sexta-feira, 31 de julho de 2009

Aborto: algo bem diferente de moratória


Não obstante as sérias e documentadas dúvidas sobre os perigos do remédio RU486, a AIFA (Agência Italiana de Fármacos; ndt) se prondunciou a favor de sua comercialização na Itália. Mas, a AIFA não tornou público tudo: por exemplo, o dossier sobre as vinte e nove mortes depois da ingestão de mifepristone (esteróide sintético que compõe o RU486; ndt), a troca de correspondências entre o Ministério e os técnicos da AIFA, e sobretudo as motivações dos técnicos da AIFA, que deveriam explicar para a opinião pública porque sustentam que este medicamento abortivo tenha todos os requisitos de segurança para ser comercializado. A AIFA deveria, além do mais, esclarecer como a ingestão da pílula abortiva poderia ser compatível com a lei 194 (a lei 194 foi assinada em 22/05/1978 pelo senado italiano e normatiza a tutela social da maternidade e a interrupção voluntária da gravidez; ndt) e com os pareceres do Conselho Superior de Saúde.
Enquanto isso, a ex-ministra Livia Turco está satisfeita (cf. texto publicado no Il Sussidiario clicando aqui)...

LEIA MAIS:
- O “sim” da AIFA não elimina as dúvidas...

Assuntina Morresi, no Il Sussidiario
- Roccella afirmou: “Muitas mortes, é perigosa”
Redação do Il Giornale
- Dossier RU486
Redação do Salute Femminile
- Aborto, biotestamento e lei 40...
Eugenia Roccela, no Il Sussidiario
- Apelo feito à AIFA pela Scienza & Vita
Scienza e Vita
- É incompatível com a lei 194
Francesco Cossiga, no Il Sussidiario
- A RU486 chega à Itália. Vaticano condena duramente
Redação do Corriere della Sera

* Editorial de SamizdatOnLine, do dia 31 de julho de 2009 (editorial). Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

Evangelho do dia (Mt 13,54-58)


Santo Inácio de Loyola

Foi para a sua cidade e ensinava na sinagoga, de modo que todos diziam admirados: Donde lhe vem esta sabedoria e esta força miraculosa? Não é este o filho do carpinteiro? Não é Maria sua mãe? Não são seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas? E suas irmãs, não vivem todas entre nós? Donde lhe vem, pois, tudo isso? E não sabiam o que dizer dele. Disse-lhes, porém, Jesus: É só em sua pátria e em sua família que um profeta é menosprezado. E, por causa da falta de confiança deles, operou ali poucos milagres (Mt 13,54-58).

Comentário feito por Papa Bento XVI
Encíclica "Spe Salvi", nº 47
Alguns teólogos recentes são de parecer de que o fogo que simultaneamente queima e salva é o próprio Cristo, Juiz e Salvador. O encontro com Ele é o ato decisivo do Juízo. Ante o Seu olhar, funde-se toda a falsidade. É o encontro com Ele que, queimando-nos, nos transforma e liberta para nos tornar verdadeiramente nós mesmos. As coisas edificadas durante a vida podem então revelar-se palha seca, pura superficialidade, e desmoronar-se. Porém, na dor deste encontro, em que se torna evidente tudo o que é impuro e nocivo no nosso ser, está a salvação. O Seu olhar, o toque do Seu coração cura-nos, através de uma transformação, que é certamente dolorosa, "como pelo fogo". Contudo, é uma dor feliz, em que o poder santo do Seu amor nos penetra como chama, consentindo-nos no final sermos totalmente nós mesmos e, por isso mesmo totalmente de Deus. Deste modo, torna-se evidente também a compenetração entre justiça e graça: o nosso modo de viver é relevante, mas a nossa sujidade não nos mancha para sempre, se continuarmos inclinados para Cristo, para a verdade e para o amor. No fim das contas, esta sujidade já foi queimada na Paixão de Cristo. No momento do Juízo, experimentamos e acolhemos esta prevalência do Seu amor sobre todo o mal, no mundo e em nós. A dor do amor torna-se a nossa salvação e a nossa alegria.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

A paixão segundo nós mesmos

Republico um post de alguns meses atrás... pela beleza do texto! Trata-se de uma poesia de Bruno Tolentino, extraída da Balada do Cárcere. Deleitem-se, amigos!
I
A paixão segundo nós mesmos
não é o mero exercício inglório,
o exaustivo repositório
do sem-sentido dado a esmo
e usado em vão: essa paixão,
malentendida como a vida,
como a lenda da perfeição,
é a demonstração desmedida
da descoberta do sensível
como um dos lados do incompleto,
do corpo embriagado, o indiscreto
enamorado do invisível
mais semicego por decreto
da insuficiente inteligência.

Porque toda paixão anda perto
dessa obscura impaciência
que de si mesma faz a tocha
perecível, e assim pouco a pouco
ilumina primeiro a coxa
tão desejada, em seguida o louco
desejo irascível, e logo,
segundo as lógicas do incêndio,
a razão mesma desse esplêndido
enamoramento do fogo:
é que não chega a existir inteira
toda a elusiva realidade
até que um corpo caia à beira
de outro corpo, na totalidade...

O apaixonado é o incendiário
da água turva da superfície,
mergulhador do imaginário
e descobridor, só por isso,
daquele assombroso esplendor
que ele adivinhou sob a pele,
sob o gesto... É por causa do amor
insensato e sensiente que ele,
um louco, toca as profundezas
do ser total, daquele êxtase
aliciante da beleza
imortal. É cavalgando a besta
que a alma depara o Criador.
Mas é tudo uma questão de amor.

II
O perigo para a criatura,
o único verdadeiro perigo,
é desconfiar dessa loucura
que a movimenta sob o signo
multiforme do imperecível.
É não confiar no invisível.

É distrair-se, é deslembrar-se
da perfeita vocação que a trouxe
a este mundo, e abraçar o disfarce,
o sensível, como se ele fosse
a total declinação do enigma:
a finitude como estigma.

Porque é tudo invisível: o nada
é o ilusório sobretudo
da vida sempre adivinhada,
a vida princípio de tudo
e sem fim como todo princípio.
O olhar apaixonado e limpo

apreende o real inteiro,
e inteiridade é devoção.
Como a semente no canteiro
primeiro estremece e só então
deita raiz, sacode a cega
unidade da terra e entrega

enfim sob uma luz perfeita
o talo, a folha, o fruto, o dente
tão frágil da nova semente
à promessa de outra colheita,
assim o olhar da criatura
recebe o mundo e a investidura

de sua semidivindade.
O perigo é baixar a pálpebra
entre o esplendor da realidade
e o desespero, essa falsa álgebra
que interpõe entre o ser e a vida
uma distância descabida.

É preciso olhar com cuidado,
lançar contra todo argumento
aquele olhar maravilhado
e novo, aquele olhar sedento
que subverte e transfigura.
O ser é a visão que procura.

* TOLENTINO, Bruno (1996). Balada do cárcere. Rio de Janeiro: Topbooks, pp. 111-113.

Pascal e o “divertissement”

por Pigi Colognesi

Deixo a palavra, neste início do período de férias (na Itália, as férias estão começando; ndt), a Blaise Pascal: “Toda a infelicidade dos homens tem apenas uma origem: não saber ficar tranquilos em uma sala. Um homem que tenha meios suficientes para viver, se soubesse ficar com prazer em sua própria casa, não sairia dali para ir ao mar. E só não se buscam as conversas e o divertimento porque não se consegue ficar em casa com prazer”. Mas, o grande filósofo e matemático não para aqui: “Considerando a coisa mais de perto e querendo, depois de encontrada a causa de todos os nossos infortúnios, descobrir também as suas razões, descobri que há uma muito real que consiste na infelicidade natural da nossa condição débil e mortal e tão miserável que nada nos pode consolar no momento em que a consideramos de perto”.
Pouco antes, ele havia escrito: “Os homens, não tendo conseguido sanar a morte, a miséria, a ignorância, para se tornarem felizes inventaram de não pensar sobre isso”. É a grande intuição pascalina do divertissement. Que não é o divertimento saudável e regenerador, mas aquele tirar a atenção da direção justa (di-vertere) que se poderia traduzir adequadamente como distração. Para se explicar, Pascal imagina um rei, isto é o máximo de sucesso e de condições favoráveis que, então, se poderia desejar. Ele, porém, é assolado por preocupações “pelas quais, sem o que se chama distração, ei-lo infeliz, e mais infeliz que o último de seus súditos”. Por isso, é “circundado por pessoas que não pensam em outra coisa que em distrai-lo e impedi-lo de pensar em si mesmo”; como no grande esforço do divertimento organizado.
“Os homens amam tanto o barulho e a bagunça” e “o prazer da solidão é uma coisa incompreensível”. Distrair-se: “isto é tudo o que souberam inventar para se tornarem felizes”. É uma dinâmica que envolve toda a existência: “Os homens supõem que, obtida aquela carga, gozarão depois de uma paz prazerosa; e não percebem a natureza insaciável de sua avidez. Creem que estão buscando sinceramente a paz, mas, na realidade, estão buscando apenas a agitação. Um secreto instinto, reflexo da percepção de sua contínua miséria, o empurra a buscar o passatempo e a ocupação fora de si; enquanto que um outro instinto secreto, resíduo da grandeza de nossa natureza primitiva, faz com que eles conheçam que a felicidade verdadeira só se encontra na paz e não na bagunça. Destes dois instintos opostos se forma neles um projeto confuso, escondido à sua vista, no fundo da alma, que os impulsiona a buscar a paz mediante a agitação e a imaginar sempre que a satisfação que lhes falta chegará se, superando algumas dificuldades que preveem, puderem abrir para si, por esta via, a porta da paz. Assim, transcorre toda a vida”.
Algumas páginas à frente: “O que, portanto, nos gritam esta avidez e esta impotência, se não que, um dia, existiu no homem uma verdadeira felicidade, da qual, agora, lhe restam apenas o sinal e as pegadas vazias, que ele tenta em vão encher com tudo o que o circunda, pedindo às coisas ausentes aquilo que não obtem das presentes? Ajuda da qual são totalmente incapazes, porque este abismo infinito só pode ser preenchido por um objeto infinito”.

* Extraído do site Il Sussidiario, do dia 30 de julho de 2009. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

Evangelho do dia (Mt 13,47-53)


São Pedro Crisólogo

Naquele tempo, disse Jesus à multidão: “O Reino dos Céus é ainda como uma rede lançada ao mar e que apanha peixes de todo tipo. Quando está cheia, os pescadores puxam a rede para a praia, sentam-se e recolhem os peixes bons em cestos e jogam fora os que não prestam. Assim acontecerá no fim dos tempos: os anjos virão para separar os homens maus dos que são justos, e lançarão os maus na fornalha de fogo. E aí, haverá choro e ranger de dentes. Compreendestes tudo isso?” Eles responderam: “Sim”. Então Jesus acrescentou: “Assim, pois, todo mestre da Lei, que se torna discípulo do Reino dos Céus, é como um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e velhas”. Quando Jesus terminou de contar essas parábolas, partiu dali (Mt 13,47-53).

Comentário feito por Papa Bento XVI
Encíclica Spe Salvi, nos. 45-46
Com a morte, a opção de vida feita pelo homem torna-se definitiva; a sua vida está diante do Juiz. A sua opção, que tomou forma ao longo de toda a vida, pode ter características diversas. Pode haver pessoas que destruíram totalmente em si próprias o desejo da verdade e a disponibilidade para o amor; pessoas nas quais tudo se tornou mentira; pessoas que viveram para o ódio e espezinharam o amor em si mesmas. Trata-se de uma perspectiva terrível, mas algumas figuras da nossa história deixam entrever, de forma assustadora, perfis deste gênero. Em tais indivíduos, não haverá nada de remediável e a destruição do bem parece ser irrevogável: é já isto que se indica com a palavra "inferno". Por outro lado, podem existir pessoas puríssimas, que se deixaram penetrar inteiramente por Deus e, consequentemente, estão totalmente abertas ao próximo – pessoas em quem a comunhão com Deus orienta desde já todo o seu ser e cuja chegada a Deus apenas leva a cumprimento aquilo que já são. Mas, segundo a nossa experiência, nem um nem outro são o caso normal da existência humana. Na maioria dos homens – como podemos supor – perdura, no mais profundo da sua essência, uma derradeira abertura interior para a verdade, para o amor, para Deus. Nas opções concretas da vida, porém, aquela é sepultada sob repetidos compromissos com o mal. [...] O que acontece a tais indivíduos quando comparecem diante do Juiz? [...] Na Primeira Carta aos Coríntios, São Paulo dá-nos uma ideia da distinta repercussão do juízo de Deus sobre o homem, conforme as suas condições: "Se alguém edifica sobre este fundamento com ouro, prata, pedras preciosas, madeiras, feno ou palha, a obra de cada um ficará patente, pois o dia do Senhor a fará conhecer. Pelo fogo será revelada, e o fogo provará o que vale a obra de cada um. Se a obra construída subsistir, o construtor receberá a paga. Se a obra de alguém se queimar, sofrerá a perda. Ele, porém, será salvo, como que através do fogo" (3, 12-15).

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Obama e a América em preto e branco


por Lorenzo Albacete

Tudo começou com uma prisão. O sargento James Crowley da polícia de Cambridge, Massachusetts, prendeu Henry Louis Gates Jr. Diante de sua casa por “perturbação da ordem pública”. Gates é um importante professor afro-americano da Universidade de Harvard e está convencido de que, se fosse um branco, não teria sido preso na porta de casa.
A polícia chegou porque foi chamada por uma vizinha (que trabalha na revista dos ex-alunos de Harvard), que tinha visto dois indivíduos que tentavam entrar na casa de Gates. A vizinha não havia se referido a nenhum aspecto racial, mas o relatório da polícia fala de um dois negros. Com efeito, havia dois negros tentando entrar na casa: um era o próprio Gates que havia perdido as chaves de casa e outro era o motorista.
O sargento Crowley, que tem um ótimo currículo quanto ao que respeita ao relacionamento com as minorias, ficou chocado com o que ele definiu como um comportamento agressivo da parte de Gates, que estava com raiva porque atribuia ao seu ser negro o comportamento da polícia.
Assim é como e onde começou a história. Poucos dias depois, a história continua em um outra casa – a Casa Branca – em Washington, onde Gates e Crowley bebem uma cervejinha junto com o presidente dos Estados Unidos, o primeiro afro-americano a ocupar o cargo mais importante da nação. O presidente Barack Hussein (filho de um muçulmano do Quênia) não quis que a história terminasse, quis que se tornasse um “momento de aprendizado” na atual fase das relações raciais na América. O presidente se envolveu na história durante uma entrevista coletiva sobre a reforma de saúde proposta por ele ao Congresso (onde encontrou oposição mesmo dentro de seu partido, por não falar dos Republicanos, que viram nas preocupações dos americanos sobre os custos de seu programa uma oportunidade para cortar as asas do presidente).
No fim da entrevista (que, além do mais, não parece ter se dedicado muito às preocupações com a reforma), foi perguntado a Obama algo acerca da prisão de Gates. Mesmo admitindo não conhecer os detalhes do incidente, Obama definiu como “estúpido” o comportamento da polícia. Os jornalistas viram logo a possibilidade oferecida por esta resposta e se moveram como tubarões enlouquecidos pelo cheiro de sangue. (Um comentaristas que seguia a entrevista pela TV observou: “Oh, meu Deus! Assim termina a discussão sobre a saúde e de agora em diante a questão será a raça!”. Ele tinha razão).
Tanto que o presidente foi obrigado a interromper o encontro cotidiano com a imprensa na Casa Branca para fazer uma declaração pessoal na qual se dizia arrependido pela escolha das palavras, que já se havia desculpado por telefone com o sargento Crowley e que havia também falado com Gates, aparentemente disposto a abaixar os tons da polêmica.
Ambos, depois, aceitaram o convite da Casa Branca. Esta história, de fato, se tornará um “momento de aprendizado”? Se sim, o que nos ensinará? Levará a um real progresso na atormentada história das relações entre brancos e negros nos Estados Unidos ou simplesmente colocará um outro tijolo nos discursos e nos comportamentos politicamente corretos?
Para o presidente Obama, esta é uma ocasião para mostrar de novo as vantagens do seu método de “relativismo com certeza”. Será interessante ver o que acontecerá.

* Extraído do site Il Sussidiario, do dia 29 de julho de 2009. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

“Assim, Giussani nos guiava rumo à descoberta do Mistério: aquelas férias eram uma antecipação do paraíso”.

Por Giorgio Paolucci

“A montanha ensina a viver. Basta olhá-la... mas é preciso alguém que ensine a olhá-la. Olhar é o início de tudo. Olhe para a montanha, para a natureza, e entenderá que as coisas não dependem de você, que a vida é maior do que a sua capacidade de compreensão”. Guido Castelli, responsável pelos Serviços Internacionais e de Pesquisa da Universidade Católica de Milão, é um cinquentão de Varese que conhece de cor dezenas de caminhos e itinerários. Ele os percorreu em companhia de centenas de pessoas, desde quando era uma garotinho, participando das férias de verão de Juventunde Estudantil, depois nas de Comunhão e Libertação, muitas guiadas por dom Giussani que, por décadas, fez da montanha uma grande ocasião educativa para milhares de jovens. Eram – e continuam a ser – experiências humanas extraordinárias, que deixaram uma marca indelével em quem participou de alguma dessas férias. O mesmo Giussani fala disso em um de seus livros – O acontecimento cristão: “o real é a primeira provocação através da qual é despertado em nós o senso religioso. As férias na montanha são propostas para a experiência das pessoas como uma profecia, mesmo que fugaz, da promessa cristã de realização. Como uma pequena antecipação do paraíso, e cada particular deveria veicular aquela promessa e realizar aquela antecipação”.
Castelli pôde saborear muitas vezes aquela “antecipação do paraíso”, e se tornou uma testemunha disso e, por sua vez, mestre para tantos jovens que levou consigo aos cumes. “Caminhar junto, às vezes mesmo em comitivas formadas por centenas de pessoas, ajuda a entender que o homem é essencialmente relacionamento com os outros. Sobretudo quando nos movemos em grupo é necessário que todos sigam o mesmo passo, que, inclusive, deve levar em conta todos aqueles que estão caminhando. Vive-se assim uma experiência de recíproca dependência, que se torna educativa até mesmo para a vida cotidiana”.
A montanha ajuda a descobrir a beleza como algo gratuito, revelado e presenteado ao homem. Algo de grande e, às vezes, inesperado. “Lembro-me de umas férias em Diavolezza. Subíamos a partir de Saint Moritz e, no início, não se via muito bem, mas quando começamos a escalar, chegados ao topo, apareceu um panorama inimaginável, com uma visão muito ampla e fascinante. É a coisa mais bonita que já vi em quarenta anos de escaladas. Algo de imprevisto e imprevisível, que me deixou sem palavras”.
Às vezes, porém, as palavras servem para falar da beleza. Como nos cantos de montanha, uma outra das experiências que Castelli aprendeu a praticar e da qual, depois, se tornou protagonista nas férias de verão com os amigos de CL. “Giussani nos convidava frequentemente a cantar porque, como me disse uma vez, ‘o canto torna mais leve o sacrifício e mais intensa a amizade, e porque o significado das coisas se torna presente através da beleza daquilo que cantamos’. E, além do mais, cantar é algo de contagioso. Lembro-me de umas férias em Torri del Vajolet, um dos lugares mais bonitos das Dolomitas. Éramos umas 400 pessoas. Visto que ameaçava chover, decidimos parar no refúgio Carlo Alberto. Depois de comer, cantamos por duas horas consecutivas. A um certo ponto, virei-me e vi, às minhas costas, dezenas de pessoas que haviam se aproximado para escutar. E muitos se haviam unido a nós no canto, tomados por uma espécie de nostalgia por aquelas palavras. A nostalgia do infinito”.

* Extraído do jornal Avvenire, do dia 29 de julho de 2009 (p. 3). Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

Caros africanos, “se virem...”!


“Vocês devem renunciar à tirania e à corrupção... os conflitos locais são uma pedra amarrada ao pescoço da África”. “O futuro da África depende dos africanos, mesmo que seja mais fácil colocar a culpa dos próprios problemas em outras pessoas... se é verdade que o Ocidente teve muitas vezes uma postura de senhorio, ele porém não é responsável pela destruição da economia do Zimbabwe, pelas guerras com as crianças-soldados, pela corrupção ou pelo tribalismo”.
Viva! Temos que agradecer com o coração na mão o presidente Obama (Leia o artigo no jornal La Stampa, clicando aqui), por ter dito aquilo que muitos missionários católicos dizem há anos; às vezes na indiferença geral e, muitas vezes, atraindo para si críticas ferozes. Pois é. Nem sempre é concedido a todos o direito de fazer afirmações “politicamente incorretas”.
Tentem imaginar o que teria acontecido se as mesmas palavras tivessem sido pronunciadas pelo predecessor de Obama - o presidente Bush -, ou pelo atual Presidente do Conselho Italiano - Silvio Berlusconi. Já dá para ver! Choveriam, de todos os lados, acusações de “cinismo”, “crueldade”, “racismo”, “violação dos direitos humanos” etc.
Também Bento XVI, na sua recente viagem, expressou conceitos muito semelhantes, chamando a atenção dos regimes corruptos para a responsabilidade pessoal, mas naquele caso tudo foi coberto por polêmicas (criadas com arte) sobre uma frase relativa ao uso de preservativos. Mas, se Obama tivesse dito a mesma coisa, não teria acontecido nada.
Melhor assim. Obrigado, Barack!... Querendo, poderia também lembrar que muitos dos africanos feitos escravos e transportados para a América foram capturados e vendidos aos europeus por outros africanos. Por exemplo, “o reino Ashanti (1570-1900), localizado na África, em uma região do Gana, prosperou graças ao ouro presente na região e, em seguida, graças ao comércio de escravos: capturavam pessoas nos regiões próximas para revendê-los como escravos aos europeus”.
Mas, tudo bem! Talvez, agora, se poderá falar serenamente sobre como calibrar as ajudas aos países em vias de desenvolvimento, de modo que sejam de fato eficazes, e não sirvam apenas para engordar o bolso de algum governo africano corrupto, ou os aparatos das agências da ONU, ou pior ainda sustentando grupos de guerrilheiros sedentos de sangue.
Talvez se começará, finalmente, a entender que – para usar as palavras da economista do Zâmbia, Dambisa Moyo – “o sustento público internacional destrói cada tentativa de reforma, de desenvolvimento, de capacidade de criar riqueza nacional e exportá-la. Alimenta a corrupção e os conflitos internos, e favorece a manutenção de longos regimes de governo”. Também um outro economista africano, o queniano James Shikwati, pensa assim: as ajudas financiam enormes burocracias, contribuem a tornar ainda maior a corrupção, sufocam a livre iniciativa, permitem aos líderes políticos ignorarem as necessidades de seus conterrâneos. Criaram uma mentalidade preguiçosa em todos os canos e habituaram os africanos a serem dependentes e mendicantes. Entre os exemplos mais clamorosos, Shikwati cita a Nigéria e a República Democrática do Congo que, apesar de suas imensas riquezas, não fizeram nada para reduzir a pobreza e fazem de tudo para serem classificadas entre as nações mais necessitadas para receberem ajudas.
Este é exatamente o paradoxo africano: quanto mais aumentam os recursos, mais a pobreza cresce. Na Nigéria, por décadas considerada a primeira produtora de petróleo da África subsaariana, 70% da população vive com menos de um dólar por dia e 92,8% com menos de 2 dólares (cf. Tempi, do dia 21/07/2009, clicando aqui).
Tudo isso não alivia os países industrializados da obrigação de olhar de frente para a realidade e assumirem a responsabilidade de ajudar os africanos, compartilhando um pleno desenvolvimento: único caminho em direção a uma autonomia real.

* Editorial de SamizdatOnLine, do dia 28 de julho de 2009, escrito por Gino. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

Evangelho do dia (Jo 11, 19-27)


Santa Marta

Naquele tempo, muitos judeus tinham vindo à casa de Marta e Maria para as consolar por causa do irmão. Quando Marta soube que Jesus tinha chegado, foi ao encontro dele. Maria ficou sentada em casa. Então Marta disse a Jesus: “Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido. Mas mesmo assim, eu sei que o que pedires a Deus, ele te concederá”. Respondeu-lhe Jesus: “Teu irmão ressuscitará”. Disse Marta: “Eu sei que ele ressuscitará na ressurreição, no último dia”.Então Jesus disse: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim, não morrerá jamais. Crês isto?” Respondeu ela: “Sim, Senhor, eu creio firmemente que tu és o Messias, o Filho de Deus, que devia vir ao mundo” (Jo 11, 19-27).

Comentário feito por São Francisco de Sales (1567-1622)
Bispo de Genebra e Doutor da Igreja

Amai toda a gente com grande amor de caridade, mas reservai a vossa amizade profunda para os que podem partilhar convosco as coisas boas. [...] Se partilham no domínio dos conhecimentos, a vossa amizade é certamente louvável; mais ainda se comungam da prudência, da discrição, da força e da justiça. Mas, se a vossa relação é fundada na caridade, na devoção e na perfeição cristã, ó Deus, a vossa amizade é preciosa! É admirável porque vem de Deus, admirável porque tende para Deus, admirável porque o seu laço é Deus, porque é eterna em Deus. Como é bom amar na terra como se ama no céu, aprendei a amar neste mundo como o faremos para sempre no outro! Não falo aqui do amor simples da caridade, porque esse deve ser levado a todos os homens; falo da amizade espiritual, pela qual dois, três ou vários comungam na vida espiritual e têm um só coração e uma só alma (cf. At 4, 32). É verdadeiramente justo que tais almas cantem felizes: "Vede como é bom e agradável que os irmãos vivam unidos!" (Sl 132, 1). [...] Parece-me que todas as outras amizades não são mais do que a sombra desta. [...] É fundamental que os cristãos que vivem no mundo se ajudem uns aos outros através de santas amizades; por este meio incentivam-se, apoiam-se, conduzem-se mutuamente para o bem. [...] Ninguém pode negar que Nosso Senhor amou com uma amizade mais doce e muito especial São João, Lázaro, Marta e Madalena, pois o Evangelho o testemunha.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Evangelho do dia (Mt 13,36-43)


São Vítor I

Afastando-se, então, das multidões, Jesus foi para casa. E os seus discípulos, aproximando-se dele, disseram-lhe: "Explica-nos a parábola do joio no campo". Ele, respondendo, disse-lhes: "Aquele que semeia a boa semente é o Filho do Homem; o campo é o mundo; a boa semente são os filhos do Reino; o joio são os filhos do maligno; o inimigo que a semeou é o diabo; a ceifa é o fim do mundo e os ceifeiros são os anjos. Assim, pois, como o joio é colhido e queimado no fogo, assim será no fim do mundo: o Filho do Homem enviará os seus anjos, que hão de tirar do seu Reino todos os escandalosos e todos quantos praticam a iniquidade, e lançá-los na fornalha ardente; ali haverá choro e ranger de dentes. Então os justos resplandecerão como o Sol, no Reino de seu Pai. Aquele que tem ouvidos para ouvir, ouça!" (Mt 13,36-43).

Comentário feito por Catecismo da Igreja Católica
§§ 823 – 827
A Igreja é Santa, aos olhos da fé, indefectivelmente santa. Com efeito, Cristo, Filho de Deus, que é proclamado "o único Santo", com o Pai e o Espírito, amou a Igreja como sua esposa, entregou-Se por ela para a santificar, uniu-a a Si como seu Corpo e cumulou-a com o dom do Espírito Santo para glória de Deus. A Igreja é, pois, "o povo santo de Deus", e os seus membros são chamados "santos" (1Cor 6, 1). [...] A Igreja, unida a Cristo, é santificada por Ele. Por Ele e n'Ele toma-se também santificante. [...] É nela que "nós adquirimos a santidade pela graça de Deus". [...] Nos seus membros, a santidade perfeita é ainda algo a adquirir. [...] "Enquanto que Cristo, santo e inocente, sem mancha, não conheceu o pecado, mas veio somente expiar os pecados do povo, a Igreja, que no seu próprio seio encerra pecadores, é simultaneamente santa e chamada a purificar-se, prosseguindo constantemente no seu esforço de penitência e renovação" (LG 42) Todos os membros da Igreja, inclusive os seus ministros, devem reconhecer-se pecadores. Em todos eles, o joio do pecado encontra-se ainda misturado com a boa semente do Evangelho até ao fim dos tempos. A Igreja reúne, pois, em si, pecadores abrangidos pela salvação de Cristo, mas ainda a caminho da santificação. A Igreja "é santa, não obstante compreender no seu seio pecadores, porque ela não possui em si outra vida senão a da graça: é vivendo da sua vida que os seus membros se santificam; e é subtraindo-se à sua vida que eles caem em pecado e nas desordens que impedem a irradiação da sua santidade. É por isso que ela sofre e faz penitência por estas faltas, tendo o poder de curar delas os seus filhos, pelo Sangue de Cristo e pelo dom do Espírito Santo".

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Feliz Aniversário, mãe!

"Quando olho para mim mesmo e percebo que não estou sendo feito por mim, então eu, eu com a vibração consciente e repleta de afeição que urge nessa palavra, só posso dirigir-me à Coisa que me faz, à fonte da qual provenho neste instante, usando a palavra 'Tu'. 'Tu-que-me-fazes' é o que a tradição religiosa chama 'Deus', é aquilo que é mais do que eu, é mais eu do que eu mesmo, é aquilo pelo qual eu sou. Por isso, a Bíblia diz de Deus: 'tam pater nemo', ninguém é tão pai quanto ele. Porque o pai que nós conhecemos na experiência é quem dá a partida, o início a uma vida que, desde a primeira fração de instante na qual é concebida se supera, desenvolve-se por si. (...) Pelo contrário, Deus, Pai a cada momento, está me concebendo agora. Ninguém é tão pai, tão gerador".
Feliz aniversário, mãe!

Cartas do P.e Aldo 95




Assunción, 25 de julho de 2009.

Caros amigos,
eis os dois últimos filhos que a Providência me mandou:
1. Lúcia: tem dois meses e pesa dois quilos. Tem hidrocefalia, é cega, não tem nariz, respira pela boca e come com a sonda. É dramático olhá-la, mas é uma bela hóstia branca. Geme, mexe as mãozinhas. Com ela, Jesus me deu de presente também a mãe, que tem 15 anos. Vou poupar vocês da história.
2. Marco: tem quatro anos. A mãe o teve quando tinha 13 anos de idade. Agora, ela tem 17. Ela o deixou aqui, assinou um documento e foi embora. Marco não teve a oportunidade nem mesmo de dizer adeus para ela. Pobre menino. Não sabe nem mesmo fazer as suas necessidades. Onde quer que esteja, abaixa as calças e... hoje, mamãe Cristina já o ensinou a usar o banheiro. Mas, o amor faz tudo. Os 23 irmãozinhos estão felizes com os novos chegados.
Na casa para os velhinhos abandonados, acolhemos, da rua, três Jesus... e não lhes digo em que condições. Um deles tem problemas psiquiátricos, mas também ele é Jesus. Outro, é um Jesus sem pernas. E o outro é um Jesus com uma perna só.
Como vocês podem ver, cada circunstância é, de fato, bela porque me faz viver aquilo que o Carrón nos repete sempre: “eu sou Tu que me fazes”. Sou, de verdade, um preferido de Jesus... e sou humildemente grato e feliz por isso, como todos estes meus filhos.
Ontem à noite, o Vice-Presidente da República desejou festejar o seu aniversário com uma missa na clínica. Tinha os olhos cheios d’água, e quando escutou o testemunho de Fabiana – uma jovem de 19 anos que tem AIDS, chorou. No fim, conseguiu apenas dizer: “obrigado”. Um nó na garganta o impediu de falar.
Sou, de verdade, amigo desse tipo de pessoas, porque quem não se comove diante do real é apenas cúmplice. Agradeço a Deus e a Nossa Senhora por esta graça.
O Núncio Apostólico veio visitar a nova clínica. Ele é o expoente máximo dos estudos em arquitetura do Abruzzo. Ficou comovido e feliz ao ver esta obra de arte, toda feita de pedra “sillar” – a mesma usada pelos jesuítas para edificar as Reduções. Um grupo de escultores trabalha desde maio de 2008 com um martelo e uma ponta de ferro, como no tempo dos jesuítas e na Idade Média.
Finalmente, uma notícia espetacular: Sotoo, o escultor da Sagrada Família de Gaudì, decidiu ajudar-nos na parte final da Clínica, comentando a frase de São Paulo – “A natureza mesma geme as dores do parto, esperando a ressurreição do Filho de Deus”. E, além do mais, nos deu de presente o projeto.
Como vocês podem ver, o problema é apenas um – não dinheiro que tanto preocupa as economias e os economistas: a fé total na Divina Providência... Quando é que nos convenceremos disso?
Alguns me perguntam: se você morrer (o que é certo...) quem desejaria que levasse a frente esta obra? Resposta: 1) Este é um problema de Deus, porque Ele é o único protagonista; 2) quem me sucede – sim ou sim – deve ser uma pessoa para quem Cristo é tudo... e Jesus já me está indicando alguém assim. Não posso nem mesmo hipotetizar que seja alguém para quem a única preocupação não seja a santidade... em suma, um santo, assim como Giussani o entende; 3) e alguém que tenha uma confiança “cega”, totalizante, na Providência Divina, alguém que não tenha nem uma sombra de dúvida quanto aquilo que Carrón nos lembra, citando o Evangelho: “mesmo os cabelos da vossa cabeça estão todos contados”. Em uma palavra: um santo será sempre também um economista; enquanto que nem sempre um economista é um santo. Mais claro do que isso é a morte.
P.e Aldo

Evangelho do dia (Mt 13,31-35)


São Pantaleão

Jesus propôs-lhes outra parábola: "O Reino do Céu é semelhante a um grão de mostarda que um homem tomou e semeou no seu campo. É a mais pequena de todas as sementes; mas, depois de crescer, torna-se a maior planta do horto e transforma-se numa árvore, a ponto de virem as aves do céu abrigar-se nos seus ramos". Jesus disse-lhes outra parábola: "O Reino do Céu é semelhante ao fermento que uma mulher toma e mistura em três medidas de farinha, até que tudo fique fermentado". Tudo isto disse Jesus, em parábolas, à multidão, e nada lhes dizia sem ser em parábolas. Deste modo cumpria-se o que fora anunciado pelo profeta: Abrirei a minha boca em parábolas e proclamarei coisas ocultas desde a criação do mundo (Mt 13,31-35).

Comentário feito por São Macário (?-405)
Monge no Egito
Desde a transgressão de Adão, os pensamentos da alma dispersaram-se, afastando-se do amor de Deus, na direção do mundo presente, e misturaram-se com pensamentos materiais e terrestres. Porque Adão, com a sua transgressão, recebeu em si o fermento das más tendências, e assim, por participação, também todos os que dele nasceram e toda a raça de Adão recebeu uma parte desse fermento. Seguidamente, as disposições más cresceram e desenvolveram-se entre os homens, a ponto de eles fazerem todo o tipo de desordens. Finalmente, o fermento da malícia penetrou em toda a humanidade [...]. De maneira análoga, durante a sua estada na terra, o Senhor quis voluntariamente sofrer por todos os homens: resgatá-los com o Seu próprio sangue, introduzir o fermento celeste da Sua bondade nas almas crentes humilhadas pelo jugo do pecado. Quis completar nelas a justiça dos preceitos e todas as virtudes, de maneira a que, ao penetrar nelas este fermento, fiquem unidas no bem e formem com o Senhor "um só Espírito", segundo as palavras de Paulo (1Co 6, 17). A alma que for totalmente penetrada pelo fermento do Espírito Santo nem poderá já ter a ideia do mal e da malícia, como está escrito: "O amor não se irrita nem guarda ressentimento" (1Co 13, 5). Sem este fermento celeste, ou, por outras palavras, sem a força do Espírito Santo, a alma não poderá ser amassada pela doçura do Senhor nem alcançar a verdadeira vida.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Assim a fé cristã resiste ao desafio do tempo

Por Luca Doninelli

“Um homem culto, um europeu dos nossos dias pode crer, crer mesmo, na divindade do filho de Deus, Jesus Cristo?”. Muito oportunamente, no início do prefácio a Qui e ora de Luigi Giussani (Bur/Rizzoli, 490 p.), Julián Carrón cita esta frase de Dostoievski que define a entidade do desafio ao qual a fé cristã – hoje ainda mais do que em 1984/85, quando as conversações publicadas no livro foram realizadas – é chamada a responder.
O livro pretende responder a esta pergunta, sem fingimentos. E não através de um discurso, de uma pregação ou de uma homilia, mas através de uma densa, frequentemente dramática, conversa com jovens tomados por pequenos problemas de sua vida universitária e – dentro destes pequenos problemas – com o grande problema do seu destino, do significado do viver, que compreende as dores, as desilusões, as expectativas não realizadas que inevitavelmente acompanham a vida. Exatamente porque calcadas na história, em situações concretas, todas definidas por um tempo e um lugar, as respostas de dom Giussani reverberam ainda mais na nossa vida de hoje, e nós as sentimos próximas, porque se desvelam na cotidianeidade, que é a mesma de sempre: dura, imprevisível, inevitável.
O que permite que a fé cristã possa “se manter firme” diante do desafio do tempo? Se 25 anos atrás, quando estas palavras foram ditas, existia ainda um mundo católico capaz de fornecer uma resposta “social” ou “cultural” a esta pergunta, hoje, isto não é mais possível. Não bastam mais a cultura católica, o ativismo católico, a comunidade católica como tal. Isto já era, então, bastante conhecido por dom Giussani quando dizia: “Meus amigos, estamos em uma época de muito perigo (...) na qual as correntes não são mais presas aos pés, mas à mobilidade das primeiras origens do nosso eu e da nossa vida”, acrescentando que “o Ocidente está, não lentamente, mas violentamente, empurrando toda a realidade humana, mesmo a nossa, para o ‘gulag’ de uma servidão mental e psicológica inaudita”.
Duas são as respostas, não menos dramáticas para a pergunta, que Giussani, me parece, propõe. A primeira é que Cristo só pode responder à nossa ânsia de significado se acontece “aqui e agora”, ou seja se é contemporâneo a mim. A segunda é que a pessoa (não o grupo) reconheça que a sua consistência humana coincide com a pertença – digamos física, mais que ideal – a este Fato. Estas duas respostas são as pistas do caminho que pode conduzir o homem de hoje, tão só e ameaçado pelo ceticismo, a responder “sim” ao desafio de Dostoievski.

* Extraído do jornal Il Giornale, do dia 24 de julho de 2009 (p. 27). Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

O tédio não é para os santos


Por Berlicche

Oscar Milosz, no seu “Miguel Mañara”, coloca na boca do grande sedutor cansado de conquistar esta frase: “Servi a Vênus com raiva, depois com malícia e desgosto. Hoje, torceria o seu pescoço, bocejando”. Esta frase não deve ser conhecida por aquela que, num artigo publicado no Messaggero, afirma suavemente que “nada é mais tedioso do que a santidade”.
Na realidade, como bem sabemos todos nós que vivemos, é o pecado que é insuportavelmente tedioso. Comer, beber, substâncias estranhas, mulheres, homens, a um certo momento o cérebro para de responder aos estímulos, e é preciso ir sempre mais além... algo que desperte por um instante os sentidos já acostumados. Condena-se a prazeres forçados, e não é uma bela pena.
Não existe nada de menos tedioso do que ser santos: porque a santidade não quer dizer respeitar regras, quer dizer amar a fonte de cada regra, confiar-se totalmente a ela, como a criança nos braços da mãe. Mas, é melhor buscar ser santos e não conseguir do que desprezar o conceito mesmo de santidade e nem mesmo ter tentado. Se não se quer ser santos, então se busca, na melhor das hipótese, ser bons; não conseguindo, contenta-se com o ser moralistas.
Se olharem a vida dos santos, vocês se darão conta que não existe nenhuma que não tenha sido plena. Pelo contrário, não ser santos, isto é ligados Àquele que é a satisfação de todo desejo, é a fonte da tristeza na vida. Se não se reconhece esta satisfação, foge-se dela; se a santidade é desprezada, então não se é mais triste: fica-se desesperado, porque além do instante não há mais esperança, mas apenas o nada eterno.

* Extraído de Berlicche: il cielo visto dal basso, do dia 23 de julho de 2009. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

Educar: fazer crescer homens capazes de construir o futuro

“Quem não vê que existe um nexo persuasivo entre as hipóteses educativas circulantes e o edifício social que, de fato, se está construindo?”, perguntou-se, nos últimos dias, o cardeal Angelo Bagnasco, presidente dos bispos italianos. Que grande verdade e que formidável juizo sobre as próximas eleições nos ofereceu o cardeal (SamizdatOnLine)

Não por acaso este aspecto do seu discurso não foi muito valorizado, enquanto que se deu muita ênfase ao seu chamado de atenção sobre a questão dos salários mais adequados às necessidades das famílias.
A pergunta retórica de Dom Bagnasco poderia ser traduzida assim: diz-me como educas e te direi que sociedade estás construindo. Dirigida aos políticos, a pergunta apresenta esta primeira declinação: diz-me se para ti a questão da educação é central e te direi se teu programa se apoia sobre fundamentos sólidos.
Educar significa fazer crescer homens capazes de construir o futuro. A quem, pensando no estado da nossa escola, vem à cabeça que, entre aquelas salas de aula, se está construindo um futuro positivo para a nossa sociedade?
A política louva os jovens, os coloca na lista como cabos eleitorais, mas é incapaz de pronunciar palavras sérias e não instrumentais sobre sua necessidade primária que é a educativa.
Um sacerdote toscano do século XIX, Giovanni Battista Quilici, viveum no meio de grandes emergências sociais que soube enfrentar com o método da caridade cristã. Na sua Livorno houve até uma epidemia de cólera que provocou muitas mortes. Ele escreveu às autoridades dizendo que a emergência educativa, a carência de educação para os garotos e garotas de seu tempo, era um problema social devastante, mais do que a peste mortal. Era precisa alguém que se empenhasse em “ajustar a mente e reformar o coração” dos jovens. Uma extraordinária definição de educação.
O objetivo da política é permitir, a quem é capaz de educar, que possa fazê-lo. Quem é capaz de falar aos jovens, de provocar a sua razão, de alimentar a sua inteligência, di solicitar a comparação com as exigências insuprimíveis de seu coração, deve ser livre para fazê-lo. Em nosso país está aberta uma grande questão política: a liberdade de educação. Eis a segunda declinação da pergunta dirigida aos políticos: o teu programa prevê a liberdade de educação?
É um sinal dramático da crise cultural dos nossos tempos que um jornalista famoso permita-se, sem suscitar reações indignadas, reduzir a uma caricatura o tema da liberdade de educação. Por sorte um outro jornalista, também famoso, anunciou que este será o principal ponto da sua campanha eleitoral.
Liberdade de educação quer dizer deixar as famílias livres para escolher a escola que julgam mais adequada para a necessidade de verdade e de beleza de seus filhos. A liberdade deve ser completa, mesmo no plano econômico. Há mil razões – que, aqui, é impossível resumir – para sustentar que a liberdade de educação faz bem a toda a escola, mesmo a pública. É preciso liberar energias, romper um monopólio que se mostrou falho. O objetivo do Estado é – uma vez garantida a liberdade – vigiar para que se evitem abusos.
Restituamos a plena liberdade de educar a quem é seu legítimo titular – famílias, comunidades locais, confissões religiosas – e teremos, amanhã, mais homens capazes de construir o futuro. A sociedade renasce apenas a partir da educação e a educação vive apenas na liberdade.

* Texto extraído de SamizdatOnLine, do dia 07 de maio de 2009, escrito por Valerio Lessi. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

Evangelho do dia (Mt 13,18-23)


São Charbel Makhluf

"Escutai, pois, a parábola do semeador. Quando um homem ouve a palavra do Reino e não compreende, chega o maligno e apodera-se do que foi semeado no seu coração. Este é o que recebeu a semente à beira do caminho. Aquele que recebeu a semente em lugares pedregosos é o que ouve a palavra e a acolhe, de momento, com alegria; mas não tem raiz em si mesmo, é inconstante: se vier a tribulação ou a perseguição, por causa da palavra, sucumbe logo. Aquele que recebeu a semente entre espinhos é o que ouve a palavra, mas os cuidados deste mundo e a sedução da riqueza sufocam a palavra que, por isso, não produz fruto. E aquele que recebeu a semente em boa terra é o que ouve a palavra e a compreende: esse dá fruto e produz ora cem, ora sessenta, ora trinta" (Mt 13,18-23).

Comentário feito por Santo Agostinho (354-430)
Bispo de Hipona (Norte de África) e doutor da Igreja

A sementeira foi feita pelos apóstolos e pelos profetas, mas é o próprio Senhor que semeia. É o próprio Senhor que está presente neles, pois foi o próprio Senhor que fez a colheita. Porque, sem Ele, eles não são nada, enquanto que Ele, sem eles, permanece na Sua perfeição. Com efeito, Ele disse-lhes: "Sem Mim nada podeis fazer" (Jo 15, 5). Semeando portanto entre as nações, que disse Cristo? "Um semeador saiu para semear" (Mt 13, 3). Em outro texto, os semeadores foram enviados para colher; agora, o semeador sai para semear, e não se queixa do trabalho. Com efeito, que importa que o grão de trigo caia à beira do caminho, sobre as pedras ou entre os espinhos? Se ele se deixasse desencorajar por estes lugares ingratos, não avançaria até à boa terra! [...] É de nós que se trata: seremos esse caminho, essas pedras, esses espinhos? Queremos ser a boa terra? Dispomos o nosso coração a produzir trinta vezes mais, sessenta vezes mais, cem vezes, mil vezes mais? Trinta vezes, mil vezes, sempre trigo e apenas trigo. Não sejamos mais esse caminho onde a semente é pisada por quem passa e onde o nosso inimigo a agarra como os pássaros. Nem essas pedras onde uma terra pouco profunda faz germinar rapidamente um grão que não consegue resistir ao calor do sol. Nunca mais esses espinhos, as ambições deste mundo, este hábito de fazer o mal. Com efeito, que coisa pior pode haver do que aplicar todos os esforços a uma vida que impede de chegar à vida? Que coisa mais infeliz que escolher a vida para perder a vida? Que coisa mais triste que temer a morte para sucumbir ao poder da morte? Arranquemos os espinhos, preparemos o terreno, recebamos a semente, aguentemos até à colheita, aspiremos a ser arrecadados nos celeiros.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Alguém...


Con tu mirada tibia
alguien que no eres tú me está mirando: siento
confundido en el tuyo otro amor indecible.
Alguien me quiere en tus te quiero, alguien
acaricia mi vida con tus manos y pone
en cada beso tuyo su latido.
Alguien que está fuera del tiempo, siempre
detrás del invisible umbral del aire.
Miguel D'Ors

Tradução: "Com teu olhar suave alguém que não és tu me olha: sinto confundir-se ao teu um outro amor indizível. Algém me ama nos teus 'te amo', alguém acaricia minha vida com tuas mãos e põe em cada beijo teu o seu palpitar. Alguém que está fora do tempo, sempre atrás do oculto umbral do ar".

Meu amigo desconhecido...


Um desconhecido é o meu amigo,
alguém que não conheço.
Um desconhecido distante, distante.
Por ele o meu coração está cheio de saudade.
Porque ele não está perto de mim.
Porque talvez ele não exista de fato?
Quem és tu que enches o meu coração
da tua ausência?
Que enches toda a terra com a tua ausência?
Pär Lagerkvist

Verás aquela mão...


"Tens necessidade de alguém com uma mão grande assim... e sabes por quê? Alguém que está com a mão levantada, forte, fixa em um ponto... só com a mão aberta, erguida... e então tu, de longe, de qualquer ponto da Terra, verás aquela mão e saberás que ali poderás pousar e descansar"
Vassili Grossman

Obrigado, Patrizio!
Obrigado, Anna!

Evangelho do dia (Jo 15,1-8)


Santa Brígida da Suécia
.
Eu sou a videira verdadeira e o meu Pai é o agricultor. Ele corta todo o ramo que não dá fruto em mim e poda o que dá fruto, para que dê mais fruto ainda. Vós já estais purificados pela palavra que vos tenho anunciado. Permanecei em mim, que Eu permaneço em vós. Tal como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, mas só permanecendo na videira, assim também acontecerá convosco, se não permanecerdes em mim. Eu sou a videira; vós, os ramos. Quem permanece em mim e Eu nele, esse dá muito fruto, pois, sem mim, nada podeis fazer. Se alguém não permanece em mim, é lançado fora, como um ramo, e seca. Esses são apanhados e lançados ao fogo, e ardem. Se permanecerdes em mim e as minhas palavras permanecerem em vós, pedi o que quiserdes, e assim vos acontecerá. Nisto se manifesta a glória do meu Pai: em que deis muito fruto e vos comporteis como meus discípulos" (Jo 15,1-8).

Comentário feito por João Paulo II sobre Santa Brígida
Papa
A fé cristã deu forma à cultura do continente europeu e combinou-se de forma inextricável, com a sua história, a ponto de esta ser incompreensível sem uma referência aos acontecimentos que caracterizaram, primeiro o grande período da evangelização, depois os longos séculos no decurso dos quais o Cristianismo se afirmou, apesar da dolorosa divisão entre o Oriente e o Ocidente, como a religião dos europeus. [...] O caminho em direção ao futuro não pode deixar de ter em conta este fato; os cristãos são chamados a ter dele uma consciência renovada, a fim de darem conta das suas permanentes potencialidades. Têm o dever de dar à construção da Europa um contributo específico, que terá tanto mais valor e eficácia quanto souberem renovar-se à luz do Evangelho. Serão então os continuadores desta longa história de milênios, em que os santos oficialmente reconhecidos não são mais do que cumes propostos como modelos para todos. Há, com efeito, inúmeros cristãos que, pela sua vida reta e honesta, animada pelo amor a Deus e ao próximo, alcançaram, nas mais diversas vocações consagradas e laicas, uma santidade verdadeira e largamente difundida, ainda que se mantivesse oculta. A Igreja não duvida de que este tesouro de santidade é precisamente o segredo do seu passado e a esperança do seu futuro. [...] Foi por isso que, completando aquilo que fiz quando declarei padroeiros da Europa, a par de São Bento, dois santos do primeiro milénio, os irmãos Cirilo e Metódio, pioneiros da evangelização do Oriente, pensei agora completar o cortejo dos padroeiros celestiais com três figuras igualmente emblemáticas de momentos cruciais deste segundo milênio que chega agora ao fim: Santa Brígida da Suécia, Santa Catarina de Sena, Santa Teresa Benedita da Cruz. Três grandes santas, três mulheres que, em três épocas diferentes - duas em plena Idade Média, uma no nosso século -, se evidenciaram pelo seu amor ativo à Igreja de Cristo e pelo testemunho prestado à Sua cruz.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Férias: o tempo da liberdade


por Luigi Giussani

“A espera das férias documenta uma vontade de viver: exatamente por isso não devem ser ‘férias’ de si mesmo. Então, as férias não serão uma interrupção ou uma prorrogação do levar a sério a vida” (Milano Studenti, 5 de junho de 1964). Apontamentos de um diálogo, tomando um aperitivo, com dom Giussani, antes de partir para as férias.

Desde os primeiríssimos dias de Juventude Estudantil (como era conhecido CL no início; ndt), temos um conceito claro e simples: tempo livre é o tempo no qual a pessoa não é obrigada a fazer algo, não existe algo que se obrigado a fazer, o tempo livre é tempo livre.
Como discutíamos muito com os pais e com os professores sobre o fato de que GS (Giuventù Studentesca – Juventude Estudantil; ndt) ocupava muito o tempo livre dos garotos, enquanto que eles deveriam estudar ou trabalhar na cozinha, em casa, eu dizia: “Os garotos terão o tempo livre!”. “Mas, um jovem, uma pessoa adulta”, me objetavam, “é julgado pelo trabalho, pela seriedade com a qual trabalha, pela tenacidade e pela fidelidade com a qual trabalha”. “Não”, eu respondia, “que história é essa?! Um garoto é julgado pela forma como usa o tempo livre”. Oh, todos se escandalizavam. E, porém... se é tempo livre, significa que a pessoa é livre para fazer o que quer. Por isso, aquilo que a pessoa quer é compreendido pela maneira como usa o tempo livre.
Aquilo que uma pessoa – jovem ou adulto – verdadeiramente quer é compreendido não pelo trabalho, pelo estudo, pelas conveniências ou pelas necessidades sociais, mas pelo modo como usa o tempo livre. Se um garoto ou uma pessoa madura disperdiça o tempo livre, não ama a vida: é bobo. As férias, de fato, são o tempo clássico no qual quase todos se tornam bobos. Pelo contrário, as férias são o tempo nobre do ano, porque são o momento no qual a pessoa se empenha como quer com o valor que reconhece prevalente na sua vida, ou pelo contrário não se empenha de fato com nada e, então, é um bobo.
A resposta que dávamos aos pais e professores, há mais de quarenta anos atrás, tem uma profundidade que eles nunca chegaram a entender: o maior valor do homem, a virtude, a coragem, a energia do homem, aquilo pelo que vale a pena viver, está na gratuidade, na capacidade de gratuidade. E a gratuidade está exatamente no tempo livre que emerge e se afirma de modo surpreendente. O modo de rezar, a fidelidade à oração, a verdade dos relacionamentos, a dedicação de si, o gosto pelas coisas, a modéstia no usar a realidade, a comoção e a compaixão com as coisas, tudo isso é muito melhor identificado nas férias do que durante o ano. Nas vérias, a pessoa é livre e, se é livre, faz aquilo que quer.
Isto quer dizer que as férias são algo importante. Antes de mais nada, isto implica uma atenção na escolha da companhia e do lugar, mas sobretudo diz respeito ao modo como se vive: se as férias não fazem com que você recorde aquilo que você mais gostaria de recordar, se não tornam você mais bom com os outros, mas tornam você mais instintivo, se não fazem você aprender a olhar a natureza com intenção profunda, se não fazem você realizar um sacrifício com alegria, o tempo de repouso não atinge o seu objetivo. O critério das férias é respirar, possivelmente a plenos pulmões.
Deste ponto de vista, fixar como princípio a priori que um grupo deva fazer férias junto é, antes de mais nada, contrário a tudo o que dissemos, porque os mais fracos da companhia, por exemplo, podem não ousar dizer “não”. Em segundo lugar, é contra o princípio missionário: sair de férias juntos deve responder a este critério. Por isso, antes de tudo, a liberdade deve estar acima de todas as coisas. Liberdade para fazer o que se quer... segundo o ideal! Do que se enche o bolso, quando se vive assim? De gratuidade, de pureza, de relacionamento humano.
Em tudo isto a última coisa de que nos podem acusar é de convidar para uma vida triste ou de obrigar a uma vida difícil: seria o sinal de que exatamente quem objeta é triste, tedioso e descarnado. Onde descarnado indica quem não come e não bebe, por isso não goza a vida. E dizer que Jesus identificou o instrumento, o nexo supremo entre o homem que caminha na terra e o Deus vivo, o Infinito, o Mistério infinito, com o comer e com o beber: a eucaristia é comer e beber – mesmo que, agora, seja tão frequentemente reduzida a esquematismo do qual não se entende mais o significado. É um comer e um beber: agape é um comer e beber. A maior expressão do relacionamento entre mim e esta presença que é Deus feito homem em Ti, Cristo, é comer e beber conTigo. Onde você se identifica com aquilo que come e bebe, de tal forma que “mesmo vivendo na carne, eu vivo na fé do Filho de Deus” (“fé” quer dizer reconhecer uma Presença).

* Extraído de CLOnLine. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

Solidariedade e confiança para enfrentar a crise


A importância da subsidiariedade na Encíclica. Caritas in veritate, o mercado deveria levar em conta os interesses de todos, não apenas dos patrões

Por Alberto Quadrio Curzio

Caritas in veritate, a encíclica social de Bento XVI, é um documento complexo que exigirá muita reflexão para avaliar a sua inserção na continuidade da doutrina social católica à qual João Paulo II deu, sobretudo com a Centesimus annus (1991), um notável empurrão, assim como já havia feito Paulo VI com a Populorum progressio (1967). Dois verdadeiros e justos desenvolvimentos da doutrina social da Rerum Novarum (1891). O economista deve estar a par de que o fundamento e a perspectiva da Encíclica é teológico-antropológica e que uma reflexão apenas de tipo institucional-social-econômica sobre ela é muito parcial. Porém, não é inútil, na medida em que a doutrina social católica oferece uma orientação ideal, atemporal e a-espacial, a todos aqueles que, nas diversas responsabilidades, devem enfrentar e resolver problemas sócio-econômicos num momento histórico e geográfico específico. A doutrina social não propõe modelos econômicos e políticos, porém. A entonação da Caritas in veritate é que a crise e as dificuldades enfrentadas, presentemente, pelos Estados, pela sociedade e pela economia são devidas sobretudo à falta ou à carência de uma adequada inspiração solidária, orientada para o bem comum, o que significa “cuidar, de um lado, e servir-se, de outro, daquele complexo de instituições que estruturam jurídica, civil, política e culturalmente o viver social, que de tal maneira toma a forma de polis, de cidade”. Isto traz à tona o problema do significado do desenvolvimento e de como consegui-lo. Uma resposta unificada e unificante ao problema do desenvolvimento orientado para o bem comum e para a promoção da pessoa pode ser encontrado na Caritas in veritate, em consonância com a Centesimus annus, na combinação de subsidiariedade e solidariedade, dois princípios presentes na doutrina social católica. “O princípio de subsidiariedade”, afirma a última encíclica de Bento XVI, “está estreitamente ligado ao princípio da solidariedade e vice-versa, porque se a subsidiariedade sem a solidariedade decai no particularismo social, é também verdade que a solidariedade sem a subsidiariedade decai em assistencialismo que humilha o portador de necessidade”. Afirmação que é completada pela seguinte: “Manifestações particulares de caridade e critério para a colaboração fraterna de crentes e não crentes é, sem dúvida, o princípio de subsidiariedade, expressão da inalienável liberdade humana”. A Caritas in veritate enfatiza estes grandes ideais, que são também critérios operativos, colocando-os lado a lado com outros critérios como a complementariedade entre justiça comutativa, que preside os contratos, justiça distribuitiva e justiça social, que se fundam e geram equidade e confiança. Assim, a Encíclica afirma que “sem formas internas de solidariedae e de confiança recíproca, o mercado não pode cumprir plentamente sua função econômica. E hoje é esta confiança que começou a faltar, e a perda da confiança é uma perda grave”. Reelaborando e sintetizando, a Caritas in veritate, tomando por base a Centesimus annus, esclarece que tudo isso passa através das instituições (que fixam regras e as fazem respeitar), da sociedade (que age a partir de um princípio de coesão e de convicção), do mercado (que age segundo critérios econômicos de conveniência e não contra o em comum fixado pelas regras de concorrência e de correção). O equilíbrio entre essas forças deveria ser inspirado por uma convicta e não forçada solidariedade operante que combine liberdade e responsabilidade. Os princípios gerais, enunciados antes, encontram muitas aplicações na Caritas in veritate, que como entonação prefere a que recria e reforça os ideais, à de uma lógica econômica que, fora da história e dos ideais, se torna mecanicismo. Colocando-nos entre ideais e lógica, devemos avaliar as proposições da Encíclica sobre instituições, sobre sociedade, sobre mercado, sobre economia, sobre proveito, sobre terceiro setor, sobre globalização e sobre a crise. Definitivamente, todos grandes temas do século XXI e, não podemos deixar de dizer, também heranças do século XX. É impossível tratar de todos eles. Concentremo-nos então, neste momento, sobre o modo de compreender a empresa (assim como nos diz a Caritas in veritate). Afirma-se que a empresa não deve levar em consideração apenas os interesses dos proprietários, mesmo que legítimos e merecedores de cuidado, mas também de todos os outros sujeitos envolvidos na sua atividade: trabalhadores, clientes, fornecedores, comunidade e território de referência. Sabemos que esta convicção, muito diversa daquela nascida das doutrinárias libertárias (que, com o seu absoluto do “criar valor a qualquer custo para os acionistas”, sustentam que, para tal fim, basta o liberalismo), responde frequentemente às exigências dos melhores empreendedores, os quais, na sua atividade, desenvolvem uma criatividade pessoal e comunitária que encontra no proveito um complemento irrenunciável, mas não suficiente, para que a empresa prospere. A Caritas in veritate exprime, sempre em consonância com a Centesimus annus, o apreço pelas obras destes empreendedores, encorajando os outros a seguir o seu exemplo. E eis como no caso específico da empresa econômica os ideais se traduzem em fatos, vivendo na liberdade responsável empregada.

* Extraído do jornal ItaliaOggi, do dia 22 de julho de 2009 (p. 4). Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

Aquela corrida para o espaço que nos fez entender quem somos


por Marco Bersanelli

A Terra é o único “planeta duplo” do sistema solar, quer dizer é o único com um satélite de dimensões comparáveis ao planeta mesmo. Penso nisso quando, às vezes, olho o disco branco da Lua que clareia as nossas noites terrestres. A Lua é um corpo relativamente grande e próximo, o gêmeo um pouco menor da Terra. Este fato tem muitas e profundas consequências. Antes de mais nada, desde a pré-história, o homem pôde gozar de uma lâmpada noturna, e pôde exercitar a sua imaginação interrogando-se sobre a natureza daquele misterioso globo iluminado de formas diversas. A Lua é suficientemente grande e próxima, de forma que, mesmo a olho nu, podemos descobrir algumas estruturas na sua superfície, aquelas manchas escuras que tantas discussões acendiam entre os medievais. E Galileu, quatrocentos anos atrás, com um instrumento rudimentar, descobriu crateras e montanhas, revelando a natureza “terrestre” da matéria lunar. Não apenas: sem uma Lua grande e próxima, provavelmente não estaríamos aqui. De fato, a sua presença assegura à Terra a estabilidade da inclinação do eixo de rotação, condição necessária para a estabilidade do clima nos bilhões de anos necessários para a evolução biológica.
Mas, há uma outra consequência: um satélite grande e próximo está mais facilmente ao nosso alcance! A Lua é suficientemente maciça para podermos caminhar nela e a sua distância – 380 mil Km – não é proibitiva. Já nos anos 60, quando o sonho se tornou realidade, um bom velho Volvo talvez conseguisse, no arco de sua carreira, percorrer essa distância, e um avião de linha fazia muito mais quilômetros que isso. Mas, a distância não é tudo, e o desafio é muito mais difícil: a confiabilidade do foguete, o cálculo da velocidade ideal para sair do campo gravitacional terrestre, a desaceleração para aterrar docemente na superfície lunar, a separação e a religação do LEM à nave mãe, a trajetória de reentrada, e infinitos outros aspectos críticos enfrentados pela primeira vez... foi uma aventura absolutamente extraordinária. E que emoção ver a primeira pegada humana no solo extraterrestre, e a vista da esfera azul da Terra que aparece no horizonte lunar! Imagens que falam de toda a fragilidade e grandeza do homem. Um ponto de não retorno.
O homem é atraído pela altura, pelo risco, pela conquista, como todo alpinista e esportista sabem muito bem! E sabe-se que no alpinismo e no esporte há um componente de competição que, por assim dizer, faz parte do jogo. Mesmo os exploradores que séculos atrás iam atrás de novos caminhos de navegação e de “terras incógnitas” para conquistar disputavam para ver quem chegava primeiro. E foi uma verdadeira e trágica corrida aquela que a expedição do inglês Robert Scott fez contra a norueguesa di Roald Amundsen, que, cem anos atrás, levou à conquista do Pólo Sul. Mas, no caso da conquista da Lua, a competição foi de natureza econômica, tecnológica e sobretudo política. Nos anos 60, em plena guerra fria, estava em jogo a supremacia entre Estados Unidos e União Soviética. Em 1957, a URSS surpreendeu os americanos com o lançamento da Sputnik-1, o primeiro satélite em órbita em torno da Terra, e apenas dois anos mais tarde obteve, com a sonda Luna-2, as primeiras imagens da face escura do nosso satélite. O desafio estava lançado. O objetivo Lua se torna, de repente, uma questão de prestígio, um resultado simbólico, um sinal de supremacia planetária.
As motivações não foram de tipo científico. De resto, por que, depois de 40 anos, não voltamos mais à Lua? O fato é que, do ponto de vista do conhecimento, ter mandado alguns homens para a Lua não trouxe grandes novidades. Assim, depois da primeira histórica aventura da Apollo 11, as outras cinco expedições lunares passaram um pouco despercebidas (exceto a dramática aventura da Apollo 13...). Uma vez plantada a bandeira americana, por 40 anos ninguém mais se propôs seriamente a voltar lá. O programa Apollo permitiu, certamente, um enorme avanço no desenvolvimento de novas tecnologias e da informática, especialmente no campo espacial, civil e naturalmente militar. Mas, ficou claro, imediatamente, que a Lua, ainda que próxima da companheira Terra, é um lugar muito inóspito.
A NASA continuou a investir em expedições humanas com o programa Shuttle e a Estação Espacial Internacional, também com a colaboração da ESA. Um dos resultados que emergiram com clareza é a dificuldade para o homem a permanecer por longos períodos no ambiente espacial privado de gravidade e de campo magnético. Hoje, os países emergentes, sobretudo a China, estão pensando em um programa humano na Lua, e a NASA quer responder com a proposta de uma base lunar permanente. Mas, vale a pena, de verdade, algo assim? A administração Bush foi quem retomou essa ideia com o desejo de um desembarque humano em Marte. Mas, para além das vozes midiáticas, as perspectivas são escassas porque uma viagem para Marte seria dificílima, com custos e riscos monumentais e, diria ainda mais, com ganhos cognoscitivos inúteis: além do mais, ineficiente se pensarmos nos programas baseados em sondas instrumentais robotizadas.
Logo depois da conquista da Lua, muitos experts previam que, “no ano 2000”, o homem teria chegado a Marte, Vênus, Plutão e talvez além desses limites. Estamos quase no ano 2010 e não apenas nada disso aconteceu, mas de fato nos desinteressamos elegantemente mesmo da Lua. E isto não por falta de coragem ou de capacidade, mas porque, hoje, somos mais conscientes de como estão as coisas. Demo-nos conta de que fazer o homem sobreviver por longos períodos no espaço é muito difícil e caro e, por enquanto, não acrescenta muito aos nosso conhecimentos. É auspicioso que este realismo saudável continue e aumente, e que, nas próximas décadas (depois, se verá...!), favoreça-se o desenvolvimento de satélites com instrumentos de observação e dispositivos robotizados que permitam ao homem trabalhar no espaço, estudar o universo profundo, o sistema solar e a Terra. A nossa Terra, o gêmeo maior do planeta duplo, que, desde aquele dia 20 de julho de 1969, nos aparece sempre mais como uma verdadeira joia do cosmo.

* Extraído do site IlSussidiario.net, do dia 20 de julho de 2009. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

O relativismo de Obama


por Lorenzo Albacete

Na semana passada, o presidente Obama escolheu a D.ra Regina Beckman como Surgeon General (diretora da saúde pública; ndr) dos Estados Unidos, uma espécie de “Doutora da América”. Algumas meses atrás, a Casa Branca fez circular o nome de um neurocirurgião, o D.r Sanjay Gupta, muito popular porque consultor médico do noticiário CNN (da TV a cabo), mas uma oposição a esta nomeção convenceu o presidente de retirar a candidatura de Gupta.
A principal razão da oposição era que Gupta não tinha nenhuma experiência de trabalho com os pobres e não era, portanto, capaz de entender as suas exigências quanto ao que respeita à assistência de saúde. Nesta semana, porém, o presidente escolheu uma pessoa que tem, sem dúvida, a experiência necessária, dado que gastou toda a sua carreira em favor dos pobres da Costa do Golfo, no Alabama. A D.ra Beckman é afro-americana e católica. (Onde Obama encontra pessoas assim? Penso também em Sonia Sotomayor que, nesta semana, passou pelo exame do Senado e será, quase certamente, confirmada como juiza da Suprema Corte. Sobreviveu ao exame negando descer dos cumes de uma absoluta neutralidade).
Com efeito, a reserva aparentemente inexaurível que Obama parece ter deste tipo de pessoas tem confundido a oposição conservadora e transtornado muitos de seus apoiadores progressistas. Nesta semana, o redator para questões religiosas do Time Magazine falou de uma “esquerda radical contra o presidente”, entrevistando Cornel West, professor em Princeton e “intelectual público”. West descreve a si mesmo como um membro da “esquerda religiosa”, que diz que Obama está sob a influência das “elites neoprogressistas” que ignoram as urgentes necessidades dos pobres. De fato, os pobres estão conquistando bem poucos benefícios dos programas presidenciais de recuperação da economia. Em outros termos, a acusação feita a Obama é de que ele abandonou “a opção preferencial pelos pobres”, que levou a esquerda a apoiá-lo com tanto entusiasmo.
Mas, é esta a verdade? Obama traiu as promessas eleitorais?
Num recente encontro com a imprensa católica, o presidente disse: “Creio que exista entre vocês alguém que espera o pior de nós, não a partir de algo que eu tenha dito ou feito, mas apenas a partir da percepção de que o nosso programa é duro e que estamos decididos a levá-lo a cabo”. Conservadores, neoconservadores, neoprogressistas não sabem o que fazer com o presidente, porque, na realidade, é um moderno relativista, cujas certezas não têm nenhum conteúdo específico.
Nesta semana, pensei no 40º aniversário da descida do homem na lua. Pessoalmente, dei algumas contribuições científicas para o programa espacial, pelo menos acredito nisso, e naquele dia pensei que aqueles primeiros astronautas na Lua, de alguma maneira, representavam também a mim. Todavia, naquele período, eu já havia decidido me tornar padre, francamente sem sentir nenhuma descontinuidade no meu caminho. O meu guia era Paulo VI.
Os astronautas que primeiro pisaram na superfície lunar levaram e deixaram lá uma mensagem na qual se citava o Salmo 8 sobre o homem e sobre Deus. Neil Armstrong disse que aquele encontro com o Papa, em outubro daquele ano, foi um dos eventos mais importantes da sua viagem para o espaço e do seu retorno à Terra.
O que isso tem que ver com o relativismo de Obama? O presidente quer retomar o programa espacial e, como naquela época, muitos da esquerda se opõem, enquanto que muitos da direita o apoiam, mesmo não confiando nele. (Quem é que consegue entender o que querem estes neoconservadores e estes neoprogressistas?!). Por que Obama quer que se volte à Lua? Talvez ele tenha visto nisto uma metáfora para uma confirmação “científica” do seu relativismo. Talvez não seja assim, mas se fosse, esvaziaria a aventura de todo entusiasmo. Quarenta anos atrás isto não teria acontecido.

* Extraído do site Il Sussidiario, do dia 22 de julho de 2009. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

Do que vivem os homens?


“Do que vivem os homens?”, se pergunta uma novela russa. “É o mundo que abandonou a Igreja ou a Igreja que abandonou o mundo?”, se pergunta Eliot. O ponto é exatamente o abandono. Justamente o contrário da postura de Deus: Ele está presente, com todo Si mesmo. Assim como fez dom Giussani, junto com tantos outros santos: se tornou presente, por aquilo que era, com o seu “sim” (SamizdatOnLine)

Vocês já os viram algumas vezes. Chegam quando a obscuridade começa a descolorir as coisas, e as luzes se acedem. São jovens, rapazolas. Colocam-se no murinho, no banquinho, sentando-se onde dá. Não se é muito exigente nesta idade. Muitos têm nas mãos as garrafas. Frequentemente de cerveja, raramente de vinho. E, depois, vodka, rum... de manhã, os vazios serão como as tristes sentinelas de uma outra noite passada.
Não! Não me digam que também no nosso tempo se fazia assim. Eu me lembro. Sim, algumas vezes se ia a uma festa e se bebia muito. Mas eram as exceções; ou porque não se tinha dinheiro ou porque não se tinha oportunidade. E, provavelmente, porque se tinha outras coisas para fazer. Uma vida para viver, cheia de promessas, pelo menos para muitos de nós.
Muitas pessoas me dizem que muitos desses jovens não caminham mais. Não caminham porque não sabem para onde ir. Não parece existir nada pelo que valha a pena se sacrificar, ou até mesmo fazer algum esforço. Não digo correr, mas nem mesmo caminhar. E mesmo aqueles que caminham parecem ir quase todos para lugares próximos.
Temos uma grande culpa. Demos a eles tudo aquilo que podiam desejar para ir vivendo, e sustentamos a afirmação de que não existia nada além daquilo. Nenhuma experiência do passado, nenhuma promessa, somente um contínuo presente. Mas, qual é o sentido deste presente? E se não tem sentido, o que é esta dor, este vazio que nem mesmo o cigarro ou a vodka conseguem preencher?
Pode-se vetar, justamente, o veneno. Mas, o que é que consegue preencher o vazio? Quem pode preencher o vazio que tem a forma de um homem?

* Editorial de SamizdatOnLine, do dia 21 de julho de 2009, escrito por Berliche. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.

Evangelho do dia (Jo 20,1.11-18)

No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo logo de manhã, ainda escuro, e viu retirada a pedra que o tapava. Maria estava junto ao túmulo, do lado de fora, chorando. Sem parar de chorar, debruçou-se para dentro do túmulo, e contemplou dois anjos vestidos de branco, sentados onde tinha estado o corpo de Jesus, um à cabeceira e o outro aos pés. Perguntaram-lhe: "Mulher, por que choras?". E ela respondeu: "Porque levaram o meu Senhor e não sei onde o puseram". Dito isto, voltou-se para trás e viu Jesus, de pé, mas não se dava conta que era Ele. E Jesus disse-lhe: "Mulher, por que choras? Quem procuras?". Ela, pensando que era o encarregado do horto, disse-lhe: "Senhor, se foste tu que o tiraste, diz-me onde o puseste, que eu vou buscá-lo". Disse-lhe Jesus: "Maria!". Ela, aproximando-se, exclamou em hebraico: "Rabbuni!" que quer dizer "Mestre!". Jesus disse-lhe: "Não me detenhas, pois ainda não subi para o Pai; mas vai ter com os meus irmãos e diz-lhes: 'Subo para o meu Pai, que é vosso Pai, para o meu Deus, que é vosso Deus'". Maria Madalena foi e anunciou aos discípulos: "Vi o Senhor!" E contou o que Ele lhe tinha dito (Jo 20,1.11-18).

Comentário feito por São Romano, o Melódio

As mulheres que levavam os aromas enviaram Maria Madalena ao sepulcro à frente delas, segundo o relato de São João Teólogo. Era de noite, mas o amor a iluminava, de tal maneira que ela viu a grande pedra rolada da frente da porta do túmulo e regressou dizendo: "Discípulos, sabei o que vi: a pedra já não tapa o túmulo. Terão levado o meu Senhor? Não se veem os guardas, fugiram. Terá Ele ressuscitado, Aquele que oferece a ressurreição aos homens caídos?" [...] Aquele que tudo vê, vendo Madalena dominada pelos soluços e acabrunhada pela tristeza, deixou-se tocar no Seu coração. [...] Aquele que sonda os rins e os corações, sabendo que Maria Lhe reconheceria a voz, chamou a Sua ovelha, Ele que é o verdadeiro pastor: "Maria!", disse-lhe. E ela imediatamente O reconheceu: "É o meu bom pastor, que me chama para me contar entre as noventa e nove ovelhas. Sei bem quem Ele é, Aquele que me chama; já o tinha dito, é o meu Senhor, Aquele que oferece a ressurreição aos homens caídos". [...] O Senhor disse-lhe: "Mulher, que a tua boca proclame estas maravilhas e as explique aos filhos do Reino, que esperam que Eu desperte, Eu que estou vivo. Vai depressa, Maria, reúne os Meus discípulos [...]; desperta-os a todos como que de um sonho, a fim de que venham ao Meu encontro com as lamparinas acesas. Vai dizer-lhes: o Esposo acordou, saiu agora do túmulo. [...] Apóstolos, afastai a vossa tristeza mortal, pois despertou Aquele que oferece a ressurreição aos homens caídos". [...] "Subitamente, o meu luto transformou-se em júbilo, tudo se tornou para mim alegria e felicidade. E não hesito em dizer: recebi a mesma glória que Moisés; vi, sim, vi, não no alto da montanha, mas no sepulcro, não velado por uma nuvem, mas no seu corpo, vi o Senhor dos seres incorpóreos e das nuvens, Aquele que é, que era e que há-de vir. Foi Ele que me disse: detém-te, Maria, vai revelar àqueles que Me amam que Eu ressuscitei. Vai levar esta boa nova aos descendentes de Noé, como a pomba lhes levou o ramo de oliveira (Gn 8, 11). Diz-lhes que a morte foi destruída e que Aquele que oferece a ressurreição aos homens caídos Se elevou do túmulo".

terça-feira, 21 de julho de 2009

Cartas do P.e Aldo 94





Asunción, 21 de julho de 2009.

Caros amigos,
olhem a alegria de viver de quem, pelo "mundo", é condenado a morrer.
Olhem para o Paulo com o enorme câncer nas costas... também ele nos diz que cada circunstância é positiva porque "eu sou Tu que me fazes".
P.e Aldo

foto 1: Celeste
foto 2: Celeste e Aldino
foto 3: Paulo, P.e Aldo, Celeste, Mário, Aldino e enfermeiras
foto 4: Paulo, P.e Aldo e Mário