circunstância é positiva, é para anunciar Jesus “apertis verbis”.
P.e Aldo

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Cartas do P.e Aldo 100

Asunción, 13 de agosto de 2009.

Caros amigos,
Diante do mar de dor que me circunda (quantos mortos nestes dias) – uma dor lacerante –, é comovente ver como é claro para todos, dramaticamente claro, que “eu sou Tu que me fazes” ou que “eu tive piedade do teu nada, porque te amei com um amor eterno”.
Pensava nisto quando retirava um cadáver abandonado há dias em um depósito e o levava para a igreja e, depois, para o cemitério onde repousam os meus filhos, na espera da ressurreição (onde eu também vou esperar, um dia, na companhia deles, a mesma ressurreição).
Que bonito é esperar, com estes sentimentos, a Assunção de Nossa Senhora... dia do aniversário de minha cara cidade – aquela que me escolheu como filho predileto.
Ciao,
P.e Aldo

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Cartas do P.e Aldo 99



Asunción, 10 de agosto de 2009.

Caros amigos,
viver com o câncer aos 17 anos é terrível, mas, para a minha filha Rosinha, não! Tive que trazê-la da Casinha de Belém para a clínica: as dores pela metástase eram insuportáveis para ela, porém, ela não se lamentava, apenas chorava e oferecia. As crianças da Casinha de Belém são o seu conforto: antes, brincando com ela, assentada em uma cadeira de rodas por causa da amputação da perna; agora, visitando-a na clínica.
Cada vez, é uma festa, como vocês podem ver nas fotos. Hoje, domingo, Rosa quis receber a Crisma. Olhem para ela! Que bonita! Outra vez, eu sou o pai e o padrinho. Que graça! E também o celebrante. Olhem o que ela escreveu (é surda, mas escreve bem):
“Chamo-me Rosa Gonzales Martinez. Sou de San Pedro del Yacuamandyju, e tenho 17 anos. Somos em 6 irmãos. Desde os meus 14 anos estou doente. Meu pai me trouxe para Asunción (a 400 km da minha cidade), onde os médicos diagnosticaram um câncer nos ovários e me operaram. Graças a Deus, fiquei curada deste. Porém, pouco tempo depois, comecei a sentir dor na perna, até o ponto de não conseguir caminhar mais. Amputaram-me a perna e, agora, o tumor tomou também a outra, onde tenho uma espécie de grande bola, que é o tumor. A dor me derruba, me tira as forças, mas eu apenas ofereço tudo a Deus... e de repente a dor vai embora. Peço a Deus a força para continuar. E peço isso não apenas para mim, mas também para os outros doentes da clínica, que estão sofrendo como eu. A minha fé em Deus e em Nossa Senhora é muito grande e eu agradeço a Eles, com todo o meu coração, por me terem dado esta vida tão bela e uma família tão boa”.
Amigos... como é possível que, depois disso, duvidemos do que o Carrón nos disse falando das circunstâncias que sempre são positivas? Rosinha nos educa, com a sua Escola de Comunidade, a viver aquilo que a nós, sem câncer, nos é sempre apontado como chamado de atenção.
Boas férias!
P.e Aldo.

Discurso de Bento XVI aos universitários

CIDADE DO VATICANO, domingo, 9 de agosto de 2009 - Publicamos o discurso que Bento XVI dirigiu aos participantes no primeiro encontro europeu de estudantes universitários, na Sala das Bênçãos, no Vaticano, dia 11 de julho.
Senhor Cardeal
Venerados Irmãos no Episcopado e no Sacerdócio
Prezados irmãos e irmãs
Obrigado de coração por esta visita, que tem lugar no dia da festa de São Bento, Padroeiro da Europa, por ocasião do primeiro Encontro europeu de estudantes universitários, promovido pela Comissão Catequese-Escola-Universidade do Conselho das Conferências Episcopais Europeias (CCEE). A cada um de vós aqui presentes, dirijo as minhas mais cordiais boas-vindas. Saúdo em primeiro lugar o Bispo D. Marek Jedraszewski, Vice-Presidente da Comissão, e agradeço-lhe as palavras que me dirigiu em vosso nome. Saúdo de modo especial o Cardeal Vigário Agostino Vallini e manifesto-lhe toda a minha gratidão pelo precioso serviço que a pastoral universitária de Roma presta à Igreja que está na Europa. E não posso deixar de elogiar Mons. Lorenzo Leuzzi, incansável animador do Ofício diocesano. Além disso, saúdo com profundo reconhecimento o Prof. Renato Lauro, Magnífico Reitor da Universidade de Roma Tor Vergata. E dirijo o meu pensamento sobretudo a vós, queridos jovens: bem-vindos à casa de Pedro! Vós pertenceis a trinta e uma nações, e estais a preparar-vos para assumir importantes funções e tarefas na Europa do terceiro milênio. Estai sempre conscientes das vossas potencialidades e, ao mesmo tempo, também das vossas responsabilidades.
O que a Igreja espera de vós? É o mesmo tema sobre o qual estais a refletir, que sugere a resposta oportuna: "Novos discípulos de Emaús. Como cristãos na universidade". Depois do encontro europeu de professores, realizado há dois anos, também vós estudantes vos encontrais agora para oferecer às Conferências Episcopais da Europa a vossa disponibilidade para continuar o caminho de elaboração cultural que São Bento intuiu como necessário para a maturação humana e cristã dos povos da Europa. Isto pode verificar-se se vós, como os discípulos de Emaús, vos encontrardes com o Senhor ressuscitado na experiência eclesial concreta, e de modo particular na celebração eucarística. "Com efeito, em cada Missa — pude recordar aos vossos coetâneos há um ano, durante a Jornada Mundial da Juventude em Sydney— o Espírito Santo desce novamente, invocado na solene oração da Igreja, não apenas para transformar os nossos dons do pão e do vinho no Corpo e no Sangue do Senhor, mas também para transformar as nossas vidas, para fazer de nós, com a sua força, um único corpo e um só espírito em Cristo" (Homilia na missa de conclusão, 20 de julho de 2008). Por conseguinte, o vosso compromisso missionário no âmbito universitário consiste em dar testemunho do encontro pessoal que tivestes com Jesus Cristo, Verdade que ilumina o caminho de cada homem. É do encontro com Ele que brota aquela "novidade do coração", capaz de dar uma orientação nova à existência pessoal; e só assim nos tornamos fermento e levedura de uma sociedade vivificada pelo amor evangélico.
Então, como é fácil compreender, também a ação pastoral universitária deve exprimir-se em todo o seu valor teológico e espiritual, ajudando os jovens a fazer com que a comunhão com Cristo os leve a compreender o mistério mais profundo do homem e da história. E, precisamente por esta sua ação evangelizadora específica, as comunidades eclesiais comprometidas nesta ação missionária, como por exemplo as capelanias universitárias, podem ser o lugar da formação de crentes maduros, homens e mulheres conscientes de que são amados por Deus e chamados, em Cristo, a tornar-se animadores da pastoral universitária. Na universidade, a presença cristã faz-se cada vez mais exigente e, ao mesmo tempo, fascinante, porque a fé é chamada, como nos séculos passados, a oferecer o seu serviço insubstituível ao conhecimento que, na sociedade contemporânea, é o verdadeiro motor do desenvolvimento. Do conhecimento, enriquecido com a contribuição da fé, depende a capacidade de um povo de saber olhar para o futuro com esperança, vencendo as tentações de uma visão puramente materialista da nossa essência e da história (grifo nosso).
Queridos jovens, vós sois o futuro da Europa. Imersos nestes anos de estudo no mundo do conhecimento, sois chamados a investir os vossos melhores recursos, não apenas intelectuais, para consolidar as vossas personalidades e contribuir para o bem comum. Trabalhar pelo desenvolvimento do conhecimento é a vocação específica da universidade, e exige qualidades morais e espirituais cada vez mais elevadas, diante da vastidão e da complexidade do saber que a humanidade tem à sua disposição. A nova síntese cultural, que nesta época está sendo elaborada na Europa e no mundo globalizado, tem necessidade da contribuição de intelectuais capazes de repropor nas aulas acadêmicas o discurso sobre Deus, ou melhor, de fazer renascer aquele desejo do homem de se pôr à procura de Deus — quaerere Deum — ao qual me referi noutras ocasiões (grifo nosso).
Enquanto agradeço a quantos trabalham no campo da pastoral universitária, sob a orientação dos organismos do Conselho das Conferências Episcopais Europeias, formulo votos a fim de que continuem o caminho profícuo começado há alguns anos e pelo qual manifesto o meu mais profundo apreço e encorajamento. Estou persuadido de que o vosso encontro destes dias em Roma poderá indicar ulteriores etapas a percorrer, em vista de um projeto orgânico, que favoreça o envolvimento e a comunhão entre as diversas experiências já ativas em muitos países. Vós, prezados jovens, contribuís juntamente com os vossos professores, para criar laboratórios da fé e da cultura, compartilhando o cansaço do estudo e da pesquisa com todos os amigos que encontrais na universidade. Amai as vossas universidades, que são lugares de virtude e de serviço. A Igreja na Europa confia muito no compromisso apostólico generoso de todos vós, consciente dos desafios e das dificuldades, mas inclusive das numerosas potencialidades da ação pastoral no âmbito universitário (grifo nosso). Quanto a mim, asseguro-vos o sustento da oração e sei que por minha vez posso contar com o vosso entusiasmo, com o vosso testemunho, sobretudo com a vossa amizade, que hoje me manifestastes e que vos agradeço de coração.
São Bento, Padroeiro da Europa e meu Padroeiro pessoal no Pontificado, e sobretudo a Virgem Maria, por vós invocada como Sedes Sapientiae, vos acompanhem e guiem os vossos passos. A todos, a minha Bênção.
* Extraído de Zenit.

Evangelho do dia (Jo 12, 24-26)


São Lourenço

Naquele tempo disse Jesus a seus discípulos: “Em verdade, em verdade vos digo: Se o grão de trigo que cai na terra não morre, ele continua só um grão de trigo; mas se morre, então produz muito fruto. Quem se apega à sua vida, perde-a; mas quem faz pouca conta de sua vida neste mundo conservá-la-á para a vida eterna. Se alguém me quer servir, siga-me, e onde eu estou estará também o meu servo. Se alguém me serve, meu Pai o honrará” (Jo 12, 24-26).

Comentário feito por Santo Ambrósio (c. 340-397)
Bispo de Milão e Doutor da Igreja
Ao ver que levavam o bispo Sixto para o martírio, São Lourenço pôs-se a chorar. Não era o sofrimento do seu bispo o que lhe arrancava lágrimas, mas o fato de este partir para o martírio sem ele. Por isso pôs-se a interpelá-lo nestes termos: "Onde vais, meu Pai, sem o teu filho. Apressas-te tanto em direção a quê, padre santo, sem este teu diácono? Tu tinhas por hábito nunca oferecer o sacrífício sem ministro! [...] Dá pois prova de que escolheste um bom diácono, a quem confiaste o ministério do sangue do Senhor, com quem partilhas os sacramentos; recusar-te-ias a comungar com ele no sacrifício do sangue?" [...] O Papa Sixto respondeu a Lourenço: "Não te esqueço, meu filho, nem te abandono. Mas te deixo maiores combates. Sou velho e já só aguento uma ligeira luta. Quanto a ti, és jovem e hás de obter um triunfo bem mais glorioso contra o tirano. Logo virás ter comigo. Seca essas lágrimas. Dentro de três dias, seguir-me-ás. [...]". Três dias depois, foi dada ordem de prisão a Lourenço. Ordenaram-lhe que levasse os bens e os tesouros da Igreja. Prometeu obedecer. No dia seguinte, apresentou-se com os pobres. Perguntaram-lhe onde estavam os tesouros que deveria ter trazido. Apontou os pobres, dizendo: "Eis os tesouros da Igreja. Teria Cristo tesouros melhores que esses acerca dos quais disse: 'Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes'" (Mt 25, 40)? Lourenço apresentou aqueles tesouros e saiu vencedor, porque o seu persecutor não teve vontade de lhos tirar. Mas, cheio de raiva, mandou-o queimar vivo.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Deus precisa dos homens


por Luigi Giussani

Vocês fazem bem em bater palmas, porque eu acredito naquilo que digo. “O maior perigo a que possa temer a humanidade – disse Teilhard de Chardin – não é uma catástrofe que venha de fora, não é nem a fome nem a peste, é, pelo contrário, esta doença espiritual, a mais terrível porque é o mais diretamente humano dos flagelos, que é a perda do gosto de viver”.
Quando eu disse essa frase, me veio imediatamente ao coração e à memória como deve ter nascido historicamente o interesse por Cristo. As pessoas poderiam ir escutá-Lo se perguntando: “O que é isso que ele diz? Fala da Trindade, de Deus Pai, fala do inferno da alma, da responsabilidade do homem”. Porém, poderiam também se fazer uma outra pergunta, que encontrava resposta no próprio coração, sem que fossem conscientes: “Esta pessoa, por que diz essas coisas?”. E imediatamente, quem tivesse formulado esta pergunta, teria escutado em si mesmo essa resposta: “Porque ama o homem”. Pegou uma criança, aproximou-a de si e disse: “Maldito aquele que torce um único fio de cabelo do menor dos meus filhos” e não falava de torcer fisicamente um fio de cabelo, porque nisso todos têm um pouco de recato; falava de fazer mal a uma criança em termos morais, lá onde ninguém presta atenção ou tem precaução; falava de um respeito absoluto por este serzinho indefeso. Ou então, para no caminho, passa um funeral, uma mulher soluça atrás de um féretro e Ele pergunta: “O que aconteceu?”, “É uma viúva. Morreu-lhe o filho único”. Dá um passo a frente e diz: “Mulher, não chores”. Ou ainda: “O que importa se tu tens tudo aquilo que queres e depois perdes a ti mesmo?”. O que um homem dará em troca de si? Assim, surgiu no mundo o sentido do respeito, da veneração, do apego, do amor, da confiança, da responsabilidade com relação à pessoa.
A pessoa: o amor ao homem. De outra forma não é possível compreender o Cristianismo. Mas, talvez, nós mesmos não o compreendamos, mesmo tentando vivê-lo, porque não participamos desta sua origem. O Cristianismo não nasceu para fundar uma religião, nasceu como paixão pelo homem. Então, se compreende que, se Cristo falava do Pai, se falava da criança, se olhava com especial atenção para o doente, para o pobre, era porque pobre, criança ou doente eram, entre todos, os mais indefesos, aqueles que menos poderiam ter conseguido se impor por si mesmos; exatamente por isso Ele sublinhava a presença desses, porque o valor deles era independente da sua capacidade de poder ou de servir ao poder. O homem, o filho de mulher, o homem concreto, como sempre insiste João Paulo II, não o homem à la Feuerbach ou à la Marx, eu, tu, o homem filho de sua mãe e de seu pai: e o amor ao homem, a veneração pelo homem, a ternura pelo homem, a paixão pelo homem, a estima absoluta pelo homem.
A frase de Teilhard de Chardin me fez lembrar do Evangelho: “Eu vos disse essas coisas para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja plena”. Alegria: a voz do cristão é a única que pode usar a palavra alegria sem ser obrigada a esquecer ou renegar qualquer coisa. Jesus o disse em termos bíblicos: “O anjo delas (o anjo das crianças) vê a face do meu Pai”. O homem é grande porque é relação com o Infinito, mas uma relação tal que se pode definir com um paradoxo: Deus precisa dos homens. Deus. Mas, quem não tem medo de usar estas palavras, quaisquer que sejam as imagens que tenha? Eu tenho muito e, de fato, as uso muito raramente.
Este “insondável mistério”, como dizia Einstein, três dias antes de morrer, ao grande matemática Francesco Severi, “que subjaz toda pesquisa”, esta “sombra que não se pode destacar de nós”, dizia Whithead, esta implicação última da razão, entendida como consciência da realidade segundo a totalidade dos seus fatores. “Toda a lei da existência humana está tão somente nisto: que o homem possa se inclinar diante do infinitamente grande”, dizia Dostoievski. Exatamente por isso, de todos os modos que se conceba, este infinitamente grande está ligado à nossa existência. Com um termo dramático, a Bíblia fala de “aliança”, um contrato substancial, essencial e existencial: a aliança da criação. Este infinitamente grande é ligado à nossa existência por aquele maravilhamento que assegura a emoção da novidade, sem a qual a vida seria tédio mortal, pelo qual Deus se impõe a nós como atração imperativa do real, do ser; por aquela emoção da razão pela qual Deus aparece como a consistência que nos mantém sobre o abismo do nada; por aquela dependência inevitável dos acontecimentos, pela qual Deus nos determina como Destino.
Mas então, se Deus é ligado a nós, podemos falar disso? Deve-se falar disso, no sentido de que não é possível não falar disso, de qualquer modo como se o conceba. Só existe uma maneira de não falar disso: não pensar. “Fechado entre coisas mortais mesmo o céu estrelado acabará. Porque grito a Deus?”. É a pergunta apaixonada de Ungaretti. Pergunta que Rainer Maria Rilke explicitou assim: “Apaga-me os olhos, ainda posso ver-te. Tranca-me os ouvidos, ainda posso ouvir-te, e sem pés posso ainda ir para ti, e sem boca posso ainda invocar-te. Quebra-me os ossos, e posso apertar-te com o coração como com a mão, tapa-me o coração, e o cérebro baterá, e se me deitares fogo ao cérebro, hei-de continuar a trazer-te no sangue”. Por isto, por esta implicação fisiológica, com temor e tremor, repito: Deus precisa dos homens. Assim nos foi revelado.
O belo título do esquecido filme de Delannoy é certamente um paradoxo, mas é verdadeiro: Deus se fez necessitado do homem pelo modo como agiu. Só podemos nos exprimir com estas fórmulas: ter necessidade sem que fosse preciso ter necessidade é amor. O amor na sua pureza, para todos vivido como nostalgia sobretudo quando não é vivido como experiência, o amor na sua gratuidade absoluta. Deus se fez necessitado do homem porque o criou livre, fez o homem participar desta Sua suprema capacidade de posse de si, e, em segundo lugar, porque se fez homem, se fez história! Péguy, no Mistério dos Santos Inocentes, escreveu: “Perguntem a um pai se o melhor momento não é quando os seus filhos começam a amá-lo como homens, ele mesmo, como um homem, livremente, gratuitamente. Perguntem isso a um pai cujos filhos estejam crescendo. Perguntem a um pai se não existe uma hora secreta, um momento secreto, e se não é quando os seus filhos começam a se tornar homens, livres, e ele mesmo tratado como um homem, livre! Amam-no como um homem, livre, perguntem isso a um pai cujos filhos estão crescendo. Perguntem àquele pai se não existe uma eleição entre todas, e se não é quando a submissão precisamente acaba, e quando os seus filhos, tornados homens, o amam, o tratam por assim dizer como conhecidos, de homem para homem, livremente, gratuitamente, o estima assim. Perguntem àquele pai se não se ele não sabe que nada vale mais do o olhar de um homem que encontra um olhar de homem. Ora, eu sou o pai dos homens, disse Deus, e conheço a condição do homem, fui eu quem a fez, não peço muito a eles, só lhes peço o coração, quando tenho o coração acho que já é suficiente, não sou difícil. Todas as submissões de escravos do mundo não valem um belo olhar de um homem livre, ou mais: todas as submissões de escravos do mundo me repugnam e eu daria tudo por um belo olhar de homem livre, por uma bela obediência e ternura e devoção de homem livre, por um olhar de São Luiz IX e também por um olhar de Joinville, porque Joinville é menos santos, mas não é menos livre, e não é menos cristão e não é menos gratuito, e meu filho morreu também por Joinville. Por esta liberdade, por esta gratuidade sacrifiquei tudo, disse Deus, pelo gosto que tenho de ser amado por homens livres, livremente, gratuitamente, por verdadeiros homens, viris, adultos, firmes, nobres, ternos mas de uma ternura firme. Para obter esta liberdade, esta gratuidade, sacrifiquei tudo, para criar esta liberdade, esta gratuidade, para fazer agir esta liberdade, esta gratuidade, para ensinar ao homem a liberdade...”.
Mas, esta capacidade enérgica de aderir ao ser, na qual está a liberdade, tem em si um mecanismo tremendo, como um mistério, Péguy diz “mistério dos mistérios”. A liberdade se realiza como escolha, como opção. Diria Althusser, naquele seu terrível juízo: “A diferença entre o crer na existência de Deus e o marxismo não está em uma razão, é uma pura opção”. Escolha do quê? Aceitar o não aceitar o Ser. Esta é uma escolha que se repropõe a cada dia, porque nós, a cada manhã, nos levantamos e nos colocamos diante da realidade com o olhar escancarado, aberto, ingênuo de uma criança, pronto para dizer pão ao pão, vinho ao vinho. “Seja o vosso dizer sim, não; toda outra palavra vem da mentira”. Ou então, nos levantamos com os cotovelos cobrindo o rosto, cautelosos, para nos defendermos da realidade (aceitar ou não o Ser, a própria mãe ou Deus é o mesmo, a posição é idêntica), ajuntando pretextos também contra a evidência, naturalmente. E se se ajuntam pretextos, então não é apenas negação, mas é mentira. As razões, os pretextos fundamentais, são a dor, em todos os sentidos, mesmo a dor do se sentir por baixo, ou a pretensão, a vontade de afirmação do homem, não de si, atenção, não do próprio eu, mas do homem, atenção outra vez, do homem à la Feuerbach.
Talvez o exemplo mais impressionante da primeira razão, a dor do homem, é uma famosa poesia de Montale que me permito citar: “Talvez, uma manhã, andando sob o ar árido, virando-me, verei acontecer o milagre; o nada atrás de mim, o vazio às minhas costas com um terror de bêbado. Depois, como que sobre uma tela, se encherá de árvores, casas, colinas, para o engano habitual, mas será muito tarde. E eu irei embora calado, entre as pessoas que não olham para trás, com o meu segredo”. Quando li esta poesia de Montale, de repente, entendi; porque esta é a posição na qual se acende a intuição e a experiência mística, esta percepção imediata do nada das coisas, da inconsistência de tudo, do efêmero, é também o início da experiência do Ser que dá consistência e sustenta tudo. “Rerum Deus tenax vigor”, “Ó, Senhor, consistência tenaz de todas as coisas”: aqui, pelo contrário, da mesma idêntica experiência, tem-se o nihilismo: é uma pura opção. Justamente Péguy fala do “mistério dos mistérios”, da liberdade.
Sem dúvida, de um ponto de vista abstrato, Montale não explica uma coisa (o erro é sempre constrangido a esquecer ou a renegar algo): porque as coisas são, efêmeras (o ilusório é já uma avaliação) mas são. Enquanto que um belo exemplo da afirmação de si (mas na afirmaçaõ de si é afirmação da liberdade do homem) é um conhecido trecho de Nietzsche: “Um dia, o viandante fechou a porta atrás de si e chorou. Depois, disse: ‘Este ardente desejo do verdadeiro, do real, do não aparente, do certo... como o odeio!’”. Toda a imponência do mistério do real, se o homem não o reconhece, é como nada. O vazio atrás de mim. É como um nada, não porque não exista, mas porque não é reconhecido. E, nesse sentido, Tischner, comentando as poesias do Papa Wojtyla, disse que “para o Papa Wojtyla, o homem permite a Deus ser um Deus”.
Deus, para ser reconhecido como Deus, deve, de certa maneira, esperar esta escolha, mas a negação só pode corresponder a uma última postura de ira, sutil e clamorosa; a uma afirmação irada, surda, ou potente. Nesta ira o acento não está sobre a afirmação de si, da própria humanidade pessoal, mas sobre a recusa de algo que é dado. É a recusa ao ato de um Outro, recusa da própria condição humana enquanto dada, recusa da própria natureza, recusa de uma gratuidade originária. Estranhamente, o acento não é sobre o orgulho, sobre a vontade de afirmaçaõ de si, porque o homem, na concretude da sua pessoa, se dissolve. “Quem não crê mais em Deus – dizia Claudel nas suas grandes Odes –, não crê mais no ser, e quem odeia o ser odeia a própria existência”.
Como eu gostei de ter lido em Um homem, de Oriana Fallaci, esta observação: “A amarga descoberta de que Deus não existe, matou a palavra destino”. Mas, negar o destino é arrogância; afirmar que nós somos os únicos artífices da nossa existência é loucura, a loucura com a qual Sartre dizia: “As minhas mãos?! O que são as minhas mãos? A distância incomensurável que me divide do mundo dos objetos e me separa dele para sempre”. Quanto mais você aperta e segura, mais você é condenado a perceber, a experimentar uma distância: nenhum nexo é possível. É o eu que se dissolve, centro de relações e de abraço, de afirmação e de colaboração.
Por isso, a dissolução chega até o ponto em que Moravia, em O tédio, fala da “absurdidade de uma realidade insuficiente, ou seja incapaz de me persuadir da própria efetiva existência”. Que terrível morte da razão medida de todas as coisas, que não aceitou ser consciência admirada e maravilhada de uma realidade não sua, que se torna sua na medida da sua obediência, do seu olhar que grita, deseja, escancarado em uma aceitação contínua. Existe, porém, uma alternativa à negação de Deus, existe uma alternativa à recusa de uma responsabilidade diante do pedido, da necessidade expressa por Deus de nós.
No mistério da liberdade, a alternativa ao esquecimento e à negação de Deus, diz o profeta Jeremias, “é prostrar-se diante do trabalho das próprias mãos”. Mas, na sociedade atual, por causa do mecanismo potente no qual tudo é articulado e organizado, é inevitável que este prostrar-se diante do trabalho das próprias mãos se torne prostrar-se diante do poder: quanto menos somos conscientes disso, tanto mais somos assujeitados. “Conseguiu-se fazer como que os homens entendessem – disse Milosz, o grande Nobel pela poesia 1984 – que se vive apenas pela graça dos poderosos. Pense, portanto, em beber café e caçar borboletas. Quem ama a res publica terá a mão cortada”. O mal, que a filosofia e a literatura definem e descrevem, se reflete em nós, nas mil ações de cada dia. Totalmente ou em parte, nossas ações são arrancadas do desígnio do mistério, da ordem de tudo, por causa da recusa da gratuidade.
Esta negatividade, esta incapacidade de perfeição é o acontecimento existencial mais trágico para o homem consciente de si. Sempre recordo aos meus amigos mais jovens a expressão literalmente mais trágica desta consciência, o final do Brand, de Ibsen, quando aquele que por toda a vida procurou o instante perfeito, o ato inteiramente humano, de pé diante de sua cabana, enquanto o estrondo da avalanche que o atropelará está se aproximando, grita: “Responde-me, ó Deus, no momento em que a morte me atropela: pode toda a vontade de um homem obter um só ato perfeito?”. Um só ato humano? Por isso, eu lembro com emoção, e também com uma paradoxal gratidão, as palavras de uma pessoa que estimo profundamente, a propósito do pecado: “O pecado talvez seja eu”. A afirmação parece se transformar completamente: o homem tem, portanto, necessidade de Deus para ser homem? Como resposta Deus se faz homem, se envolve. Certo, quem tem muito senso dramático da vida, é muito próximo do Cristianismo, para ele é muito mais fácil entender o Cristianismo. Como resposta Deus se faz homem, se envolve com o homem como companheiro real de caminho, totalmente familiar, inicia um diálogo imediato sem longos, solitários e ambíguos espaços interpretativos. Assim, Deus se faz necessitado dos homens, exatamente como homem. E é neste ponto que a opção se joga de modo mais drástico e se torna drama histórico e tragédia do pensamento.
Em nome da autonomia da verdade humana, em nome do seu modo de conceber o último, aquilo a que damos o nome de Deus, porque é inevitável a implicação do último no dinamismo da razão, o homem afasta com violência, até ao tédio, esta presença amorosa que tem necessidade do homem, mas lhe pede de amá-lo com toda a mente, com todo o coração, com todas as forças, como diz o Evangelho. Assim, da honestidade dos fariseus, à recusa do jovem rico, ao escândalo de Judas, a abolição de Cristo da memória que decide e guia a vida individual e social, se torna pecado social. Uma obviedade da cultura dominante: Cristo é um grande homem, desde que seja abolido, como Cristo, da memória. Tal abolição se torna renúncia à categoria suprema da razão, a categoria da possibilidade. É absurdo, é inconcebível, é impossível.
Lembro-me, em O fim de caso, de Graham Greene, que o protagonista, livre pensador, vai à noite na casa de seu amigo cuja mulher havia morrido e encontra o confessor da mulher, um padrezinho magrelo, pequeno, frágil, que ele tenta confundir através de uma série de invectivas contra a imagem religiosa cristã da vida e do homem. E aquele pobre padrezinho, aproveitando uma pausa do artista, “livre pensador”, exclama timidamente: “Mas, me parece que eu sou mais livre pensador do que o senhor; porque é pensamento mais livre admitir todas as possibilidades do que excluir alguma”. É da abolição da memória de Cristo como Deus-homem que se torna possível a lucidez histérica com a qual tanta cultura moderna renega Deus; mas Nietzsche dizia: “Se arrancamos Cristo, devemos arrancar Deus”. Mas, Cristo é um empenho do mistério, irreversível, com o tempo humano; a Bíblia o chama “Aliança Eterna”. Deus é fiel a si mesmo, Cristo é o revelar-se da natureza do mistério para o homem. O que é o mistério para o homem? Misericórdia. A gratuidade inicial, original, pela qual o homem é, se revela de forma realizada no seu coração, na sua profundidade afetiva. É misericórdia.
A resposta negativa do homem não resolve a grande questão de amor: Cristo se implica na totalidade da existencialidade mesma do homem, na totalidade da minha existência. A ideia de que, para o Cristianismo, a salvação, isto é o sentido positivo do mundo, é ligado a um ponto infinitesimal que é o “sim” de uma garota de 15, 16 ou 17 anos no máximo, que vive em um vilarejo perdido da Palestina, bastaria para me fazer entender o divino. Assim, do outro lado, um homem é beijado, naquela noite, e exclama: “Amigo, por que veio? Judas, com um beijo trais o Filho do Homem”. Envolvido com a existencialidade humana, com o jogo da sua liberdade, segundo os movimentos normais, cotidianos dela, implicado na totalidade da existência como homem, Cristo se faz necessitado das concretas, visíveis coisas que o homem usa: a água do Batismo, o óleo da Crisma, o vinho e o pão da Eucaristia, a palavra da Confissão; o gesto, onde quer que seja. Mas a realidade histórica total da qual Cristo tem necessidade para cumprir a sua presença no caminho do homem em direção ao destino é a unidade entre todos aqueles que o Pai lhe deu.
O capítulo 17 de São João diz: “A unidade de todos aqueles a quem foi dado conhecê-Lo”. Início da unidade total da humanidade, é a unidade entre aqueles que o Pai lhe deu, a Comunidade Eclesial, “este ambiente da existência redimida do homem”, como nos disse João Paulo II, no dia 29 de setembro, a Comunidade Eclesial, existência redimida portanto não perfeita... ambiente fascinante, onde cada homem encontra a resposta à pergunta sobre o significado para a sua vida, isto é Cristo centro do cosmos e da história. Porque não existe nenhum fascínio na vida maior do que o esplendor claro do significado. Porque o fascínio é a atração do verdadeiro, “pulchrum splendor veri”, dizia São Tomás.
Assim, em um certo sentido, o início cristão não é o início de uma religião e nem mesmo de uma ética, mas de uma estética. A ética acontecerá, como consequência, a partir de um amor despertado, e o amor é despertado pela beleza, que é a atração própria da verdade. Comunidade Eclesial: onde todos os temperamentos, todas as histórias, todos os movimentos, as associações, brotam do único pedido por aquele significado e junto, sem nenhuma possibilidade de domínio, completando-se e ajudando-se um ao outro como grande e apaixonada companhia, fluem em direção à única foz; o testemunho a todo o mundo humano de Cristo morto e ressuscitado. Mas esta Comunidade Eclesial é um povo, ou, como dizia Paulo VI (no dia 25 de julho de 1975), “uma entidade étnica sui generis”, um povo de homens: Deus não precisa de santos, precisa de homens.
Assim Eliot descreve o caminho desta povo, no VII Coro da Rocha: “A partir daquele momento pareceu como se os homens devessem proceder da luz à luz, na luz do Verbo através da paixão, do sacrifício, salvos a despeito do seu ser negativo, bestiais como sempre, carnais, egoístas como sempre, interessados, obtusos como sempre foram, e no entanto sempre em luta, sempre reafirmando, sempre retomando a sua marcha na vida iluminada pela luz, muitas vezes parando, perdendo tempo, desviando-se, atrasando-se, voltando atrás, porém nunca segundo um outro caminho”. Este Cristo introduziu na nossa vida, fazendo-se companheiro nosso, a dignidade, a liberdade como tensão ao infinito; se o homem é relação com o infinito, a única dinâmica digna é a tensão ao infinito. Como uma criança que, nascida, deve aprender a caminhar, e cai mil vezes, e recomeça mil vezes, mas tudo nela é tensão ao caminho e à vida.
Eliot prossegue: “Mas, parece que algo aconteceu, que não tinha acontecido antes, apesar de não se saber quando, ou por que, ou como, ou onde. Os homens abandonaram a Deus não po outros deuses, dizem, mas por Deus algum, e isto nunca tinha acontecido antes; que os homens negassem os deuses e adorassem como deuses a razão ou o dinheiro, o poder ou o que chamam vida, raça, dialética. A Igreja repudiada, a torre abatida, os sinos revirados, o que podemos fazer? Deserto e vazio, deserto e vazio, porque deserto e vazio é o mundo lá onde não há busca de um significado, e trevas sobre a face do abismo. É a Igreja que abandonou a humanidade, ou a humanidade que abandonou a Igreja? Todos os dois. Quando a Igreja não é mais considerada, e nem mesmo combatida, e os homens esqueceram todos os deuses, menos a Usúra, a Luxúria e o Poder”.
O Deus do homem é o que o homem é; o que o homem é, é o seu Deus. Mas o homem não é luxúria, dinheiro e poder. Estes dinamismos pretendem continuamente definir o homem e o homem pode se tornar algo como esses dinamismos, sobretudo teoricamente, escravo, prisioneiro; mas o homem é definido por algo mais, onde o cálculo é transformado. Não obstante tudo, não obstante o homem seja atravessado continuamente pela fome e pela sede de luxúria, de dinheiro e de poder, afirmar este mais, tender em direção a este mais, viver esta luta e, na própria fragilidade, mendigar como pobres no meio da rua, é o modo humano de viver a gratuidade, de viver a própria verdadeira natureza, imagem de Deus, de viver aquele relacionamento com o infinito, criador por graça. Tal capacidade de gratuidade, este salto para além do cálculo, em direção ao infinitamente grande, é o teste da vida. “Vim para que tenham vida e a tenham em abundância”, uma vida que não seja forçada a esquecer ou renegar nada.
Permitam-me citar este trecho do Diário, de Kierkegaard: “O relacionamento de negatividade polêmica que o paganismo colocava entre a ideia de uma vida futura e a existência presente, se vê também na obrigação que as almas tinham de, chegadas aos Campos Elíseos, beber a água do rio Lete”. Para entrar no paraíso deles, os pagãos acreditavam que as almas devessem antes beber a água do rio Lete, que na raiz grega quer dizer “esquecer”: para ser feliz no além, era preciso esquecer tudo. Mas esta é a norma para toda a ideologia, teorizada ou implicada no modo de viver. O Cristianismo, pelo contrário, ensina que devemos prestar conta, que há um valor eterno até mesmo uma palavra dita por brincadeira. Isto significa, entre outras coisas, a presença total do nosso passado, mesmo que um outro Lete, a misericórdia, nos tira a dor lancinante: é a transformação profunda, a conversão profunda do meu mal mesmo.
O Evangelho diz: “Mesmo os cabelos da tua cabeça são numerados”. Uma vida que se torna si mesma, isto é sempre mais vida, como dizia Santo Agostinho: “A vida não deve passar, literalmente, da juventude à velhice, mas é a juventude que deve crescer sempre mais”. Isto que Santo Agostinho afirmava por experiência pessoal é testemunhado por uma belíssima poesia de uma grande poetisa, mesmo que esquecida, de 70 anos, Ada Negri – Juventude: “Não te perdi, permaneceste no fundo do ser, és tu, mas uma outra és, sem folhas e flores, sem o riso que tinhas no tempo que não volta, sem aquele canto; uma outra és, mais bela. Amas, e não exiges seres amada, a cada flor que desabrocha ou fruto que amadurece ou criança que nasce, ao Deus dos campos e das estirpes dás graças de coração; não amas a flor porque a colhes e cheiras, mas porque é; não mas o fruto porque o mordes, mas porque é; não amas a criança porque é tua, mas porque é”.
Esta é a gratuidade tornada vida cotidiana, que reverberação no olhar de quem vive próximo!, que reverberação no pensamento e no trabalho para as pessoas desconhecidas que vivam distante!, que reverberação de missão! No fundo, o Cristianismo realiza a imagem queVictor Hugo, num belíssimo trecho do seu A Contemplação, com o título O Eremita, descreve. Ele imagina este eremita que se levanta de manhã cedo, no alvorecer, e tenta, à luz da vela, começar a ler e meditar o seu texto. Na medida em que lê, o sol se levanta e cresce e, assim, ao mesmo tempo, na sua alma se faz a luz, não da juventude à velhice; é a juventude que deve crescer sempre. “Não confiem no amor”, é a última recordação de Paul Valery aos seus amigos. “Não cremos no amor”, é a mensagem de João. “Sei bem que Deus não me ama, como poderia me amar? E todavia, no fundo de mim, algo, um ponto de mim, não pode me impedir de pensar, tremendo de medo, que talvez, apesar de tudo, me ama”, do primeiro caderno de Simone Weil.
Isto é aquilo sobre o que não se pode atestar a nossa humanidade, pelo pouco de pureza que mantenha. Há um único verdadeiro delito, o esquecimento de Deus que precisou de nós, que precisa de nós. “Sinto que o meu navio – disse um bom poeta espanhol, Juan Ramón Jiménez – bateu, lá no fundo, em algo grande”. O nosso navio que está navegando pelo Oceano da vida bateu, lá no fundo, em algo grande: Deus presente. E nada acontece. Nada, paz, ondas. Tudo como antes, tudo já aconteceu e estamos já tranquilos no diferente, já nos resignamos? Eu desejo, para mim e para vocês, que nunca estejamos tranquilos, nunca mais tranquilos.

* Extraído do site Il Sussidiario.net. É transcrição da colocação de dom Luigi Giussani no Meeting de Rímini, do ano de 1985. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

Evangelho do dia (Mt 16,24-28)


São Sisto II

Naquele tempo, Jesus disse aos discípulos: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e me siga. Pois quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim, vai encontrá-la. De fato, de que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro mas perder a sua vida? Que poderá alguém dar em troca de sua vida? Porque o Filho do Homem virá na glória do seu Pai, com os seus anjos, e então retribuirá a cada um de acordo com a sua conduta. Em verdade vos digo: Alguns daqueles que estão aqui não morrerão antes de verem o Filho do Homem vindo com seu Reino” (Mt 16,24-28).

Comentário dia feito por São João da Cruz (1542-1591)
Carmelita, Doutor da Igreja
Aquele que está abrasado do amor de Deus não ambiciona outra coisa, não procura ganho nem recompensa, não aspira senão a tudo perder e a perder-se a si mesmo, no que se refere à vontade, por amor do seu Deus. A seus olhos, está aí o verdadeiro ganho. De fato assim é, de acordo com a palavra de São Paulo: "morrer é uma vantagem" (Fil 1, 21), isto é, a minha morte por Cristo é o meu ganho; morrer espiritualmente para todas as coisas e para mim mesmo é o meu ganho. É por esse motivo que, neste verso do poema, a alma se serve daquela expressão: "Fui ganha". Com efeito, o que não sabe perder-se não se ganha; perde-se, de acordo com esta palavra de nosso Senhor no Evangelho: "Quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas, quem perder a sua vida por minha causa, há-de encontrá-la". Se quisermos compreender este verso de maneira mais espiritual [...], diremos isto: quando uma alma chegou, no seu caminho espiritual, ao ponto de perder todas as vias e todas as formas naturais de lidar com Deus; quando já não O procura pelas reflexões ou pelas imagens, nem pelo sentimento, nem por qualquer meio derivado dos sentidos e das coisas criadas; mas, ultrapassando tudo isso, deixando toda a maneira pessoal e toda a mediação, seja ela qual for, se relaciona com Deus e dEle goza pela fé e pelo amor, pode dizer-se então que encontrou verdadeiramente a Deus, porque na verdade perdeu tudo o que não é Deus e ela própria se perdeu verdadeiramente.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Indulgências por ocasião do Ano Sacerdotal

Como já foi anunciado, Bento XVI decidiu proclamar um especial Ano Sacerdotal por ocasião do 150º aniversário da morte do santo Cura d'Ars, João Maria Vianney, luminoso modelo de pastor, plenamente dedicado ao serviço do povo de Deus. Durante o Ano Sacerdotal, que terá início a 19 de Junho de 2009 e se concluirá a 19 de Junho de 2010, será concedido o dom de indulgências especiais, segundo o que está descrito no seguinte Decreto da Penitenciaria Apostólica.
PAENITENTIARIA APOSTOLICA
URBIS ET ORBIS
D E C R E T O

Serão enriquecidos com o dom de Sagradas Indulgências, particulares exercícios de piedade, a realizar-se durante o Ano Sacerdotal proclamado em honra de São João Maria Vianney.
Aproxima-se o dia no qual se comemorarão os 150 anos do piedoso trânsito para o céu de São João Maria Vianney, Cura d'Ars, que aqui na terra foi um admirável modelo de verdadeiro Pastor ao serviço do rebanho de Cristo.
Dado que o seu exemplo é adequado a estimular os fiéis e, principalmente, os sacerdotes a imitar as suas virtudes, o Sumo Pontífice Bento XVI estabeleceu que, para esta ocasião, de 19 de Junho de 2009 a 19 de Junho de 2010 seja celebrado em toda a Igreja um especial Ano Sacerdotal, durante o qual os sacerdotes se reforcem cada vez mais na fidelidade a Cristo com meditações piedosas, exercícios sagrados e outras obras oportunas.
Este período sagrado terá início com a solenidade do Sacratíssimo Coração de Jesus, dia de santificação sacerdotal, quando o Sumo Pontífice celebrará as Vésperas na presença das sagradas relíquias de São João Maria Vianney, trazidas a Roma pelo Excelentíssimo Bispo de Belley-Ars. O Beatíssimo Padre também concluirá o Ano Sacerdotal na Praça de São Pedro com os sacerdotes provenientes de todo o mundo, que renovarão a fidelidade a Cristo e o vínculo de fraternidade.
Os sacerdotes empenhem-se com orações e boas obras, em obter do Sumo e Eterno Sacerdote Cristo a graça de resplandecer com a Fé, a Esperança, a Caridade e outras virtudes, e mostrem com o comportamento de vida, mas também com o aspecto exterior, que estão a dedicar-se plenamente ao bem espiritual do povo; o que, sobre todas as outras coisas, a Igreja teve sempre a peito.
Para alcançar do melhor modo a finalidade desejada, beneficiará muito o dom das Sagradas Indulgências, que a Penitenciaria Apostólica, com o presente Decreto emanado em conformidade com a vontade do Augusto Pontífice, benignamente concede durante o Ano Sacerdotal:
A. Aos sacerdotes verdadeiramente arrependidos, que em qualquer dia devotamente recitarem pelo menos as Laudes matutinas ou as Vésperas diante do Santíssimo Sacramento, exposto à pública adoração ou reposto no tabernáculo e, a exemplo de São João Maria Vianney, se oferecerem com ânimo pronto e generoso à celebração dos sacramentos, sobretudo da Confissão, concede-se misericordiosamente em Deus a Indulgência plenária, que poderá inclusive ser aplicada aos irmãos defuntos como sufrágio; se, em conformidade com as disposições vigentes, se aproximarem da confissão sacramental e do Convívio eucarístico, e rezarem segundo as intenções do Sumo Pontífice.
Além disso, aos sacerdotes concede-se a Indulgência parcial, também aplicável aos irmãos defuntos, cada vez que recitarem devotamente orações devidamente aprovadas a fim de que conduzam uma vida santa e cumpram santamente os ofícios que lhes forem confiados.
B. A todos os fiéis verdadeiramente arrependidos que, na igreja ou no oratório, assistirem devotamente ao divino Sacrifício da Missa e oferecerem, pelos sacerdotes da Igreja, orações a Jesus Cristo, Sumo e Eterno Sacerdote, e qualquer obra boa realizada naquele dia, a fim de os santificar e plasmar segundo o Seu coração, concede-se a Indulgência plenária, contanto que tenham expiado os próprios pecados com a penitência sacramental e elevado orações segundo as intenções do Sumo Pontífice: nos dias em que se abre e se encerra o Ano Sacerdotal, no dia do 150º aniversário do trânsito piedoso de São João Maria Vianney, na primeira quinta-feira do mês ou em qualquer outro dia estabelecido pelos Ordinários dos lugares, para a utilidade dos fiéis.
Será muito oportuno que, nas igrejas catedrais e paroquiais, sejam os próprios sacerdotes prepostos ao cuidado pastoral a dirigir publicamente estes exercícios de piedade, a celebrar a Santa Missa e confessar os fiéis.
Aos idosos, doentes e a todos os que por motivos legítimos não puderem sair de casa, com o ânimo desapegado de qualquer pecado e com a intenção de cumprir, assim que possível, as três condições de costume, na própria casa ou onde estiverem a viver, concede-se de igual modo a Indulgência plenária se, nos dias acima determinados, recitarem orações pela santificação dos sacerdotes e oferecerem a Deus com confiança as doenças e as dificuldades da sua vida, por intermédio de Maria, Rainha dos Apóstolos.
Enfim, concede-se a Indulgência parcial a todos os fiéis todas as vezes que recitarem devotamente cinco Pai-Nossos, Ave-Marias e Glórias, ou outra oração devidamente aprovada, em honra do Sacratíssimo Coração de Jesus, a fim de obter que os sacerdotes se conservem em pureza e santidade de vida.
O presente Decreto é válido por toda a duração do Ano Sacerdotal. Não obstante qualquer disposição contrária.
Dado em Roma, na sede da Penitenciaria Apostólica, a 25 de Abril, festa de São Marcos Evangelista, do ano da Encarnação do Senhor de 2009.

James Francis Card. Stafford
Penitenciário-Mor

Gianfranco Girotti,O.F.M.,Conv.
Bispo Titular de Meta, Regente

Bento XVI apresenta São João Maria Vianney

Castel Gandolfo, quarta-feira, 5 de agosto de 2009.

Queridos irmãos e irmãs,
na catequese de hoje, pretendo percorrer brevemente a vida do Santo Cura d'Ars, destacando alguns traços que possam servir de exemplo para os sacerdotes do nosso tempo, certamente uma época diferente daquela em que ele viveu, mas marcada, em muitos aspectos, pelos mesmos desafios fundamentais humanos e espirituais. Exatamente ontem se cumpriram os 150 anos de seu nascimento ao Céu: eram duas da manhã de 4 de agosto de 1859 quando São João Maria Vianney, terminado o curso de sua existência terrena, foi ao encontro do Pai celestial para receber como herança o reino preparado desde a criação do mundo para aqueles que seguiram fielmente seus ensinamentos (cf. Mt 25, 34). Que grande festa deve ter acontecido no Paraíso ao ingresso de tão zeloso pastor! Que acolhida deve ter sido reservada a ele pela multidão de fiéis reconciliados com o Pai, por meio de seu trabalho como pároco e confessor! Gostaria de partir deste ponto para pôr em destaque o Ano Sacerdotal, que, como se sabe, tem o tema “Fidelidade de Cristo, fidelidade do sacerdote”. Depende da santidade a credibilidade do testemunho e, em definitivo, a eficácia da missão de cada sacerdote.
João Maria Vianney nasceu na pequena aldeia de Dardilly, a 8 de maio de 1786, de uma família camponesa, pobre em bens materiais, mas rica em humanidade e fé. Batizado, como era costume na época, no mesmo dia do nascimento, dedicou os anos da infância e da adolescência ao trabalho no campo e ao pastoreio de animais, de tal forma que, à idade de dezessete anos, ainda era analfabeto. Mas conservava na memória as orações ensinadas pela piedosa mãe e se nutria do sentido religioso que se respirava em casa. Os biógrafos contam que, desde o início da juventude, ele buscou moldar-se à vontade divina, mesmo nas tarefas mais humildes. Cultivava em mente o desejo de se tornar sacerdote, mas não foi fácil alcançar isso. Chegou à ordenação presbiteral depois de muitas vicissitudes e incompreensões, graças à ajuda de sábios sacerdotes, que não se detiveram a considerar somente seus limites humanos, mas souberam olhar mais longe, intuindo o horizonte de santidade que se perfilava naquele jovem verdadeiramente singular. Assim, a 23 de junho de 1815, foi ordenado diácono, e a 13 de agosto seguinte, sacerdote. Finalmente, à idade de 29 anos, depois de muitas incertezas, insucessos e lágrimas, pôde subir ao altar do Senhor e realizar o sonho da sua vida.
O Santo Cura d'Ars sempre manifestou a mais alta consideração pelo dom recebido. Afirmava: "Ó, que grandioso é o sacerdócio! Só se compreende bem no Céu... mas se o compreendesse sobre a terra, morrer-se-ia, não de temor, mas de amor" (Abbé Monnin, Esprit du Curé d'Ars, p. 113). Além disso, quando criança, tinha confiado a sua mãe: "Se eu fosse padre, conquistaria muitas almas" (Abbé Monnin, Procès de l'Ordinaire, p. 1.064). E assim foi. No serviço pastoral, tão simples como extraordinariamente fecundo, este anônimo pároco de uma distante aldeia do sul da França conseguiu de tal modo identificar-se com o seu ministério que se tornou, de uma maneira visivelmente reconhecível, alter Christus, imagem do Bom Pastor, que, diferentemente dos mercenários, dá a vida por suas ovelhas (cf. Jo 10:11). A exemplo do Bom Pastor, ele deu a vida nos decênios de seu serviço pastoral. Sua existência foi uma catequese viva que adquiria uma eficácia particularíssima quando as pessoas o viam celebrar a missa, deter-se em adoração diante do sacrário ou passar muitas horas no confessionário.
O centro de toda sua vida foi a Eucaristia, que celebrava e adorava com devoção e respeito. Outra característica fundamental desta extraordinária figura sacerdotal era o assíduo ministério da confissão. Reconhecia na prática do sacramento da Penitência o natural cumprimento do apostolado sacerdotal, em obediência ao mandato de Cristo: “Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados” (cf. Jo 20, 23). São João Maria Vianney distingue-se portanto como ótimo e incansável confessor e diretor espiritual. Passando, com “um único movimento interior, do altar ao confessionário”, onde transcorria grande parte do dia, buscava de todos os modos, com a pregação e com o aconselhamento, fazer os paroquianos redescobrirem o sentido e a beleza da penitência sacramental, mostrando-a como um sinal íntimo da presença da Eucaristia (cf. Carta aos sacerdotes para o Ano Sacerdotal).
Os métodos pastorais de São João Maria Vianney poderiam parecer um pouco distantes das atuais condições sociais e culturais. Como poderia imitá-lo um sacerdote hoje, em um mundo tão mudado? Se é verdade que mudam os tempos e muitas características são típicas de cada pessoa, às vezes irrepetíveis, há no entanto um estilo de vida e um alento fundamental que todos somos chamados a cultivar. Na verdade, o que fez santo o Cura d’Ars foi a sua humilde fidelidade à missão a que Deus o chamou, foi seu constante abandono, cheio de confiança, nas mãos da Divina Providência (grifo meu). Ele conseguiu tocar o coração das pessoas não com a força de seus talentos humanos, ou através de um louvável esforço da vontade; conquistou as almas, mesmo as mais resistentes, comunicando-lhes aquilo que vivia internamente, que era a sua amizade com Cristo (grifo meu). Foi “apaixonado” por Cristo, e o verdadeiro segredo do seu sucesso pastoral estava no amor que nutria pelo mistério eucarístico anunciado, celebrado e vivido, que passou a ser amor pelo rebanho de Cristo, os cristãos e todas as pessoas que buscam a Deus. O seu testemunho nos recorda, queridos irmãos e irmãs, que para cada pessoa batizada, e ainda mais para o sacerdote, “a Eucaristia não é apenas um evento com dois protagonistas, um diálogo entre Deus e mim. A comunhão eucarística encaminha para uma transformação total da própria vida. Com toda força escancara o eu inteiro do homem e cria um novo nós" (Joseph Ratzinger, A Sagrada Comunhão na Igreja, p. 80).
Longe de diminuir a figura de São João Maria Vianney a um exemplo, embora louvável, da espiritualidade devocional do século XIX, é necessário, por outro lado, compreender a força profética que marca sua personalidade humana e sacerdotal de uma altíssima atualidade.
Na França pós-revolucionária, que experimentava uma espécie de "ditadura do racionalismo", empenhada em apagar a presença dos padres e da Igreja na sociedade, ele tinha vivido anteriormente – nos anos de juventude – uma heróica clandestinidade percorrendo quilômetros pela noite para participar da Santa Missa. Depois – como sacerdote – distingue-se por uma singular e fecunda criatividade pastoral, pronta a demonstrar que o racionalismo, então imperante, era na realidade distante de satisfazer as necessidades autênticas do homem (grifo meu).
Queridos irmãos e irmãs, 150 anos após a morte do Santo Cura d'Ars, os desafios da sociedade moderna não são menos exigentes, talvez até se tornaram mais complexos. Se naquele tempo havia a “ditadura do racionalismo”, hoje se registra em muitos ambientes uma espécie de "ditadura do relativismo". Ambas lançam respostas inadequadas à justa procura do homem por usar de modo pleno a razão como elemento distintivo e constitutivo da própria identidade. O racionalismo foi inadequado porque não levou em conta os limites humanos e aspirou a elevar apenas à razão a mistura de todas as coisas, transformando-as em uma ideia; o relativismo contemporâneo mortifica a razão, porque de fato chega a afirmar que o ser humano não pode conhecer nada com certeza além do campo científico positivo. Hoje, como então, o homem, “mendicante de significado e completude”, sai em contínua busca das respostas exaustivas às questões de fundo que não cessam de se colocar (grifo meu).
Tinham bem presente esta “sede de verdade”, que arde no coração humano, os Padres do Concílio Vaticano II, quando afirmaram que cabe aos sacerdotes, “como educadores da fé”, formar uma “genuína comunidade cristã”, capaz de abrir “a todos o caminho para Cristo” e de exercer “uma verdadeira maternidade” para eles, indicando aos que não crêem “o caminho para Cristo e para a Sua Igreja”, e constituindo para os que já crêem “ânimo, alimento e sustento no combate espiritual”. (cf. Presbyterorum ordinis, 6). O ensinamento que a este propósito continua a transmitir o Santo Cura d’Ars é que, na base de tal empenho pastoral, o sacerdote deve cultivar uma íntima união pessoal com Cristo, fazendo-a crescer dia após dia. Só se estiver apaixonado por Cristo, o sacerdote poderá ensinar a todos esta união, esta amizade íntima com o divino Mestre; poderá tocar os corações das pessoas e abri-las ao amor misericordioso do Senhor. Só assim poderá infundir entusiasmo e vitalidade espiritual à comunidade que o Senhor lhe confia. Oremos para que, por intercessão de São João Maria Vianney, Deus conceda santos sacerdotes à sua Igreja e para que cresça nos fiéis o desejo de sustentar e auxiliar o seu ministério. Confiemos esta intenção a Maria, que hoje invocamos como Nossa Senhora das Neves.

* Extraído de Zenit.

Por que tanto ódio contra os cristãos?


por Roberto Fontolan

Entre os tantos aniversários comemorados em 2009 no fim do ano recordaremos os 30 anos da invasão soviética no Afeganistão. Em uma noite do final de dezembro de 1979, enormes Antonov, aviões de transporte de tropas usadas pela Armada Vermelha, aterrisavam numa longa sequência no aeroporto de Kabul, que em apenas uma manhã foi tomada sem muita dificuldade.
Já há alguns dias a capital afegã tinha sido abandonada pelos ocidentais, com exceção do padre Angelo Panigati, queainda abria a porta da embaixada italiana, onde figurava oficialmente como “expert cultural” (e o é, de fato). Não apenas era a única testemunha daquela noite, mas era também um dos raríssimos conhecedores do País, dos seus costumes e das suas tribos.
Falava de um Islã muito aberto e pacífico (de resto, até os primeiros anos da década de 1970, Kabul parecia-se com a Beirute pré-bélica, cidade que se inspirava na doce vida romana), vivido como legado natural da tradição e livre de agressividade e de estratégias. Foram os russos que acenderam o fogo de um outro Islã: boa parte das milícias guerrilheiras encontravam motivação e coração na religião. A revolta deles não foi uma revolta nacional, em nome do Afeganistão, mas uma guerra religiosa, em nome do Corão. No tempo, mesmo as formações guerrilheiras mais “laicas” cederam a esta posição.
Na época, daquele caso se entendia e estudava muito pouco (a parte, é claro, padre Angelo). Tudo era muito ideologizado, basta pensar no fato de que os jornalistas ocidentais estavam todos no mesmo hotel de Kabul, exceto os repórteres dos jornais comunistas, a Unidade inclusive, que se alojavam junto com os jornais da Europa do Leste. Nem mesmo os americanos entendiam muito do que estava acontecendo (fato que foi contado, há pouco tempo, no filme Jogos de Poder de Charles Wilson, com Tom Hanks): estavam totalmente atraídos pela idéia de uma vitória comunista, que nunca poderiam ter imaginado que as armas fornecidas aos mujahiddin poderiam ter se constituído, depois, no arsenal da Al Qaeda. Sobretudo, ninguém considerava o Paquistão, que já era, então, um fonte de guerra.
E no entanto não faltavam indícios e sinais. Havia um presidente-ditador ultraislâmico (Zia Ul Haq), havia uma região de fronteira que começava a pulalar de pregadores e militantes, havia uma cidade sem regras – Peshawar – que fazia as vezes de quartel general para o conflito em curso e para aqueles que se estavam preparando. E, além disso, havia os cristãos.
Se alguém tivesse querido escutá-los, há trinta anos atrás, eles teriam contado a experiência da sua ínfima minoria (hoje, entre 1 e 2% dos 170 milhões de habitantes) no País muçulmano criado artificialmente com a separação da Índia (um outro dos desastres britânicos); uma experiência bem equipada com juízos, análises e pensamentos: as discriminações, as opressões, a falta de liberdade, faziam parte do vivido deles.
Era preciso os ter escutado naquela época, mas, como o padre Angelo de Kabul, eram ou ignorados ou não tinham voz: muito marginais e insignificantes. Porém, no Paquistão, no Iraque, na Índia há quem os leve terrivelmente a sério. E, por isso, extermina suas famílias, queima suas igrejas, mata seus sacerdotes: este ódio não nasce da ignorância e da confusão, mas do conhecimento e da clareza de quem são os cristãos e de que mundo são capazes de construir, se forem deixados existir.

* Extraído do site Il Sussidiario, do dia 06 de agosto de 2009. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

Educação de um sujeito novo 3


Bento XVI na Terra Santa
Publicarei aqui, a partir de uma seleção feita por CL (confira aqui), alguns trechos extraídos dos discursos do Santo Padre durante sua peregrição à Terra Santa. É uma contribuição para quem deseja tomar consciência da originalidade da proposta cristã como resposta às exigências do coração de todos os homens e de um testemunho da novidade da fé dentro das circunstâncias da vida, por mais dramáticas que sejam.

Jerusalém, sexta-feira 15 de maio de 2009.
Há cerca de dois mil anos, ao longo destas estradas, um grupo de gregos perguntou a Filipe: “Senhor, queremos ver Jesus” (Jo 12, 21).Trata-se de um pedido que nos é dirigido novamente hoje, aqui em Jerusalém, na Terra Santa, nesta região e em todo o mundo. Como devemos responder? (…) Parece-me que o maior serviço que os cristãos de Jerusalém podem oferecer aos seus próprios concidadãos consiste na orientação e na educação de uma nova geração de cristãos bem formados e comprometidos, solícitos no desejo de contribuir generosamente para a vida religiosa e civil desta cidade única e santa.

Educação de um sujeito novo 2


Bento XVI na Terra Santa
Publicarei aqui, a partir de uma seleção feita por CL (confira aqui), alguns trechos extraídos dos discursos do Santo Padre durante sua peregrição à Terra Santa. É uma contribuição para quem deseja tomar consciência da originalidade da proposta cristã como resposta às exigências do coração de todos os homens e de um testemunho da novidade da fé dentro das circunstâncias da vida, por mais dramáticas que sejam.

Belém, quarta-feira, 13 de maio de 2009.
A vossa terra não tem necessidade apenas de novas estruturas econômicas e políticas, mas de modo mais importante poderíamos dizer de uma nova infra-estrutura “espiritual”, capaz de galvanizar as energias de todos os homens e mulheres de boa vontade ao serviço da educação, do desenvolvimento e da promoção do bem comum.

Educação de um sujeito novo 1


Bento XVI na Terra Santa
Publicarei aqui, a partir de uma seleção feita por CL (confira aqui), alguns trechos extraídos dos discursos do Santo Padre durante sua peregrição à Terra Santa. É uma contribuição para quem deseja tomar consciência da originalidade da proposta cristã como resposta às exigências do coração de todos os homens e de um testemunho da novidade da fé dentro das circunstâncias da vida, por mais dramáticas que sejam.

Madaba, sábado, 9 de maio de 2009.
Elogio os promotores desta nova instituição pela sua confiança corajosa na boa educação como primeiro passo para o desenvolvimento pessoal e para a paz e o progresso nesta região. Neste contexto, sem dúvida a Universidade de Madaba, (…) ao desenvolver os talentos e as nobres atitudes das sucessivas gerações de estudantes, prepará-los-á para servir a comunidade mais vasta a elevar os seus padrões de vida. Ao transmitir conhecimentos e incutir nos estudantes o amor pela verdade, promoverá em grande medida a sua adesão aos valores e a sua liberdade pessoal. Enfim, esta mesma formação intelectual aperfeiçoará a sua capacidade crítica, dissipará a ignorância e o preconceito, e ajudá-los-á a romper os sortilégios criados por velhas e novas ideologias. (…) Na realidade, a fé em Deus não suprime a busca da verdade; pelo contrário, encoraja-a. São Paulo exortava os primeiros cristãos a abrir as próprias mentes a tudo “aquilo que é verdadeiro, nobre, justo, puro, amável, honroso e virtuoso, ou que de algum modo mereça louvor” (Fl 4, 8). (…) Sem dúvida, quando promovemos a educação proclamamos a nossa confiança no dom da liberdade.

Cartas do P.e Aldo 98


Asunción, 06 de agosto de 2009.

Caros amigos,
hoje foi um dia difícil, no qual, de forma muito potente, me passaram pela cabeça e pelo coração as palavras de Carrón, nos Exercícios: “Cada circunstância é positiva”, “Cristo está presente, mas falta-nos o humano” e “eu sou Tu que me fazes” e “mesmo os cabelos da vossa cabeça estão todos contados”.
1. Sepultei Patrícia, de 20 anos, no meu cemitério. Como sempre, além dos coveiros, estavam Irmã Sônia – o anjo da clínica –, a sacristã Alba e Laura, uma psicóloga de Milão... além do motorista da ambulância, Matias. Que dor colocá-la debaixo da terra, na espera da Ressurreição. Mas, também na certeza de que ela, a mulher de rua, agora está lá em cima olhando para mim. Um funeral, como sempre quando morre um dos meus filhos, essencial, mesmo no número de pessoas que me acompanham. E mesmo assim uma coisa humana, bela, porque é o paizinho que acompanha os próprios filhos no lugar onde os surpreenderá a Ressurreição.
2. Enquanto volto para casa do cemitério, me ligam da clínica: Paulo, o rapaz de 21 anos com aquele tumor de 6kg nas costas, morreu. Que golpe! Um outro filho jovem! Só me resta pedir, suplicar: “eu sou Tu que me fazes”. Existe Cristo porque a minha humanidade ferve de desejo pela vida. Corro para a clínica: ele está ali na sua cela... está ainda quente. Beijo-o. Agradeço a ele: nunca eu o ouvi se lamentando, em todos esses meses. Conviveu com uma parte de si já apodrecida. Carrego um pequeno remorso: não lhe trouxe o sorvete que havia prometido. O meu Paulo queria sempre tomar sorvete. Desta vez, será Jesus que lhe vai dar. Dois filhos mortos... no mesmo dia. Revivo quase a cada dia a cena de Marta com Jesus, quando este lhe pregunta: “Tu crês isto?”. E eu: “Senhor, eu creio”. Tudo depende da minha resposta que é somente minha, como a dor.
3. Maria, minha pequena filha de 13 anos, viveu dois momentos difíceis: o exame de AIDS e a visita ginecológica para saber se está grávida. O que ela contou das violências sexuais sofridas é indescritível. Faz-me muito mal. Como é possível que alguém se torne pior do que uma besta? Mas é inútil nos escandalizarmos. “Se eu não fosse Teu, ó meu Cristo, seria uma criatura finita” e pior do que aqueles que abusaram dela com o beneplácito da mãe biológica. Olho para Maria e penso nos seus sofrimentos. Ela é um anjo de dor, eles são anjos de dor... se eu não tivesse encontrado Jesus, ou se Jesus não tivesse me encontrado e não tivesse movido a minha liberdade. Abraço Maria e ela se perde entre meus braços com a ternura de uma filha. Ela, como todos os meus 24 filhos, é fruto de violências terríveis. Eles estão todos aqui por ordem judicial e eu sou o tutor deles. Vão de dois meses de idade a 13 anos. Um dia, me perguntaram: “por que estes teus filhos são assim felizes, quando têm nas costas cenas de terror, violências sexuais etc.?”. A resposta é simples, e é Carrón que me ensina todos os dias: os meus filhos estão dentro do relacionamento que, instante depois de instante, me define – “eu sou Tu que me fazes” –, de forma que gozam do reflexo da minha febre de vida. A educação acontece apenas num relacionamento. Então, o relacionamento com eles é o acontecer do fato de que “eu sou Tu que me fazes” agora... e então, na paciência, reflorescem ou são condenados ao determinismo do passado. O problema sou eu e quem vive comigo esta aventura. O coração que carrego, que carregamos, tem a certeza, a experiência de que eu sou feito agrao, de que eu estou dentro de um relacionamento original, que vem antes de mim. É esta posição a origem da felicidade dos meus filhos. Eles são a reverberação, agora, do “eu sou Tu que me fazes”, do “os meus cabelos estão contados”. Maria, quando eu abraço, é vencida pela minha certeza, pela minha experiência humana do Mistério, de forma que as violências sofridas permanecem, mas não como fatores determinantes nela. Determinante é o meu relacionamento humano, cheio desta certeza que a faz respirar entre os meus braços e em cada instante do dia. Como eu gostaria que vocês entendessem isso... mas é o que eu vivo – o segredo da educação –, é o meu relacionamento definido por esta amizade original com o Mistério! A cada manhã eu vou pegá-los e os levo para a escola. Beijo-os um por um, depois enfrento a disputa deles para pegarem a minha mão. Têm necessidade de me tocar, porque se dão conta de que as minhas mãos são definidas por esta grande Presença. É um tocar-me que os deixa livres, ou seja, que indica para eles a realidade. Olho para os meus bebês e penso nas centenas de famílias jovens, fastidiosas no seu relacionamento com os filhos pequenos e mesmo os já grandinhos, onde se vê que o relacionamento é cheio de posse, onde os filhos são uma compensação afetiva, um entulho para preencher as frustrações, e o relacionamento é assim quando não vivemos aquilo que Carrón nos disse. Enfim, desde que comecei a cuidar desses 24 filhos, há um ano e meio atrás, eu toco com a mão o fato de que não existe nenhuma violência que, no tempo, possa impedir a liberdade de crescer. Mas, tudo se joga num relacionamento vibrante, para mim... tudo se joga no fato de que “eu, agora, sou querido”, “sou feito” e de que o passado foi assumido e redimido por esta certeza mais verdadeira do que o fato de que eu exista. É mesmo bonito ver os meus filhos felizes. Mas felizes mesmo, apaixonados e com uma ternura enorma pela vida. E tudo isso vivido dentro de um relacionamento carregado de Infinito, dentro de uma humanidade na qual Cristo é evidente. Por exemplo, o pequeno Marcos, de quatro anos, chegou sexta-feira passada. Quando nasceu, sua mãe tinha 13 anos de idade. Ela o deixou comigo e foi embora. Domingo, pela manhã, ele veio à Missa com os outros 23. Assim que entrou na Igreja e me viu no altar, gritou, para o desconcerto de todos: “Papai! Papai! Aquele ali é o meu papai!”. Fico comovido e entendo ainda mais que, naquele grito, está presente todo o Marcos, o Marcos de hoje e o de amanhã. E, desde aquele dia, ele, mesmo ele, é um menino que sorri e pinta o sete com todo mundo.
Ciao
Padre Aldo

Cartas do P.e Aldo 97


Asunción, 05 de agosto de 2009.

Caros amigos,
Lembrem-se, agora que estão de férias, de rezar por nós. Hoje, foi um dia difícil, no qual a provocação de Carrón, nos Exercícios (da Fraternidade 2009; ndt), sobre a positividade das circunstâncias, foi vivida intensamente por mim.
1. Estando sozinho aqui, faço as refeições junto com meus filhos. À minha direita está sempre a Rosa, uma garota de 17 anos, com metástase geral, uma perna amputada e a outra com uma massa tumoral enorme pouco acima do joelho. Ela é surda. O amor a torna feliz e se vê isso na forma como é orgulhosa da sua feminilidade, sempre bem cuidada. Num certo momento do almoço, ela parou de comer e começou a chorar em silêncio. De repente, o câncer se fez sentir e a dor era intensa. Rapidamente liguei para a clínica, pedindo para interná-la. Com a cadeira de rodas, a levamos para a clínica, onde agora divide o quarto com a bela Glória, de 27 anos. Sofre, chora, mas não deixa escapar nem um lamento sequer. Reza e me escreveu estas palavras: “Eu agradeço muito a Deus por me ter dado esta vida assim bela que tenho, e também todas as pessoas que me ajudaram nesta minha situação. Obrigada, meu Deus por tudo”. Que fé! Nem mesmo a dor consegue dobrá-la; pelo contrário, ela vive a dor como oferta... algo que só é possível porque ela foi tomada pela mão pelo amor que a rodeia. Os meus filhos e seus irmãozinhos a visitam todo dia.
2. A morte de Patrícia: 20 anos. Ela conheceu só a rua. Doente de AIDS, foi encontrada nua na margem da estrada. Recolhida, foi levada para um centro de saúde. Fizeram o teste e descobriram que tinha AIDS. Colocaram uma fralda nela, cobriram-na com um lençol e a levaram para um hospital tropical, abandonando-a ali. Ninguém cuidava dela. Tratavam-na com desprezo: para todos, era uma prostituta, não uma mulher. Comia papelão e, algumas vezes, até mesmo pedrinhas. Chegou, então, até nós. Nos primeiros dias, sonhava em voltar para a rua: “Ali, me dão um pouco de amor (prostituir-se) e um pouco de dinheiro”. Porém, devagar, rodeada de amor, voltou a sorrir. Com problemas psiquiátricos, se definia como uma formiguinha. Todos os sábados, junto com outros pacientes terminais, ia à pizzaria e comia com gosto. Éramos uma família. Tudo ia bem... mas, hoje de manhã, por volta das 4h, morreu de repente. Toda a clínica se aproximou de seu quarto, chorando, em volta do seu cadáver... e amanhã a levarei para onde estão os meus filhos mortos de AIDS e aqueles de rua, onde, um dia, também eu quero ser sepultado.
3. Porém, o caso mais doloroso de hoje é o da minha filha de 13 anos, que me foi trazida pela polícia. Foi violentada várias vezes: pelo companheiro de sua “mãe”, pelo seu “irmão” e também pelos soldados. Amanhã, terá a visita ginecológica para verificar se está grávida, já que está há mais de um mês sem menstruação... e, além do mais, tem a suspeita de ter pegado AIDS. Pobre dessa minha filha. Estou com o coração em pedaços. E me pergunto: o quer quer dizer que mesmo a sua situação possa ser positiva, que as circunstâncias nas quais vive são positivas? A resposta é apenas uma: o amor de Cristina e o meu, que lhe deram o sorriso outra vez, que lhe deram a alegria e será esta certeza afetiva que a recuperará no meio de tudo o que pode acontecer daqui para frente. Peço-lhes, caros amigos, que rezem muito a Nossa Senhora por esta minha filha predileta. Se Cristo não fosse a minha vida, eu não resistiria por muito tempo nem mesmo fisicamente. Experimento uma dor imensa, e somente a certeza de que Jesus venceu o mal me enche de paz e de conforto.
P.e Aldo

Evangelho do dia (Mc 9,2-10)


Transfiguração do Senhor

Naquele tempo, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, e os levou sozinhos a um lugar à parte, sobre uma alta montanha. E transfigurou-se diante deles. Suas roupas ficaram brilhantes e tão brancas como nenhuma lavadeira sobre a terra poderia alvejar. Apareceram-lhes Elias e Moisés, e estavam conversando com Jesus. Então Pedro tomou a palavra e disse a Jesus: “Mestre, é bom ficarmos aqui. Vamos fazer três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias”. Pedro não sabia o que dizer, pois estavam todos com muito medo. Então desceu uma nuvem e os encobriu com sua sombra. E da nuvem saiu uma voz: “Este é o meu Filho amado. Escutai o que ele diz!”. E, de repente, olhando em volta, não viram mais ninguém, a não ser somente Jesus com eles. Ao descerem da montanha, Jesus ordenou que não contassem a ninguém o que tinham visto, até que o Filho do Homem tivesse ressuscitado dos mortos. Eles observaram esta ordem, mas comentavam entre si, o que queria dizer “ressuscitar dos mortos” (Mc 9,2-10).

Comentário feito por São João Damasceno (c. 675-749)
Monge, teólogo, Doutor da Igreja
Noutros tempos, no monte Sinai, a fumaça, a tempestade, a escuridão e o fogo (Ex 19, 16ss.) revelavam a extrema condescendência de Deus, anunciando que Aquele que dava a Lei era inacessível [...] e que o criador Se fazia conhecer pelas suas obras. Mas agora, tudo está cheio de luz e de esplendor. Porque o artífice e o Senhor de todas as coisas veio do seio do Pai. Não abandonou a morada que Lhe pertencia, isto é, o Seu assento no seio do Pai, mas desceu para estar com os escravos. Tomou a condição de servo e tornou-se homem na sua natureza e no seu comportamento (Fil 2, 7), para que Deus, que é incompreensível para os homens, pudesse ser compreendido. Por Si e em Si, Ele mostra o esplendor da natureza divina. Outrora, Deus tinha estabelecido o homem em união com a Sua própria graça. Quando insuflou o espírito de vida no novo homem formado do barro, quando lhe comunicou o que tinha de melhor, honrou-o com a Sua própria imagem e semelhança (Gn 1, 27). Deu-lhe o Paraíso como morada e fez dele o irmão íntimo dos anjos. Mas, como escurecemos e fizemos desaparecer a imagem divina debaixo da lama dos nossos desejos desregrados, o Misericordioso decidiu-Se a uma segunda comunhão conosco, muito mais segura e extraordinária do que a primeira. Permanecendo na elevação da Sua divindade, aceita também o que está abaixo dela, criando em Si mesmo a natureza humana; mistura o arquétipo com a imagem e, nela, mostra hoje a Sua própria beleza. O Seu rosto resplandece como o sol porque, na Sua divindade, Ele Se identifica com a luz imaterial; por isso Se tornou o Sol de justiça (Mal 3, 20). Mas as Suas vestes tornam-se brancas como a neve, porque recebem a glória por revestimento e não por união, por relação e não por natureza. E "uma nuvem de luz os cobriu com a sua sombra" tornando sensível o resplendor do Espírito.