terça-feira, 31 de março de 2009

Cartas do P.e Aldo 09

Asunción, 06 de fevereiro de 2009.

Caros amigos,
Mesmo aqui os jornais deram a notícia do que está acontecendo na Itália, no caso de Eluana. Mesmo aqui eles falam a linguagem do mundo: a Itália, a Igreja divididas em duas – conservadores versus progressistas. A raiva é humana, e mesmo a dor: como a minha pátria, a pátria do Direito Romano etc., chegou a este ponto? Todos nós somos responsáveis pelo que está acontecendo no Corpo de Cristo. Todos nós que, como dizia Giussani, “nos envergonhamos de Cristo”. Sejamos sinceros: não é assim? Se penso no que se reduziu a nossa Presença, hoje, na realidade, no que é a realidade para nós, não posso não perguntar isso.
Carrón, em La Thuile (vilarejo no Vale da Aosta, na Itália, onde se realizam anualmente alguns encontros de Comunhão e Libertação; ndt), falava de “intimismo”. Aquelas palavras são, para mim, um soco no estômago. Olho para Eluana e revejo o capítulo décimo d’O Senso Religioso e me pergunto: mas, eu pulo da cadeira diante da comoção daquelas palavras, diante da realidade? E se não é assim, eu, você, nós somos claramente responsáveis pelo que está acontecendo com Eluana. O que quer dizer, para nós, que a “realidade é providencial”? Mas, o mundo no qual vivemos pula da cadeira pela alegria de nos ver vivendo, trabalhando no hospital?
Olho para a minha clínica, olho para o pequeno Victor, em coma irreversível, cheio de feridas na cabeça, sem crânio, que se alimenta apenas através de uma sonda, e não posso não me comover diante do Mistério palpável que ele é... ele que, inexplicavelmente, continua vivendo. Ele é, está ali, na sua caminha, está ali, me lembrando de que a “realidade é providencial”, tal como nos diz o capítulo décimo d’O Senso Religioso... e do meu coração sai um grito impressionante pelo Infinito: vem, Senhor Jesus... cada vez que eu penso em como nós nos movemos diante da pergunta: “fazemos ou não uma transfusão de sangue (sobre o que já lhes falei)? É possível melhorar a sua qualidade de vida mesmo que por um instante (o mundo diz que eu sou louco)?”. Então, resolvemos incomodar o Instituto João Paulo II, em Roma, para ter uma luz sobre o assunto... e me permito mostrar-lhes de novo a resposta deles.

Caro Padre Aldo,
Tomei conhecimento do caso do pequeno Victor, que você me encaminhou.
Não sendo um especialista em medicina, pedi o parecer de uma professora do nosso Instituto, médica e especialista em bioética.
Com ela e com um outro colega, o Padre Noriega, revisamos toda a problemática que você nos expôs.
Ao final, a Doutora Di Pietro propôs o seguinte parecer, que reflete a opinião amadurecida em conjunto, e que lhe dou a conhecer:
“Tomado conhecimento das condições clínicas de Victor Quinones, nascido no dia 14 de abril de 2007 e, atualmente, internado na Casa Divina Providência de Asunción (Paraguai), sustentamos que – esperando uma definição diagnóstica das causas da anemia progressiva – seja oportuno proceder com a hemotransfusão, a partir de uma via venosa central. No caso em exame, de fato, a hemotransfusão parece ser a intervenção mais significativa para melhorar a qualidade de vida do paciente ou, ao menos, não permitir uma piora do quadro, eliminando a presente sintomatologia. A progressiva redução da hemoglobina e da oxigenação poderia expor os tecidos – e particularmente o cérebro – a uma condição de baixa oxigenação, que agravaria as suas já comprometidas condições. Em um segundo momento, deve-se continuar com o tratamento previsto no protocolo clínico.”
Espero que este parecer seja uma ajuda para você.
Asseguro-lhe uma viva recordação na minha oração ao Senhor da Vida.
Um abraço
P.e Lívio

Isto porque o homem é um Mistério e eu, nós devemos nos render e reconhecê-Lo de joelhos. Dolorosamente, não sendo mais a realidade o ponto de partida, consigo entender (se é mesmo verdade) que tenha havido mesmo alguns padres de Udine que assinaram um apoio à morte de Eluana. Somente quem vive comovido diante da “realidade providencial”, quem está diante do fato, da realidade, pode viver adorando o Mistério de Eluana, de Victor.
Amigos, nunca, como agora, entendo que a nossa batalha é levar a sério o que Giussani nos tem dito através de Carrón. Partamos daqui e Eluana sairá vitoriosa, viva, qualquer que seja a sentença diabólica de quem ficou cego pela ideologia e perdeu a cabeça.
Para mim, olhando os meus doentes em coma há tempos, vejo a beleza de Eluana, que continuará viva na medida em que eu, nós estivermos comovidos diante do que nos diz Giussani no capítulo décimo d’O Senso Religioso.
Creiam-me, é preciso aprendê-lo de cor, pular da cadeira de tanta comoção, para que o caso Eluna não se repita outra vez.
Com afeto
P.e Aldo, Victor, Celeste, Cristina, Aldo etc.

domingo, 29 de março de 2009

Cartas do P.e Aldo 08


Asunción, 06 de março de 2009.

Caríssimos amigos,
Olhem que bela é Alice, uma das minhas filhas mais caras, doente de AIDS, e que, finalmente, voltou para casa. Sim, porque muitas vezes, sempre que se recuperava voltava para a rua para levar a vida de sempre, contagiando centenas de pobres seres humanos. Tem três crianças, uma das quais vive comigo, junto com os meus filhinhos. Tem 21 anos. É bela esta minha filha. Está muito mal: a AIDS a está devorando.
Eu a abracei como só um homem pode abraçar uma mulher, como só a virgindade permite, porque somente a virgindade faz reflorescer uma árvore seca. Ela pediu: “papai, quero me confessar”. “Filha, me basta este pedido para que eu lhe dê a absolvição”. Um minuto e, depois, a festa. Mas, vocês entendem o que Jesus quis dizer como “as prostitutas vos precederam no Reino dos Céus”?
Eu a olho: está muito mal. Aproximo-me dela; ela quer se sentir abraçada, quer que lhe façam um carinho. Um objeto que sempre foi usada para divertir àqueles que tinham sede de sexo; agora, é ela mesma, uma mulher: que bonito!
Uma mulher. Olho-a, enquanto ela me aperta as mãos... e penso em Jesus, naquela vez com a mulher adúltera: “mulher!...”. Chama-a “mulher”. Que belo! A palavra “mulher”, para mim, como é usada por Jesus descreve toda a sua grandeza.
Pois bem, agora, ela está aqui com um único desejo: viver a dignidade encontrada. Para ela, floresceu a esperança que, como nos recorda a Escola de Comunidade, é a Glória de Deus, e a certeza de que Cristo já venceu.
Por isso, Alice é segura e não teme o futuro, porque sabe que este abraço que nunca a deixou é definitivo.
Com afeto
P.e Aldo

P.S.: Uma de suas filhas vive comigo na Casinha de Bélem.

A esperança maior...


Reproduzo a carta que Vicky Aryenyo (foto ao lado), da Uganda, enviou em 2007 e que foi publicada nas edições da revista de Comunhão e Libertação (no Brasil, foi publicada na Revista Passos, nov./2007).
Vicky é soropositiva e foi acolhida pelo Meeting Point International de Kampala, na Uganda, em 2001 (para saber mais, confira a postagem "Outro ainda sobre AIDS...", neste Blog; ou o documentário vencedor do prêmio de Cannes 2008, de Emmanuel Exitu, Greater - defeating AIDS).

Meu nome é Vicky, tenho 42 anos e venho da região oriental de Uganda. Quero agradecer a vocês e a Deus pela vida preciosa que me deu. Em 1992, quando engravidei do meu último filho, Brian, meu marido pediu que eu escolhesse entre continuar sendo sua esposa renunciando à gravidez ou separar-me dele se quisesse ter a criança. Naquela época tinha só dois filhos e decidi levar a gravidez adiante, o que marcou o fim da nossa relação. Realmente não entendia por que ele estava sendo tão cruel e intransigente. Depois, em 1997 perdi o trabalho porque fiquei doente e, ao mesmo tempo, meu filho Brian manifestou sintomas de tuberculose, e surgiram as primeiras suspeitas. No ano seguinte piorei e, no hospital de Nsambiya, fui examinada e submetida ao teste de HIV, que deu positivo. Foi então que me lembrei e entendi por que meu marido não queria a gravidez de Brian: na época, ele também era soropositivo.

A vida em casa, com meus três filhos, tornou-se difícil. Os dois primeiros eram saudáveis, mas não tínhamos dinheiro para pagar a escola; não tínhamos o que comer, nem dinheiro para os remédios, e, pior de tudo, não tínhamos amor de nenhuma parte do mundo. Não sabia mais se Deus realmente existia. Em 2001, alguém me mandou ao Meeting Point International, onde encontrei mulheres as quais era difícil para mim acreditar que pudessem viver daquela forma mesmo estando doentes de Aids, tal era a alegria que tinham no rosto; dançavam e estavam felizes, e eu me perguntava como alguém que tinha essa doença podia cantar e dançar. No Meeting Point você é acolhido com músicas e canções de diferentes povos - africanos, europeus, indianos -; ouvi até algumas de minha própria tribo. Depois de um longo tempo, comecei a ver uma luz brilhar sobre meu ser em pedaços, então comecei a encontrar-me com aquelas mulheres.

Uma coisa importante, que nunca esqueci, foi o dia em que alguém me olhou com um olhar que tinha em si raios da esperança e do amor. Durante todo esse tempo eu fiquei na cama e todos os meus amigos, os parentes e até os vizinhos olhavam para mim e para meus filhos com repulsa e desprezo. Com este olhar de amor e esperança que me lançaram foi-me mostrado algo que trouxe vida ao meu espírito e corpo em pedaços. Eu disse a mim mesma: ‘Vicky! Você tem valor e o seu valor é maior do que o peso da sua doença e do que a morte’.Em 2002, comecei a comprar remédios para meu filho, que estava para morrer, depois de tê-lo tirado da escola por causa da discriminação com a qual era tratado: tinham-no apelidado de ‘esqueleto’. Em 2003, também comecei a comprar remédios para mim. Eu pesava, então, 45 quilos, agora peso 75. Brian, agora, está realmente saudável e voltou para a escola. O meu filho maior está na universidade, o segundo, no colegial. Onde está o poder da morte? Está na perda da esperança e na falta de amor. Agora, trabalho como voluntária no Meeting Point, e todas as vezes que acolho as pessoas digo a elas que o valor da vida é maior do que aquele vírus que carregam dentro de si. Essa afirmação nutre a esperança de uma pessoa que sofre e está para morrer e a traz de volta à vida. Todos os meus resultados só foram possíveis porque fui revestida de algo além da morte e, em particular, de amor. Obrigada a todas as pessoas que nos educaram embora nunca as tenhamos visto. Mas hoje, em nome de Giussani, Carrón veio entre nós, que éramos pobres e esquecidos: quem é mais rico do que nós, agora? Somos os mais ricos do mundo porque alguém colocou pelo menos um sorriso no rosto de uma pessoa.

Cartas do P.e Aldo 07

Asunción, 09 de fevereiro de 2009.

Caros amigos,
Hoje, pela manhã:
Olhando os meus amigos que estão engarrafando a nova água mineral “San Rafael”, me lembrei de Giussani que, diante de cada iniciativa, exclamava: “que belo!”. O contrário do que nós dizemos: “mas... conseguirei? Vale a pena?...”. Ele reaia sempre com maravilha, com comoção. E somente num segundo momento, nos olhando em ação, corrigia. Por isso, fascinava imediatamente.

18h:
Estou aqui, em adoração, ao lado do pequeno Victor, que, hoje, não bastasse tudo aquilo que já tem, está atormentado por uma pneumonia. Não pode tossir, disseram-me os médicos, e isso é um problema para o catarro, mas os médicos, com o coração de carne e a razão humildemente dobrada diante do Mistério, o estão ajudando bem. Ele gem. Olho para ele: é quase pior do que Jesus na cruz, porque pelo menos Jesus estava inteiro, mas Victor... E resiste, apertando sempre os pequenos punhos.
Outro dia, celebrava a Missa no seu quarto. A primeira leitura dizia: “Deus castiga o seus filhos prediletos”, “corrige aqueles que ama” (carta aos Hebreus). Eu olhava para o meu Victor. Era difícil entender aquele versículo... mas, em seguida, eu vi o crucifixo e o meu coração, o meu rosto, se iluminaram. Victor, Eluana, Celeste, Cristina, Aldo, são os prediletos de Deus e, por isso, os associou, os tornou participantes da condição de Seu Filho na cruz. Que privilégio, meus amigos! Celebrei a Missa com uma comoção única: Eucaristia e Victor, Cristina, Aldo eram a mesma coisa e eu, o padre que oferecia no altar esta única hóstia branca, em remissão pelos nossos pecados.
Por isso, aqui, na clínica, se vive, se caminha, se trabalha com o coração e a mente de joelhos.
Por isso, quem passar por aqui sai mudado, se tem o coração simples dos meus médicos, enfermeiros e pessoal da limpeza. A razão é humilde quando vive de joelhos diante do Mistério.
O Mistério nos surpreende através da realidade. O imprevisto é, acredito, uma das mais belas e fascinantes características do Mistério.
N. N. foi encontrada nua, na estrada, há 400 km daqui. Um rápido teste médico: AIDS. Levada comigo, em como, para Asunción, foi deixada, durante a noite, diante da porta do hospital de medicina tropical. Colocaram-lhe uma fralda. Quando os médicos se deram conta disso, a internaram. Deve ter 19 anos de idade, e eu a chamo Patrícia. Está também morta de fome. Come os papelões que encontra. É abandonada. Trouxeram-na para cá. Coloco-me de joelhos diante dela e a beijo com ternura. As lágrimas molham o meu rosto. Cristina, a santa doutora infectóloga do meu hospital, formada em Cuba, mas com uma fé grande e bonita como o sol, me conta, em detalhes, a situação de Patrícia. Fico com o coração partido. A única coisa que consigo fazer é adorar a sua pessoa, aquele corpo desfigurado, abusado, violentado... e mesmo assim templo do Espírito Santo. Olho para ela coberta pelo lençol branco. É muito bela e perfumada... beijo-a. É exatamente igual a Jesus, é a Madalena que me veio encontrar.
Assim, depois que celebramos a crisma de Jéssica – agora, Rubens – que reencontrou a sua identidade masculina, fizemos festa também para Patrícia. Que belos são estes meus filhinhos! Todos, há um tempo, transsexuais ou travestis e, hoje, aqui comigo, seu padrinho, fazendo festa. Mas que grande cenário é esta clínica, onde, a cada minuto, se vive a parábola do Filho Pródigo, onde, a cada domingo, fazemos festa porque um filho voltou para o pai. Agora, mesmo Patrícia, de quem não sabemos nada sobre suas origens – nada de nada do seu passado –, faz parte desta história de salvação.
Amigos, o homem é um mistério, assim como é quando o encontre... e eu vivo apenas para adorá-lo.
Rezem por Patrícia e por André, o rapaz de apenas 22 anos, todo deformado e que pesa 18 kg, que está, nesse momento, em estado muito grave. Estamos acompanhando seu retorno para casa, lá onde está Jesus, esperando a todos nós. É mesmo belo viver com esta certeza!
Hoje, nós rezamos – nós, os pacientes terminais – por Eluana, para que possa viver.
Com afeto
P.e Aldo e amigos

sexta-feira, 27 de março de 2009

Cartas do P.e Aldo 06

Asunción, 10 de fevereiro de 2009.

Caros amigos,
Matamos Eluana e, agora, neste exato momento, morreu o pequeno André. Tinha 22 anos, pesava 18kg. Santo Hermano, o Coxo (o monge cirteciense Hermann der Lahme, nascido em 1013, na cidade de Altshausen, e falecido no ano de 1054, no mosteiro alemão de Reichenau, foi o compositor do Salve Regina; ndt), era saudável e “perfeito” se comparado com o meu filho. Além do mais, vivia como em estado vegetativo, se alimentando através de uma sonda. Morreu quando matamos Eluana.
Estou aqui, ao lado do seu cadáver. Será um problema colocá-lo em um caixão por causa do seu corpo todo deformado. Eu olho para ele... mas, hoje, os meus olhos e o meu coração estão sendo duramente provados, como o são todos os dias, quando vejo morrer todos os meus filhos que chegam aqui. Mais de 600 em quatro anos e meio. Só quem já perdeu um filho pode me entender. Ou melhor, só quem perdeu um filho, tendo o coração apaixonado por Cristo. É uma dor como a de Nossa Senhora aos pés da cruz, mas cheio de paz. Sinto o coração dobrado até mesmo fisicamente e, ao mesmo tempo, vejo as portas do Paraíso abertas. André morreu cercado por nós, que estávamos de joelhos ao seu lado, celebrando a Missa. A sua longa e dolorosa agonia... Os seus gemidos me sufocavam as palavras na garganta, durante a Missa. Ver, pela seiscentésima vez, um filho morrer... É sempre uma dor nova e profunda. É sempre reviver o Mistério da morte e da ressurreição de Cristo.
Muitos me perguntam: “mas, como você consegue resistir?”. O que responderia um pai apaixonado por Cristo? Eis aí o coração de tudo... É vivendo a realidade, a dor da realidade, a partir de um abraço como aquele de Giussani por mim, que transformamos a dor em uma porta que introduz mais à realidade, de forma a descobrir a beleza do Mistério que, mediante a morte, nos leva consigo para poder vê-Lo “face a face”.
O corpinho frio de André está aqui, ao meu lado. Caberia dentro de um saquinho. Mas, ele, André, é o meu Jesus nos braços de Nossa Senhora, aos pés da cruz. Que belo é este seu corpo, que tanto adorei na companhia dos meus amigos médicos e de todo o pessoal. Como gostaria que Eluana, neste momento, nos dissesse: “tenham a coragem de olhar na cara a realidade... retomem o 'Capítulo X' d’O Senso Religioso... é o único caminho para que não continuemos matando a realidade, o coração de cada pessoa”. Os meus filhos que morrem, as minhas crianças completamente mudas pela doença, todos com a sonda para se alimentar... são todas pequenas Eluanas... e me remetem ao Mistério feito carne neles. Eles são Jesus na cruz.
Mas, vocês entendem o que quer dizer, para mim, e por que escrevo para vocês desta maneira?... dessa maneira que pode cansar a quem não é uma pai, a quem nunca perdeu um filho... a quem é burguês. É possível estar diante da morte de Eluana da mesma maneira como estamos, normalmente, diante da realidade: distraídos.
A Virgindade é uma plenitude de paternidade e de maternidade, com uma ferida que se fechará apenas quando me encontrar definitivamente com Cristo. A Virgindade exige as feridas do coração e somente assim se torna a forma mais alta de dor, de amor e de alegria, de paternidade. Que Eluana nos perdoe o pouco amor à realidade, o pouco sentido do Mistério que vivemos... e que André nos conceda a graça de morrer como ele: na companhia de Jesus, Maria e José. A companhia de quem nos quer bem.
Confio sua alma às orações de vocês. Amanhã, o levarei comigo para o cemitério. Vem-me à mente aquela mulher de “Os Noivos” (romance de Alessandro Manzoni; ndt), que saia de casa com o pequeno corpo de seu filho morto pela peste, nos braços... É como o meu André, pequeno como ele, enterrado entre os meus outros filhos mortos, na companhia desse pobre pecador e dos meus amigos. Gostaria tanto que fosse sempre a maravilha a nos mover, porque só assim descobriremos que a realidade é Providencial... única possibilidade de entender como Eluana e André podem se tornar caminho para o reconhecimento do Mistério.
Termino esta carta e já é manhã. Dormi pouco e nem mesmo o sonífero serviu para me fazer dormir. Ou melhor, serviu para que a primeira coisa que eu fizesse esta manhã tenha sido confessar-me... porque, sendo o corpo místico de Cristo, todos somos responsáveis pelo que aconteceu a Eluana. “Deem-me quatro pessoas apaixonadas por Cristo e colocarei fogo na Itália”, dizia Santa Catarina de Sena. Deus queira que estejamos entre estes quatro.
Com afeto
P.e Aldo

Cartas do P.e Aldo 05

Asunción, 13 de fevereiro de 2009.

Caros amigos,
gostaria de lhes mandar alguns dos 3500 emails que me chegaram desde o dia 28 de agosto do ano passado até hoje. Quanto dor, quantos dramas de todos os tipos. Eis: este é o homem, este sou eu. Um pedido de ajuda, de um carinho, de alguém que se coloque em adoração diante da grandeza do eu. Cada dia o meu coração sofre e arde de desejo de abraçar, consolar este “eu” cósmico, eu de dor. E é nesta perspectiva que a minha clínica bela. É exatamente bela porque aqui se “adora” ao homem, aqui o homem aparece em toda a sua grandeza. Por isso, ontem de noite, eu dizia aoVice-Presidente da República (Federico Franco Gómez; ndt) e ao Ministro da Educação (Dr. Horacio Galeano Perrone; ndt), que vieram jantar em alegre companhia:
1. esta clínica é obra exclusiva da Providência, que me dá o necessário a cada dia;
2. aqui, ou se vive com esta consciência, ou é melhor que se vá embora, sobretudo quando a pessoa não deseja entender que a “realidade é providencial”;
3. não me interessam os colaboradores. Eu tenho necessidade é de amigos, como o Senhor Vice-Presidente, por exemplo. Não tenho necessidade e não quero saber de nada de organizativo, porque a Providência não precisa ser organizada, mas tão somente tem necessidade de pessoas apaixonadas pela realidade, porque é desta paixão que nasce um relacionamento, uma amizade;
4. esta clínica é propriedade da Providência, que criou e cria, a cada instante, este povo. E este povo é feito de pessoas profissionalmente capazes e particularmente apaixonadas por Cristo. Apaixonadas no sentido de que pulam da cadeira quando são lembradas do fato de que “eu sou Tu que me fazes”. Para estas pessoas, não existe o nominalismo, as palavras comovem como cada coisa que acontece;
5. à pergunta “mas, da Itália, o que vocês recebem? Como são os relacionamentos de vocês?”, eu respondi: “da Itália, quero apenas amigos, quero apenas pessoas que, seguindo a Carrón e àquilo que eu encontrei e que mudou a minha vida, sejam convertidas também. Eu não tenho relacionamentos econômicos e, por isto, não me falta dinheiro. Os relacionamento são apenas relacionamentos humanos. Não existem relacionamentos econômicos, porque o eu é relação com o Mistério". Por isto, obedeço apenas a estes relacionamentos, obedeço à realidade que, juro, nunca me deixou tranquilo, acomodado... pelo contrário, é um tormento, é um espinho cravado na minha carne que me faz gritar, pedir, mendigar. A mesma amizade que tenho com o senhor é a que nos leva, única coisa no mundo, a nos encontrarmos todas as segundas-feiras, às 6h da manhã, para rezar juntos as Laudes e tomar juntos o café da manhã – eu e meus amados e belos companheiros, Paolino e Daf: é a amizade que nasce da consciência do eu como Mistério. Senhor Vice-Presidente, eu me interesso pelo senhor como “eu sou Tu que me fazes”.

Amigos, vocês entendem por que aqui tudo é sacramental? Vocês leram o testemunho da Anna, a sobrinha da Giovanna? Por isso, me comovo com Quinto que, há anos, vibra comigo por cada coisa que acontece. E é por isso que Quinto se tornou, para todo o hospital, a voz da amizade de P.e Aldo na Itália. E sublinho ainda: é exatamente assim. Como eu gostaria que todos tivessem visto o que aconteceu na última quarta-feira, quando os meus médicos realizaram, por audioconferência, um encontro para entender o que quer dizer amizade, Escola de Comunidade, levar a sério a Carrón, olhar para aquilo que ele indica... E me comove ainda mais ver como Quinto me sustenta, me conforta em tudo, ver como se ocupa da minha pessoa. Este tipo de relacionamento nos interessa. Outro, absolutamente não. A gente deve obedecer é a uma amizade, a um homem que, como Giussani, dizia: “mas, que belo” e, depois, corrigia. Porque a primeira correção é a maravilha, o fascínio por cada coisa que acontece.
Amigos, nesta idade, sobre estas coisas, eu não relaxo... pelo contrário, me convenço sempre mais: estamos juntos por causa da febre do próprio eu. Estamos juntos para dizer “Tu, oh meu Cristo”. O tempo começou a se fazer breve para mim e eu tenho apenas a pressa de que Cristo seja conhecido e amado. O resto é lixo. Anos e anos de dor e os últimos quatro anos e meio, 24 horas por dia como os moribundos, me fizeram enlouquecer por Cristo, pela realidade. E acredito que seja esta atividade que fascina, que atrai. A metade dos meus responsáveis, dinâmicos, precisos, profissionalmente preparados, tomam psicofármacos, como este pobre homem (que escreve; ndt), fiquei sabendo esta manhã, durante o conselho de administração que, para nós, é Escola de Comunidade. Entendem? Metade tem problemas de depressão, porém não é esta doença que nos define, mas a certeza de Cristo ressuscitado. Estas coisas serão contadas por mim, aos meus amigos, na Assembleia de Responsáveis da América Latina (que teve lugar em Atibaia, nos dias 13, 14 e 15 do mês de fevereiro de 2009, reunindo 300 responsáveis de CL, vindos de toda a América Latina; ndt) e, depois, tendo tido a graça única e imerecida de passar alguns dias de repouso com Carrón e outros amigos, poderei verificar tudo, ponto por ponto, porque quero que o meu eu arda por Cristo e que o meu povo seja sempre mais o protagonista, com tantos que ardem com o mesmo desejo, com aquilo que, aqui, a Providência cria, usando as mãos desta povo. Esta amizade que peço, suplico a Nossa Senhora que aconteça (e que aconteça é uma graça pedida... e eu suplico para mim e para vocês) sempre mais entre nós. Juntos, não para fazer; mas para que o eu não morra, para que o eu vibre, cresça, porque só um eu comovido gera, cria e sustenta uma obra.
Ciao e até a próxima.
P.e Aldo

P.S.: Caros amigos, responderei a seus emails, quando voltar para a Asunción, no dia 22 de fevereiro. Estarei no Brasil, acompanhando o Carrón.

quinta-feira, 26 de março de 2009

Outro ainda sobre AIDS...

O verdadeiro método para vencer a AIDS é fazer com que as pessoas se sintam amadas
Artigo publicado no jornal eletrônico Ilsussidiario.net
Entrevista com Rose Busingye

Discutir o problema da Aids a partir da redação dos jornais e dos escritórios políticos das diversas instituições européias é uma coisa; discuti-lo tendo diante dos olhos a situação de dezenas de mulheres soropositivas, e de seus filhos que foram contagiados, é toda uma outra coisa. Rose Busingye dirige o Meeting Point de Kampala, um lugar de renascimento para 4 mil pessoas, entre doentes e órfãos, que de outro modo estariam condenados a viver no silêncio e no abandono o destino dos marcados pelo HIV. Neste local de intensa humanidade, as polêmicas sobre o uso do preservativo para abater o flagelo da Aids chegam como um eco de longe.


Rose, que efeito tem em você ouvir tantas vozes polêmicas em torno de um problema com o qual a senhora luta todos os dias?
Quem alimenta a polêmica em torno das declarações do Papa deve, na realidade, entender que o verdadeiro problema da difusão da Aids não é o preservativo; falar nisso significa parar nas consequências e não ir nunca à origem do problema. Na raiz da difusão do HIV está um comportamento, está um modo de ser. E, além disso, não nos esqueçamos de que a grande emergência é conseguir formas de cura para as tantas pessoas que já contraíram a doença, e para aquelas o preservativo não serve.

Porém, continua o fato de que, de qualquer modo, se pode fazer qualquer coisa para evitar que o contágio se difunda ulteriormente: neste caso, a prevenção não é um instrumento útil?
Retomo um exemplo, para fazer entender como, verdadeiramente, por vezes não nos damos conta da situação na qual vivemos na África. Há algum tempo atrás, vieram alguns jornalistas para fazer uma reportagem sobre a atividade do Meeting Point: viram a condição das mulheres soropositivas que estão aqui e se comoveram. Decidiram então fazer-se úteis, fazendo um pequeno gesto para elas: presentearam-nas com algumas caixas de preservativos. Vendo isto, uma das nossas mulheres, Jovine, os olhou e disse: “Meu marido está morrendo e tenho seis filhos que, em pouco tempo, serão órfãos: de que me servem estas caixas que vocês me dão?”. A emergência daquela mulher e de tantíssimas outras como ela, é ter alguém que a olhe e diga: “mulher, não chore!”. É absurdo pensar em responder à sua necessidade com uma caixa de preservativos, e o absurdo está em não ver que o homem é amor, é afetividade.

E quanto às pessoas que possam ter relações com outras e difundir o contágio?
Também aí vale o mesmo discurso: é necessário, antes de tudo, olhar a humanidade deles. Uma vez, estávamos falando aos nossos meninos da importância de proteger os outros, de evitar o contágio; um deles se pôs a rir, dizendo: “mas que me importa quem são os outros? Quem são as mulheres com quem saio?”. E um outro dizia: “também eu fui infectado, e agora?”. A AIDS é um problema como todos os problemas da vida, que não se pode reduzir a um particular. É necessário, antes de tudo, partir do fato de que é preciso ser educado também no viver a sexualidade. Mas a educação remete à descoberta de si mesmo: a pessoa que é consciente de si, sabe que tem um valor que é maior que tudo. Sem a descoberta deste valor – de si e dos outros – não há nada que tenha. Também o preservativo, ao final, pode ser bem utilizado apenas por uma pessoa que tenha descoberto qual o valor do humano, se ama verdadeiramente e se é amada. Pensa-se talvez que onde o preservativo é distribuído não prossegue o contágio da AIDS? Enfim, em certos casos o discurso do preservativo, nas condições nas quais nos encontramos, pode parecer até ridículo.

Em que sentido?
Há poucos dias, por exemplo, mostramos a nossas mulheres o que é o preservativo, explicando inclusive as instruções de uso: antes de usá-lo deve-se lavar as mãos, não deve haver pó, deve ser conservado a uma certa temperatura. Foram eles mesmo que me interromperam: lavar as mãos, quando para ter um pouco de água devemos andar vinte quilômetros a pé? E depois tem o problema do pó: até mesmo um grão qualquer pode ser perigoso e arriscar o rompimento do preservativo. Mas, essas mulheres quebram pedras da manhã à noite, e têm a pele das mãos secas, rachadas e duras como a rocha! Por isso, digo que se fala sem conhecer minimamente o problema e as condições na qual nos encontramos.

À luz desta difusa ignorância em relação aos problemas reais das pessoas que vivem na África, que efeito têm as polêmicas contra o Papa?
O Papa não faz outra coisa que defender e sustentar justamente aquilo que serve para ajudar esta gente: afirmar o significado da vida e a dignidade do ser humano. Aqueles que o atacam têm interesses a defender, enquanto que o Papa não os tem: nos quer bem e quer o bem da África. Não é dele que vêm as minas que lançam para os ares nossos meninos, nossas crianças que viram soldados, que se encontram amputados, sem orelha, sem boca, incapazes de deglutir a saliva: e a eles o que damos, os preservativos?

De fato, a AIDS não é o único problema que atinge a África.
Existem muitíssimos outros problemas e situações trágicas sobre as quais há total indiferença. Quando, há alguns anos, ocorreu o genocídio em Ruanda, todos estavam observando. Aqui perto existe um país pequeniníssimo, que podia ser protegido e nada foi feito: lá estavam os meus parentes e morreram todos de modo desumano. Ninguém se moveu e agora vêm aqui com os preservativos. Mas, também no nível das doenças, vale o mesmo discurso: por que não nos trazem as aspirinas ou os remédios contra malária? A malária é uma doença que aqui vitima mais pessoas que a Aids.

Qual a situação de agora, na Uganda, em relação à difusão da AIDS?
Em Uganda se estão fazendo grandes progressos e o nosso presidente está trabalhando muito bem e obtendo ótimos resultados. O seu método não é apostar na difusão dos preservativos, mas na educação: instituiu um ministério para isso e colocou pessoas nas vilas de analfabetos para educá-las a uma mudança de vida. A esposa do presidente esteve aqui conosco há pouco tempo e disse com força que o verdadeiro ponto que pode fazer mudar a situação é parar de viver como os cães e os gatos, que devem sempre satisfazer a seus instintos; e falou do fato que o homem é dotado de razão, que o faz responsável por aquilo que realiza. Se o homem continua ligado ao instinto como um animal, dar a ele um preservativo não serve a nada. Mudar as condutas. Este é o método que está dando resultados e teve como consequência o fato de que a difusão da AIDS em Uganda baixou de 18% a 3% da população. O método funciona e o coração do método é fazer de um modo tal que as pessoas se sintam queridas. O vemos aqui, no Meeting Point: quando as pessoas chegam aqui não querem mais ir embora.

Ainda sobre a AIDS...

O sério debate sobre a AIDS que não é feito
Traduzido do jornal eletrônico PAGINASDIGITAL.es
Por John Waters
John Waters é um jornalista e escritor irlandês. Colunista no Irish Times, é autor de vários livros, dedicados principalmente a temas de política, arte e cultura.

As palavras do Papa sobre o combate à AIDS na África muitas vezes parecem estranhas ao mundo ocidental. Um jornalista que viu de perto a realidade africana mostra que, pelo contrário, a postura da Igreja é a mais realista diante dos fatos. E mostra um exemplo claro de sucesso na luta contra a doença, obtido em Uganda.

Durante os últimos anos, quando alguém viajava pela Uganda, era muito difícil não prestar atenção, nas estradas, à publicidade paga pelo Governo. Em um dos anúncios, se via um homem sorridente, com cerca de 60 anos, e a frase: "Diga não aos amantes velhos e ricos". Em outro cartaz havia a imagem de um homem um pouco mais jovem com a seguinte pergunta: "Quer que este homem vá para a cama com sua filha? Então, porque você se deita com a dele?". Esses cartazes, que foram desenhados para criar uma barreira sexual entre as gerações, são parte de uma grande e bem-sucedida campanha contra a AIDS em Uganda.
Em 1980, Uganda era o epicentro da catástrofe da AIDS na África, mas foi capaz de mudar a tendência de propagação da enfermidade, centrando-se em uma mudança cultural: abstinência, fidelidade e educação sobre o uso de preservativos. Contudo, na Europa e na América, cada vez que se menciona a AIDS na África, se parte da premissa de que os preservativos são a única solução.
O Papa ainda não havia saído do avião em Camarões e os meios de comunicação ocidentais já haviam começado a lançar sua propaganda facciosa, dizendo que o Papa havia dito que o problema da AIDS não se pode resolver com os preservativos, “que na verdade agravam a questão”.
Como de costume, se afirma que a luta contra a AIDS na África é só uma questão de uso dos preservativos e que a Igreja Católica trata o problema com um perigoso obscurantismo. Todos os representantes dos governos europeus tem defendido que o uso dos preservativos é o elemento vital na luta contra a AIDS e que “inclusive” alguns sacerdotes e freiras comprometidos com a luta contra a AIDS pensam que o Papa está equivocado.
Para cada pessoa que pensa assim, existem centenas de sacerdotes, freiras e outras pessoas comprometidas contra a AIDS para as quais a obsessão ocidental por “camisinhas” está fora de lugar. O que funciona é mudar o comportamento sexual e a Igreja Católica há muito tempo está na vanguarda no que diz respeito à promoção dessas iniciativas.
A propagação da AIDS na África se produziu principalmente por motoristas de caminhões que freqüentavam prostitutas à margem das estradas que cruzam o continente. O Papa se opõe não só aos preservativos, mas também à prostituição e ao sexo fora do casamento. Argumenta-se que, se o Papa assim o dissesse, quem propaga a AIDS por ter um comportamento promiscuo usaria a “camisinha”. Bento XVI não é um legislador nem um político. Só tem o poder de proclamar a verdade tal como a recebeu, deixando a cadsa um a liberdade de decidir por si mesmo.
Quer o Ocidente liberal goste ou não goste, há muitas provas que mostram que na África a ênfase na continência sexual e na monogamia pode vencer a AIDS. Uganda decidiu há muitos anos que o problema era cultural e o Governo pôs em marcha a estratégia ABC (Abstinence, Being Faithful and Condom Use - Abstinência, Fidelidade e Uso de preservativos), na qual o uso dos preservativos não é a parte decisiva. Sobretudo porque o presidente Yoweri Museveni pensava que a “camisinha” representava uma falsa esperança sem que mudassem os hábitos sexuais.
Seguindo as recomendações ocidentais, o Ministério da Saúde começou a distribuir cerca de 80 milhões de preservativos gratuitos por ano. A quantidade agora diminuiu muito, em grande parte porque foram encontrados preservativos defeituosos. Mas durante os últimos 25 anos a participação em programas educativos contribuiu para um declínio espetacular no número de pessoas que contraem o HIV e a AIDS. A fidelidade conjugal foi a principal mensagem nas primeiras campanhas de prevenção. A primeira-dama, Janet Museveni, foi uma firme defensora da abstinência.
Nos últimos anos houve uma ligeira redução na eficiência nas campanhas de combate à AIDS em Uganda. Os críticos imediatamente acusaram às políticas que fomentam a abstinência. Mas as coisas podem não ser tão simples assim. Apesar de que a propaganda ocidental tende negá-lo, há provas de que a disponibilidade de preservativos pode ter diluído a mensagem original, provocando um retorno a velhos hábitos.
Em teoria, os programas de continência sexual e as estratégias de sexo seguro podem ser complementares entre si. Na prática, os dois enfoques são incompatíveis. Quando se promove o uso de preservativos, se aceita que a abstinência não é uma opção convincente. Quando se afirma como faz a Igreja Católica, que a promiscuidade sexual favorece à AIDS, é absurdo recomendar medidas que implicitamente relativizam essa posição. Essa é uma questão complexa, que não pode ser reduzida a uma simples questão de preservativos. O que o mundo necessita é de um profundo e sincero debate, e não de uma fanática propaganda liberal disfarçada de reportagem.

O Papa e a AIDS


Alguns amigos de Nanterre, na França, preparam um panfleto se contrapondo à posição da mídia francesa (e, por que não?, mundial) contra as declarações do Papa Bento XVI, na viagem apostólica que fez, recentemente, à África. Traduzi o panfleto, que é realmente muito interessante, e achei que valeria a pena postá-lo aqui.


URGÊNCIA

Papa – AIDS
O que o Papa disse, de fato

Por Guillaume de Prémare

O Papa e a AIDS – Pequeno exercício prático
Simples fiéis católicos, tomamos a iniciativa de agir, na urgência, para gritar uma palavra de razão no meio da tormenta irracional criada pela mídia.
Já que foi dito que as palavras do Papa são incompreensíveis, eis aqui um exercício pedagógico e não polêmico que pode permitir uma melhor compreensão.

Etapa 1: leia esta frase
O que lemos na mídia
“(...) não se pode superar [este problema] com a distribuição de preservativos: ao contrário, aumentam o problema.”

Etapa 2: leia este texto
O que o Papa disse
“Eu diria o contrário: penso que a realidade mais eficiente, mais presente em primeira linha na luta contra a AIDS é precisamente a Igreja católica, com os seus movimentos, com as suas diversas realidades. Penso na Comunidade de Santo Egídio que faz tanto, de modo visível e invisível também, na luta contra a AIDS, nos Camilianos, em muitas outras realidades, em todas as Irmãs que estão à disposição dos doentes... Diria que não se pode superar este problema da AIDS só com dinheiro, mesmo se necessário; mas, se não há a alma, se os africanos não ajudam (assumindo a responsabilidade pessoal), não se pode superá-lo com a distribuição de preservativos: ao contrário, aumentam o problema. A solução pode vir apenas da conjugação de dois fatores: o primeiro, uma humanização da sexualidade, isto é, uma renovação espiritual e humana que inclua um novo modo de comportar-se um com o outro; o segundo, uma verdadeira amizade também e sobretudo pelas pessoas que sofrem, a disponibilidade à custa até de sacrifícios, de renúncias pessoais, para estar ao lado dos doentes. E estes são os fatores que ajudam e proporcionam progressos visíveis. Diria, pois, que esta nossa dupla força de renovar o homem interiormente, de dar força espiritual e humana para um comportamento justo em relação ao próprio corpo e ao do outro, e esta capacidade de sofrer com os doentes, de permanecer presente nas situações de prova: parece-me que esta é a resposta justa, e a Igreja faz isto e deste modo presta uma grandíssima e importante contribuição. Agradecemos a todos aqueles que o fazem.” (Palavras do Santo Papa Bento XVI, em entrevista com jornalistas, durante a viagem aérea para a África)

Etapa 3: responda a duas perguntas
- Você entende a fala do Papa exatamente da mesma maneira depois da Etapa 1 e depois da Etapa 2?
- O que acontece quando se isola um pedaço de uma frase da proposta global?

Etapa 4: pergunta final
Sabendo que:
- A Igreja católica conhece de perto a realidade da AIDS (25% das iniciativas que se ocupam de portadores do vírus HVI são católicas).
- O Papa é um homem de alto nível intelectual e espiritual, que conhece muito bem a massa humana e a questão da AIDS.
Responda à seguinte questão:
Finalmente, a proposta do Papa merece ou não um mínimo de nossa consideração e de nossa reflexão?

O Papa e a Igreja não estão sozinhos
Os africanos se exprimem

Blaise Compaoré
Presidente do Burkina Faso
Presidente do Comitê Internacional de luta contra a AIDS


A Igreja não está sozinha
“A Igreja não tem o monopólio da abstinência! Enquanto chefe de Estado, eu me engajei pessoalmente neste sentido, desde 2002, no quadro da campanha “É a minha vida”. O objetivo era colocar as pessoas diante de suas responsabilidades. Entre as propostas da campanha algumas chamavam as pessoas exatamente à abstinência.”

A posição da Igreja é reconhecida na África
“Os franceses amam a polêmica: é o seu aspecto gaulês! Alguns criticam a posição da Igreja quando pretende defender os africanos. Que seja! Mas a maior parte deles nunca pôs os pés na África! Eu os aconselho a vir passar uns dias no Burkina. Entre nós, o imam, o padre e o chefe trabalham juntos: todos têm a ambição de afrontar o mesmo mal. Focalizar-se sobre o preservativo é passar ao largo do problema da AIDS.”

A ação da Igreja é reconhecida na África
“Muitas pessoas ignoram o trabalho da Igreja na África. Na França, a intelligentsia não entende esta proximidade com os responsáveis católicos. Entre nós, a Igreja é, antes de tudo, sinônimo de escolas... O debate sobre a AIDS não é teórico, é prático. A Igreja traz a sua contribuição. Se a abstinência é um meio de prevenção, nós não vamos nos privar dela!”

Resistir às organizações internacionais
“Diante das organizações internacionais, é preciso saber resistir. Podemos nos aconselhar com elas, mas não deixar de fazer a nossa parte. (...) Os europeus não experimentam o perigo da AIDS da mesma maneira que nós. Para os burquinenses, o perigo é imediato. A pandemia é uma realidade visível, ela atinge nossas famílias, nossos amigos mais próximos. Na Europa, vocês têm, talvez, o lazer de fazer teses pró e contra a moral. No Burkina, não temos tempo para isso.”

Dom Théodore-Adrien Sarr
Arcebispo de Dakar

A Igreja contribui para a prevenção da AIDS
“Eu peço aos ocidentais que não imponham sua única maneira de ver. Em países como os nossos, a abstinência e a fidelidade são valores ainda vividos. Com sua promoção, contribuímos para a prevenção da AIDS.”

Dom Slaterry
Bispo na África do Sul

Encorajar a fidelidade no casamento
“A Uganda foi o primeiro país a combater de forma eficaz a epidemia de AIDS, no início dos anos 90. A posição forte e clara do presidente Museveni constituiu-se em elemento decisivo para diminuir a velocidade de difusão da AIDS, baixando a taxa de pessoas afetadas de mais de 25% para 6%, em 2002. Ele insistia sobre o bom senso e não sobre o preservativo, encorajando a abstinência antes do casamento e a fidelidade no casamento, como valores culturais.”

quarta-feira, 25 de março de 2009

Cartaz de Páscoa - 2009

Segue, só para dar um gostinho, a imagem do cartaz de Páscoa deste ano. Depois, postarei a versão em português.

A menina de Alagoinha e nós...

Reproduzo o panfleto com o juízo do Movimento Comunhão e Libertação, divulgado nos mais diversos meios de informação, por ocasião do escândalo criado pela imprensa envolvendo a "menina de Alagoinha". Aproveito para indicar também a leitura do debate entre a Prof.a D.ra Débora Diniz (UnB) e do sociólogo Francisco Borba Ribeiro Neto (Núcleo Fé e Cultura, PUC-SP), publicado no Caderno Aliás do "Estado de São Paulo", do dia 15 de março de 2009 (páginas J4 e J5). Sugiro também a leitura do artigo comentando o episódio, escrito por D. Rino Fisichella, presidente da Pontifícia Academia para a Vida.
A menina de Alagoinha e nós...
Nem sabemos o nome “da menina de Alagoinha”..., que aos nove anos ficou grávida após ter sido abusada pelo padrasto e fez um aborto, e muitos, nesses dias, nem se preocuparam em pensar que ela é a primeira que, nestes tempos tristes, precisaria de uma carícia, da carícia do Nazareno.
A menina de Alagoinha e nós – que estamos nas fábricas, nos escritórios, nas escolas, no planalto ou escrevendo nos jornais – precisamos de uma ternura tal que nos envolva até despertar uma afeição por nós mesmos. Porque sem isso, o sentimento que prevalece é somente o cansaço: basta que as dificuldades do viver, ou melhor, o mistério por meio do qual a vida nos desafia, seja um pouquinho maior do que a nossa medida, e nos sentimos esmagados. E, então, nos defendemos, tornando evidente a nossa resistência, ou mesmo o nosso escândalo, diante de algo que não entendemos.
Mas diante de um fato tão dramático, essas palavras parecem inúteis. Será que a vida é um engano? Podemos dar sentido à vida quando nos encontramos diante de fatos como esse? Podemos suportar tal sofrimento? Sozinhos não conseguimos. É preciso que nos deparemos com a presença de alguém que faça a experiência de uma plenitude na vida, de modo que possamos ver e recuperar a esperança de que tudo não acaba em um vazio devastador.
Nem Cristo foi poupado da angústia diante da dor e do mal, até a morte. Mas o que fez a diferença n’Ele? Ter sido uma pessoa mais valente do que nós? Não! Tanto que no momento mais terrível de provação, Ele pediu que a cruz lhe fosse poupada. Em Cristo, foi derrotada a suspeita de que a vida, em última instância, seria um fracasso: o que venceu foi o seu vínculo com o Pai.
Bento XVI lembrou-nos que “a verdadeira resposta consiste em dar testemunho do amor que ajuda a enfrentar a dor e a agonia de modo humano. Estejamos certos disto: nenhuma lágrima, nem de quem sofre, nem de quem lhe está próximo, se perderá diante de Deus” (Angelus, 1.fev.09).
Por isso, estamos com a menina de Alagoinha, e com a Igreja, que não se cansa de nos indicar, dentro dos acontecimentos da história, que não se pode pagar o mal com o mal. Entendemos o aborto como uma segunda agressão à menina. Um gesto assim deixa marcas profundas por toda a vida, e uma menina que já havia sofrido tanto não merecia receber mais esta violência. A vida é dom de Deus, e em nome de quem o homem decide quando ela será dada ou retirada?
A presença de Cristo é o único fato que pode dar sentido à dor e à injustiça. Reconhecer a positividade que vence qualquer solidão e qualquer violência só é possível graças ao encontro com pessoas que testemunham que a vida vale mais do que a doença e a morte. Como aconteceu com Vicky, retratada no documentário vencedor de Cannes de 2008: uma mulher soropositivo da Uganda, que aceitou este olhar sobre si, redescobriu a própria dignidade e, hoje, ajuda centenas de outras pessoas em uma ONG do seu país. Esta é a vida nova como todos nós esperamos, mesmo diante do mal do mundo e nosso. Esta é a vida que a menina de Alagoinha espera agora.

Cartas do P.e Aldo 04


Asunción, 22 de fevereiro de 2009.

Caros amigos,
“não nos ardia o coração enquanto, pelo caminho, falávamos com Ele?” – perguntavam-se os dois discípulos de Emaús. Pois bem, no fim desses dias passados em companhia de Carrón – durante o encontro de responsáveis da América Latina, em São Paulo, e durante o encontro no Ginásio do Ibirapuera (no dia 15 de fevereiro de 2009, em São Paulo/SP; ndt) com 15 mil amigos guiados pelos meus queridíssimos amigos, os Zerbini –, isso é tudo o que vibra dentro de mim.
Vi outra vez vivo, palpitante, fisicamente presente, dom Giussani.
Olhando para Carrón, escutando-o, deixando-me provocar pela intensidade da sua humildade que nos conduz sempre em direção àquilo que Giussani define como “o critério objetivo, infalível para julgar tudo, o coração”, era evidente que Giussani estava ali. Que bonito! Para mim, Giussani não está morto, pelo contrário, eu diria que, no Carrón, ele está mais vivo do que antes. E é o meu coração que me diz isso, porque eu estava comovido por segui-lo. Era como naquele primeiro dia, quando encontrei Giussani na Via Martinengo (endereço da casa onde morou Luigi Giussani, fundador de Comunhão e Libertação, em Milão, na Itália; ndt), era como quando, há 20 anos atrás, ele me pediu para ficar com ele por dois meses: a mesma intensidade de olhar, uma capacidade impressionante de falar ao meu eu. De fato, nos meus 62 anos, apenas Giussani e, agora, Carrón souberam e foram capazes de falar assim ao meu coração.
Um espetáculo que, aproximando-se o aniversário da morte de Giussani, me faz gritar: Giussani está vivo, mais vivo que antes, porque agora aquelas palavras que sufocaram o meu coração, salvando-me da ideologia, têm em mim uma espessura impensável então. Naquela época, eu sentia a verdade da promessa; hoje, vejo a lenta, inexorável, progressiva realização.
Amigos, que raça de homem é este amigo e padre Carrón!
E como eu gostaria que, com a inteligência dos “pequenos”, com a simplicidade das crianças, pudéssemos nos identificar com ele, com aquilo que ele nos indica. Vi nele o João Batista: um homem que aponta para um Outro, que nos indica aqueles sinais inconfundíveis do Mistério que estão entre nós. Voltei comovido, como quando voltei dos primeiros dias do meu encontro com dom Gius, até o ponto de pedir para os meus doentes terminais, esta manhã: “amigos, de hoje em diante, ofereçamos as nossas dores e mesmo o sacrifício da nossa vida por este homem que, de fato, é a garantia, para cada um de nós, de que aquele abraço de don Gius, mediante o qual Deus mudou a minha vida, siga vivo”.
Como gostaria que todos quantos têm a graça de escutá-lo frequentemente ou de viver ao seu lado vibrassem como vibra o meu coração desde quando, há dois anos, o conheci, levando a sério a sua incansável repetição: “eu sou Tu que me fazes”, ou aquela frase do Evangelho – “mesmo os cabelos da vossa cabeça estão contados”. É exatamente desde aquele dia que desabrochou também a grande amizade com os Zerbini, uma amizade cheia de clareza, de ternura que os impulsionou a vir duas vezes visitar-nos, e que impulsionou P.e Paolino, com 4 garotinhos, a fazer 50 horas de viagem para participarem do grande gesto de domingo passado no Ginásio.
Amigos, um espetáculo de fé que, creio, somente na Idade Média era possível ver: quando um rei aderia à fé, todos aderiam, assim como eram, grandes pecadores.
De fato, revi o coração do Movimento, da liberdade. Depois de anos de cansaço, de risco de viver apenas de recordações, hoje, com 62 anos, compreendo, vejo que Giussani está vivo e está vivo na medida em que seguirmos radicalmente a Carrón, assimilando-nos com o seu modo de viver Giussani. A paternidade humana deste homem, que tem como centro o eu, a realidade, o coração humano, comove e desconcerta a todos. Como aconteceu, sexta de manhã, quando, com os Zerbini, encontrei o cardeal de São Paulo e alguns entre os mais importantes reitores de universidade da cidade.
Amigos, gostaria apenas de “festejar” com vocês a certeza de que Giussani vive e de que todos os que seguem com inteligência a Carrón tocam com a mão esta verdade: somos mais felizes, mais contentes. Enquanto que, quem vive de nostalgia, é triste.
Um abraço
P.e Aldo

P.S.: acabei de chegar; responderei aos emails mais urgentes o mais rápido possível.
* Na foto, estão P.e Carrón (em primeiro plano) e Dom Giussani.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Cartas do P.e Aldo 03


Asunción, 22 de fevereiro de 2009.

Caros amigos,
Giussani nos repetia continuamente, e Carrón nos mostra a mesma coisa na sua “carne”, que existe um critério objetivo e infalível para julgar tudo: é o coração.
E o juízo é Cristo, é a certeza de que “eu sou Tu que me fazes”. Um juízo que arrasta tudo consigo – sentimentos, estados de ânimo, depressão, doenças, mal humor, infidelidades, problemas entre marido e mulher, traições etc. Arrastar, para mim, quer dizer que todas as coisas são como uma ferida, se reconhecidas, feridas que abrem a razão e permitem que ela grite. Dentro de todas as confusões, tentem dizer “eu sou Tu que me fazes”, mas, pelo menos, com um mínimo de certeza de que seja verdadeiro, e lhes garanto que tudo, como dizia o Evangelho de hoje (sábado), se transfigura, se torna objetivo, real. Tudo se manifesta no esplendor do ser. Digo essas coisas porque muitos dos emails desta semana me gritavam a mesma coisa que gritam aqueles que não conheceram a Cristo. As coisas enumeradas acima não são coisas dos pagãos... são coisas que vocês, caros amigos, me escrevem, porque é entre nós que acontecem, porque somos como todos... porém, a nós aconteceu, acontece hoje, algo e Carrón nos indica este algo: “existe um critério objetivo e infalível para julgar tudo, o coração”.
E é partindo disso que, por exemplo, o problema afetivo ou da fidelidade matrimonial reencontra aquele respiro de infinito que nos ajuda a entender que não tem sentido viver de aventuras, e que todo relacionamento que prescide da realidade e da condição na qual a pessoa vive é aventureiro. Por isso, é belo quando escuto amigos que me dizem, como os Zerbini: “mas nós, Marcos e eu (Cleuza; ndt), estamos juntos apenas por Cristo, porque Marcos é, para mim, o sinal inconfundível de Cristo”. E isto é um juízo que chega até mesmo a modificar um estado de ânimo de fastídio em um beijo cheio de ternura.
Para mim, cada dia é assim. Ontem, quando cheguei na paróquia, depois de voltar do Brasil, tive que prestar conta com duas jovens mães mortas na clínica e, alguns instantes depois, com um outro homem que morria e, em seguida, me chega também a notícia de que me haviam confiado uma criança indígena de três meses, doente e abandonada. Eu estava cansado e estava fazendo um calor insuportável. Eu poderia dizer que todas as condições eram favoráveis para eu escapar, perder a paciência, ficar com raiva de Deus, em particular pela morte das duas jovens mães. O meu estado de ânimo era “negro”. Porém, como um raio, algo inverteu o meu ser: “eu sou Tu que me fazes”, “a realidade é providencial”, “mesmo os cabelos da minha cabeça estão todos contados”. Este juízo literalmente mudou a minha posição: a raiva se tornou adoração, o fastídio se tornou liberdade para abraçar aquelas situações com letícia. E assim é em cada instante do meu cotidiano... mas esta é a verdadeira e bela aventura de arriscar-se na realidade.
E também tem os milagres. Ontem de noite, fui ao bar com Celeste. Olhem-na na foto... e não me digam que a realidade é inimiga, que a realidade é negativa. Ela deveria estar já, há um mês, no cemitério e, naquele momento, estava no bar comigo. Uma prova a mais da grande verdade do Evangelho que conta a história da hemorroísa. Quem sabe se os médicos... entendem?! Os humildes, sim... os outros, absolutamente não.
Depois, mesmo estando cansadíssimo, ontem à noite, às 23h, fui à clínica para verificar toda a cozinha, ângulo por ângulo, e os armários dos enfermeiros, para ver se, de fato, estavam vivendo aquilo que diz São Paulo: “a realidade é o corpo de Cristo”. Aí, hoje de manhã, quando a clínica despertava para a adoração ao Santíssimo, a procissão, a leitura do Evangelho (da Transfiguração), eu chamei a atenção de todos: “o que aquela panela de ferro cheia de leite estava fazendo dentro da geladeira?... não se coloca o leite dentro da geladeira numa panela de ferro, mas num recipiente de plástico... a realidade é o corpo de Cristo”.
É um juízo que modifica até mesmo o modo de colocar as colheres para lavar, como me dizia uma enfermeira... o mesmo com o urinol ou com o prato dos doentes: “Padre, olha como estão brilhando... é verdade que mesmo os instrumentos de trabalho são o corpo de Cristo”, ela me dizia.
Com afeto
P.e Aldo

quarta-feira, 18 de março de 2009

Cartas do P.e Aldo 02

Asunción, 26 de fevereiro de 2009.
Caros amigos,
Patrícia era uma jovem prostituta de 19 anos. Foi encontrada nua, violentada, destruída em todos os sentidos e trazida para cá. AIDS galopante. Assustada como um pintinho perdido. Lavada, limpa, beijada, abraçada: se transforma, sorri, se torna ela mesma, ela como início de consciência de “eu sou Tu que me fazes”. A sua necessidade de amor é maior do que a fome que a levou a comer papelão.
Um dia, ela disse à psicóloga: “eu vivia me prostituindo porque, pelo menos, assim, alguém me tocava, me beijava, ficava perto de mim... e me dava um pouco de dinheiro”.
Escutava comovido aquelas palavras, porque mesmo eu seria como ela se, naquele 25 de março de 1989, não tivesse sido abraçado por Giussani e por P.e Alberto e P.e Paulino, por P.e Massimo e, agora, por Carrón.
Depois daquela conversa, eu a beijei, abracei, e lhe disse que a amo. Finalmente, um pobre homem... mas diferente dos que a usaram... porque este pobre homem é continuamente consciente de ser abraçado por um Outro, mas um outro concreto. Como nos dias transcorridos na experiência dos responsáveis da América Latina e dos meus amigos, os Zerbini (fundadores da Associação Educar para Vida e da Associação dos Trabalhadores Sem-Terra de São Paulo; ndt), Julian de la Morena, Paulinho e Daf, e este meu povo, também ele nascido daquele abraço de 20 anos atrás. Que comoção quando, nos dias passados, pude compartilhar alguns dias de férias com os Zerbini, que estavam preocupados até mesmo com a minha dieta (sou diabético), com dar-me um quarto individual sabendo da minha dificuldades para dormir... e, quando voltei para Asunción, recebi imediatamente um telefonema deles para saber como eu havia chegado, se eu estava bem etc.
Um abraço que se torna sempre maior, porque o homem tem necessidade apenas disso. Que dor, quando vejo que tão frequementemente nós, padres ou consagrados, nos tornamos como ferro enferrujado, com um olhar apagado.
Assim, domingo, Patrícia, depois de 15 dias entre nós, recebeu o Batismo, a Crisma e a Primeira Comunhão. Gostaria de lhes mandar as fotos, mas me parece que no Norte do mundo certas fotos causam mal-estar, quando recordam que a realidade grita “Ele existe”.
De qualquer forma, desde domingo, Patrícia é só Patrícia, sem nenhum adjetivo ou substantivo ao lado. Desde ontem, ela começou a sorrir. Amigos, Patrícia sabe de uma coisa: “eu sou Tu que me fazes”. Como padrinhos: P.e Aldo e uma idosa do meu asilo (Casa Família) que não tem mais memória, mas que é, de vez em quando, tão consciente... sobretudo, quando a abraço e lhe falo com afeto.
Amigos caros, 4 pessoas morreram nestes dias... mas a morte agora sorri, não está mais com raiva, porque se deu conta de que a vida é mais forte e de que a vida é Jesus.
Um abraço
P.e Aldo

P.S.: Bernard Scholtz (presidente da Companhia das Obras; ndt) esteve aqui. Disse: “para mim, foi suficiente ler o que está escrito na porta da clínica para compreender que aqui é o início do paraíso: ‘Favor fechar a porta com delicadeza, acompanhando-a, porque a porta é Cristo’”. De resto, São Paulo diz: “a realidade é o corpo de Cristo”.
Toda educação aqui é pensada de forma a desenvolver esta experiência que o “Educar é um Risco” (obra de Luigi Giussani; ndt) expressa de modo excepcional porque real.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Quem é o P.e Aldo Trento?


Para que vocês conheçam melhor o P.e Aldo, transcrevo, aqui, um texto que foi publicado na Revista Passos (n. 96, de agosto de 2008), que é o relato do testemunho dado por ele no Meeting de Rimini, do ano passado.

A minha obra? É do Senhor

Pároco no Paraguai, missionário há mais de 20 anos, padre Aldo Trento mostra, com sua história, o protagonismo que nasce da entrega da vida a um Outro.

por Roberto Fontolan

Poucos meses atrás, fui visitar padre Aldo Trento na paróquia de São Rafael, em Assunção. Conversamos em seu pequeno escritório, sendo continuamente interrompidos por uma procissão de pessoas que com gestos um pouco desajeitados e muito afetuosos entregam-lhe o primeiro salário que haviam recebido (um jovem), a pequena economia guardada debaixo do colchão (uma idosa), as moedinhas poupadas durante dias (crianças).
Fiquei impressionado com a vida da paróquia, com o povo, com os voluntários, com a quantidade e variedade das obras de caridade, da cultura e da missão: a escola, o café literário, a pizzaria, o Centro de Apoio à vida, o ambulatório, o sistema de assistência médica, a distribuição de comida e de roupa e, depois, a jóia rara da clínica para doentes terminais... Pergunto-lhe como faz para arrumar o dinheiro. Responde: é a Providência! Ao ouvir esse tipo de resposta, a gente costuma levantar metaforicamente os olhos para o céu e pensar: tá bom, a Providência, mas e depois, como fazer com as dívidas, com os programas, o fund raising, os bancos? Procurei apertá-lo a respeito desse tema. “Olha – me responde, um pouco impaciente – se à noite vou para a cama com o pensamento de que amanhã preciso pagar uma dívida e esse pensamento me afasta de Cristo, essa é uma verdadeira tentação, é o demônio tentando fazer acontecer a separação. Se a obra é minha, então é justo que fracasse, que termine; mas se a obra é do Senhor, continuará, irá para frente, pode ter certeza. Não é a Providência que sustenta a obra que eu faço, mas se serve de mim para agir no mundo”.
Assim, naquela salinha em Assunção concluí claramente que, enquanto muitos se agitam para realizar aquilo que desejam e, quando não o conseguem, revoltam-se contra Deus, outros estão certos de que não há nada de nosso na vida, pois tudo é d’Ele e não precisamos de nada mais.
Ele me conta que certo dia trouxeram à paróquia uma criança moribunda. Era por causa da fama da clínica “San Riccardo Pampuri”. Mas a clínica, bem cuidada e limpinha, tal como um hospital de Estocolmo, não tinha condição de atender crianças. “Por enquanto”, acrescentou Aldo, porque depois de alguns dias apresenta aos paroquianos a proposta de comprar o terreno ao lado, que “casualmente” estava à venda, para construir ali outro pavilhão, destinado ao atendimento de crianças com doença terminal. Inútil dizer que muitas etapas foram “queimadas” e que, por isso, a nova ala foi inaugurada muito antes do previsto. Nesse meio de tempo surgiu também a “Gruta de Belém”, onde são acolhidos órfãos e abandonados: atualmente são quinze, com idade entre dois meses e onze anos.
Programar sem programa, projetar sem projeto. É possível?

O cristianismo feliz
Padre Aldo, que tem o sobrenome de Trento e nasceu num povoado da província de Belluno (Itália), encontra-se no Paraguai há quase vinte anos, desde 1989. Foi nesse ano que Dom Luigi Giussani indiciou-lhe a missão no Paraguai. Como Mateus que apontou o dedo para si mesmo, como aparece no quadro de Caravaggio, Aldo respondeu: “Eu? Você tem certeza?”. Estava inseguro em relação a si próprio, intranqüilo. Sua história e sua alma estavam cheios de angústias. Aldo hesitou, apesar de esse ser um antigo ideal: “Não estou pronto”, “não sou digno”, “não sou capaz”. Dom Giussani disse ao padre que tinha certeza de que ele era a pessoa certa para a missão, porque, apesar de tudo, jamais questionara a própria vocação sacerdotal, e pediu ao padre Massimo Camisasca que acolhesse padre Aldo na Fraternidade missionária de São Carlos Borromeu.
Foi assim que, certo dia, ele se preparou para a viagem e quando estava no aeroporto de Linate, em Milão, acompanhado de Dom Giussani, este o saudou e lhe disse que ele devia inspirar-se nos jesuítas do século XVII e em suas Reduções. “Que idéia!”, pensou Aldo.
Assim, conforme o espetacular filme Missão difundiu no imaginário popular a história da extraordinária aventura jesuítica em terras paraguaias, padre Aldo, seguindo o conselho de Dom Giussani, de “reformular essa experiência”, tornou-se um estudioso do “cristianismo feliz” daqueles padres. A pequena editora paroquial (fazem isso também!) desenterra biografias de jesuítas e textos históricos, muitos em versão para crianças.
Um dia, fomos visitar as grandiosas ruínas de Santa Trinidad, que é a Redução que mais lhe agrada (e que durou pouquíssimo tempo, cerca de cinqüenta anos). Tocando as grandes pedras avermelhadas, admirando o gênio hidráulico dos construtores, examinando as decorações dos anjos músicos, Aldo falava dos grandes jesuítas, Ruiz de Montoya, Antonio Sepp. Essa história, a história daquele cristianismo, a história do Paraguai, tornara-se também a sua história.

A partir de um mal estar
Mas esta história não aconteceu de repente. Durante anos padre Aldo foi atormentado por um mal estar que não passava. Ele não conseguia ver no Paraguai nada mais do que o calor sufocante, a poeira de viagens intermináveis, em ônibus lotados; além da insônia, uma insônia sem fim. E aquele senso de esgotamento, aquele céu implacável, relatados por Graham Greene em O poder e a glória!
Padre Aldo não vivia sozinho, mas não conseguia combater a solidão interior que o atormentava. Até que algo mudou. Em 1999, o pároco de São Rafael, também ele italiano e pertencente à mesma Fraternidade São Carlos, precisou voltar para a Itália por razões de saúde. Agora, sim, Aldo estava sozinho, mas o trauma da responsabilidade nova e totalmente imprevista o arrancou daquela sensação de isolamento.
Padre Massimo Camisasca lembra: “Bernanos escreve que uma obra precisa afundar, e só então é que ela verdadeiramente nasce. E para padre Aldo foi assim. Quando não tinha mais ninguém ao seu lado, quando eu estava decidindo se fechava ou não a nossa missão no Paraguai, ele começou a olhar de um modo novo a sua vida, a sua missão e o povo que estava à sua volta”.
Olhar a vida com um olhar novo. “Aceitei com alegria a provação – escreve Aldo numa carta –, como um dom através do qual Deus me pedia tudo, tudo mesmo. Só permaneci em pé porque vivi aqueles momentos de joelhos diante d’Ele”.
Hoje, a “redução” São Rafael surge como uma original paróquia urbana, por causa desse aspecto de colcha de retalhos arquitetônico que, no fim, lhe dá harmonia: ao fundo nota-se o perfil de um castelo medieval, com seus merlões e torres de vigia; no jardim, as cabanas dolomíticas; na entrada, ornamentada por um gramado verde, o prédio da igreja.

Deus escolhe os ignorantes
Todas as manhãs correm no pátio duzentas crianças da escola maternal, enquanto, do outro lado, continuam os trabalhos de ampliação da capacidade da clínica. Estão em plena atividade o ambulatório (quinze mil pessoas assistidas por ano) e a distribuição de comida e roupa. Bem como a fazenda “Padre Pio”, onde se criam vacas e onde está o hospital para doentes de Aids, e a cooperativa financeira, que funciona por meio do sistema de microcrédito.
À noite, enchem-se as mesinhas da pizzaria, que dá emprego a oito pessoas e garante alguma receita. Se visitarem São Rafael numa segunda-feira, diante da barraca do Café Van Gogh vocês encontrarão padre Paolino Buscaroli (que estava no Chile e que a São Carlos enviou para Assunção), ocupado em preparar mais uma “segunda-feira literária”: conferências e debates que vão de Dante a Isabela, a Católica. E às terças e quartas-feiras pode-se ler o Observador, um encarte semanal do diário Ultima Hora, idéia do editor do jornal, que, embora às vezes manifeste alguma discordância, entende que na paróquia há algo de interessante para o Paraguai: as obras, claro, mas também o pensamento que a sustenta, um juízo útil e responsável oferecido a todos.
Dezenas de pessoas trabalham em São Rafael, centenas de voluntários estão envolvidos: o advogado organiza as contas, o empresário ajusta os canos d’água, a economista coordena o catecismo, a dona de casa dá assistência aos doentes... Mas tudo, diz sempre padre Aldo, nasce do verdadeiro pároco: o Senhor, adorado constantemente na capela do Santíssimo. Acreditem nele, mesmo quando pareça exagerar: “Eu não conto. Deus escolhe os cretinos e os ignorantes para fazer o que quer. Escolhe os pecadores. Ele veio ao mundo para trabalhar e o trabalho de Deus consiste em me perdoar e me abraçar”.
Conseguiu dizer isso também no dia 2 de junho na embaixada da Itália em Assunção, por ocasião da recepção organizada em sua honra, porque o presidente napolitano nomeou-o “Cavaleiro da Estrela da Solidariedade”, com a faculdade para carregar “as insígnias da Ordem”.

Cartas do P.e Aldo 01

Começo, hoje, a publicar algumas cartas do P.e Aldo Trento (sobre o qual escreverei mais tarde). Esta que publico, agora, é a tradução da que foi enviada no dia 04 de março de 2009.

Queridos amigos,
muitos me perguntam: "como você conseguiu se recuperar da depressão e como pode afirmar que a depressão é uma graça e não uma doença?".
1. a coisa é muito simples e dramática: levei a sério "O senso religioso" (obra do padre italiano Luigi Giussani, falecido em 2005, publicada em português pela editora Nova Fronteira; ndt) e, em particular as três premissas (realismo, razoabilidade e moralidade; descritas nos três primeiros capítulos da referida obra; ndt). Ali está tudo. Aprendi aquelas coisas de cor e as vivi mesmo nas vírgulas. Não tive necessidade de psiquiatras (a não ser por questões relativas aos medicamentos... mas, quando me disseram que tinha que ficar internado, abandonei-os). O constante confronto com a Escola de Comunidade (encontro catequético de Comunhão e Libertação; ndt) foi e é a minha única terapia.
2. obediência total à realidade, assim como Giussani (fundador do Movimento católico Comunhão e Libertação; ndt) e Carrón (atual responsável mundial do Movimento Comunhão e Libertação; ndt) nos explicaram: dizer pão ao pão e vinho ao vinho. Nada de sentimentalismos ou emoções... a realidade chama e ou a pessoa tem a humildade de responder ou se arruina. Se a depressão faz fugir da realidade, a pessoa deve, imediatamente, pedir que seja preso pela realidade.
3. o abraço de alguém a quem obedecer, como uma criança. Mas aqui, se a pessoa não tem a humildade da razão, nada acontecerá. Para mim, isto era e é claro, como clara é a luta para que o orgulho, que é o contrário da adesão à realidade, não vença em mim.
4. uma graça, porque tudo aquilo que me permite mendigar Cristo é uma graça. E, acredito, dada a cabeça dura que temos, que não existe nada mais eficaz do que a doença para nos fazer cair de joelhos. Certamente tem a beleza. Mas, tristemente, para nós, a beleza é só um esteticismo que não nos move, que não nos dobra. Então, bendita seja a dor.
No fundo o ponto é apenas um: ou Deus existe ou não existe. Mas, se existe tudo aquilo que nos remete a "eu sou Tu que me fazes" é uma graça. O meu hospital é, para mim, o maior milagre que tenho, porque mesmo os tumores de 1kg no rosto dos meus doentes se transformam em graça, isto é, em encontro com Cristo.
Amigos, ou estamos convencidos disto ou é melhor a anarquia. Ou Cristo ou nada
Ciao
P.e Aldo