sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Paideia e Universidade

Preleção do Cardeal Angelo Scola
no Dies Academicus da Pontifícia Universidade Salesiana
27 de outubro de 2009

1. Paideia e sociedade pós-moderna
Uma observação eficaz de Jacques Maritain pode nos ajudar a tornar mais preciso o título, bastante amplo, desta preleção. No seu ainda atual volume “Para uma filosofia da educação” o célebre pensador francês afirma: “A coisa mais importante na educação não é um ‘assunto’ de educação e muito menos de ensinamento...”. De fato: “a experiência, que é um fruto incomunicável do sofrimento e da memória, e através da qual se cumpre a formação do homem, não pode ser ensinada em nenhuma escola ou curso” [1].
É introduzida ex-abrupto, como categoria de sustentação do processo educativo, a complexa noção de experiência. Comecemos, então, dizendo que a escolha pelo termo paideia pretende se referir a este apaixonante paradoxo educativo na sua unidade articulada. Ensinamento e educação têm necessidade de envolvimento recíproco de vida, de experiência no sentido pleno, e todavia esta experiência não pode ser ensinada em nenhuma escola e em nenhum curso.
A observação é iluminada – levando-se em consideração a natureza desta universidade, que neste ano comemora 60 anos de fundação e 37 anos de reconhecimento como Universidade – por uma importante afirmação de Bento XVI: “Especialmente quando se trata de educar à fé, é central a figura da testemunha e o papel do testemunho. A testemunha de Cristo não transmite simplesmente informações, mas é envolvida pessoalmente com a verdade que propõe e, através da coerência da própria vida, se torna ponto de referência digno de fé. Ele não remete porém a si mesmo, mas a Alguém que é infinitamente maior que ele, em quem confiou e de quem experimentou uma bondade confiável. O autêntico educador cristão é, portanto, uma testemunha que encontra o modelo pessoal em Jesus Cristo, a testemunha do Pai que não dizia nada de si mesmo, mas falava assim como o Pai lhe havia ensinado. Este relacionamento com Cristo e com o Pai é, para cada um de nós, caros irmãos e irmãs, a condição fundamental para sermos eficazes educadores na fé” [2].
Neste lugar – compreender-se-á –, não pretendemos nos referir à paideia no sentido estrito, como modelo educativo em vigor no mundo greco-romano, porque este modelo, renascendo em contínuas transformações com o surgir de novas culturas (não excluídas aquelas culturas religiosas e aquelas referidas ao Cristianismo), subtende, pelo menos descritivamente, todos os fatores (paideia física, paideia psíquica, orientação em direção ao ethos e ao ethos dos povos) necessários para identificar a ação educativa própria, não apenas da escola e da universidade mesma, mas, mais em geral, de toda a sociedade, e diz respeito a todo o arco da existência humana.
Se com Gevaert podemos definir valor: “todo aquilo que permite dar um significado à existência humana, tudo aquilo que permite ser verdadeiramente humano... (os valores não existem sem o homem que, com eles, é capaz de conferir um significado à própria existência)” [3], podemos ver como o pós-moderno, ao rejeitar a plausibilidade de um significado global para a existência, acaba por colocar em discussão não apenas a noção de valor, mas a ideia mesma de sujeito como entidade autoconsciente e pessoal [4]. Por isso, não seria mais possível falar de uma verdadeira empreitada educativa (paideia), mas deveríamos nos limitar a falar de instrução.
Para além do debate sobre a natureza pós-secular da nossa época, é preciso levar em consideração que a pergunta sobre o “sentido” e sobre o “significado” (respectivamente nomen intentionis e nomen rei, segundo a terminologia escolástica) – e, portanto, a pergunta, em última instância, religiosa – se repropõe em nível pessoal e social, em formas inéditas, e solicita ser interpretada.
Levando em consideração o quadro traçado, estou convencido de que a noção de paideia, entendida no sentido mais amplo sugerido por Maritain, seja, também hoje, capaz de fornecer o terreno de base para garantir aquele “cuidado das gerações” que é o proprium de cada experiência educativa. E é a noção de experiência que nos permitirá isso. Para além da sua criticidade, a busca de sentido e de significado encontra um porto seguro naquilo que Karol Wojtyla, na obra “Persona e atto”, definia como experiência elementar, isto é, comum a cada membro da família humana: “No entanto, existe algo que pode ser chamado experiência do homem, na medida em que é baseado na inteira continuidade dos dados empíricos. Objeto da experiência é não apenas o momentâneo fenômeno sensível, mas também o homem mesmo, que emerge de todas as experiências e é também presente em cada uma delas [...]. O ato constitui o momento particular no qual a pessoa se revela. Isso nos permite, de modo mais adequado, analisar a essência da pessoa e compreendê-la de modo mais completo. Experimentamos o fato de que o homem é pessoa, e estamos convencidos disso porque ele realiza atos” [5].
A força daquela adversativa – “No entanto existe algo que pode ser chamado experiência do homem” – ultrapassa a complexidade na qual, hoje, se encontra a nossa sociedade, sobretudo no que diz respeito à paideia.
Poder-se-á, portanto, reformular o conceito de valor levando-se em conta a crítica que o pensamento pós-moderno faz a ela, mas evitando cair na tentação de dizer que, no fundo, não existem valores, já que cada significado desses valores nada mais é do que fruto de uma negociação ou de uma relação de força. O equívoco acerca da natureza dos valores pode ser resolvido esclarecendo-se que os valores não são objetos, nem conceitos abstratos sobre os quais nos atermos a priori, mas fazem parte do relacionamento constitutivo entre o sujeito e as pessoas, as coisas e as circunstâncias, identificando neles uma “consistência” qualitativa. Uma educação aos valores é portanto impossível se se evita a relação entre a pessoa e a comunidade – e a relação de ambas com o mistério, o “real inaferrável”, como dizia Buber –, relação dentro da qual o valor pode ser efetivamente comunicado, dando um significado e uma direção à existência [6].
Como é afirmado, agudamente, no volume organizado pelo Comitê para o projeto cultural da Conferência Episcopal Italiana, intitulado “O desafio educativo” [7], “o que dá vida e vigor ao que vale (valor) é, portanto, aquilo para o que está mirado, ou seja, a experiência que podemos fazer de valor...” [8].
2. Paideia: liberdade e realidade
Desde o início de sua existência e por toda a sua vida, o homem se encontra “jogado” em uma trama de relacionamentos decisivos (a partir daqueles com os pais, com os irmãos, com os avós e, hoje, cada vez mais frequentemente, também como os bisavós). O seu impacto com a realidade se dá a partir destas relações boas através das quais é a estrutura inteligível mesma do real a sugerir o método mais adequado para cada aventura educativa. Se é o real que se oferece ao sujeito, a tarefa do educador será introduzir o educando em uma experiência integral da realidade que, guiando-o no processo de decifração do significado da realidade. No seu oferecer-se à minha liberdade, a realidade mostra, portanto, que já possui um logos, é inteligível, como o realismo clássico afirmava. Isto pede que o eu evite elaborar, de modo abstrato (ab-[s]tractus = separado), um conhecimento do qual deverão, depois, emanar aplicações práticas. A realidade, ao se oferecer para se fazer conhecer, pede, porém, um ato de decisão do sujeito. E assim ilumina a natureza da pessoa do sujeito mesmo. De fato, é próprio do ato “o momento particular no qual a pessoa se revela” [9]. Encontramo-nos no coração daquilo que João Paulo II e von Balthasar definiam como uma “antropologia adequada”. Uma antropologia consciente do fato de que quando o homem começa a refletir sobre si e sobre o real pode fazer isso apenas de dentro do seu “ser”: “Podemos nos interrogar sobre a essência do homem apenas no ato vivo da sua existência. Não existe antropologia fora dessa dramaticidade” [10].
Esse fato mesmo tem uma consequência. Um dos traços próprios do “ser” do sujeito no mundo é a sua impossibilidade objetivo de fazer abstração completa da tradição na qual ele se encontra inserido, e que é manifestada a ele, antes de tudo, na forma do seu fazer parte de uma corrente de gerações. Longe de se constituir num obstáculo a uma efetiva educação e a um pleno desenvolvimento da razão – como o pensamento iluminista, por muito tempo, nos levou a pensar –, a tradição oferece ao educando um termo de comparação imprescindível, para ser usado no seu confronto com o real. Ela é o terreno fértil de onde germina a hipótese vital de significado, para ser verificada no curso da vida, e sem a qual um verdadeiro conhecimento não é tecnicamente possível. Enquanto lugar de prática e de experiência, segundo a feliz definição de Blondel [11], a tradição favorece, como dizia João Paulo II, a descoberta da “genealogia” da pessoa, que não é mais reduzível à sua pura “biologia”. Garante aquela experiência completa de paternidade-filiação sem a qual não a pessoa não se dá com a sua capacidade de experiência e de cultura [12].
Tendo escolhido indiretamente a insubstituível contribuição da liberdade humana, sempre situada historicamente, para a paideia, podemos legitimamente acenar para o fator “crítico” inerente a cada proposta educativa. Refiro-me à categoria do risco [13].
O risco não é irracionalidade, mas aflora na sempre possível cisão entre o juízo da razão e o ato da vontade. No encontro do seu eu todo inteiro com toda a realidade, o educando faz experiência do risco porque, mesmo percebendo a intrínseca positividade da realidade mesma, pode permanecer bloqueado na adesão a ela, até abandonar-se à tentação do ceticismo. Nesta perspectiva, o risco não é poupado nem mesmo ao educador que, no comunicar ao educando a hipótese interpretativa que ele acredita ser a mais apropriada para explicar o real, é chamado a se expor e, portanto, a se arriscar. Por esta razão, a educação tem uma natureza eminentemente dialógica. Pede sempre uma troca entre o eu (o educador que propõe e se propõe) e o tu (o educando que é introduzido à realidade total). E esta troca acontece, constitutivamente, dentro da trama de relações na qual educador e educando estão sempre inseridos. Este diálogo se realiza apenas na condição que, na contínua e densa comparação com o real, seja colocada em jogo a liberdade de ambos. Isso mostra, além do mais, a natureza “dramática” da tarefa do educador, que, frequentemente tentado a poupar o educando do negativo, pode, mesmo sem querer, chegar a impedir-lhe de ser irredutivelmente outro e, portanto, integralmente livre [14].
O risco (de educar) da posse pode ser vencido apenas por aquela que, junto com a liberdade, representa outra dimensão constitutiva de cada empreendimento educativo: o amor. O amor oferecido ao educando, e que, por sua vez, move o educando a um apaixonado confronto com o mundo que o circunda, tem dois rostos. O do educador, que oferece e comunica a si mesmo inteiro, no testemunho da verdade como hipótese vital de interpretação da realidade que ele tornou própria; e o da realidade mesma, que, demonstrando-se como dom, é, em última instância, sinal do Mistério que se revela a todos os homens. E a dinâmica com a qual a realidade se relata não esgota nunca porque, no fim, exprime o amor com o qual o amado (o homem) e o amante (o Mistério) incessantemente se interrogam.
Quando a hipótese unitária e vital de interpretação da realidade é o evento de Jesus Cristo que se comunica na traditio eucaristica da Igreja, ela aparece incindivelmente conectada à virtude cristã da caridade. São João Bosco descreveu bem qual é o fundamento da educação: “Se, por isso, sereis verdadeiros pais de vossos alunos, é preciso que tenhais também o coração deles... Lembrai-vos de que a educação é coisa do coração, e de que apenas Deus é senhor da educação, e de que nós não podemos nada se Deus não nos ensinar a arte da educação, e não nos colocar nas mãos a chave da educação” [15]. Estas palavras, em última instância, são nutridas pela relação intratrinitária entre Pai e Filho e Espírito que, pelas missões do Filho e do Espírito, assumem o rosto da singular experiência da relação de Jesus com o Pai (cf. o Evangelho de João) e com o Espírito. Eles falam da impossibilidade de ser pai e educador se, antes, não nos reconhecermos filhos. Não digo: se não nos reconhecermos “termos sido filhos”, mas exatamente “sermos filhos”, aqui e agora, daquele Pai que é a fonte de cada paternidade e que, em Cristo, “nos escolheu antes da criação do mundo [...], predestinando-nos a sermos seus filhos adotivos” [16].
3. Paideia e universidade
Indicados os traços de uma paideia como introdução de toda a pessoa à realidade total, podemos, agora, nos perguntar em que medida a universidade é capaz de responder a esta tarefa. A partir da época moderna, a universidade, no âmbito euroatlântico, pratica de fato a exclusão dos saberes ligados com todas as questões últimas, sobretudo se lidas sob a óptica da revelação cristã, porque são tidas como estranhas a um rigoroso conhecimento científico [17]. “A humanidade preferirá mais renunciar a toda pergunta filosófica do que aceitar uma filosofia que encontra a sua última resposta na revelação de Cristo” [18].
Esta pesada marginalização não se arrisca mais, como antes, a colocar em discussão a legitimidade das questões e das perguntas acerca das coisas últimas (Comte). Mais do que isso, ela nega a possibilidade de que a teologia, e mesmo a filosofia entendida no sentido pleno, possam responder a elas adequadamente. Hoje, é a tecnociência que é nomeada como especialista para dar, no lugar da teologia e da filosofia, respostas a estas perguntas. A tecnociência é, cada vez mais, considerada a única depositária da verdade, sempre falsificável (Popper), a cerca do homem e dos fatores fundamentais da sua existência: o amor, o nascimento, a morte. É evidente como entram em jogo, aqui, mudanças radicais, que têm uma estreita vinculação com a questão educativa [19].
Neste quadro de rápida e penosa transição, como pode a formação universitária ser pedagogicamente apropriada e, portanto, não decair de sua vocação mesma de uni-versitas, isto é de lugar onde os saberes são reconduzidos a um único princípio sintético de explicação da realidade? No passado, este papel de síntese cabia à teologia, cujos método e resultados cumpriam o papel de horizonte para todas as outras ciências. Na época moderna, reduzido o papel da teologia, reduzida a própria teologia ao nível de uma disciplina entre as outras e, em muitas partes, expulsa mesmo da universidade, não decai, porém, a instância de unificação do real.
Mas, hoje, o princípio que assegura a universitas como comunidade de pesquisa não é mais proveniente do acordo sobre um núcleo central de questões últimas (sempre ao mesmo tempo filosóficas e religiosas), mas se apoia sobre o consenso acerca dos procedimentos de pesquisa. A cientificidade que acomuna as disciplinas universitárias não está mais ligada diretamente ao objeto do conhecimento, isto é à verdade, mas apenas à metodologia de formulação do discurso científico mesmo. Inevitável consequência deste posicionamento é que a universidade para de ser lugar de pesquisa e de verificação de uma hipótese verdadeira última, e por isso de verdadeira paideia, para reduzir-se unicamente a um lugar de transmissão de competências que, mesmo não renunciando a dizer “algo” de sempre provisório acerca da verdade (pensemos no bios, ou na “formação do universo”), possui apenas uma utilidade instrumental. Encontramo-nos, aqui, diante de um conceito de razão estreitamente limitado, que não leva em consideração as articuladas modalidades com as quais se exercita o logos humano. Podemos, de fato, determinar, a partir do que já sustentava Aristóteles, pelo menos cinco formas, diferenciadas e irredutíveis, de racionalidade: teórico-científica (ciência), teórico-especulativa (filosofia/teologia), prático-técnica (tecnologia), prático-moral (ética) e teórico-prática expressiva (poética) [20]. Todas estas dimensões deveriam ser, harmônica e unitariamente, cultivadas pela universidade.
Certamente, no atual panorama educativo, deve-se ter na devida consideração o fato de que o sistema universitário é, por sua natureza, fundado sobre uma complexa articulação de programas curriculares específicos e de disciplinas diferenciadas. Pode, portanto, parecer pouco realista perseguir, em tempos razoáveis, a individualização de novas bases para a unidade do objeto do saber, especialmente quando é mantido o legítimo, e antes necessário, respeito pelo estatuto particular das disciplinas segundo o princípio popperiano de demarcação [21]. Todavia, a instância da superação da fragmentariedade do objeto do saber é, hoje, mais sentida e está conduzindo partidários de muitas matérias a não se limitarem à pura interdisciplinaridade.
Com maior razão porém, diante de uma tal situação, uma educação universitária adequada não poderá renunciar ao cuidado com a unidade do sujeito do saber.
Mas, sobre o que podemos fundar, hoje, a unidade do sujeito? A sabedoria pede que, sem confundir o novo com o inédito, mesmo no tempo presente, se reconheça que a unidade do sujeito se realiza a partir da assunção de uma hipótese explicativa vital do real, que consinta percebê-lo na sua totalidade e gozar dele. Não se trata de um puro exercícios intelectualista, mas de uma exigência que se impõe a cada pesquisador e a cada docente e estudante que seja lealmente empenhado com a sua matéria de pesquisa, de ensino e de estudo. Cada disciplina, de fato, contém, no fundo, uma pergunta acerca do sentido e do significado e, por isso, cedo ou tarde, suscita as irrenunciáveis questões que, desde sempre, agitam o coração do homem: quem sou eu? De onde venho? Qual o destino que me espera? Quem, no fim, me dá segurança amando-me definitivamente (além da morte mesma)?
As possibilidades que um olhar unitário sobre o real é capaz de desvendar a um intelecto comovido são bem descritas pelas palavras bastante atuais do Cardeal Newman: “Não há verdadeiro alargamento do espírito se não quando existe a possibilidade de considerar uma multiplicidade de objetos a partir de um único ponto de vista e como um todo; de outorgar a cada um o seu verdadeiro lugar num sistema universal, de compreender o valor respectivo de cada um e de estabelecer as suas relações de diferença na comparação com outros... O intelecto que possui essa iluminação autêntica não considera nunca uma porção do imenso objeto do saber sem ter presente que essa porção é apenas uma pequena parte do objeto, e sem fazer as recordações e estabelecer as relações que são necessárias. Isso permite que cada dado certo conduza a todos os outros. Busca comunicar, em cada parte, um reflexo do todo, a tal ponto que este todo se torna, no pensamento, como que uma forma que se insinua e se insere dentro das partes que o constituem e dá a cada uma o seu significado bem definido” [22].
Tal ponto de vista unitário é oferecido, segundo o Cristianismo, pelo evento de Jesus Cristo, Verbo encarnado e imagem do Deus invisível, e pela sua “pretensão” de revelar, com a sua paixão, morte e ressurreição, o enigma que o homem representa para si mesmo [23] sem, por isso, pré-decidir o drama constitutivo de cada indivíduo. Esta “hipótese” não sufoca o livre exercício da razão, antes exalta as faculdades críticas da razão, empurrando-a a um confronto de 360º com a realidade. A proposta cristã, de fato, tomada na sua objetiva integralidade, não é um salto no escuro. O homem pode, pelo contrário, verificar toda a espessura de verdade dela comparando-a com as dimensões da sua experiência elementar (trabalho, afetos, repouso), e com as irredutíveis polaridades que atravessam a unidade do próprio eu (unidade dual própria de cada ser criado, contingente): alma-corpo, homem-mulher, indivíduo-comunidade. Os medievais falavam, acerca disso, de cum-venientia, no sentido etimológico de cum-venire: corresponder à essência mais profunda, às exigências constitutivas do eu. Não nos referimos aqui, portanto, a uma conveniência utilitarista. Afirmamos, pelo contrário, aquele nível último da verdade que move a pessoa a descobrir a positividade intrínseca do real, o seu valor [24]. E no conhecimento, integralmente entendido, o homem se reconhece. Esta perspectiva que afirma a atualidade da paideia para um trabalho universitário, se assumida corretamente porque eficazmente inculturada, é totalmente compatível com os mais avançados saberes das ciências quando são rigorosamente praticados. Dizia Dom Bosco no seu escrito sobre o sistema preventivo: “Este sistema se apoia todo sobre a razão, a religião e a amabilidade”. Este olhar é exaltado pela característica ideal da universidade como communitas docentium et studentium. Certamente que o princípio unitário de interpretação do real deve viver na pessoa e se exprimir na comunicação entre docente e discente. Mas isso atinge sua máxima fecundidade se expresso no incessante e recíproco testemunho que deve circular entre todo o corpo docente e todos os estudantes. Quando a comunicação apaixonada dos primeiros encontra nos segundos não apenas ouvintes atentos, mas sujeitos empenhados numa incansável busca pela verdade, a universidade deixa de ser lugar de passagem com a finalidade apenas de obtenção de um diploma e realiza sua vocação mais autêntica.
4. Para uma universidade orientada conforme o Cristianismo
O que dissemos assume um valor particular numa instituição que, como a de vocês, junto à teologia, à filosofia, ao direito canônico, é empenhada em oferecer aos estudantes um conhecimento aprofundado em âmbitos de estudo (a pedagogia, a comunicação) cujos métodos e conteúdos se fazem sempre mais tecnicamente sofisticados. A pedagogia é exposta ao risco da remoção da experiência humana elementar; a comunicação é frequentemente concebida como “criadora” de verdade, acabando por se tornar instrumento de interesses particulares em competição entre si.
A tarefa da universidade, da universidade de vocês, é permitir aos estudantes atingir a realização de sua humanidade. Isto impõe perseguir a paideia através da pesquisa, do ensino e do estudo rigoroso das disciplinas que são cultivadas aqui. E isto através do recurso a um olhar crítico que não seja estéril objeção, mas autêntica capacidade de discernimento daquilo que é verdadeiro, uno, bom e belo. “Examinai cada coisa, retende o que é bom” (1Ts 5, 21).
Numa palavra, a universidade é tal se impele a mente, o coração e a ação dos sujeitos que a habitam à fascinante aventura (ad-ventura) de descobrir o razoável dom da verdade.

Notas
[1] J. Maritain, Per una filosofia dell’educazione, La Scuola, Brescia 2001, 86-87.
[2] Benedetto XVI, Convegno della Diocesi di Roma, 11 giugno 2007.
[3]J. Gevaert, Il problema dell’uomo. Introduzione all’antropologia filosofica, Torino 19897, 147-154.
[4] Cfr. A. Scola, Ospitare il reale. Per un’idea di università, PUL-Mursia, Roma 1999, 11-13.
[5] K. Wojtyla, Persona e atto (ed. a cura di G. Reale e T. Styczén, texto polonês, Rusconi, Milano 1999), 35; 53. A respeito, cf. A. Scola, L’esperienza elementare. La vena profonda del Magistero di Giovanni Paolo II, Marietti, Genova 2004.
[6] A. Scola, Ospitare il reale, op. cit., 11-13.
[7] La sfida educativa, Laterza, Roma-Bari 2009.
[8] Ibid., 11.
[9] K. Woityla, Persona e atto, Rusconi, Sant’Arcangelo di Romagna, 1999, 53.
[10] H. U. von Balthasar, Teodrammatica 2, Jaca Book, Milano 1978, 317.
[11] Cfr. M. Blondel, Storia e dogma, Queriniana, Brescia 1992, 103-137.
[12] Cfr. A. Scola, Genealogia della persona del figlio, in Pontificio Consiglio per la Famiglia, I figli: famiglia e società nel nuovo millennio. Atti del Congresso Teologico-Pastorale, Città del Vaticano 11-13 ottobre 2000, Libreria Editrice Vaticana, Città del Vaticano 2001, 95-104.
[13] Cfr. L. Giussani, Il rischio educativo, Rizzoli, Milano 2005.
[14] Cfr. A. Scola, L’avventura educativa nella società in transizione, in G. Malizia, M. Tonini, L. Valente (a cura di), Educazione e cittadinanza. Verso un nuovo modello culturale ed educativo, Franco Angeli, Milano 2008, 85-96.
[15] G. Bosco, Lettere, Elledici, Torino, 1959.
[16] Cfr. Ef 1, 4-5
[17] A. McIntyre, Enciclopedia, genealogia e tradizione. Tre versioni rivali di ricerca morale, Milano 1993, 301-327.
[18] H. U. von Balthasar, La mia opera ed Epilogo, Jaca Book, Milano 1994, 91.
[19] O Cardeal Ruini sublinhou isto por ocasião do IX Fórum do projeto cultural da CEI: “Se muda, de fato, o nosso conceito de homem, dever-se-ia mudar, com ainda maior razão, a realidade mesma do homem, em virtude das aplicações da tecnociência ao sujeito humano, dever-se-ia também mudar, necessariamente, o conceito de educação, cujo fim é exatamente a formação da pessoa humana. E isso, em vários lugares, é hipotetizado”, C. Ruini, Progetto educativo contro l’eclissi dell’uomo, in Avvenire, 28 marzo 2009.
[20] Cf. os diversos graus do saber de Maritain – Les degrés du savoir, distinguer pour unir. Desclés de Brouwer, Parigi 1991 – e as diversas formas de conhecimento segundo Lonergan – Insight. A Study of Human Understanding, University of Toronto Press, Toronto 1992.
[21] K. Popper, Conoscenza affettiva, Roma 1983, 55-56.
[22] J. H. Newman, L’idea di università, in La ricerca della verità, antologia degli scritti a cura di G. Velocci, Padova 1983, 207.
[23] Cfr. Gaudium et Spes 22: “Na realidade, somente no mistério do Verbo encarnado o mistério do homem encontra verdadeira luz. Adão, de fato, o primeiro homem, era figura daquela futuro (Rm 5, 14) e portanto de Cristo Senhor. Cristo, que é o novo Adão, exatamente revelando o mistério do Pai e do seu Amor revela plentamente o homem ao homem e torna evidente para ele a sua vocação”
[24] Cfr. Scola, Ospitare il reale, op. cit. 38.
Extraído de http://www.marcianum.it/marcianum/. Traduzido por Paulo Roberto de Andrada Pacheco.

Cartas do P.e Aldo 115

Asunción, 28 de outubro de 2009.

Caros amigos,
a carta de Carrón, ou melhor, a homelia que ele fez na ocasião dos funerais de Pontiggia, assim como a mensagem que ele nos enviou quando as condições de nosso caro amigo se agravaram, me estão, nos estão acompanhando como uma Graça excepcional. A mensagem falava da confiança na modalidade com a qual o Mistério nos indica a meta, o destino.
A homelia, com aquelas três perguntas iniciais (“Quem és Tu, Cristo, que podes apaixonar assim a vida de um homem? Quem és Tu, que consegues atrair todo o eu, toda a pessoa com toda a sua capacidade, imaginação, intensidade, para colocá-la a Teu serviço, para poder comunicar aos homens – não com palavras, mas com a vibração e com aquela intensidade que só Tu podes introduzir na vida – a Tua vida mesma? Quem és Tu, Cristo?”; texto disponível em http://www.clonline.org/articoli/ita/jc_omelia.htm; ndt), nos fez vibrar até as lágrimas. A parte final, onde fala da morte, me encheu de alegria, porque me remetia à verdade da vida. Se vivéssemos cada instante com a consciência que Carrón tem do sentido da vida e do verdadeiro destino, também o Liceu Berchet se tornaria aquele de Giussani. Não posso esconder a dor que experimentei quando recebi a notícia do que aconteceu no Berchet, mas não pelo resultado das votações, mas porque tenho uma certa percepção de uma ausência, da falta daquela humanidade, daquela dramaticidade, daquela paixão por Cristo, pelo destino do homem que vibrava em Giussani, em Padre Giorgio, em Padre Danilo e, hoje, de modo espetacular e profundo, nos é testemunhado por Carrón, que desafia a nossa humanidade. É o humano que falta, nos dizia Carrón. E é muito verdade, porque onde o humano é vibrante toda a criação volta a viver, e não somente a escola, mas também os jovens. Vejo isso com as minhas crianças, com os meus idosos, com os meus doentes.
1. Com as minhas crianças: outro dia, nos foram confiados dois irmãozinhos – Noemi, de 7 anos, e Antônio, de 8. Violentados pelo “pai” de 60 anos e a mãe que se suicidou aos 18 anos. O velhote do “pai” transformou o casebre num prostíbulo, onde, junto com outros homens, abusava de outras meninas. Não apenas isso, mas sendo que este “homem” sofre de zoofilia, as crianças viam este “homem” tendo relações sexuais com animais. Quando a Polícia nos trouxe as crianças, fiquei estarrecido, petrificado. Peguei as duas crianças, com todo o meu coração, carregando toda a dor e a tristeza delas... repetindo para mim mesmo: “eu sou Tu que me fazes”. Seguro e certo de que esta consciência de mim conseguiria colocar de pé, outra vez, a personalidade destruída destas crianças. É o que o Carrón nos lembra: “o homem não é o resultado dos seus antecedentes, não importa quais e quão violentos foram, mas é relação com o Mistério”... Desde o primeiro instante, comecei a mudar o pequeno “eu” das minhas duas crianças. Sim, porque o problema é sempre o mesmo: Giussani me encontrou, com toda a carga de toneladas de misérias, me abraçou, e aquele abraço mudou radicalmente a minha vida. Assim é, agora, com estas crianças, que voltaram a sorrir e sentem até vontade de voltar para a escola. Como vocês podem ver, a questão não é, antes de tudo, uma questão de psicologia, mas que o nosso “patrimônio genético” coincida com “eu sou Tu que me fazes”. Vejam esta cartinha escrita por uma menina pluriviolentada. É um documentário de “eu sou Tu que me fazes”:

“Amo muito o senhor e espero que tenha passado bem o seu aniversário. Eu estou feliz aqui com meus irmãos e irmãs da Casinha de Belém. Nunca fui tão feliz. Quando eu estava com minha mãe [a mãe natural] eu vivia muito mal porque ela me vendia aos homens; agora, porém, que estou com você e com a mamãe Cristina, estou de verdade bem. Minha mãe [a natural] está sempre bêbada e não lhe importa nada de mim e dos meus irmãozinhos. Agora, estou feliz, porque tenho uma mãe boa e um pai como você... acho que ficarei com vocês para sempre. sofri muito e, agora, porém, [“eu sou Tu que me fazes” e não fruto de seus antecedentes] sou feliz...”.

Amigos, Deus queira que compreendamos o que Giussani e Carrón nos repetem... trabalhando sobre isso, vejam o que acontece:
2. Glória, 28 anos, metástase geral. Há 15 dias vivia em pânico, com medo da morte. Durante a Escola de Comunidade feita com os doentes terminais, que fazemos toda quarta-feira, ela falava do terror que tinha da morte. Os doentes nas suas mesmas condições tentavam, em vão, fazer companhia a ela, contando como estavam vivendo estas últimas semanas ou dias de vida... porém, inutilmente. O terror da morte parecia sufocá-la. Passados alguns dias, Glória parecia piorar. Mas, no dia 24 de outubro, uma surpresa: aproximo-me do seu leito, ajoelho-me com o Santíssimo Sacramento na mão e pergunto “Como vai, Glória?”. E ela, com o rosto mais sereno, me responde: “Logo eu vou embora com Jesus”. Surpreso e comovido, perguntei: “Mas, você não tem mais medo?”. E ela: “Não, padre”. Desde então, está ali, no seu leito, com todo o drama da certeza de morrer, mas totalmente confiada ao Mistério. Porque, para ela, como para mim, a certeza de estar vivendo um desígnio maior venceu.
Peçamos a Nossa Senhora que cada circunstância seja para afirmar esta certeza, como Carrón nos tem repetido incansavelmente.
Padre Aldo.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Cartas do P.e Aldo 114






Asunción, 20 de outubro de 2009.

Caros amigos,
as circunstâncias da vida não são, antes de tudo, um “compromisso” mas a modalidade com a qual o Mistério nos chama, com a qual chama a nossa liberdade a reconhecer o destino bom escondido em cada coisa, mesmo na mais terrível. Comoveu-me, nesses dias, ver um bispo, secretário de uma importante comissão da Santa Sé, visitar o nosso hospital... e ver como os meus filhos vivem os últimos dias da suas vidas... comoveu-se até às lágrimas. Por quê?
A consciência, para mim mais clara do que o sol, de que “eu sou Tu que me fazes” é como uma “peste” boa que contagia cada coisa. Não apenas as pessoas, mas também o modo de fechar a porta, limpar o banheiro, beijar um doente. Quando, três vezes ao dia, com o Santíssimo Sacramento, ajoelho-me diante de um doente, “eu sou Tu que me fazes” me torna uma coisa só com o Cristo sofredor e chagado.
E o doente o percebe e reencontra o gosto de viver aqueles poucos dias que lhe restam. Como Hilda que, sábado passado, depois da janta a base de pizza (obviamente como tanto quanto um passarinho) e sorvete, conseguiu cantar um canção em português. E ver que empenho com aquilo que le restava da voz e do alento!!!
Ou como quando Glória (metástase), Hilda (a mesma) e a pequena Celeste, atualmente no mesmo quarto, empenhadas a trabalhar bordando... é evidente que somente a certeza de se estar diante do Tu do Mistério permite viver até o fim, cada instante, trabalhando, quando normalmente o simples pensamento do mal frequemente nos paraliza.
Então, entendo que espessura imensa há aquilo que nos escreveu Carrón, dando-nos a notícia das graves condições de Padre Giorgio (refere-se ao padre Giorgio Pontiggia, falecido no último dia 19 de outubro; ndt): “Caros amigos, o estado de saúde de padre Giorgio Pontiggia se agravou. Nesta situação, não são aconselhadas visitas. Acompanhemo-lo com nossa oração, para que possa confiar-se plenamente à modaliade com a qual o Senhor o leva ao destino”.
Olhar dessa maneira para a doença e para a morte é aquilo que, a cada dia, permite aos meus doentes se reencontrarem a cada sábado à noite para fazer festa. Mas, não é uma dança macabra, e sim o sinal da vitória de Cristo, pela qual até mesmo um corpo cheio de metástases não cede ao medo que, inevitavelmente, todos, cedo ou tarde, como Jesus, acabaremos por viver.
Por isso, até que eu tenha fôlego, não me cansarei de gritar que o problema, o único problema, é a falta de fé, fruto de um inadequado caminho do conhecimento, condição necessária para dizer “Tu” ao Mistério. A clínica sempre mais é a experiência deste percurso, mesmo porque, com um diretor de saúde como Cristo Eucaristia, não se pode ficar parado um segundo sequer.
P.e Aldo.

Cartas do P.e Aldo 113





Asunción, 13 de outubro de 2009.

Caros amigos,
Grande festa, ontem, domingo, dia 11 de outubro, na Clínica: batizados, primeiras confissões, primeiras comunhões, crismas e um casamento. A que serve um hospital se o doente, o pessoal, não encontram Cristo ou não nasce neles o desejo do infinito?
Eis: Míriam, uma bela garota doente de AIDS, encarcerada por anos, drogada há 14 anos, de religião mórmon, chegou na semana passada do “lager” onde estava internada, em total solidão e abandono. Os primeiros dias foram duríssimos, ainda mais porque é adepta de psicofármacos. A paciente espera de um milagre aconteceu graças ao afeto cheio de ternura de todos nós. Assim, ontem, abjurou aos mórmons e entrou na Igreja católica.
Guilhermina, pelo contrário, casou-se com seu companheiro, já no final da vida, com quem vivia há anos. O “sim” pronunciado com dificuldade pelo marido e as lágrimas de Guilhermina, no momento de dizer “por todos os dias da minha vida”, comoveu a todos, porque aquele “sim” queria afirmar que o amor é eterno e não está ligado a uma função como a de colocar filhos no mundo. Aquele “sim” era a Cristo, de quem o marido moribundo era, para Guilhermina, a evidência, se não fosse assim de que serviria aquele “sim”? É como se quisessem dizer-nos que ou é possível amar uma pessoa para sempre ou não se ama de verdade. Por isso, é muito bonito quando me dizem: “Padre, queremos nos casar para morrer em paz”.
Belíssimo, porque significa que somente no sacramento do matrimônio o relacionamento entre homem e mulher é cheio de paz, daquela paz que permitiu a Guilhermina dizer esta manhã: “Padre, depois de meses que eu não conseguíamos dormir, esta noite dormimos e bem. Ele, no quarto do hospital e eu apoiada com a cabeça ao seu lado”.
Depois da missa, a surpresa. Celeste, a miraculada, com os seus amigos doentes de leucemia, dançaram e cantaram, manifestando toda a sua alegria e viver. Nos seus olhos, a certeza de que “eu sou Tu que me fazes”.
Era de uma evidência comovente... e os movimentos deles, na dança, nos fizeram gozar um pedaço do paraíso.
Sim, do paraíso, porque onde há a consciência, mesmo que pequeníssima, de que “eu sou Tu que me fazes”, o câncer, a AIDS, a leucemia se transformam em uma possibilidade também para dançar.
Amigos, mas será que entendemos que tudo é positivo, tudo é graça, e não há nada que nos impeça de reconhecer os sinais da Presença de Cristo entre nós? E isto amigos é aquilo que aprendo aqui, em cada instante, de forma que, esta semana, muito dura para mim, na qual nenhum impulso emotivo apareceu entre as nuvens negras, foi um motivo para dizer ainda mais radicalmente “sim” Àquele que me faz em cada instante e de quem eu sou propriedade.
Mas, isto é incrível, porque isto é o caminho da fé, isto é fazer experiência.
Olhem as fotos dos fatos acontecido ontem.
Obrigado.
P.e Aldo

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Cartas do P.e Aldo 112

Asunción, 12 de outubro de 2009.

Caros amigos,
o Movimento nos ensina a olhar para a realidade, obedecer a ela, levar a sério o próprio coração, partir do dado objetivo, da história tal como se desenvolve. Por exemplo, nenhum de nós, há um ano atrás, poderia imaginar as coisas que o Carrón nos vem dizendo: "olhem para as testemunhas". Tanto menos poderíamos imaginar o que este olhar geraria. Para nós, significou uma mudança radical na compreensão dos relacionamentos, no olhar para as obras feitas exclusivamente pela Providência, no modo de compreender e obedecer à realidade.
Dizíamos – Marcos, Cleuza e eu: há um ano atrás, nós nem nos conhecíamos, e hoje não existe, para mim, meus sacerdotes e todos os que trabalham aqui (que são quase 150 pessoas), uma amizade mais cheia de autoridade do que esta. Uma amizade operativa que começou a fundar as bases de um novo modo de compreender esta obra, um modo onde não apenas o assistencialismo desapareceu, mas está nascendo um novo sujeito ativo, responsável e protagonista daquilo que a Providência está criando nos últimos 5 anos.
Um dos frutos operativos é também a nova amizade com alguns bio-engenheiros de Buenos Aires, do Grupo Adulto e do Movimento, que, gratuitamente, vêm a cada 15 dias (eles assumiram a responsabilidade da obra e também estão trabalhando nos hospitais “São João de Deus”) e pediram para colaborar mais de perto conosco, dizendo que nos ajudariam no campo científico e nós os ajudaríamos a redescobrir o carisma original. Obedecer aos fatos é a única inteligencia que nos é pedida. Nunca partir de um “a priori”. É como afirmou Alexis Carrel. Uma outra novidade é que acabamos criando um lugar de verificação… onde todos os pedidos de coração grande para virem nos ajudar encontram espaço. A nossa casa é uma grande e bela experiencia de amizade, a continuidade daquele abraço de dom Gius, que mudou a minha vida. Temos também, nesse momento, duas pessoas de Barcelona empenhadas com a clínica e com a Casinha de Belém; uma alemã, amiga dos nossos de Friburgo etc. Irma, a enfermeira de Barcelona, que já esteve aqui por dois meses, voltou para permanecer por um ano, porque “aqui reencontrou a Cristo”.
Assim, sendo que são muitos os pedidos (somente para vir trabalhar… porém), pedimos a Andréa Pompa, a responsável pelas relações públicas, que se tornasse o único ponto de referencia para todos aqueles que, por um motivo ou por outro, pedem para vir até aqui. Obviamente, isto vale para a Europa e para os EUA. Depois, os respectivos diretivos da Fundação decidirão segundo as exigencias. A última palavra caberá a nós, padres, junto ao diretivo responsável pela Fundação São Rafael. Para cá só se vem para trabalhar e para aprender um olhar sobre a vida, como repete sempre a Cleuza: “Nós viemos até aqui para encontrar este olhar, para nos fortalecermos na fé, para fazer, depois, um trabalho pessoal como nos pede o Carrón”. O mesmo motivo pelo qual eu vou a cada mês (ou mais) ao Brasil, para estar com eles.
Uma coisa importante para aqueles que vêm: obedecer e seguir o responsável de uma obra ou das obras. Aqui, se segue um projeto educativo unitário e claro, de forma que tudo, mesmo um presente, deve passar através deste método educativo.
O email de Andréa Pompa é sanrafael.andrea@gmail.com.
Obrigados de coração,
os Padres da Comunidade

sábado, 10 de outubro de 2009

Cartas do P.e Aldo 111


Asunción, 08 de outubro de 2009.

Caros amigos,
voltando de Mar del Plata, uma grande cidade no sudeste da Argentina, encontrei a alegre companhia de Marcos, Cleuza, Julián de la Morena, Vando e outras 10 pessoas que fazem parte deste grande abraço que é a nossa amizade. Ficaram por aqui 3 dias, trabalhando, comendo, fazendo Escola de Comunidade e ficando com os doentes, crianças e idosos. Três dias nos quais retomamos o que o Carrón nos disse quando veio nos visitar, 15 dias atrás. Passamos duas manhãs trabalhando sobre a pergunta: o que aconteceu na sua vida depois do encontro com Carrón?”. Na terça-feira, pela manhã, ficamos com os padres da minha comunidade. Na quarta-feira, fomos à fazenda com toda a direção da obra... e sempre trabalhando sobre a mesma pergunta. Um espetáculo de testemunhos, que se encerrou com um saboroso grelhado “crioulo”. Pensem: são quase 4 mil quilômetros de ida e volta... e, no entanto, nos vemos a cada 15 dias. Dessa vez, foram eles que vieram - 14 pessoas.
É, de fato, comovente esta amizade que está abraçando todo o continente. Uma amizade operativa que muda tudo, porque é somente um abraço que pode mudar a vida.
Olhem este desenho que eu estou mandando para vocês. Toda manhã, meus filhinhos me dão uma cartinha. Esta que eu estou mandando é de Blanca, 7 anos. Está conosco junto com seu irmãozinho, Júlio, desde quando sua mãe morreu de AIDS na clínica.
Este desenho nos ajudou, na manhã de hoje, a retomar aquilo que o Carrón nos disse. O que Blanca quer me dizer com este desenho tão bonito e cheio de vida? Ela e seu irmãozinho, uma casa grande e bonita e uma trepadeira tropical cheia de flores vermelhas bonitas que tem suas raízes plantadas na segurança da casa, e alcança aquele que permite a existência e o calor da casa: “Papai, te amo. Blanca”. Amigos, trabalhamos duas horas sobre esta provocação. A vida é um abraço. “Sem vir até aqui” - disse Cleuza - “a minha fé teria data de validade”. E é muito verdade isso! Como as minhas crianças têm necessidade de mim e da mamãe Cristina, nós também temos... e, por isso, para nós, os 4 mil quilômetros de ida e volta são só um passeio. Amigos, somos como os meus pequeninos: crescemos na fé através de um abraço.
Sim, porque, como mais de um sublinhou, é verdade aquilo que o Carrón nos repete: a vida, o eu não é o fruto dos nossos antecedentes biológicos, psicológicos, nem das circunstâncias, mas do “eu sou Tu que me fazes”. Então, vocês entendem porque Jazmin, a responsável administrativa da Casinha de Belém, pode dizer: “Perdoo o braço direito de Ströesner, o ditador que controlou esse país por 37 anos, que sequestrou e assassinou meu pai... sem que nunca pudéssemos saber onde colocaram o seu cadáver... como é possível perdoar sem esta certeza de que ‘eu sou Tu que me fazes’”. E ela dizia isso comovida, com o coração em pedaços.
Uma última observação: um amigo de Marcos e Cleuza, e também meu, um dos mais brilhantes economistas italianos no exterior, voltando de Cernobbio, para onde fora enviado pelo Ministro Tremonti, sem nem mesmo parar para ver sua bela família, esperou Marcos e Cleuza e os demais no aeroporto de São Paulo e veio até aqui. Ver a sua humildade, a sua comoção, fruto de uma fé reencontrada recentemente e fortalecida na amizade com os Zerbini, comovou a nós todos. Pensem: um gênio da economia internacional vem até aqui e, por três dias, vive conosco, com os doentes, com as crianças abandonadas, os meus filhos. “Padre, eu não posso mais viver sem esta amizade”. Uma amizade que não conhece objeção, distância ou cansaço. É verdade que seguindo, como filhos, a Carrón, a vida muda e cada fronteira é derrubada. Rezem para que o nosso coração seja simples como o dos meus filhos.
Ciao
Padre Aldo

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Cartas do P.e Aldo 110

Asunción, 02 de outubro de 2009.

Caros amigos,
A cada semana, com a mãe e os membros da nossa família da Casinha de Belém, nos encontramos para verificar o caminho de conhecimento, de verificação da fé na concretude da responsabilidade educativa de nossos filhos, todos, um dia, vítimas da violência mais desumana que possa existir e, hoje, sorridentes, felizes, porque filhos do “Tu que me fazes”.
Mas, como os nossos filhos tomam consciência deste abraço divino, o único que permite à criança sair vitoriosa das violências sexuais e de outras sofridas desde quando foram concebidos?
Jazmin, a diretora administrativa das Casinhas de Belém, conta: “Verônica, cuja mãe morreu de AIDS na clínica, me presenteou, há uns 5 meses, um dado, uma coisinha com a qual brincava, me dizendo: ‘dou para você para que você tenha algo para se lembrar de mim’. Depois de uma semana, Verônica se aproxima de mim e me pergunta ‘onde está o dado que eu dei de presente para você?’. E ela, em momentos diferentes, volta sempre a me por a mesma pergunta. E eu, a cada vez que ela pergunta, lhe mostro o dado. E Verônica, a cada vez, repete: ‘então, você me quer bem de verdade, porque carrega com você sempre o dado que eu dei de presente’”.
Amigos, que bonito! Verônica, com esta pergunta contínua a Jazmin, nos faz entender que cada um de nós descobre a si mesmo quando é amado, abraçado. Um simples dado que Jazmin carrega consigo é, para Verônica, o sinal do abraço do “Tu que a faz e nos faz” e cada instante.
Os meus filhos, olhando para a forma como vivemos, vivendo conosco na mira que é o Tu do Mistério, como que por osmose respiram com esta consciência que nos define, e o passado não apenas desaparece como objeção, mas se torna um trampolim que os lança entre os braços do Tu de Deus... e, de repente, florescem, e a alegria deles é o sinal mais belo. Amigos, não existem crianças boas ou más, mas apenas crianças que vivem com a certeza de serem filhas ou com o desespero de serem órfãs.
Uma vez mais vejo o abraço de Gius fazendo milagres... e que milagres! Neste abraço está todo o “Educar é um risco”. Mais do que psicologia ou do que confiar a própria vida e a dos próprios filhos a experts (obviamente, me refiro àqueles que não têm a percepção de Giussani nesta matéria... e são, tristemente, a maioria absoluta... talvez até mesmo na Igreja). Se Giussani me tivesse confiado a experts, ao invés de me mandar para o Paraguai, me teriam mandado para o manicômio de Feltre, minha cidade natal.
Amigos, apenas um abraço muda a vida.
Padre Aldo

Cartas do P.e Aldo 109





Asunción, 30 de setembro de 2009.

Caros amigos,
“Você quer que eu conte algo mais da minha vida?”. Carrón (esteve aqui, conosco, em fevereiro deste ano,visitando a comunidade) a olhou... e saímos do quarto comovidos. Ela já havia dito tudo: “Padre, a minha vida foi um calvário. Minha mãe foi assassinada, e eu fui abandonada por todos. Sempre procurei fugir demim mesma, procurando fora de mim aquilo que, depois, encontrei dentro de mim, graças à AIDS, doença que me conduziu até aqui, onde encontrei Jesus e, com Jesus, a alegria de viver. Estando aqui, na Clínica, reencontrei-me. Encontrar comigo mesma sempre foi muito difícil, porque a falta de amor por mim mesma era o motivo pelo qual eu vivia uma vida desordenada, que chegou até o limite da AIDS. Agora, tenho tudo: tenho comida (quanta fome eu sofri!), tem um belo quarto e, sobretudo, muitos amigos. Aqui, as pessoas me querem bem”.
A sua história seria longa de se contar e espero que, em breve, consiga mandá-la para Tempi, porque a sua história é, de fato, um exemplo do que quer dizer o “percurso do conhecimento, o percurso da fé”.
Fabiana chegou, em alguns meses, a dizer “Tu” ao Mistério. E, nesse abraço, aos 19 anos de idade, morreu nesta manhã, às 00h30, festa dos três Arcanjos. Ontem à noite, estava muito mal. E, no entanto, entre as dores, recitou comigo uma Ave-Maria. Eu lhe disse: “Fabiana, você é como a semente de um feijão (ela me corrigiu, preferindo a semente de milho) que está morrendo. Porém, enquanto você morre debaixo da terra, num cantinho da semente brota uma folhinha... e ela, devagarzinho, rompe a terra, sai, cresce e se torna uma bela planta com frutos. Normalmente, o milho, aqui no Paraguai, dá dois brotinhos muito bonitos. Uma é a sua filhinha de dois anos e a outra somos nós, porque, nestes meses, você nos educou a dizer com mais consciência ‘eu sou Tu que me fazes’”. Assim, depois de abraçá-la, fui dormir. À meia noite e meia o celular tocou: “Padre, vem rápido... Fabiana está morrendo”. “Jesus, Tu acabaste de me tirar Rosinha, de 18 anos, e agora me tiras também Fabiana. Tu me pedes tudo todos os dias, não deixa que os espaços fiquem fazios, faz-me percorrer, todos os dias, o caminho da fé... pois bem: eis-me aqui. Eu sou Tu que me fazes... faz de mim o que quiseres”.
Cheguei à clínica e encontrei as enfermeiras em lágrimas (aqui, as minhas enfermeiras sofrem, choram, porque não são funcionárias, mas filhas daquele “Tu” que é o único autor e diretor desta clínica). Fabiana tinha acabado de morrer. O meu coração se despedaçou mais uma vez. Aqui, a ferida que carrego há 20 anos não se cura nunca. Deus não permite... e sou grato a Ele, porque assim eu vivo de joelhos, que é a única posição que me permite ficar de pé 24h por dia.
Nesse momento, eu a estou olhando. É belíssima. A morte, aqui, dá de volta aquela beleza original que a dor tira do doente. São 2 da manhã e estou com as três enfermeiras na cela mortuária. Choram comigo. Irene lembra as suas últimas palavras: “me dói o coração... mas logo repousarei para sempre”; “desculpe-me Irene. Essa é a última vez que eu a incomodo, mas aumenta mais um pouco o volume de oxigênio”.
Pouco depois, chegaram o médico diretor da clínica e um outro médico que não é católico. Quando me viram chorando, me disseram: “recitamos juntos, para você, um Pai-Nosso”. Que prazer, que atenção. Naquele momento de escuridão, com a noite lá fora, dois amigos me reconduzem ao “Tu”.
Dei-lhe um beijo e... agora, vou dormir??? Não. Esta noite, foi difícil conseguir dormir. Passei a manhã inteira com Fabiana. Toda a clínica está cheia de comoção. Chegaram os meus filhinhos da Casinha de Belém. Também para eles é uma grande dor. Não pararam ainda de chorar a morte de Rosinha e já vem a dor pela morte de Fabiana, que deixou para mim e para Cristina (a mãe adotiva das crianças) uma nova filha – Camila – e às crianças deixou uma nova irmãzinha.
Camila também tem AIDS. Fabiana, uma semana atrás, havia demonstrado desejo de que a levássemos ao seu vilarejo, a 400 km daqui, de onde foi expulsa por causa da “lepra” moderna, que a ignorância vê como uma maldição neste meu país. Ela queria saber se a sua filha tinha mesma doença que ela, porque, se fosse positiva a resposta, queria que a sua Camila ficasse conosco para sempre. O encontro foi muito doloroso: a menina não reconhecia a mãe e, além do mais, a certeza da doença a deixou destruída. Quando voltamos para a clínica com a sua filhinha, em poucos dias ela foi piorando e, nesta noite, morreu. Agora, fiquei com Camila (olhem como é bela) que, no domingo passado, junto com outros quatro filhos meus, foi batizada, na Fazenda “Padre Pio”. Camila nasceu para uma vida nova, Fabiana nasceu para a plenitude da vida.
Amigos, “desejo que vocês nunca fiquem tranquilos”. Vocês se lembram desta provocação de Giussani? De fato, eu tenho uma graça única, porque o que seria a minha vida sem esta dramaticidade que torna a vida sempre mais consciente do “Tu que me fazes” em cada instante?
Padre Aldo