terça-feira, 29 de setembro de 2009

Cartas do P.e Aldo 108





Asunción, 27 de setembro de 2009.

Caros amigos,
Como eu gostaria que nos deixássemos provocar por aquilo que Carrón nos diz quando fala da urgência de percorrer o caminho do conhecimento, sem deixar buracos pela estrada, para chegar diretamente diante do Mistério e poder dizer-Lhe Tu.
Nunca, como neste sábado, senti tão verdadeiras estas palavras: dizer Tu ao Mistério. Sem esta experiência, hoje, não poderia resistir à dolorosíssima agonia e morte da minha filha mais velha da Casinha de Belém. Rosinha – vocês se lembram dela, quando lhes enviei sua foto no dia da crisma? Agora, estou aqui, ao seu lado, enquanto, olhando para aquele Tu no qual ela já vive, escrevo-lhes para contar para vocês da sua beleza. As suas bochechas que beijei e acariciei tantas vezes estão, agora, mornas, enquanto o frio da morte avança inexoravelmente. As suas unhas cobertas de esmalte branco, longas e bem cuidadas, dão às suas mãos brancas e ternas um toque daquela feminilidade que nos remete ao Infinito. Assim também é o seu belíssimo rosto enquadrado por esta farta moldura de cabelos pretos. Penso outra vez no filme que vi em La Thuile e, depois, em São Paulo. Penso outra vez, e revejo, Giussani lendo aquela belíssima poesia de Leopardi – “Sobre o retrato de uma bela mulher”. É exatamente a descrição de minha Rosinha. Tem apenas 18 anos. Como numa rapidíssima sequência, vejo passar diante de mim aquela hora na qual Giussani nos falava da “Cara Beleza”. Chorei tanto... desde as primeiras horas da manhã quando, com o Santíssimo Sacramento entre as mãos, cheguei ao seu leito. Que dor terrível (somente quem é pai pode me entender... e vive da paternidade que apenas a virgindade pode dar) ao vê-la com os olhos semi-cerrados, ligeiramente levantados para trás, e lutando contra a morte. A sua respiração difícil, uma cada vez mais distante da outra no tempo, como que me descreviam a última grande batalha entre a alma que quer voltar para aquele “Tu que me fazes” e o corpo que não cede, não quer deixá-la partir. Uma luta que vejo todos os dias nos meus filhos que partem (quase 700 em cinco anos) e que, para mim, a cada vez, é um martírio que me toca mesmo fisicamente. O seu rosto todo coberto de suor... também suas mãos. É duro morrer... é a coisa mais dura da vida. Fiquei ao seu lado todo o tempo que me era possível. Não podia viver sem ela, sem acariciá-la e beijá-la, nesse momento dramático... no qual Rosinha, toda consignada ao Mistério, estava quase alcançando-O. Quando, às 12h30, voltei com o Santíssimo Sacramento, ajoelhei-me e coloquei o ostensório ao seu lado. Éramos nós três... ou melhor, era “eu sou Tu que me fazes”. Era aquele Tu que nos tomava a todos. Que experiência de pertença, de paternidade, de filiação eu experimentei! Pensava outra vez nas palavras de Gius, ditas por Carrón que havia encontrado Rosinha alguns dias atrás: “o homem não depende dos seus antecedentes... nem mesmo do câncer e das dores mais terríveis... o homem é relação direta com o Infinito!”.
Algumas horas antes desta cena Eucarística, me fora dado uma outra prova desta verdade, quando a polícia me trouxera um mendigo desequilibrado encontrado na rua. Era irreconhecível como homem: barba comprida, descuidada, sujo de seus próprios excrementos. Acolhido como Jesus, o amigo Carlos o colocou sob a ducha, cortou sua barba e seus cabelos. Surpresa: quando o vi no leito, não o reconhecia mais. Agora, é um outro – sempre aquele de antes, mas é um outro. Perguntei-lhe a idade: 57 anos. Não podia acreditar. Parecia que tivesse 80 quando chegou. O que fez a diferença? Antes, não tinha conhecimento de ser “Tu que me fazes”, agora sim e isto muda, reconstrói o eu, renasce o homem. Como? Através de um abraço... é, agora, aquele abraço de Giussani que chega, cada dia, até àqueles que, pelo mundo, são apenas “mendigos sujos”. Vem-me à mente o epitáfio que está na tumba de Santa Rita de Cássia: “a amizade é uma virtude, mas ser abraçados é a felicidade”. Agora, também este homem, que viveu uma vida na rua, é feliz.
Feliz como a minha Rosinha que nunca perdeu o seu sorriso, nem mesmo quando amputaram a sua perna esquerda, ou quando toda tomada pela metástase perdeu a audição e o seu joelho se tornou uma imensa bola. Neste momento, vieram saudá-la, dando-lhe um beijinho, os seus irmãozinhos da Casinha de Belém. Um encontro incrível... e que fadiga dizer a eles uma palavra, enquanto me olhavam com os olhos arregalados que me perguntavam “por quê?”. “Rosinha está no paraíso... olhem o seu sorriso”. Foi o que consegui dizer a eles. Mas, bastaram essas palavras para que se dessem conta de que aquele Tu fez de nós uma coisa só para sempre, e de que Rosinha está viva. Sim, aquele Tu que os arrancou da violência de todo tipo, faz de cada um deles feliz também.
Nesse momento, morreu outra mãe.
Rezem por mim e por meus filhos... e não se esqueçam nunca do percurso de conhecimento necessário – sim ou sim – para sermos abraçados e conseguirmos abraçar a todos.
Penso outra vez em e rezo por Catarina, para que sare – a filha de Antonio Socci –, pelo filho de Achille e de tantos outros que estão no paraíso com a minha Rosinha. “Eu sou Tu que me fazes”. Somente assim, neste momento, o meu coração repousa seguro, enquanto a dor se faz adoração.
P.e Aldo.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Julio Cortázar e Mozart


Fui, recentemente, apresentado ao escritor argentino Julio Cortázar: caiu-me entre as mãos "Todos os fogos o fogo"... Quem me apresentou? Ana Débora... vou te ser sempre grato!
Uma das coisas mais deliciosas que li no mês passado.
Resolvi reproduzir um trechinho de uma pérola desse seu livro de contos - a propósito surpreedentemente perfeito -... e se o faço é porque a maneira como Cortázar fala da amizade, nesse conto intitulado Reunião, é de arrancar lágrimas... vale a pena, inclusive, escutar o trechinho do quarteto de Mozart (trata-se do Quarteto K458 - A caça) a que ele faz referência.

"No fundo, a única coisa boa que aconteceu durante o dia foi não receber notícias de Luís, o resto é um desastre, dos oitenta eles nos mataram pelo menos cinquenta ou sessenta; Javier foi um dos primeiros a cair, o Peruano perdeu um olho e agonizou durante três horas sem que eu pudesse fazer nada, nem sequer acabar com ele enquanto os outros não olhavam. Durante todo o dia tememos que algum elemento de ligação (houve três correndo um risco incrível, nas próprias barbas do exército) nos trouxesse a notícia da morte de Luís. Em última instância é melhor não saber de nada, imaginá-lo vivo, ainda poder esperar. Peso friamente as possibilidades e chego à conclusão de que o mataram, nós todos sabemos como é, de que maneira o grande condenado é capaz de sair a descoberto com uma pistola na mão, e quem vier atrás que se apresse. Não, mas Lopez terá tomado conta dele, não há ninguém como ele para enganá-lo às vezes, quase como a uma criança, convencê-lo de que precisa fazer o contrário do que tem vontade nesse momento. Mas, e se Lopez... Inútil torturar-se, não há elementos para formular a menor hipótese, e, além do mais, esta calma é estranha, este bem-estar de barriga para cima como se tudo estivesse bem assim, como se tudo estivesse sendo cumprido (quase pensei: 'consumado', teria sido idiota) de acordo com os planos. Será a febre ou o cansaço, será que eles vão nos liquidar como se fôssemos sapos, antes do nascer do sol? Mas agora vale a pena aproveitar esta calma absurda, deixar-se estar olhando o desenho feito pelos galhos da árvore contra o céu mais claro, com algumas estrelas, seguindo com os olhos semifechados esse desenho casual dos galhos e das folhas, esses ritmos que se encontram, se sobrepõem e se separam, e às vezes mudam suavemente quando uma rajada de vento quente passa por cima das copas, vindo dos pantanais. Penso em meu filho que está longe, a milhares de quilômetros, num país onde ainda se dorme na cama, e sua imagem me parece irreal, afina-se e perde-se entre as folhas da árvore, e, em compensação, me faz tanto bem lembrar o tema de Mozart, que sempre me acompanhou, o movimento inicial do quarteto A caça, a evocação do halali na voz mansa dos violinos, essa transposição de uma cerimônia selvagem para um claro gozo pensativo. Penso-o, repito-o, cantarolo na memória e sinto, ao mesmo tempo, como a melodia e o desenho da copa da árvore contra o céu vão se aproximando, travam amizade, unem-se uma e outra vez até que o desenho se arrume, de repente, na presença visível da melodia, um ritmo que saiu de um galho baixo, quase à altura de minha cabeça, torna a subir até certa altura e se abre como um leque de galhos, enquanto o segundo violino é esse galho mais fraco que se justapõe para confundir suas folhas num ponto situado à direita, perto do final da frase, e deixá-la acabar para que o olho desça pelo tronco e possa, se quiser, repetir a melodia. E tudo isso é também a nossa rebelião, é o que estamos fazendo, embora Mozart e a árvore não possam sabê-lo, enquanto nós, à nossa maneira, quisemos transpor uma guerra tosca para uma ordem que lhe dê sentido, que a justifique e, finalmente, a conduza a uma vitória que seja como a restituição de uma melodia após tantos anos de roucas trompas de caça, que seja esse allegro final que sucede ao adágio como um encontro com a luz. Como Luís iria se divertir se soubesse que, neste momento, eu o estou comparando a Mozart, vendo-o arrumar pouco a pouco a insensatez, erguê-la até a sua razão primordial que aniquila, com sua evidência e seu caráter desmedido, todas as prudentes razões temporais. Mas que amarga, que desesperada tarefa a de ser um músico de homens, por cima do barro e da metralha e do desânimo, urdir esse canto que achávamos impossível, esse canto que travará amizade com a copa das árvores, com a terra devolvida a seus filhos. Sim, é a febre. E como Luís riria, embora ele também goste de Mozart, segundo me consta.
E assim, finalmente, ficarei adormecido, mas, antes, me perguntarei se algum dia saberemos passar do movimento onde ainda ecoa o halali do caçador à conquistada plenitude do adágio e daí ao allegro final que cantarolo com um fio de voz, se seremos capazes de alcançar a reconciliação com tudo o que ficou vivo diante de nós. Teríamos de ser como Luís, não já segui-lo, mas ser como ele, deixar para trás inapelavelmente o ódio e a vingança, olhar para o inimigo como Luís o faz, com uma magnanimidade implacável que tantas vezes suscitou em minha memória (mas como dizer isto a alguém?) uma imagem de pantocrator, um juiz que começa por ser o acusado e a testemunha e que não julga, que simplesmente separa a terra das águas para que no fim, algum dia, possa nascer uma pátria de homens num amanhecer trêmulo, à beira de um tempo mais limpo" (CORTÁZAR, Julio. Todos os fogos o fogo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, pp. 74-77).

Mas, esse é só um trechinho do final da primeira metade do conto... aquela expectativa do allegro final segue até ao ponto de uma impressão de que, finalmente, se estava chegando no adágio... daí para o allegro - "uma realidade digna desse nome" (p. 87) - bastaria tão pouco.
Abraço meu em todos!

Cartas do P.e Aldo 107




Asunción, 21 de setembro de 2009.

Caros amigos,
Olhem que bonito! Não estamos, nessas fotos, na rampa que leva a um restaurante, mas na minha clínica para doentes terminais onde Míriam, a farmacêutica da clínica decidiu se casar. Aqui morreram seus pais e ela quis que eu a acompanhasse ao altar como pai e, depois, celebrar o matrimônio. Todos os doentes terminais que tinham um pouco de energia assistiram assentados nas cadeiras de rodas. No quarto ao lado de onde celebramos o casamento estava Lorenzo, que tinha acabado de morrer. Num outro quarto, a pequena Lucia, a menina sem olhos e sem nariz que, até sábado à noite, lutava com a morte. Tem dois meses. Nos outros quartos os doentes em coma ou muito graves e os meus filhos Victor (aquele que não tem mais crânio), Aldo (o meu filho adotivo, com a cabeça cada vez maior... e que, na primeira vez, dava medo... mas que, para mim, é apenas uma grande hóstia branca que adoro, como a cada doente, 3 vezes ao dia).
Além disso, havia todo o pessoal médico, os paramédicos etc., todos vestidos para festa. Enfim, algumas das crianças da Casinha de Belém, para onde, ontem, foi levada a filha de Fabiana de dois anos, que recuperamos a 400 km daqui... ela também com AIDS. Mas, bela como o sol. Tristemente não reconheceu a mãe Fabiana... e deixo a vocês imaginarem a dor. Fabiana, 19 anos, além da AIDS, tem um câncer na cabeça. Sofre muito, não consegue mais ficar em pé, o seu rosto está quase desfigurado. E, no entanto, que testemunho deu a Carrón e a todos nós na segunda-feira passada!
Continuamos comovendo-nos pela letícia... na dor mais atroz que nos transmite uma letícia tal que permite não apenas aos doentes celebrarem o matrimônio antes de morrerem, mas também aos sãos.
“Míriam, por que você escolheu se casar aqui, entre os doentes terminais e, justo hoje, quando tem um morto?”, perguntei a ela. “Porque aqui eu sou feliz, porque aqui a vida triunfa, aqui Jesus está presente, vocês estão presente, meus amigos... aqui, eu estou no céu”. Depois dessas palavras, o que mais eu poderia dizer? “Veem o que acontece aqui?... quem está fora não pode sequer imaginar... que um casal escolha celebrar o dia mais bonito da sua vida conscientes... o matrimônio num hospital para doentes terminais é a vitória da ressurreição de Cristo, é o mundo novo evidente, é o ‘Tu que me fazes’ instante depois de instante... que muda, torna viva, vibrante... Entendem? E se contarem por aí o que vocês viram, hoje, aqui, as pessoas vão achar que são loucos. Mas, isto é o Cristianismo, esta é a vitória de Cristo, é a vitória sobre a morte, é o significado salvífico da dor... não importa a doença que a tenha provocado”.
E, enquanto dizia estas coisas, Rosinha chegou – a bela garota de 17 anos, com metástase geral, uma perna amputada, a outra com um joelho como uma bola, por causa do câncer, e surda –, viu-me e me deu um sorriso. Levantei o polegar direito, como quando quero saber como ela está, e ela me respondeu sorrindo do mesmo modo.
Terminada a cerimônia, todos foram para a festa na sala do hospital, e eu fui recitar o breviário na cela mortuária onde estava Lorenzo que me esperava já frio. Dei-lhe um beijo, o rosto estava mesmo frio... os olhos estavam ainda um pouco abertos... com amor fechei-lhe as pálpebras... e se fecharam para o mundo para sempre... mas, agora, contemplam aquele meu “Tu que me fazes”. Estava sozinho com ele, porque ele não tem ninguém. Somos a sua família. Experimentei uma grande paz, uma letícia, como sempre experimento quando estou sozinho com um cadáver. Mas não é que o cadáver me dá a paz, mas a certeza sobre aquilo que dizemos, de forma distraída, no Credo: “Creio na ressurreição da carne, na vida eterna. Amem”. No fundo, a clínica nasceu porque levei a sério também este dogma da nossa fé... justamente aquele mais esquecido por todos, mesmo por nós padres.
Ciao.
Padre Aldo

Devo pedir champanhe ou cianureto?

Reproduzo a crônica do Arnaldo Jabor, publicada na edição de hoje - 22 de setembro de 2009 - d'O Estado de São Paulo. "Por quê?", alguém me perguntaria, depois de ter lido. Respondo assim: fiquei me perguntando "o que eu teria para responder a este homem que - se por histrionismo ou retórica ou por verdade de uma experiência - chama a sua esperança de demodée, ao apontar, queixoso - justa ou injustamente, não interessa -, uma centena de mazelas da nossa contemporaneidade?". Lembrei-me, então, de algo que o Carrón nos disse no Vale do Anhangabaú, quando se referia ao comentário do Camilo, de Aracaju: "... [ele] queria que aquilo que havia encontrado, que aquela felicidade que havia encontrado fosse também para sua mulher... porque quer que chegue a todos os homens"... E, nesse ponto, me restrinjo (?) à memória de um olhar cheio de misericórdia - e carregado da história de 10 anos de olhares - que, por me ler em profundidade, me encheu de esperança. Arnaldo, como eu gostaria de encontrar você!

por Arnaldo Jabor

O grande Cole Porter tem uma letra de música que diz: “Questões conflitantes rondam minha cabeça / devo pedir cianureto ou champanhe?” Sinto-me assim, como articulista. Para que escrever? Nada adianta nada. Ando em crise, como vejo nos desenhos do excepcional Angeli, gênio da HQ. E como meu trabalho é ver o mal do mundo, um dia a depressão bate. Não aguento mais ver a cara do Lula de boné, dançando xaxado pelo pré-sal, não aguento mais ver o Sarney mandando no País, transformando-nos num grande “Maranhão”, com o PT no bolso do jaquetão de teflon, enquanto comunistas, tucanistas e fascistas discutem para ver quem é mais de “esquerda” ou de “direita”, com o Estado loteado entre pelegos sem emprego e um governo regressista nos jogando de marcha à ré para os anos 40; não dá mais para ouvir quantos campos de futebol foram destruídos por mês na Amazônia, quando ninguém jamais consegue impedir as queimadas na Amazônia, enquanto ecochatos correm nus na Europa, fazendo ridículos protestos contra o efeito estufa; passo mal quando vejo a cara dos oportunistas do MST, com a bênção da Pastoral da Terra, liderando pobres diabos para a “revolução” contra o capitalismo, não aguento secretários de segurança falando em “forças-tarefa” diante de presídios que nem conseguem bloquear celulares, não suporto a polêmica nacionalismo-pelego x liberalismo-tucano de hímen complacente, tenho enjoo com vagabundos inúteis falando em “utopias”, bispos dizendo bobagens sobre economia, acadêmicos rancorosos decepcionados, mas secretamente apaixonados pela velha esquerda, tremo ao ver a República tratada no passado, nostalgias de tortura, indenizações para moleques, heranças malditas, ossadas do Araguaia e nenhuma reforma no Estado paralítico e patrimonialista, não tolero mais a falta de imaginação ideológica dos homens de bem, comparada com a imaginação dos canalhas, o que nos leva à retórica de impossibilidades como nosso destino fatal e vejo que a única coisa que acontece é que não acontece nada, apesar dos bilhões em propaganda para acharmos que algo acontece. Não aturo essa dúvida ridícula que assola a reflexão política: paralisia x voluntarismo, processo x solução, continuidade x ruptura, deprimo quando vejo a militância dos ignorantes, a burrice com fome de sentido, tenho engulhos ao ver a mísera liberdade como produto de mercado, êxtases volúveis de clubbers e punks de butique, descolados dentro de um chiqueirinho de irrelevâncias, buscando ideais como a bunda perfeita, bundas ambiciosas querendo subir na vida, bundas com vida própria, mais importantes que suas donas, odeio recordes sexuais, próteses de silicone, pênis voadores, sucesso sem trabalho, a troca do mérito pela fama, não suporto mais anúncio de cerveja com louras burras, detesto bingo, pitbulls, balas perdidas, suspense sobre espetáculo de crescimento que só acontece na mídia, abomino mulheres divididas entre a piranhagem e a peruice. Onde está a delicadeza do erotismo clássico, a poética do êxtase? Repugnam-me os sorrisos luminosos de celebridades bregas, passos-de-ganso de manequim, notícias sobre quem come quem, horroriza-me sermos um bando de patetas de consumo, crianças brincando num shopping, enquanto os homens bomba explodem no Oriente e Ocidente, enquanto desovam cadáveres na Faixa de Gaza e em Ramos, com ônibus em fogo no Jacarezinho e Heliópolis, museus superfaturados evocando retorcidos bombardeios em vez de hospitais e escolas, espaços culturais sem arte alguma para botar dentro, a não ser sinistras instalações com sangue de porco ou latinhas de cocô de picaretas vestidos de “contemporâneos”, não aguento chuvas em São Paulo e desabamentos no Rio, enquanto a Igreja Universal constrói templos de mármore com dinheiro arrancado dos pobres e Sonia Hernandez, a perua de Cristo do Renascer, reza de mãos dadas com Dilma Rousseff de olhos fechados, orando pelos ideais de Zé Dirceu, enquanto formigueiros de fiéis bárbaros no Islã recitam o Alcorão com os rabos para cima antes de pilotar caminhões-bomba, xiitas sangrando, sunitas chorando, tudo no tão mal começado século 21, não agüento ver que a pior violência é nosso convívio cético com a violência, o mal banalizado e o bem como um charme burguês, não quero mais ouvir falar de “globalização”, enquanto meninos miseráveis fazem malabarismo nos sinais de trânsito, cariocas de porre falando de política e paulistas de porre falando de mercado, festas de celebridades com cascata de camarão, matéria paga com casais em bodas de prata, Lula com outro boné, políticos se defendendo de roubalheira falando em “honra ilibada”, “conselho de ética arquivado”, suplentes cabeludos e suplentes carecas ocultando os crimes, anúncios de celulares que fazem de tudo, até “boquete”; dá-me repulsa ver mulheres-bomba tirando foto com os filhinhos antes de explodir e subir aos céus dos imbecis, odeio o prazer suicida com que falamos sem agir sobre o derretimento das calotas polares, polêmicas sobre casamento gay, racismo pedindo leis contra o racismo, odeio a pedofilia perdoada na Igreja, vomito ao ver aquele rato do Irã falando que não houve Holocausto, sorrindo ao lado do Chávez cercados pelas caras barbudas de boçal sabedoria de aiatolás, repugnam-me as bochechas da Cristina Kirchner destruindo a Argentina, Maluf negando nossa existência, Pimenta das Neves rebolando em cima dos buracos do Código Penal, confrange-me o papa rezando contra a violência com seus olhinhos violentos, não suporto Cúpulas do G20 lamentando a miséria para nada, tenho medo de tudo, inclusive da minha renitente depressão, estou de saco cheio de mim mesmo, desta minha esperançazinha démodée iluminista de articulista do “bem”, impotente diante do cinismo vencedor de criminosos políticos. Daí, faço minha a dúvida de Cole Porter: devo pedir ao garçom uma pílula de cianureto ou uma “flute” de champanhe rosé?

sábado, 19 de setembro de 2009

Cartas do P.e Aldo 106

Asunción, 19 de setembro de 2009.

Caros amigos,
foi um acontecimento para todo o Paraguai. A vinda de Carrón, nos 25 anos do Movimento. “O desejo de escutar a Carrón encheu plenamente a minha vida, respondeu às minhas expectativas... que graça vocês têm de ter um homem assim”, dizia Inocência, uma senhora que pertence ao Movimento Caminho Neocatecumenal.
“Que graça e que alegria ter participado do almoço com um homem que sabe falar ao meu coração”, dizia Tomás, um doente de AIDS. “Mas que humanidade tem esse homem que me perguntou o meu nome”, dizia um rapaz que ficou comovido. “Todas as respostas que dava às perguntas eram para mim, correspondiam ao meu coração”, me confidenciou um homem.
E eu poderia continuar com mil exemplos. De fato, foi uma torrente de graça a presença de Carrón entre nós. Mesmo o Vice-Presidente da República mobilizou a polícia, os agentes aeroportuários, tudo para facilitar cada deslocamento. Ofereceu a sua 4x4 blindada, e ele mesmo participou do encontro que durou mais de duas horas.
Cada momento foi intenso, vibrante... como o povo que o escutava, como os padres ou aqueles do Grupo Adulto que tiveram a oportunidade de escutá-lo durante o retiro em São Paulo... éramos do México à Patagônia... Ou como durante a Escola de Comunidade com os 3 mil universitários (universitário da Associação Educar para Vida, de Marcos e Cleuza Zerbini; ndt), domingo de manhã, do qual participou também o Grupo Adulto, como conclusão dos exercícios. Para não falar do encantamento vivido no domingo à tarde, no coração de São Paulo, onde falou do coração do homem diante de mais de 60 mil pessoas, jovens em particular. Um cenário digno dos Evangelhos, como aquele da multiplicação dos pães e dos peixes.
De fato, a sua paixão pelo homem, pelo eu, pelo coração, sacudiu e comoveu a todos.
Os meus doentes, a quem ele visitou um a um, olhando-os com ternura, entenderam por que rezamos por ele todos os dias. Mesmo a assembleia feita com eles, durante uma hora, foi motivo para contar como não existe dor que possa resistir à potência do Mistério presente. As palavras finais que nos disse não apenas nos confortaram, mas nos indicaram com clareza o caminho que estamos percorrendo.
Para mim, que estou aqui há vinte anos testemunhando a onipotência providencial e misericordiosa de Deus, este encontro encheu o coração de gratidão. Hoje, o Paraguai tem um outro alento.
Enfim, o encontro com Pedro, recluso com os reclusos na casa de Itaguá. Belíssimas as palavras de Carrón: “enquanto que o Estado coloca vocês na prisão, nós oferecemos a vocês uma casa”.
Padre Aldo.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Cartas do P.e Aldo 105



Asunción, 16 de setembro de 2009.

Caríssimos,
“Padre Aldo, durante todo o tempo em que esteve ausente, os doentes, quase esquecendo de suas dores, rezaram não por si mesmos, mas por você, para que voltasse logo e são”: isso me disseram os enfermeiros quando voltei para o Paraguai.
A mesma coisa me disseram as crianças: “Papai, agora você não pode nos deixar mais por tanto tempo, porque você faz muita falta para nós”. Em seguida, me conduziram para ver o último de seus irmãozinhos, que chegou durante a minha ausência... e o chamaram... Tem dois meses e é filhos de uma menina de 13 anos que o deixou conosco e desapareceu. Olhem como ele é bonito!
Um morre, outro nasce. A cada semana vejo a vida que desabrocha e começa os seus primeiros passos, passos já marcados pela dor e pelo abandono ou por todo tipo de violência... e a vida que chega à sua plena maturidade no encontro com Cristo. Como vocês podem ver, nós estamos, a cada instante, diante do Mistério.
Tão logo voltei da Itália, uma garotinha, uma das minhas filhas que mais sofreu de contínuos abusos sexuais, teve uma crise assustadora de histeria. Não conseguimos, em cinco, segurá-la. Para mim, foi uma coisa de causar infarto de tão violenta que foi. Senti uma dor lascerante e me perguntava pelo porquê daquela reação. Por um dia não havia nada o que fazer: era impossível qualquer relacionamento... o que fazer? “Eu sou Tu que me fazes”... a minha impotência, a minha dor imediatamente prestaram conta com esta certeza. E, assim, enquanto o advogado redigia a solicitação ao tribunal para denunciar o acontecimento e, eventualmente, solicitar que eu renunciasse à posse paterna, eu fixava o Mistério, que me provocava, através da realidade, a não assinar a nota do advogado. “Eu sou Tu que me fazes”... se é verdade para mim, é verdade também para a minha criança. E assim, rasguei a nota do advogado. Perto da noite, chamei a garotinha, que ainda estava com a cara fechada. Abracei-a, acariciei-a, com o coração que gritava: “Senhor, faz com que ela sinta o Teu carinho e que não seja definida por esta ferida de um passado cheio de violência”. Ela ficou ainda enrijecida... mas, num certo momento, eu lhe disse: “Escute-me bem: quando eu voltar do Brasil, vou querer que você seja a minha secretária”. De repente, ela me sorriu, me deu um beijo e, com o coração sereno, parti. Na volta, quando fui pegar os meus filhos para levá-los à escola, a garotinha me deu um beijo e uma cartinha bem dobrada. Chegando em casa, a li: “Perdoe-me... eu não sabia o que estava fazendo e não me comportarei mais assim. Peço a Jesus e a Nossa Senhora que me ajudem a mudar. Perdoe-me... eu quero muito bem ao senhor. Nas três semanas em que você não estava aqui, eu senti muito a sua falta. No dia em que partiu para a Itália, sofri muito. E, agora, que você foi para outro lugar, não sei o que fazer”. A cartinha, escrita depois de minha partida para o Brasil, estava cheia de flores e de estrelas, com um sol bem grande. Amigos, uma vez mais eu toquei com a mão o fato de que não existe violência ou circunstância que não possa ser vencida pela certeza de que “eu sou Tu que me fazes”.
É somente esta experiência do instante vivido como afirmação do “Tu que me fazes” que, não apenas me permite viver com letícia, mas que também me permite educar as minhas crianças e lhes permite sair das situações mais violentas que tenham vivido ou que vivam. Não é a psicologia ou a psicanálise que podem fazer estes milagres, mas apenas a minha frágil humanidade cheia desta certeza. Educar a viver, educar a morrer é comunicar esta certeza que vibra no meu coração: “eu sou Tu que me fazes”. No tempo, este Tu toma o eu e permite ao eu olhar-se com os olhos do Tu, isto é, com ironia. E a pessoa finalmente goza a própria companhia. E assim se torna educador e as crianças começam a sorrir e os pacientes terminais começam a olhar no rosto, com letícia, a morte.
Ciao
Padre Aldo

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Cartas do P.e Aldo 104

Asunción, 12 de setembro de 2009.

Caros amigos,
nas verdes colinas de São Paulo, primeiro com 70 sacerdotes e 4 bispos, agora com quase 200 do Grupo Adulto, estou, de verdade, repousando depois do Meeting.
Repousando, imergindo na gigantesca humanidade de Carrón. “Nunca escutamos alguém como ele”, diziam os 70 padres presentes e, particularmente, os mais de 20 que, pela primeira vez, o escutavam.
A sua palestra magistral sobre a figura humana do padre foi arrepiante, comoveu a todos. Digo “comoveu” no sentido literal do termo. Que as mulheres chorem não nos surpreende (o dizia bem Péguy). Que os homens se comovam, talvez quando se tornem mais velhos, também não nos surpreende tanto assim. Que padres se comovam acontece às vezes durante um funeral (quando eu era pequeno, não conseguia entender por que o meu pároco não chorava nunca, quer enterrasse uma criança, uma mãe ou um velho... e me perguntava sempre o porquê daquela impassibilidade... só muito mais tarde na vida é que consegui entender: Cristo existe, mas não existe o humano... pobre celibato!), porém que um bispo se comova até as lágrimas pelo dom da fé, não só nunca havia visto, como também nunca poderia ter imaginado algo do gênero.
Ontem, dia 09 de setembro, no encerramento dos Exercícios (Espirituais dos Padres da América Latina; ndt), a Santa Missa foi celebrada por um caro amigo, bispo de CL, na Argentina. Um homem! Cinco meses atrás, ele veio encontrar este asno, seu amigo, e ver as obras de Deus. Fez 3 mil quilômetros – ida e volta – de carro, ficando conosco dois dias de um calor infernal. Nunca havia visto, na minha vida, um bispo – de uma humildade e de uma humanidade raras – que me testemunhasse tanto afeto.
Ontem, durante a homelia, agradecendo a Carrón pela maneira como nos conduzira naqueles dias e pela maneira como nos havia falado da humanidade dos sacerdotes, da misericórdia, da liberdade, comoveu-se até as lágrimas. Deixo a vocês imaginar a surpresa que isso causou nos 70 padres presentes. Um bispo comovido até as lágrimas pela graça da fé e por Carrón nos ter falado do sacerdote naqueles dias, neste ano sacerdotal. Um bispo, sucessor dos apóstolos! Amigos, vocês entendem o que é o humano, o que é a humanidade de um homem – padre ou bispo –, o que significa olhar e seguir a Carrón?
Nem mesmo nos encontros com Giussani acontecia que se visse um bispo chorar de comoção pelo que o Gius nos dizia, nos testemunhava e que, hoje, Carrón, com uma genialidade humana própria e exclusiva de quem é, de fato, o filho predileto e herdeiro de Giussani, nos comunica. Vi o que significa que Giussani está mais vivo hoje do que há 20 anos, quando vinha para esses lados de cá do oceano. A sua presença era fisicamente presente entre nós, no modo com o qual Carrón nos fez vibrar, gozar do nosso ser homens – padres ou bispos. Cada um de nós, voltou para o seu lugar – ou na selva ou nas grandes metrópoles deste continente, ou nos campos perdidos –, alguns sozinhos, outros em dois... mas todos a milhares de quilômetros de distância uns dos outros... porém, com aquilo que nos foi dado de presente nesses dias, com o suficiente para viver intensamente, até o próximo ano, cada circunstância.
Que bonito!
Finalmente, um pequeno detalhe de casa – quer dizer, de amizade, de atenção à pessoa: quem veio buscar Paolino e eu no aeroporto, apesar de todos os empenhos, foram Marcos e Cleuza... e nos trouxeram até aqui onde estamos (num hotel em Atibaia; ndt). Praticamente nos deram toda a sua tarde. Mas, não foi só isso. No dia seguinte, às 5 da manhã, foram buscar Carrón para trazê-lo ao hotel. Quando me levantei, Padre Ignazio, que está em Salvador da Bahia, me disse: “dá um pulo na recepção do hotel... a Cleuza, sabendo que você é diabético, mandou uma cesta de coisas para comer que respeitam a sua dieta”. Vou até lá e encontro o presente. Colocaram até mesmo guardanapos, copos e faca... além de uma diversidade enorme de frutas. Fiquei surpreso, tornando-me ainda mais consciente do que quer dizer uma humanidade mudada por Cristo, atenta a cada detalhe. Mas também me dei mais conta do que é uma fraternidade.
Padre Aldo

sábado, 12 de setembro de 2009

Cartas do P.e Aldo 103

Asunción, 11 de setembro de 2009.

Acontecia há 20 anos e continua acontecendo hoje

08 de setembro de 1989 – 08 de setembro de 2009.
Linate – São Paulo (Retiro dos Padres da América Latina).
Um abraço me enviava para o Paraguai – um outro abraço renova o primeiro.
Giussani – Carrón.
O mesmo acontecimento, a mesma piedade, a mesma ternura.
Ontem, há vinte anos, apenas aquele homem pôde arriscar tudo sobre a minha liberdade – que, segundo os experts de então, mas também de hoje, era uma liberdade doente –, mandando-me para o Paraguai.
Hoje, um outro homem me fez sentir, de maneira ainda mais potente (quanto ao que respeita à minha consciência amadurecida na dor e no silêncio), toda a intensidade desta confiança... e me comovi.
Foi exatamente hoje, aqui, no encontro com meus amigos padres, em São Paulo, quando, depois de uma testemunho simples a estes meus amigos, Carrón me abraçou. Permito-me comunicá-lo aos amigos mais caros, porque o abraço de ontem à noite não era devido àquilo que, com timidez, eu tinha contado quanto ao trabalho feito ao longo deste ano sobre as provocações de Carrón, mas foi o modo com o qual o Mistério me manifestava a sua confiança, a sua ternura, a sua escolha.
Um abraço me mandou para cá... daquele abraço o Mistério fez tudo... e o abraço de Carrón foi, para mim, a reverberação potentíssima da confiança de Deus neste pobre homem, confiança de Deus em uma liberdade cheia de limites, porém sempre, por pura graça, fiel ao Seu desígnio.
Caros amigos, comovido por estes 20 anos de história, desejo que, juntos, aprendamos a nos deixar abraçar – por Carrón –, como os novos 20 sacerdotes que participaram deste retiro, comovidos diante de um homem capaz de desafiar a liberdade de cada um, levando-nos até o coração do eu, ajudando-nos a lê-lo e reconhecer que tudo de nós é relação com o Mistério. Para um homem assim, junto com meus doentes, dou com alegria a vida, porque, de fato, ninguém como ele me está, nos está, ajudando a entender e experimentar aquilo que, para dom Gius, era vida, experiência... enquanto que, para mim, para nós, era ainda apenas uma intuição cheia de esperança.
Um abraço
P.e Aldo

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Cartas do P.e Aldo 102






Asunción, 05 de setembro de 2009.

Caros amigos,
Eis-me de volta. A surpresa comovente foi que os meus filhos da Casinha de Belém estavam me esperando na sala VIP do aeroporto... foi o Vice-Presidente da República quem os inseriu ali, num lugar onde ninguém entra sem permissão especial. Pensem no que quis dizer para mim descer do avião e ver os meus filhos, todos bem vestidos, me acolhendo. E, além do mais, a menorzinha, de dois anos, Rosinha, com os braços abertos, vindo em minha direção e pulando entre os meus braços. Quando fui para a Itália, ela ainda nem andava. Todos juntos no furgão felizes... com Rosinha nos braços... chegamos em casa, onde os bebês me esperavam. Como são bonitos. Uma tarde de festa!
Duas horas depois, os doentes estavam me esperando na clínica, todos em roda. Irmã Sônia com a harpa, os doentes e todo o pessoal do hospital cantando para mim a canção de que mais gosto, há vinte anos... era como se eu a estivesse escutando pela primeira vez: “Quando era pequeno”.
Enfim, o encontro com Cíntia, uma bela jovem mulher que não queria morrer antes que eu chegasse. Eu a abracei, segurando a sua cabeça entre os meus braços. Duas horas depois, ela morreu com um sorriso cheio de paraíso.
Ontem, passei o dia encontrando os meu povo de doentes, moribundos, velhos e crianças. Abraçando-os, um por um, e ajoelhando-me diante dos moribundos, vendo neles Jesus que morre. Olhando para cada um, via a contemporaneidade de Cristo, neles mudados, mudados porque estão diante da dor com os olhos fixos no Mistério.
À noite, a polícia me trouxe uma menina abandonada e violentada. Quando olhava um homem, tremia... de modo que tinha medo mesmo de mim. Porém, estou convencido de que o “eu sou Tu que me fazes”, dentro de alguns dias, permitirá a ela vir aos meus braços.
Obrigado por tudo o que fizeram por mim na minha estada na Itália.
Rezo por todos.
Padre Aldo