terça-feira, 30 de junho de 2009

Cartas do P.e Aldo 79




Asunción, 29 de junho de 2009.

Caros amigos,
A vida é um milagre contínuo por aqui.
Mais uma vez, Marciana é a protagonista. Já está mesmo no fim e, na sua pouca capacidade de escutar e ainda menos de falar, manifestou o desejo de organizar, no próximo domingo, dia 05 de julho, na frente da Igreja, uma mostra para os nossos amigos, com os 40 quadros que pintou nos últimos meses, dois dos quais na semana passada. Deus queira que esteja ainda viva, porque, como mostra a foto que mando para vocês, desde esta manhã já está pertinho do seu Jesus. Meu Deus, como ela O ama.
Esta manhã, dando-lhe a comunhão (um pedacinho pequeno de hóstia), perguntei a ela “Marciana, como está?”, e ela: “Muito bem, padre!”.
Olhei para as suas mãos, que já são pele e osso, a beleza das suas unhas pintadas com esmalte cor de uva, os cabelos bem arrumados, todo o seu corpo já um esqueleto: sinais que indicam a consciência da sua feminilidade, cuidada em todos os detalhes, pronta para encontrar Jesus. Mesmo as unhas dos pés estão perfeitas e bem esmaltadas.
Amigos, “eu sou Tu que me fazes”. Marciana vive desta certeza. Para ela, aquilo que Carrón nos repete é a sua carne. Se nós seguíssimos Carrón como ela segue... Pessoalmente, eu passo o dia na clínica, repetindo a todos aquilo que ele nos ensina, em particular seguindo aquilo que nos diz na Escola de Comunidade que um amigo me envia. Amigos, este milagre seria impessável sem esta liberdade de seguir o que o Carrón diz.
Talvez alguns já estejam cansados de ouvir de mim estas coisas... para mim, pouco interessa, porém a verdade desta minha insistência é porque toco com a mão, vejo os milagres que esta filiação produz. E se não acreditamos no milagre de que, entre as dores do câncer, está morrendo com o sorriso na boca, não devemos mais acreditar em ninguém.
Acrescento, ao final, as “frases” que Marciana escreveu atrás de cada quadro. São, de fato, desconcertantes e comoventes.
Ciao.
P.e Aldo


É tranquilo como a água cristalina, é terno como um passarinho cuidando de sua cria no ninho, é sagaz como uma criança.

Deus me colocou no mundo no dia mais belo do ano, 20 de setembro, é por isso que no meu coração existe apenas primavera.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Cartas do P.e Aldo 78




Asunción, 29 de junho de 2009.

Amigos,
“Morte, onde está a tua vitória?” Olhemo-nos bem!
A cada sábado à noite ocupamos uma pequena parte da pizzaria para fazer festa e comer (aqueles que podem) com os doentes terminais que conseguem ficar sem oxigênio.
A foto nos mostra a alegria deles, neste último sábado. Faltam alguns que estavam no sábado anterior, porque morreram nesta semana... alguns dos que veem, hoje, no próximo sábado, não estarão mais conosco para fazer festa, porque estarão com Jesus.
As pessoas entram, os reconhecem e ficam maravilhadas, como eu também.
A irmã que vive na clínica 24h por dia, toca harpa e eles cantam, como conseguem (mas cantam). Atílio, aquele magríssimo e pequeno, como também José, aquele grande e gordo, eram músicos andarilhos. Mulheres, baile e todo o resto. Um câncer, metástase... Chegam aqui moribundos. O amor faz o milagre: se recuperam um pouco e ei-los na pizzaria cantando.
Amigos, mas eles são doentes terminais, sabem que têm as horas contadas. No entanto, olhem para eles. Vocês se lembra do que Carrón nos disse nos Exercícios, na sexta à noite, quando falou da positividade das circunstâncias? Pois é, o meu hospital, do jeito que é, vive a Escola de Comunidade.
Conscientes de terem os dias contados, o que podemos fazer? Encontrarmo-nos numa pizzaria para beliscar alguma coisa e cantar?
E vocês veem a alegria deles quando cantam!! Mesmo a pizzaria se tornou um lugar para saborear os últimos dias.
Em suma, o problema é apenas um, e os mes doentes e todos os que trabalham na clínica o vivem: eu sou Tu que me fazes! Repitamos isso a cada minuto e estou certo de que, mesmo para vocês, a morte não lhes tirará o sorriso, porque Ele está presente... e como está presente!
A dor é um mistério, assim como a morte... mas o Mistério se fez carne e, a cada sábado, nos faz companhia na pizzaria.
Ciao
P.e Aldo

Cartas do P.e Aldo 77

Asunción, 27 de junho de 2009.
Caros amigos,
Muitos pedem para vir até nós. Ficamos gratos. Porém, gostaria de recordar que se ama a Cristo ficando onde se está, levando a sério aquilo que Carrón nos tem dito.
Se falta esta posição, o desejo de vir para cá é uma fuga das circunstâncias, quaisquer que sejam.
É belíssimo o que o Carrón nos disse nos Exercícios, na sexta à noite. Tudo se joga ali. E viver tudo o que ele nos disse é a única maneira de nos ajudarmos verdadeiramente. De outra forma, tudo se torna ilusão, pretensão, generosidade e confusão.
Desejo lembrar também que, se alguém deseja vir, na medida em que os padres da minha comunidade estiverem de acordo, falaremos sobre isso somente a partir de outubro. Durante o mês de setembro teremos a graça de ter, na América Latina, a presença de Carrón, que vem para os Exercícios do G.A. (refere-se ao Grupo Adulto, a realidade dos Memores Domini, os leigos consagrados de Comunhão e Libertação; ndt) e dos padres... e, depois, ele virá ao Paraguai, de forma que desejamos gozar tranquilos desta graça.
Que Deus abençoe a cada um de vocês, exemplos de caridade.
P.e Aldo

sexta-feira, 26 de junho de 2009

À porta... encontros!

Ontem, quando cheguei em casa, bati na cama, chorando sem entender por quê... era como se, de repente, a Solidão estivesse à porta... com a mão na maçaneta, enchendo de medo gelado o quarto. Dormi sem me dar conta, de repente... e me lembro de que a última coisa que disse foi: "Senhor, não me deixes sozinho".
Acordei, hoje cedo, com medo de abrir a porta e encontrar Ela lá, de pé, impassível, à minha espera, pronta para me abraçar e cobrir-me com seu véu escuro. Tomei café da manhã em silêncio... e sozinho, mesmo que os olhos vissem rostos em cada canto... é porque Ela estava com a sua mão magra no meu ombro, bem atrás de mim, soprando um hálito frio... peguei o carro e vim para o trabalho. No caminho, eu tentava entender... e Ela estava ali, de novo, assentada ao meu lado, me velando com seus olhos sem cor.

Aí, eu chego aqui, me assento para escrever um monte de coisas patéticas, enquanto, um após outro, entram alunos para me entregar os trabalhos finais... mas, mais do que isso, eles me entregavam um pedacinho (em alguns casos peças inteiras, em outros era o inteiro mesmo) de suas vidas, ou então para entregar uma gratidão comovida, ou um silêncio cheio de palavras definitivas, um olhar vivo e inteiro e cheio de humanidade, ou um abraço quente cheio de uma compaixão que eu descobria, mas nem sei se eles a tinham, ou uma história bonita... e eu, nesse instante mesmo em que escrevo, tendo acabado de abraçar o Roberto, depois de uma conversa tão bonita, recheada de hiatos que comunicavam tanta coisa nos olhares tímidos que, de vez em quanto, cruzavam o meu ("eu queria, professor, que o senhor entrasse aqui dentro da minha cabeça para entender o que eu não dou conta de lhe dizer do jeito justo: o senhor entende quanta diferença fez na minha vida? será que o senhor entende como uma pessoa pode fazer diferença na vida de uma outra?", "sim, Roberto! Eu entendo... e você não imagina o quanto!", disse-lhe com os olhos rasos e cheios de memória; "quando eu entrei na sua aula, queria que terminasse logo, duvidava de tudo, duvidava de mim mesmo e de toda possibilidade de realização na universidade... agora, descobri que o que aprendi está aqui dentro e não vai embora mais... e terminou... mas, tenho a impressão de que só começou"), pois é, nesse instante mesmo "choro feito um homem, sorrio feito uma criança"... me dizendo: "meu Deus, se a vida não for todos os dias assim, a vida é nada! Preciso do Seu rosto com essa potência todo dia, em todos os instantes".
Enquanto conversava com Roberto, chegou a Bárbara - lembram-se dela? falei dela num post de alguns dias atrás (clique aqui, para ler). Ontem, ela me mandou um email cheio de realização... E, hoje, ela me chega aqui e era um abraço só... Ouvindo-a, olhando-a, meu coração não parava de gritar: "Meu Deus, o que estás fazendo na vida dessa mulher?". E ela me dizia: "professor, eu não sei o que vai ser... mas, descobri que se eu der a vida para isso, eu vou para o céu!"... ela estava me dizendo: a vida só se realiza se for dada. Quando saiu, o Roberto disse: "que medo! essa mulher mete medo!... medo?... ... ... não... ... ... não é a palavra justa... também quero ser assim! Deve ser vertigem!".
Pouco antes do Roberto e da Bárbara, a Paloma me mostrou seu trabalho... conversamos, enquanto me comovia ao ver as fotos que tirou e ao ouvir a experiência que fez. "Sabe, professor, o dono da escola onde trabalho decidiu abrir essa escola [é uma escola de educação especial] depois que ficou tetraplégico em um acidente. Quando olho para ele, ou quando penso naquelas coisas que você contava em sala de aula - da Bárbara, do P.e Aldo, da Vicky, da Sêmea e do Edimar, das suas experiências com o Marcos e a Cleuza... -, me dou conta de que desejo muito algo assim... às vezes, pensava que era preciso ser uma espécie de herói, ter uma coragem sobre-humana... mas, comecei a me dar conta de que a coragem que preciso ter, na verdade, é a coragem de me deixar ser... eu vi acontecendo tanta coisa quando simplesmente me deixei ser... quero uma vida assim!".
De repente, tendo ouvido tudo o que ouvi, visto tudo o que vi, abraçado todos que abracei, nessas últimas horas, entendi que aquele medo de ficar sozinho só pode ser vencido por isso: é que tive um vislumbre, num átimo, não dEle, mas de mim mesmo desejando-O com uma urgência gritante... Estranho! "Desejando-O?", alguém se perguntaria... É que, no mesmo átimo, entendi que se não fosse aquela urgência, o rosto da Bárbara, o rosto da Paloma, o rosto do Roberto, o rosto da Nayara, o rosto da Gisele, o rosto da Valéria, o rosto do Mártin... aqueles rostos todos seriam apenas rostos sem forma, objetos sobre os quais não poderia debruçar nem um pingo de afeição e de ternura... e, exatamente por causa daquela urgência surpreendida (entendi exatamente o que significa me surpreender!!!!), aqueles rostos eram o manto claro, o hálito benfazejo, a mão quente, o olhar misteriosamente cheio de ternura do Senhor... nesse mesmo instante, me surpreendi de novo, dizendo: "Por que fazes assim? Quem sou eu para que cuides assim de mim?"... Enquanto os alunos entravam, Ela - a Solidão - foi se tornando um trapo, foi se tornando, pouco a pouco, um tecido esvoacento insustentável por si mesmo... restaram apenas os traços dela, vestígios como que para me dizer: "a dor que eu te causo é que te faz buscá-Lo...". E, então, descobri naquela companhia indesejável, a misericórdia pedagógica dEle, me dando sinais de um caminho a trilhar. E entendi que aquele choro de ontem à noite era a minha humanidade, a Vida da minha vida, me dizendo: "o que a realidade te grita, Paulo, é que 'sem Mim, nada podes fazer!'".
E descubro, então, que à porta não estava Ela... mas encontros... e um novo, constante, urgente, início... com Ele.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Cartas do P.e Aldo 76

Asunción, 25 de junho de 2009.

Caros amigos,
depois dos Exercícios de Rímini, que vivemos neste último fim de semana através da gravação, senti a urgência de visitar Marcos e Cleuza, para dividir com eles a minha comoção, como já havia acontecido em abril, de cada palavra escutada.
Normalmente, já há alguns meses que nos encontramos muito frequentemente.
Agora, sou eu que vou, porque somente dessa forma aquilo que Carrón nos disse se torna carne. E foi belo. Encontramo-nos no aeroporto às 15h e foi uma festa, como sempre. Depois, fomos para a casa de Marcos e Cleuza, junto com o grande amigo P.e Julián de la Morena e outras 15 pessoas, para o encontro da fraternidade. Éramos 17 pessoas, ao todo, e sem nos darmos conta chegamos a 21 pessoas. Missa, jantar e conversa até a meia-noite, quando a Paola, de Salvador (Bahia), disse: “depois de ter escutado tantos milagres, vamos dormir pelo cansaço”. Que febre de vida! A pergunta da qual partimos, colocada pelos Zerbini, era: “como a nossa vida mudou depois de nosso último encontro no Paraguai?”... e, obviamente, à luz dos Exercícios. Os nossos amigos do movimento dos “Sem-Terra”, aqueles que foram totalmente tomados, afeiçoados pelo carisma de dom Giussani, nos comoveram a todos literalmente pelos milagres, pela verdade com a qual contavam a história de suas vidas.
De verdade, experimentei, como sempre, aquilo que os apóstolos viviam com Jesus. E não apenas eu, mas também os que foram dormir à 1h30 da manhã... tão belo era respirar Jesus e a realidade. Alguém poderá se perguntar: mas, de onde nasce esta amizade potente, que se tornou mais necessária que o ar que respiramos?
Um amigo disse, naquela noite, que esta amizade é bela e verdadeira por estes motivos:
1. Porque todos olhamos para o Carrón. Sentimo-nos filhos. Os nomes que sempre aparecem entre nós são: Jesus, o Papa, Giussani e Carrón. Sem Carrón não nos teríamos conhecido, porque tudo começou quando Carrón nos disse para onde devíamos olhar. E é algo que se a pessoa não vive, não poderá entender.
2. A caritativa – a "sopa do P.e Aldo". Trata-se de um gesto de caridade que, na Associação de Marcos, se realiza a cada sexta-feira, depois da Escola de Comunidade. Vendem a “sopa” também na rua, para ajudar as minhas Casinhas de Belém. Vocês sabem como Marcos e Cleuza definem a caritativa? Um gesto para recordar o rosto do amigo P.e Aldo. Isto é, trata-se de um gesto para viver a memória dos rostos que caminham juntos, seguindo Carrón. Nunca havia escutado uma definição assim da caritativa. Cozinham a “sopa” depois da Escola de Comunidade e a vendem para recordar um amigo, o rosto, o olhar de um amigo. Portanto, trata-se de uma amizade que é operativa e não boas intenções.
3. O tempo nos é dado para nos encontrarmos, isto é, para ir até o coração da realidade, para viver as circunstancias, quaisquer que sejam, como se fossem o sorriso de Deus (enumerar os fatos contados seria muito longo).
4. Esta amizade é uma proposta para todos, porque o movimento é toda pessoa que fica surpresa ao ver homens que se querem bem e pela paixão com a qual olham para o seu destino. Homens cuja única obra não é o movimento dos “Sem-Terra” ou as obras de São Rafael, mas a construção do próprio eu. Não se percorrem 3 mil quilômetros a cada 15 dias se não for por causa dessa obra: a construção do eu.
5. É uma amizade definida pela festa. Mesmo a Missa, o jantar – nem lhes conto como era saboroso o sinal desta festa.

Uma última nota: uma das coordenadoras dos “Sem-Terra” disse: “se as pessoas da clínica de São Rafael não têm medo de morrer, por que eu deveria ter medo daquilo que acontece a cada dia? Mudou a concepção que tinha da vida”.
De fato, voltei – ida e volta – com o coração transbordante de alegria, desejoso de gritar a todos e de todos os modos possíveis os milagres desta amizade que só é possível viver, seguindo quem hoje garante o carisma de Giussani – Carrón. A única obra que me interessa é sempre mais seguir este homem, porque seguindo-o, até mesmo o conceito de desenvolvimento, o conceito de colaboração, de economia, mudam e tudo se torna um desejo louco de que Cristo seja conhecido e amado. Estou aqui, sozinho, para testemunhar esta experiência, para mim, cheia de letícia... e o faço há 62 anos e meio.
E pensar que, como sempre recorda Cleuza, ha um ano atrás eles não sabiam da minha existência, enquanto que eu, sim, mas não podia nem imaginar o que aconteceu a partir de novembro de 2008.
Verdadeiramente, não poderei mais ficar sem vê-los, escutá-los, porque é como reviver cada vez aquele abraço de Giussani, dado há muitos anos atrás e que mudou a minha vida.
Hoje, eles são, para nós de São Rafael, o ponto luminoso que torna feliz a nossa vida.
Ciao
P.e Aldo

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Cartas do P.e Aldo 75



Asunción, 21 de junho de 2009.

Caríssimos,
“O pensamento mais correto, mais científico, não é nada diante daquilo que acontece; a loucura consiste em acreditar que são eventos os simples pensamentos”.
Esta afirmação de Pavese descreve bem a minha história e também o trabalho cotidiano de que fala Carrón, o trabalho a que sou chamado a fazer sobre mim mesmo. Um trabalho sustentado de modo excepcional pela dor que me circunda e que está dentro de mim 24h por dia. Parecerá para muitos um absurdo, porém eu acho muito bonita uma frase que uma amigo me disse, comentando a frase de Pavese: “o remédio para a loucura é dado pela dor, que – sim ou sim – nos faz colocar os pés na terra”.
Colocar os pés na terra é a grande batalha dos últimos 20 anos... até hoje, dia em que completo 38 anos de sacerdócio. E o que me permite o milagre que é amar a verdade dos “pés na terra”, da realidade, o milagre que me permite viver comovido, em paz, mesmo quando, como hoje, as circunstâncias parecem negativas (o drama dos maus pensamentos, que é o que nos distrai da verdade, da realidade), enquanto são positivas? É a graça... a graça mendigada instante após instante, mesmo fisicamente, repetindo sempre “eu sou Tu que me fazes” ou “mesmo os cabelos da tua cabeça estão contados”.
Hoje, há 38 anos atrás, eu estava sendo ordenado sacerdote. O evangelho do dia era Mt 6, 24-34, onde Jesus faz várias perguntas a seus discípulos, perguntas que têm como fundo aquilo que o Carrón nos repete frequentemente: “mesmo os cabelos da tua cabeça estão contados”. Mas, então, vocês entendem que, de fato, o primeiro trabalho a fazer é pedir que este capítulo de Mateus se torne carne? Humildemente, mas olhando de verdade para mim mesmo e para a minha história, descubro que o que acontece é literalmente aquilo que descreve São Mateus. Mas, pensem: se a minha vida não fosse assim, se todas essas obras não fossem assim... que sentido teriam? Nenhum.
Sim, para sair da “loucura”, isto é das imaginações, dos projetos, dos pensamentos, é necessário que as palavras de Mateus se tornem carne.
Caros amigos, enquanto escrevo para vocês estas coisas, estou diante dos meus pequenos crucifixos: Victor, Aldo e Cristina. De forma que vocês podem entender o que quer dizer, para mim, a palavra “dor”. No quarto ao lado, Marciana, de 20 anos, está com sua situação cada vez mais grave. Ao seu lado, Cláudia, de 35 anos, evangélica, me disse: “estou no fim, quero me confessar, comungar, voltar para a Igreja católica”. Nos dois últimos dias, dois mortos, entre os quais uma jovem mãe, que morreu depois de ter cantado “Te adoramos, Hóstia Divina” e dizendo “agora, eu cantei tudo”.
Agora, chegaram as minhas crianças da Casinha de Belém... os maiorzinhos. Vão fazer, comigo, a procissão com o Santíssimo. Eles vão ficar do lado de cada doente grave e mesmo os moribundos. Eles são educados a olhar de frente para a verdade da realidade. A realidade nunca dá medo, porque grita a Sua presença.
Olhem para eles na foto, que acabei de tirar. Estão com Atílio, que está no fim. Olhem para os rostos deles e para o de Atílio. “Morte, onde está o teu aguilhão?”. Atílio e as minhas crianças olham de frente para a morte, assim como olham para a vida... Observo e entendo a beleza da frase de Pavese... Jasmim, a que está com o rostinho entre as mãos, olhando para Marciana, me disse: “Que bonita! Parece a minha mãe quando estava viva aqui na clínica”. Cada sábado, eles querem vir até a clínica para ver o leito, o quarto onde morreram suas mães.
Como vocês podem ver, a realidade é estupendamente amiga, assim como cada circunstância é, para nós, o sorriso de Deus.
É mesmo bela a vida!
Boas férias... mas vividas assim...
P.e Aldo.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Cartas do P.e Aldo 74

Asunción, 18 de junho de 2009.

Caros amigos,
Hoje, acompanhamos ao cemitério Emanuel (que belo este nome!). Para o mundo, era um mendigo; para nós que, por nove meses o tivemos entre nós, era o “Deus conosco”.
Teve apenas algumas semanas de consciência... tempo suficiente para descobrirmos a surpresa de ser exatamente “Deus conosco”.
Desde então, todos os sacramentos envolviam a sua vida... e era um outro. Depois, por oito meses esteve sem consciência e, ontem, morreu. Durante estes oito meses, a única coisa que eu fazia era ajoelhar-me três vezes ao dia diante dele, abençoando-o com o ostensório e beijando-o a cada manhã. Tudo se passou aqui e, por oito meses, não respondia aparentemente a nada... e, assim, morreu.
Antes de fecharmos o caixão, beijei-o pela última vez. Estava frio... mas, que alegria! Dele eu aprendi mais, cada dia, o que quer dizer que “eu sou Tu que me fazes”. Aprendi a capacidade de me maravilhar, como nos lembra Giussani no capítulo X d’O Senso Religioso. Eu o olhava, ali, mudo no leito, e pensava “mesmo os cabelos da sua cabeça estão todos contados” e, então, o seu silêncio era mais forte do que qualquer palavra.
Quando o colocamos na cova profunda (cada túmulo recebe 10 cadáveres sob a terra e 10 na parte de cima) e joguei sobre o caixão o santo punhado de terra me comovi: se eu não pudesse dizer “eu sou Tu que me fazes”, que sentido teria tudo isso? E pensei no Gênesis, onde Deus, da terra, faz o homem... mas, desde então, o homem não é mais terra... eu sou, você é relação com o infinito.
“Repousa em paz, Emanuel”... e, com o coração contente, voltei para os meus doentes, que esperam a vez deles... na minha companhia, porque, depois, será também a minha vez... e eles (já são mais de 600 os meus filhos mortos aqui) me esperarão na porta do paraíso, para levar-me até Jesus. É mesmo bela a vida!
Ciao
P.e Aldo

domingo, 14 de junho de 2009

Cartas do P.e Aldo 73



Asunción, 13 de junho de 2009.

Voltei hoje, dia de Corpus Christi, dos Exercícios (refere-se aos Exercícios da Fraternidade de Comunhão e Libertação; ndt). A comoção ao escutar as palavras feitas carne na minha vida e na dos meus doentes é bem expressa na foto de Marciana, circundada por suas últimas pinturas. Ela já está no fim e a cor dominante do “lapacho” (é como é conhecido o ipê no Paraguai; ndt) – uma planta tropica que, quando floresce, indica que a primavera está chegando – é roxo (morado, em espanhol).
Normalmente, os lapachos têm quatro cores e florescem em semanas diferentes, porém todos florescem no fim do “inverno tropical” e indicam que em breve chegará o calor tórrido. As cores são: rosa, roxo, amarelo e branco. Um espetáculo que veste de festa Asunción. Marciana, agora, ressalta o roxo porque está sentindo que se aproxima o encontro definitivo com Jesus. A fé é uma certeza. Não uma lamentação, não uma objeção. A esperança – somente quem vive a esperança consegue pintar até o fim com a ajuda do pai – é, para ela, o já da fé que toca com as mãos e vê com os olhos. Está quase acabada: pesa pouquíssimo, respira com dificuldade, as belas unhas pintadas de vermelho são como buquês de flores. Toda a sua feminilidade está presente... somente a fé que, como nos provoca Carrón, não é um sentimento, mas o reconhecimnto de um fato presente, realiza aquilo que o nosso ceticismo coloca em dúvida ou pensa que não pode durar, e vencer também o câncer e o medo da morte.
Amigos, Marciana é uma metástase só, mas a fé vence as terríveis dores do câncer. Aquilo que a morfina não consegue fazer, nela a fé consegue, até o ponto de conseguir pintar. Então, como não sermos gratos a Carrón que, desde a primeira noite (dos Exercícios da Fraternidade; ndt) nos dizia que “as circunstâncias pelas quais Deus nos faz passar são fator essencial e não secundário da nossa vocação”.
É, de fato, belo olhar para Marciana e para Paulo, porque eles nos dizem que Cristo está vivo. Olhem para Paulo (22 anos... Marciana tem 20): olhem o tamanho do câncer que ele carrega nas costas. Um enorme pedaço de carne podre... porém, olhem para o seu sorriso. Está é a fé, a esperança e a caridade.
Assim, entendo o que quer dizer “da fé, um método” (título dos Exercícios da Fraternidade deste ano; ndt): um caminho feliz mesmo se carregado por um tumor maligno de quase 5Kg ou por uma metástase geral.
Amigos, obrigado! Tudo isso nos é dado porque, de fato, é mesmo possível “viver verdadeiramente assim” (faz referência ao título da obra de Giussani – Si può (veramente!) vivere così?; ndt)
P.e Aldo

sábado, 13 de junho de 2009

Tu apenas, ó ideal, se penso, és verdadeiro


O testemunho de Enzo Piccinini no dia 12 de dezembro de 1998, durante os Exercícios Espirituais dos Universitários de Comunhão e Libertação, em Rímini, Itália. Enzo era um dos responsáveis de CL e faleceu em um acidente de carro em maio de 1999

Eu sou cirurgião na Universidade de Bolonha. Todas as vezes que me pedem para falar da minha experiência, o primeiro sentimento que tenho é de fugir porque – não sei o que vocês pensam – é difícil falar em público sem fingir sobre as coisas que mais se amam. E esta vida é a coisa que eu mais amo em absoluto.
Por isso, tenho uma espécie de temor, de pudor, porque o movimento, para mim, foi e é literalmente a minha salvação – literalmente! Eu não sei onde estaria sem o movimento. Sobretudo se penso em alguns anos atrás... seria absurdo só de pensar – chamaria de louco a qualquer um que me tivesse dito que estaria aqui, hoje, dizendo-lhes as coisas que lhes direi... porque isso foi algo que entrou devagar e foi me mudando inesperadamente.
Uma outra coisa, antes ainda de continuar: exatamente por isso que lhes disse, para mim é muito claro que tudo aquilo que eu sou eu recebi, me foi dado; por isso, é uma gratidão que não sei eliminar: quando os amigos me pedem um sacrifício pelo movimento, eu o faço com muito prazer.
Quando comecei a minha carreira universitária (a minha profissão, digamos assim, porque não era claro ainda), eu tinha terminado a faculdade de medicina e tinha que procurar uma referência para seguir profissionalmente, um mestre. Eu estava interessado em seguir a carreira de cirurgião, mas não tinha, então, diante de mim ninguém do movimento ou amigos mais próximos com os quais pudesse conversar sobre isso; por isso, fiz a coisa mais normal do mundo: fui atrás de todos os cirurgiões que existiam na universidade e escolhi aquele que me correspondia mais imediatamente. Escolhi aquele que eu sentia que coincidia com o que dizia: era um homem que era o que dizia, e me interessa algo assim; tinha ficado muito tocado por essa sua posição humanamente inteira. Assim, fui atrás dele, mas do jeito que um rapaz daquela idade segue (penso em vocês); eu era muito afeiçoado a ele, olhava para o modo como se movia, o que fazia, como repetia as coisas; na sala de operação eu ficava atento aos mínimos detalhes de seus movimentos etc.; lembro-me de que tinha um tic nervoso e que, com o tempo, acabei descobrindo em mim.
Naquela época, não éramos uma comunidade muito grande, e eu o convidava sempre para as reuniões da comunidade, quando fazíamos alguma assembléia, com a idéia de que, no fim das contas, ele nunca viria mesmo, mas eu continuava fazendo os convites... ficaria muito contente se ele aparecesse. Assim, um dia, eu o encontrei na assembléia. Vocês podem imaginar o temor e o tremor que eu senti: era um respeito e uma veneração... como alguém diante de um mestre que estima demais. Eu o encontrei ali e vocês podem imaginar estes 30 ou 40 rapazes que éramos, no máximo, todos jovens e este tipo careca que aparecia com sua cara de suiço: era uma característica sua que nunca perdeu. Já viram o telejornal suiço? Falam de uma festa ou do fim do mundo com a mesma cara, igual. E ele era exatamente assim. Eu estava ali todo duro, com um italiano perfeito, procurava as palavras certas, nenhum palavrão, e mantinha os olhos sempre nele. Eu me entusiasmava, e ele “suiço”; eu continuava, e ele “suiço”. Chego ao fim, ele se levanta e vai embora: sempre com mesma expressão. Dou os avisos correndo, paro-o na porta e com um estado de ânimo que vocês podem imaginar, lhe digo: “Professor, o que achou?”. Ele me olha – suiço – e diz: “Piccinini, estas coisas são para jovens: são belas, são verdadeiras, mas são para rapazinhos! Caem bem para vocês, para você, porque não sabe o que é a vida. Eu tive compromissos, a minha vida foi difícil, muitas dificuldades, mesmo desastres. Estas são coisas que os jovens fazem, é um entusiasmo que só os jovens têm”. Naquela hora, pessoal, desabou um mito e o tic nervoso desapareceu. Porque a consciência que me veio claramente era a de que algo é reconhecido como verdadeiro porque corresponde e permanece para sempre assim, mesmo porque o que reconhece o verdadeiro é como um detector, algo que temos dentro de nós e que nos caracteriza, e é esta exigência de verdade, de beleza, de justiça, de amar e de ser amados, que chamamos coração. Isto é estrutural e não pode ser colocado entre parênteses porque a situação é difícil ou porque as coisas não voltam ou porque ficamos velhos. É estrutural e é o ponto que nos caracteriza e que nos faz reconhecer as coisas verdadeiras que permanecem para sempre, e não se trata de um problema de idade ou de circunstância.
Desde aquele momento eu entendi que o problema era apenas um: que a unidade da minha pessoa (porque o que estava em questão era aquilo, mesmo diante de suas observações), a unidade da minha pessoa estava toda naquele fator que eu tinha dentro de mim e que me acompanhava do mesmo jeito que me acompanhou quando eu era mais jovem, quando comecei a jogar futebol, até quando cheguei à universidade, até agora. Era algo que me caracterizava: uma exigência de felicidade que nada poderia cancelar e que, de qualquer maneira, viria à tona sempre, mesmo que como uma amargura. Eu tinha entendido isso, e entendi desde então que a unidade da pessoa começa pelo fato de que a pessoa coloca o coração naquilo que faz, e isto – acreditem em mim – vale para quem, como eu, tem o que fazer diante de situações dramáticas (que, daqui a pouco, lhes contarei), mas vale também para quem está diante de um computador, assim como vale para quem faz as compras, ou para quem limpas as escadas: é igual. Colocar o coração naquilo que se faz significa colocar em jogo essa exigência de felicidade que é indomável porque é estrutural em nós.
Mas a vida, pouco tempo depois, começaria a se complicar e eu também fiz a experiência, como ele também fez, das situações que descrevia. Assim, tive que mudar de cidade, tive que mudar minha situação: fui para uma Divisão Cirúrgica maior, onde eu era considerado um intruso e, por isso, evidente e imediatamente, mors tua vita mea, por isso, um erro meu era motivo de festa para os outros... eu estava submetido, todos os dias, a um controle e a uma tensão que eram impressionantes. Além disso, minha família cresceu: no meio tempo, rindo e fazendo brincadeiras, eu tinha tido quatro filhos. E era um problema sério, porque eu não tinha dinheiro, e meus pais continuavam a me dar dinheiro. Era um pouco uma humilhação. Finalmente, eu disse a eles – e, nessa época, me davam também queijo e roupas – que eu ainda precisava era de dinheiro. Junto disso tudo, tinha ainda o empenho com o movimento. Eu havia me tornado, tout court, o responsável da maior comunidade do CLU da Itália – a de Bolonha – e, portanto, tinha ainda todo um conjunto de questões. E, nesse ponto, entendi que, de novo, a unidade da pessoa não poderia ser um equilíbrio procurado entre as atividades, as questões, as coisas a fazer, porque isto não era suficiente, mesmo porque eu não conseguia. O tempo, a disponibilidade, o trabalho, a família: não podia ser assim, porque colocar o coração naquilo que se faz não podia significar salvar tudo. Não podia ser: era uma totalidade mesmo dentro das circunstâncias que não podiam se resolver imediatamente ou aquelas que eu não conseguia colocar juntas por minha própria conta.
Assim, eu entendi que é possível colocar o coração naquilo que se faz se se está diante de algo maior do que você. É preciso algo maior do que você diante de si: trata-se daquilo que, na Escola de Comunidade, chamamos destino. Isso era o que poderia me ajudar, em cada situação a colocar o coração: algo maior do que eu, maior do que a minha capacidade. Cada passo da vida (ir para casa ou ir a uma assembléia com os universitários, ou, pela manhã, ir ao hospital) é um caminho em direção ao destino, sempre... cada passo é isso, é a resposta ao destino é o empenho com o destino.
Mas, não basta: não fica em pé nem mesmo assim. E tive que entender isso depois. Porque, no passar do tempo, o meu empenho universitário cresceu, a minha capacidade profissional se incrementou e, por isso, eu comecei a me tornar um ponto de referência no giro profissional que eu frequentava. E, por isso, cada vez mais me chegavam casos mais complicados e eu começava a ver que se as coisas iam bem ou mal não era sempre por um sucesso.
Assim, me lembro ainda, o que aconteceu com o pai de um de nós: foi operado e sua situação se complicou, eu o operei de novo e voltou a se complicar e foi assim por quase um ano, até que ele morreu. E nunca mais fiquei tranquilo com isso. Até que, um dia – estávamos numa reunião de responsáveis em Milão... éramos poucos com Giussani –, saindo da reunião de responsáveis, eu estava no corredor, Giussani se aproximou e me disse: “Como vai?”. E eu disse: “Tudo bem”. Ele para e me diz: “Como, tudo bem? O que está acontecendo?”. Disse-lhe: “Nada... bobagens. Depois daquelas coisas que nos dissemos no encontro, estas coisas são bobagens. Deixemos disso... não importa”. Ele parou, de repente – estava cansadíssimo - no corredor (e passava um monte de gente!): “Espera aí! Desculpe-me, Enzo, com todas essas bobagens que nos dissemos, quando há algo realmente importante não falamos sobre isso?”. Fiquei paralisado e disse: “Desculpe-me... olha, eu não queria, mas me aconteceu isto e me sinto culpado... não consigo mais dormir. Quer dizer, durmo uma hora, depois me vem à mente essa coisa... Mesmo a minha mulher está preocupada, porque depois de uma hora de sono me levanto... as coisas estão assim”. Ele me olha e me dá uma resposta que era a mais impensada – eu não podia nem mesmo imaginá-la. Ele me olha e diz: “Mas, Enzo... você, justo você”, com um rosto de desiludido, “justo você se comporta como se Cristo não existisse?! E como se tudo dependesse das suas mãos. Mas, como você pode acreditar que as coisas vão para frente assim? Você nunca mais fará as coisas que faz, você as fará como todos: buscar o que não lhe fere e que lhe deixam no lugar. Você nunca mais vai arriscar”. Depois, completou: “De qualquer maneira, eu quero voltar a falar disso com você. Quando puder, pode vir aqui?”. Imaginem! Dois dias depois, eu voltei. Nós nos encontramos em um almoço e ele disse: “Então, conta de novo”. Então, contei e disse: “Escute, Giussani, olha... eu não quero roubar o seu tempo, porque eu entendi. Olha só: lá onde trabalho tem uma capelinha e, agora, antes de ir para a sala de operação, eu passo ali e rezo e as coisas, então, entram no lugar. Estou mais tranquilo”. Aí, ele solta essa: “Enzo, mas que história é essa de rezar e rezar!? O problema não é rezar, é que você não sabe oferecer. O seu problema é que não sabe oferecer, e oferecer significa que a realidade não é algo que você tem nas mãos, não é sua, e que tudo aquilo que se faz é como se tivesse dentro um pedido de que o Senhor, o dono desta realidade, se revele, porque é assim que se vive... e você, me escute – já lhe disse isso, mas digo outra vez –, você vai parar de fazer o que faz e começará a ter medo de se arriscar”. E, de fato, era verdade, era impressionantemente verdade: já fazia dois meses que eu dizia a meus assistentes mais velhos: “pessoal, vamos parar de fazer essas intervenções: não precisamos de problemas... eu tenho que fazer minha carreira... e quanto menos problemas melhor”. Mas, a discussão continuou e ele me disse: “Mas, você sabe o que quer dizer oferecer? Quer dizer reconhecer que a realidade não é sua, que você não a fez, que você não é dono das coisas. Quer dizer que você está diante da realidade com uma pobreza que é o modo mais verdadeiro, mais autêntico de estar: nesse caso, você é seriamente mais realista, leva em consideração as coisas, se dá conta dos limites que tem... se não sabe, vai pedir e pedir e não deverá defender a sua imagem, a sua posição”.
Em suma, eu lhes disse, colocar o coração no que se faz é possível em qualquer situação, desde que haja algo maior do que você, mas este algo maior que você deve ser presente. Presente, quer dizer algo a que pode se dizer: “Eis, eis aqui”, isto é algo que você reconhece, a que responde a partir daquilo que faz. E responder a alguém ou a algo daquilo que se faz é o modo com o qual a realidade se torna dramaticamente presente, de outra maneira resta apenas o que você pensa, o que você sente, o que dá certo, o que não dá certo, e você cancela as coisas que não dão certo ou que não sente... porém, existe mesmo aquilo que você não sente ou aquilo que não dá certo.
Mas, não tinha acabado ainda: é esta a coisa que, ultimamente, é ainda mais clara. Não tinha acabado, porque, pouco tempo depois, aconteceu um episódio que me esclareceu o ponto final da questão (este é um episódio que dificilmente esquecerei): uma das nossas, a quem eu era muito afeiçoado, foi operada em um outro hospital e a sua situação se complicou. Giussani, num domingo de manhã, me telefona e me diz: “Você daria conta de assumir essa situação?”. Naquele hospital trabalhavam os meus chefes, por isso era um belo problema, ainda mais porque eu estava sob avaliação. Então, não conto isso a Giussani, mas digo: “Bem, se é necessário, eu o faço”. Faz-se. Vou até lá e, depois de pouco tempo – faço tudo muito rápido –, ele me pergunta: “Você acha que pode levá-la com você para Bolonha?”. Digo: “Caramba! Essa é dura”, mesmo porque em todos as conversas que tive com os cirurgiões, gente que eu conhecia muito bem, eles me havia dito: “Olha, não toque nela, não faça nada, porque nós a operamos: não é operável. Não faça nada, porque ela pode morrer nas suas mãos, entende? Empurre-a para frente, assuma-a [eles estavam contentes de quase me passarem o caso], mas não toque nela porque pode morrer, entende? Empurre-a para frente até que consiga algo com a terapia médica e espere que a coisa se resolva sozinha”. Assim, tomei-a comigo e trouxe para Bolonha e fiz literalmente assim: procurava de toda maneira entender se existia alguma margem para levá-la adiante sem empenhar-me com algo que já me haviam dito explicitamente que não era possível. E como quem me havia dito isso não era gente inexperiente, era verossímil. Empenhei-me seriamente a entender que margem eu tinha de espera, mas todos os dados me mostravam que não era possível esperar. Assim, num determinado momento, tive que ir em frente, tive que fazer. Era preciso fazer: os dados não me permitiam brincar com ela, não me permitiam deixá-la esperando. No dia em que decidi fazer a intervenção para o dia seguinte, mais tarde liguei para Giussani. Porque – eis o que eu queria dizer para vocês – não basta dizer que é necessário algo maior que esteja presente; não se consegue colocar o coração no que se faz, não se resiste por muito tempo, porque depois de um pouco de tempo a realidade é dura e o coração cede e, depois de outro pouco de tempo, começa o lamento e a autodefesa... é necessário não estar sozinhos. Assim, peguei o telefone e procurei Giussani. Tive a sorte de encontrá-lo e lhe disse: “Desculpe-me, Giussani, se telefono a essa hora da noite. Não quero que você resolva os particulares técnicos ou que me diga o que devo fazer, porque os dados já me levaram até esse ponto. Porém, se eu não tivesse encontrado você, teria que ter procurado outra pessoa qualquer porque – não sei se é errado ou não – preciso de uma comparação, de uma ajuda, de um conforto. De um conforto... mesmo que simplesmente um conforto, porque estou com medo e não estou tranquilo”. Ele me disse: “Não está errado, é muito justo. Porque toda a certeza científica não pode dar a você a segurança de tentar, bem como não pode dar a você a segurança na vida. É preciso a memória de um relacionamento vivo com você, de outra forma não é possível sair das próprias medidas, do que pode fazer”. Depois, disse: “Escute, os dados dizem o que dizem... diante de Deus, é necessário seguir em frente. Diante dos homens, não sei, mas não importa: diante de Deus, é preciso seguir em frente!”. Extraordinária aquela coisa! Extraordinária, pessoal, porque é uma certeza que é devida ao fato de que os dados são as circunstâncias, entendem? Não é apenas o fato das quatro radiografias: são as circunstâncias às quais deve responder, com as quais você olha para você, porque aquilo é o rosto com o qual Deus se apresenta na sua vida. E assim, eu a operei. E foi um intervenção incrível (me lembro ainda do tempo que durou). Depois, deixei passar um pouco mais de dias, porque não sabia ainda quais seriam os resultados. Três ou quatro dias depois, entendi que as coisas estavam caminhando bem e, então, liguei para Giussani: “Giussani, está inesperadamente caminhando tudo bem”. Silêncio. Depois, diz: “Desculpe, mas você tinha dúvidas?”. “Se eu tinha dúvidas? Eu estava cheio de dúvidas até o pescoço... era uma desastre, até emagreci”. E ele diz: “Olha, eu disse para você”... Foi bonito o que ele me disse: “Olha, nós vamos rezar a Deus e a São Pampuri, e você vai”. E no fim, ele me disse: “Obrigado por ter sido instrumento de um milagre”. É isso, pessoal, esta é a posição justa na vida, porque não poderia nem mesmo me ensoberbecer por tudo o que eu tinha feito. “Instrumento de um milagre”, quer dizer que eu não fiz nada. Se esta é a posição na vida, desculpem-me, mas que medo se pode ter mais na vida? O que pode fazer a gente parar?
A última observação sobre a minha profissão (e será brevíssima). Há dois ou três meses atrás, aconteceu um fato grave comigo e eu disse para Giussani: “Eu não sei mais – às vezes, me veem dúvidas atrozes – se o que faço e arrisco – é a última dúvida que tenho – se aquilo que faço e arrisco é fruto de um temperamento meu ou é uma obediência séria à realidade. Existe alguma maneira de entender? Às vezes, me parece que eu tenho o temperamento de arriscar assim. Existe alguma maneira de entender se é o meu temperamento ou é uma obediência à realidade?”. “Sim, e é aquele oferta de que lhe falei diante de algo presente, porque diante de algo presente é como a criança que está ali, está fazendo alguma coisa errada, chega o pai e entende o erro que está fazendo. Porque o presente dá uma dramaticidade. Alguém ou algo a quem responder àquilo que se faz dá uma dramaticidade à vida de tal forma que as coisas se tornam mais autenticamente presentes. Ir trabalhar assim, pode ser muito cansativo, você pode estar com a consciência toda virada, mas você levanta a cabeça e responde logo. E, depois, por que você tem medo do seu temperamento? [Pessoal, esta foi uma libertação para mim!] Por que você tem medo do seu temperamento? Se Deus fez você assim, quer dizer que você deve ser aquilo que você é! Por que deve ter medo do seu temperamento?”. Foi uma outra libertação, porque eu me penso sempre como sou, instintivo e violento.
Se este é o percurso da minha questão profissional, o outro ponto inesquecível da minha vida é ter entendido o que quer dizer querer bem. Estávamos, uma vez, no carro (eu estava levando Giussani de Cesena a Bolonha), conversando (muitas vezes, eu era seu motorista). Conversávamos e ele, então, me pergunta: “Como vai? Como vai a sua família?”... era um período em que já há um tempo (mas muito tempo mesmo) eu escutava muito frequentemente as observações que me faziam as pessoas que me circundavam: “mas, os seus filhos, a sua mulher... que vida é essa?”. E eu nunca tinha levado isso muito a sério, porque são coisas que me interessavam muito relativamente: eu sei o que sinto como verdadeiro e do que não me posso subtrair. Só que, depois de um tempo, estas coisas começaram a entrar dentro de mim e eu comecei a me perguntar: “Mas, que vida é essa que levo?”. Então, disse: “Giussani, tenho uma dúvida que me veio dentro e que, forçado a olhar para ela, comecei a me perguntar: que vida é essa que levo? Mas, eu os quero bem ou não?”. Ele disse: “Mas, escute, você quer bem à sua família?”. Disse: “Sim”. “Você quer bem aos seus filhos?”. Disse: “Sim”. “Me dê um exemplo!”. Não sei quantos de vocês já conseguiu dar um exemplo para uma pergunta dessas. Eu não sabia o que dizer. Então, contei-lhe o que acontecia: “Olha só... acontece muito frequentemente que chego em casa tarde, seja por causa da profissão que por causa do movimento, e minha mulher (naquela época, morávamos numa casa muito pequena – agora, é maior... mas está vazia, porque os filhos foram embora) deixa as portas dos quartos entreabertas para ouvir algum choro das crianças, se elas acordarem... Eu chego e preciso acender apenas as luzes da entrada, porque se acendo as outras os meninos acordam e fazem uma bagunça danada e minha mulher fica brava com isso... Acendo a luz da entrada, entro devagarzinho, tiro as roupas no corredor, sem fazer barulho; das portas entreabertas entra um pouquinho de luz que ilumina as caminhas de meus filhos. É difícil descrever, mas sinto uma ternura infinita ao vê-los ali na cama. Então, furtivamente, entro, pego um e, algumas vezes, acordam: ‘Papai!’. ‘Psiu! Senão a mamãe...’. Abraço-os e dou um beijinho...”. Então, disse a Giussani: “Em suma, acho que os quero bem”. E Giussani diz: “Não é assim que se quer bem. Olha só: o modo verdadeiro de querer bem é que exatamente quando esta ternura é intensa, verdadeira e irresistível, humanamente irresistível, você deveria dar um passo para trás, olhá-los e dizer: ‘O que será deles?’, porque querer bem é entender que têm um destino, que não são seus, são seus e não são seus, que têm um destino e que é exatamente olhando para a dramaticidade que o destino impõe no relacionamento e nas coisas, no futuro e no presente, que você os respeitará, os quererá bem, estará disposto a fazer tudo por eles, não vai se deixar chantagear se eles obedecem a você ou não”.
Aquilo era uma coisa nova, que entendo que é verdadeira sempre. Pensem quando um homem e uma mulher se querem bem: se não tem esse juízo, é como entre os cães, é a mesma coisa; o que há de diferente? É impressionante, porque aquilo me iluminou. Lembro-me de um encontro com Giussani, em Chieti, quando ele, pela primeira vez, introduziu, potente e publicamente, a questão do “tu”. Do “Tu” que faz do outro um “tu”; este Mistério que faz o “tu” ter consistência é um “Tu”, é algo com o qual você olha e, de repente, nasce um respeito, uma familiaridade e um respeito repentino, desconhecido antes, mas tão intenso... Mas... acrescento um detalhe: os filhos cresceram e foram todos embora... uma foi para a China, que é o lugar mais feio do mundo (me desculpo com os chineses presentes... mas vocês sabem disso também, né?). Mas, é verdade! Ir para a China é como voltar atrás dois mil anos de uma vez só. De fato, eu nunca entendi por que os meus colegas têm todo este amor pelo Oriente. Um outro que, segundo eu pensava, deveria ter feito a carreira de medicina, foi fazer Ciência da Comunicação em Lugano: entre os suiços de que lhes falava antes. De forma que não tem mais nenhum em casa. Às vezes, conseguimos nos encontrar todos, mas é raro. Assim, um dia, me encontrei com eles num almoço e eu pensava em uma coisa há bastante tempo e lhes perguntei: “Desculpem-me, por que vocês são do movimento? Eu nunca lhes falei do movimento... por que vocês são do movimento? É estranho, eu nunca falei disso com vocês”. É verdade, eu nunca tinha colocado esse problema na família: vivemos assim, eu vivi determinado por aquilo que começava a me tomar... e o vivi com minha mulher e com tudo. Então, depois de um tempinho, a mais velha respondeu: “Sabe por que somos do movimento? Primeiro, porque sempre ficamos tocados pela totalidade de sua dedicação ao movimento [que estranho: era exatamente o fator pelo qual eu era menos presente em casa, e foi a coisa que mais lhe tocou... Foi ali que entendi que é inútil, pessoal, tentar salvar tudo: o gosto pela vida, a beleza da vida é proporcional ao empenho com o ideal! O que vocês querem calcular ainda?...], e depois a outra coisa que nos tocou sempre é que quando você trazia seus amigos e nós os víamos ali, era um tipo de amizade que sempre havíamos desejado para nós”.
Pessoal, este é o ponto, porque a autoridade da nossa vida é uma amizade, e é uma amizade que toca porque é uma amizade que é impossível sem aquilo que nos dissemos e nos estamos dizendo hoje, e é um tipo de amizade que transparece numa modalidade de relacionamento, de dedicação, de totalidade, de intensidade, de serviço recíproco. Mas, onde encontram algo assim? Onde é possível? E, de fato, Cristo está presente numa amizade na qual a única razão é Ele. E é isto que convence a todos: fui convencido por isto. Em suma, eu entendo que aqui se joga tudo, nesse nível se joga tudo.
Então, desculpe-me, concluo. Duas coisas na minha vida são importantes. A primeira é esta: que exatamente por aquilo que lhes disse o gosto da vida não é negado a quem erra, mas a quem não tem um senso do infinito, do destino, do ideal, do Mistério presente, porque, então, o problema não é errar ou não errar. O gosto da vida não é negado a quem erra: é negado a quem não tem um nexo com o Destino que faz as coisas, com o Mistério presente. De tal forma que tudo é uma hipótese positiva... o tempo, que para todos é sinônimo de decadência, trabalha positivimente. Se olho para a minha vida, quanta coisa aconteceu! Digo sempre: se aconteceu assim até agora, imagina o que acontecerá no futuro! Veremos coisas belas. É interessante ou não? É uma aventura.
E está exatamente aqui o problema, porque a segunda coisa é que se eu tivesse que comparar a minha vida, como ela se desenrolou (tem uma lei física que diz que o horizonte muda na medida em que se muda o ponto de observação), eu usaria esta metáfora: a minha vida é como um balão... quanto mais vou, quanto mais subo, mais me empenho, mais estou dentro desta vida, mais descubro aspectos do humano que eram impossíveis antes: a capacidade de fidelidade, de amizade, de lealdade, de retomada, de ser indomável... coisas que nunca havia pensado antes. Por isso – última coisa – é uma gratidão. Como comecei, assim quero terminar: é uma gratidão que caracteriza a minha vida, por isso não tenho medo de dá-la toda.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Para uma crítica da crítica... ou remexendo dentro da Crítica.

Estou às voltas com a preparação de um concurso que vou fazer em breve e, entre as leituras indicadas, topei com um texto que me fez parar para pensar em uma coisa.
No texto, que recupera uma expressão de Sartre - "mordaças sonoras" -, a autora critica a posição da psicologia que, ao longo de sua história de relações especialmente com a educação, acabou por propiciar um silenciamento sobre o que ela chama de "real situação social, histórica e institucional". Não é preciso ir muito longe nessa breve introdução para se ter uma ideia dos fundamentos teóricos adotados pela autora: estamos falando do materialismo histórico-dialético marxista... mas, estamos falando de forma mais precisa da proposta teórica da Escola de Frankfurt: a teoria crítica.
A autora afirma:
"O silenciamento produzido pela Psicologia é de natureza ideológica, ou seja, resultado de uma interpretação particular do real que aparece, num contexto histórico determinado, como interpretação única e verdadeira. O discurso ideológico baseia-se no já-dito, nos sentidos institucionalizados, tidos por todos como naturais. Nele as determinações históricas são reduzidas a evidências empíricas, naturalizadas como fatos. Ao operar essa redução, a ideologia produz um efeito de completude de sentido que desestimula qualquer reflexão" (Patto, 2005, p. 96).
Ela continua, em seguida, apresentando um quadro da realidade educacional que, segundo ela, nasce de uma postura crítica. Esse quadro "desesperador" pintado pela autora, por um lado, não tem nada de mítico - descreve fatos, aponta causas históricas e sociais precisas etc. -, por outro lado, porém, é um quadro que, se entendéssemos o termo "ideologia" usado no excerto acima como a ideologia marxista estaríamos na mesmíssima posição, se substituíssemos o termo "natural" por histórico ou social ainda assim estaríamos no mesmo lugar. Experimentem ler o texto acima dessa maneira! É ou não verdade que, no fim, nos veríamos desestimulados a fazer qualquer reflexão?
Bem, diante disso, fiquei me perguntando: mas o que poderia, de fato, responder às exigências justas dessa autora, sem que caíssemos na armadilha da contradição interna? (Abro um parêntese para explicitar um mal-estar: 100% dos textos lidos para a preparação deste concurso têm uma característica bastante singular - são panfletos revolucionários. Aqui, porém, devo dar espaço à justiça e explicitar que, porém, a postura da Professora Maria Helena Souza Patto é carregada de um sentimento de indignação que grita exigência de justiça, de verdade, de beleza... é impressionante e bonito ver o que a maturidade é capaz de fazer com uma intelectual do porte dela! Evidentemente, toda a massa de palavrório pretensamente politizado e socialista típica dos intelectuais filhos das teorias críticas [e quando falo de "filhos das teorias críticas", falo especialmente daqueles intelectuais que não deram conta do método, apenas reproduzindo chavões inférteis] está presente no seu discurso indignado, no entanto, o tempo parece ter deixado marcas importantes na forma como Patto se propõe, se apresenta, se coloca no meio desse discurso: sua crítica é carregada das mesmas contradições internas de um panfletário comuno-fascistóide, mas ao mesmo tempo - e como é bonito verificar isso! - é carregada de uma dor real pela situação, é carregada de um desejo real de mudança, é carregada das consequências do seu impacto com a realidade que, tantas vezes, foi objeto de suas observações ácidas. Até o ponto de afirmar, no mesmo texto: "Não se pode decretar, categoricamente, a morte do sujeito. Impedido, o desejo pulsa, manifesta-se pelas frestas, fala como pode" [p. 100]. Fecho o parêntese). Nesse ponto, pensava naquilo que o Carrón nos dizia nos Exercícios Espirituais da Fraternidade e em tantas outras ocasiões a respeito de "não partirmos da afirmação de que Cristo venceu", de não partirmos do anúncio cristão - "o Mistério se fez presente em um homem". O risco de chegar a dizer - como um acadêmico que sou - que uma tal afirmação não pode ser feita no âmbito da intelectualidade universitária é enorme. Também o risco de tornar essa expressão apenas mais uma frase solta e, portanto, tão ideológica como todas as outras, é também enorme. Como sair dessa berlinda, então? "Pouco observação e muito raciocínio conduzem ao erro. Muita observação e pouco raciocínio conduzem à verdade", nos lembrava D. Gius na primeira página d'O Senso Religioso. Uma observação atenta, terna e apaixonada de si, do homem e do real. Vejamos, então.
Estou, há dois anos, dando aulas na Faculdade de Educação da USP, ministrando uma disciplina cuja bibliografia básica perpassa toda a gama de autores filhos do materialismo histórico-dialético marxista. No início, como estava na defensiva, parti para o ataque. Resultado? Foram semestres infecundos. Nos dois últimos semestre, porém, resolvi mudar a tática: "não idéias, mas experiências!" se tornou o mote de cada uma das aulas. Os textos e os temas eram os mesmos, mas a postura mudou: não estava mais no ataque e, portanto, criou-se um ambiente de familiaridade dentro de sala de aula que permitiu o vir à tona de coisas muito bonitas. Eu estava livre e, por causa disso (?), vi nascendo uma liberdade entre os estudantes que, tantas vezes, me comovia.
Conto um caso gritante do que pode responder àquela pergunta: um dia, em uma aula cujo tema era a violência na escola, Bárbara, uma aluna do curso de licenciatura em Educação Física, contou que havia descoberto que um de seus alunos, de 12 anos, traficava drogas na porta da escola depois da aula. Conversou então com o aluno, que lhe contou uma história dramática: sua mãe é uma paciente psiquiátrica e ele mora, junto com suas irmãs, na casa de sua avó materna, que é doente e vive às custas de remédios comprados com os parcos rendimentos de uma aposentadoria. Trabalhar para os traficantes do bairro era a única maneira de ter uma renda que permitisse cuidar de todos em casa: a avó e as duas irmãs. E o garoto ainda acrescentou: "Professora, a senhora acha que eu vendo drogas para meninos da minha idade? Não! Eu vendo drogas é para pessoas da idade da senhora!". Profundamente tocada pela situação, Bárbara procurou a diretora da escola, pedindo alguma indicação de uma atitude a tomar diante do fato. A resposta da diretora foi, no mínimo, grosseira: "Bárbara, se você quer ter uma vida como professora, a melhor coisa a fazer é não se meter na vida desses moleques". Chorando, Bárbara concluia seu testemunho, em sala de aula, dizendo: "Professor, eu não posso ser indiferente... eles são minhas crianças!".
Falávamos, naquela aula - como em quase todas as outras -, da necessidade de não achatar a própria humanidade, a fim de não se ver achatando a humanidade das crianças e dos jovens com os quais trabalhamos em sala de aula. Falávamos de lutar contra a indiferença. Falávamos da necessidade de se entender a educação como fruto de um encontro entre pessoas. Falávamos da urgência de retomar o conhecimento afetivo como ponto de partida, no mínimo, interessante para se pensar a atitude educativa. Bem, a situação, naquele momento - diante do choro da Bárbara - ficou um pouco constrangedora... porque, imediatamente, todos, alvoroçados, começaram a questionar o que vínhamos nos dizendo ao longo do semestre... Eu, diante do que escutara, também me vi impotente. Mais impotente me senti no momento em que Pedro, um dos alunos, levantou a voz, quase em tom de desafio, e me perguntou: "E agora, professor, o que o senhor faria numa situação dessas?". Silêncio absoluto em sala. Todos se voltaram para mim, esperando que eu arrancasse de uma cartola ideológica a resposta mágica para a pergunta do Pedro.
Faltavam dez minutos para terminar a aula... já estávamos todos cansados... e eu, na minha pretensão, me vi colocando para funcionar toda a maquinária intelectual atrás de uma resposta convincente e perfeita. Mas, de fato, eu estava fisicamente esgotado (depois de um dia cheio da escuta de dramas duríssimos... no consultório, naquele dia, eu havia atendido quatro casos super dramáticos, que exigiram tudo de mim) e não encontrava nada nos livros acumulados no quarto da memória. Naqueles instantes de silêncio, diante dos olhos inquisidores de 60 alunos, já sem energia, vi se passando na memória uma série de encontros, então: encontros daquele dia (duas ex-alunas que me procuraram no meu gabinete "só para ver o senhor"; uma cliente do consultório que, depois de deixar vir à tona a minha humanidade, encontrou espaço para dizer "quero ser"; uma ex-aluna que, no corredor, me abraçou como se eu fosse seu pai) e encontros de outros dias (a memória despertada pela atitude daquelas duas alunas que me procuraram: "eu fazia o mesmo com o Miguel"; a memória do encontro com o P.e Aldo e com o P.e Paolino, de alguns dias antes; a memória do abraço cheio de misericórdia do Carrón e de D. Gius, que chegou até a mim através dos encontros com o Miguel; a memória do olhar cheio de afeição e de bem querer de uma amiga etc.)... todos encontros que não eram do passado, mas presentes. Dez anos se passaram diante de mim... Quatorze anos se passaram diante de mim... Vinte anos se passaram diante de mim... Trinta anos se passaram diante de mim: trinta anos que só faziam sentido, só tinham sentido se olhados a partir da perspectiva do acontecimento de dez anos atrás - "Feliz Páscoa quae sera tamem!", era o conteúdo do email que me fez entrar nesse rio. Tudo isso, em alguns instantes! E todos estavam lá, olhando para mim. Abri a boca e soltei: "Pedro, a pergunta certa não é 'o que fazer?', mas 'por que fazer?'. Bárbara, a questão que está em jogo é: você sabe os motivos? vale a pena?". Fim da aula: todos saíram em silêncio. Fiquei ainda um pouco sozinho em sala de aula, mastigando o que tinha acontecido: "de fato, eu não me fiz por mim mesmo! De fato, eu não me faço por mim mesmo! Eu sou Tu que me fazes!".
Quando cheguei em casa, insône, resolvi abrir a caixa de emails. Surpresa: cinco alunos daquela noite me haviam escrito - já passava das duas da manhã. Estavam todos comovidos e gratos... Mas, a história não termina aqui. Duas semanas mais tarde, Bárbara me para na saída da Faculdade de Educação para me contar: "Eu levei a sério aquilo que você disse, professor. A vida desses meninos me interessa, o destino deles me interessa. Vale a pena!". E disse que alguns dias antes havia proposto a alguns colegas seus de começar um trabalho - uma obra - com as crianças do bairro onde ela trabalha: "precisamos ficar perto desses meninos, porque, do contrário, serão os traficantes que ficarão perto". E contou também que se envolveu em primeira pessoa com a situação daquele seu aluno e que as coisas começaram a tomar novos rumos, e que ela está acompanhando tudo de muito perto: "acho que criei um problema para mim, porque outras crianças começaram a me procurar pedindo ajuda... mas, não posso ficar indiferente a isso, professor!".
Nada de discurso! Nada de "alienação"! Nada de "politização"! Apenas uma humanidade que joga o coração em todas as circunstâncias.
Que gênio é D. Gius! Que gratidão tenho por essa educação que tenho recebido e que me faz mais eu do que meus projetos sobre mim mesmo, do que minhas interpretações sobre mim mesmo.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Cartas do P.e Aldo 72

Asunción, 11 de junho de 2009.

Caros amigos,
desculpem-me se os incomodo com uma outra carta... mas não acreditava que aquela que lhes mandei ontem, sobre a “Caridade”, fosse suscitar tanto interesse e perguntas.
Vê-se que todos temos necessidade de “um carinho do Nazareno”. Entre os tantos emails que recebi há o de uma pessoa consagrada, acusada de pedofilia que conta o seu calvário. Não tanto ou apenas por aquilo que lhe cobram, mas particularmente pela dor de se ver abandonado pelos seus superiores e confrades, com exceção de um alguns bons samaritanos. Senti uma dor terrível. Não entendo e nunca entenderei uma semelhante atitude desumana. Mas, puxa vida, nós padres, quando comentamos o capítulo 25 de São Mateus, o que dizemos às pessoas e a nós mesmos – “eu estava na prisão e não me visitates, doente e não cuidastes de mim” etc.?
Não consigo uma explicação para tanta maldade, para tanta frieza, particularmente entre homens de igreja. Mas, entendo: “poderá uma mãe abandonar o seu filho?”. “Eu nunca me esquecerei de ti”, diz a Bíblia. Por isso, as palavras de Carrón, depois daquela carta, me comovem instante depois de instante.
Mas, será que nós entendemos que mesmo o pior delinquente é um homem, é relação com o Mistério, é um outro Cristo se tiver sido batizado?
Mas, se, para Deus, existe apenas o filho, o homem Seu filho, por que, para nós, existe o adjetivo “bom” ou “mau” para definir um filho de Deus? O pecado é pecado, o delito é delito, e será condenado, mas o homem, o homem – sim, o homem – “o fizeste pouco abaixo dos anjos, coroando-o de glória e de esplendor”.
“Paixão por Cristo, paixão pelo homem”, nos lembra o Movimento e, então, o que quer dizer isso quando um confrade está em jogo? Se eu vivesse na Itália, ninguém, mas ninguém, me impediria de procurá-lo, encontrá-lo e abraçá-lo. Francamente, não entendo.
Depois de um ano de padre – porque está emburrecido pela ideologia marxista –, me enviaram para a casa de Salerno para assistir os filhos dos encarcerados e visitar as prisões do sul da Itália. Eu tinha 27 anos e naqueles lugares comecei a entender um pouco a vida. Lembro-me de uma cena: uma velhinha vinha muito frequentemente visitar um homem que, se me lembro bem, era da quadrilha de Vallanzasca (Renato Vallanzasca Constantini é um famoso criminoso italiano que está cumprindo 260 anos de prisão; ndt) – já se passaram 40 anos! Os guardas estavam já cansados de ver sempre esta mulher, que eles definiam como “insuportável”. Um dia, um policial lhe disse: “mas, senhora, você vem frequentemente visitar este delinquente...”. Aquela mulher, levantou a voz e lhe gritou: “para o senhor, ele é um delinquente, mas, para mim, será sempre e apenas o meu filho”. Era sua mãe. Nunca mais esqueci aquela cena, muito menos a esquecerei hoje em dia, quando vivo com todos aqueles que estão às margens da vida.
Na clínica, eu tenho um paciente com AIDS e lepra. Abandonado pela família porque violentou todas as suas quatro filhas. Não descreverei para vocês os dramas, os encontros que tive para tentar uma reconciliação, uma possibilidade de perdão, vistas as graves condições do paciente. Quase nenhum resultado. Porém, pessoalmente, três vezes ao dia, quando passo com o Santíssimo, me ajoelho diante dele e o beijo. Não vejo nele um monstro, um pedófilo ou o nada daquilo que o mundo define dele, mas vejo nele o rosto de leproso e doente de AIDS, vejo nele o rosto de Cristo. Muitos dos meus pacientes abusaram de menores e eles mesmos, quando eram crianças, foram abusados... porém, são Jesus, são o Seu rosto e eu não posso não me comover, abraçando-os, beijando-os, porque abraço e beijo Jesus. Poderia escrever-lhes contando de cem desses fatos se servissem para que pudéssemos pedir a Nossa Senhora a graça de entender que se, de fato, encontramos Jesus, não podemos celebrar a Missa ou nos aproximarmos da Eucaristia se não temos pelo menos o pedido, o desejo de abraçar quem quer que seja.
A carta daquela pessoa consagrada me rasgou o coração e como gostaria que ele pudesse ler o que eu escrevo.
Jesus morreu por mim... eu que era um lixo humano e o sou ainda. Giussani fez festa naquele dia, abraçando-me... e eu era um cadáver moral. Aquele abraço, aquela ternura me salvaram. Depois, aquelas palavras de Carrón ditas depois daquela belíssima carta do Papa me encheram de alegria, de comoção cotidiana. Por caridade, que a instituição nunca tome o lugar das pessoas. Ou se salva tudo ou não se salva nada.
Recentemente, encontrei uma esquizofrênica abandonada. Não lhes digo as condições nas quais ela estava e as suas reações violentas. Passaram-se já dois meses e já é uma outra mulher.
Amigos caros, por que temos cada vez menos coragem de olhar o Crucifixo? Mas, o mal, o meu mal é o motivo da Sua paixão, morte e ressureição. Que alegria! E olhem que não quero justificar nem uma vírgula do meu e do mal de vocês, porque o mal é mal e se paga. Porém, o homem, esta criatura divina, este filho de Deus, que será filho de Deus mesmo se escolher o inferno, me comove.
Obrigado pelo que vocês me escreveram, porque entendo ainda mais do que todos temos necessidade. E Carrón nos disse isso em março passado. Mas também Jannacci (Enzo Jannacci é um cantor italiano, ateu, que, em recente crônica publicada no Corriere della Sera, escreveu, comentando o drama de Eluana, que “seria necessário um carinho do Nazareno”. Quem quiser, pode ler sua crônica, clicando aqui; ndt). Não esqueçamos nunca: o homem é sempre e apenas “Tu que me fazes”, mesmo quando a minha liberdade não reconhece isso.
E, finalmente, para ajudá-los a comprender o que significa que “quero misericórdia e não sacrifícios”, anexo este email que me chegou hoje. Deus queira que sejamos nós a desejar misericórdia: é o que pedíamos, hoje, eu, meus confrades e alguns amigos na oração... que fóssemos os primeiros a seguir o exemplo.
Agradeço a Deus porque Paolino, Daf e eu nos olhamos assim. Se não fosse assim, aqui, Deus não poderia fazer o que está fazendo, porque tudo é sinal de um acréscimo da misericórdia que Deus tem por nós três.
P.e Aldo

Olá, Padre Aldo!
Acabei de ler o seu email e pensei: “mas, quem sou eu para que Tu cuides assim de mim?”.
Como eu entendo o que diz, quando diz que o homem é Cristo! Sabe, também o meu marido foi acusado de pedofilia por causa de coisas que fez com o nosso pequenino... Mas, depois, a acusação foi arquivada: ele deu um jeito para que a senhora do serviço social que seguia o caso fosse transferida e, agora, o responsável dos serviços sociais que nos acompanha é um aliado seu e não quer ter problemas. Mas, eu não posso não olhá-los com “simpatia”! Como posso não ver no rosto deles Cristo crucificado? Pobres coitados: eles são tristes, têm que inventar um montão de mentiras, têm que me insultar para se sentirem “vivos”, e eu, ali, diante deles (acabei de voltar de um encontro com eles), invocando o Espírito Santo, pedindo que O possam encontrar. É mesmo bela a vida! Sabe, posso olhá-los assim porque ANTES fui olhada assim... que ternura o Mistério tem pela minha vida.
Obrigada, Padre Aldo. Sabe, não conheço você pessoalmente, porém você já faz parte da minha família. Trata-se de uma familiaridade que apenas um Outro pode dar!! Quero muito o seu bem e agradeço-lhe de todo coração.

"Mulher, ao meu pensar se deparou qual raio divino a sua beleza"

Palestra de padre Julián Carrón no Congresso Teológico-Pastoral A Transmissão da Fé na Família, por ocasião do 5º Encontro Mundial das Famílias com Bento XVI. Valência, 5 de julho de 2006 (publicada, originalmente, no site da Revista Passos)

Fica cada vez mais evidente que não se pode dar por óbvia a maturidade do sujeito humano que se apresenta ao matrimônio. Independentemente da sua boa vontade, a realidade é que muitos jovens chegam ao casamento sem a consciência adequada da natureza da aventura que estão por iniciar. Essa consciência não pode ser considerada óbvia nem mesmo nos jovens cristãos, que muitas vezes chegam ao matrimônio em condições que não diferem das de seus amigos não-cristãos, com a única diferença de que se casam na igreja e têm um mínimo de desejo de se casar segundo a concepção do matrimônio que a Igreja defende e testemunha. Essa falta de consciência não pode ser remediada pelos cursos pré-matrimoniais que conhecemos, os quais, por sua própria natureza, não são capazes de dar resposta à situação daqueles que os freqüentam. É grande o desafio que se apresenta a toda a comunidade cristã: põe-se à prova a sua capacidade de gerar personalidades adultas, homens e mulheres capazes de se apresentar ao matrimônio com uma mínima perspectiva de um resultado positivo.
Numa paltestra como esta, é impossível enfrentar toda a problemática do matrimônio e da família. Vou me concentrar numa questão que me parece essencial para esclarecer essa relação particular que se estabelece entre um homem e uma mulher.
A crise da família é uma conseqüência da crise antropológica na qual nos encontramos. De fato, os esposos são dois sujeitos humanos, um eu e um tu, um homem e uma mulher, que decidem caminhar juntos rumo ao destino, rumo à felicidade. A maneira como vivem a sua relação, como a concebem, depende da imagem que cada um faz da sua vida, da realização de si. Isso implica uma concepção do homem e do seu mistério. “A questão da justa relação entre o homem e a mulher”, disse Bento XVI, “afunda as suas raízes dentro da essência mais profunda do ser humano e pode encontrar a sua resposta só a partir dela. Isto é, não pode estar separada da pergunta antiga e sempre nova do homem sobre si mesmo: quem sou? O que é o homem?”[1].
Por isso, a primeira ajuda que se pode oferecer àqueles que se querem unir em matrimônio é a ajuda a tomar consciência do mistério que é ser homem. Só dessa maneira poderão focar adequadamente a sua relação, sem esperar dela algo que por natureza nenhum deles pode dar ao outro. Quanta violência, quanta decepção poderiam ser evitadas na relação matrimonial, se fosse compreendida a natureza própria da pessoa!
Essa falta de consciência do destino do homem leva a basear toda a relação num engano, que pode ser assim formulado: a convicção de que o tu pode tornar o eu feliz. A relação de casal, dessa forma, se transforma num refúgio, tão desejado quanto inútil, para resolver o problema afetivo. E quando o engano se manifesta, é inevitável a decepção pelo fato de o outro não cumprir a expectativa. A relação matrimonial não pode ter outro fundamento senão a verdade de cada um de seus protagonistas. É a própria relação amorosa que contribui de maneira particular para que se descubra a verdade do eu e do tu, e com a verdade do eu e do tu se manifesta a natureza da vocação comum.
De fato, “o mistério eterno do nosso ser” nos é revelado pela relação com a pessoa amada. Nada nos desperta, nada nos torna tão conscientes do desejo de felicidade que nos constitui, quanto a pessoa amada. A sua presença é um bem tão grande que nos faz perceber a profundidade e a verdadeira dimensão desse desejo: um desejo infinito. O que o poeta Cesare Pavese diz do prazer pode ser aplicado à relação amorosa: “O que o homem busca nos prazeres é um infinito, e ninguém jamais renunciaria à esperança de alcançar essa infinitude” [2]. Um eu e um tu limitados suscitam um no outro um desejo infinito e se descobrem lançados por seu amor rumo a um destino infinito. Nessa experiência se revela a ambos a própria vocação. Sentem a necessidade um do outro para não ficarem paralisados no próprio limite, sem outra perspectiva senão o tédio da solidão.
Mas, no mesmo momento em que se revelam a nós mesmos as dimensões sem limites do nosso desejo, nos é oferecida uma possibilidade de realização. Mais ainda: vislumbrar na pessoa amada a promessa da realização acende em nós todo o potencial infinito do desejo de felicidade. Por isso não há nada que nos faça compreender mais o mistério de sermos homens do que a relação entre um homem e uma mulher, como nos lembrou Bento XVI na encíclica Deus caritas est: “o amor entre o homem e a mulher, no qual concorrem indivisivelmente corpo e alma e se abre ao ser humano uma promessa de felicidade que parece irresistível, [...] de tal modo que, comparados com ele, à primeira vista todos os demais tipos de amor se ofuscam” [3].
Nessa relação o homem parece encontrar a promessa que o faz superar o próprio limite e lhe permite alcançar uma plenitude incomparável [4]. Por isso historicamente se percebeu uma relação entre o amor e o divino: “o amor promete infinito, eternidade – uma realidade maior e totalmente diferente do dia-a-dia de nossa existência” [5].
É experiência testemunhada pelo poeta italiano Giacomo Leopardi em seu hino a Aspásia:
“Mulher, ao meu pensar se deparou
Qual um raio divino a tua beleza” [6].
A beleza da mulher é percebida pelo poeta como um “raio divino”, como a presença da divindade. Por intermédio da sua beleza, é Deus que bate à porta do homem. Se o homem não compreende a natureza desse chamado, e em vez de segui-lo se detém na beleza que vê diante de si, logo ela se manifesta incapaz de realizar a sua promessa de felicidade, de infinito.
“Porém essa não é, e sim aquela
Que ainda nos amplexos corporais
Ama e venera. E conhecendo enfim
O equívoco e a troca dos objetos
Irado, em geral, erradamente,
À mulher pois a culpa atribui” [7].
Isso significa que a mulher, com o seu limite, desperta no homem, ele também limitado, um desejo de plenitude desproporcional à capacidade que ela tem de respondê-lo. Suscita uma sede que não está em condições de extinguir. Suscita uma fome que não encontra resposta naquela que a despertou. Daqui vem a raiva, a violência, que muitas vezes surgem entre os esposos, e a decepção na qual vêm a cair, se não compreendem a verdadeira natureza da sua relação.
A beleza da mulher é na realidade “raio divino”, sinal que remete para além, para outra coisa maior, divina, incomensurável com a sua natureza limitada [8]. A sua beleza grita diante de nós: “Não sou eu. Sou somente um lembrete. Veja! Veja! O que é que lembro a você?” [9]. Com essas palavras o gênio de C. S. Lewis sintetizou a dinâmica do sinal, da qual a relação entre o homem e a mulher constitui um exemplo comovente. Se o homem não compreende essa dinâmica, cai no erro de deter-se na realidade que suscitou o desejo. É como se uma mulher que recebe um buquê de flores, arrebatada pela sua beleza, se esquecesse do rosto de quem o mandou para ela, e do qual esse buquê é sinal, perdendo o melhor que as flores traziam. Não reconhecer ao outro o seu caráter de sinal conduz inevitavelmente a reduzi-lo ao que aparece aos nossos olhos. Cedo ou tarde, o outro se manifesta incapaz de responder ao desejo que suscitou.
Por isso, se cada um não encontra aquilo a que o sinal remete, o lugar onde pode encontrar a realização da promessa que o outro suscitou, os esposos são condenados a serem consumidos por uma pretensão da qual não conseguem se libertar, e seu desejo de infinito, que nada como a pessoa amada desperta, é condenado a permanecer insatisfeito. Diante dessa insatisfação, a única saída que hoje muitos vêem é mudar de parceiro, dando início a uma espiral em que o problema é adiado até o momento da próxima decepção.
O poeta alemão Rainer Maria Rilke identificou com singular eficácia o drama da relação amorosa, intuindo que entrar nessa espiral não pode ser a única saída: “Este é o paradoxo do amor entre o homem e a mulher: dois infinitos se encontram com dois limites; duas exigências infinitas de serem amados se encontram com duas frágeis e limitadas capacidades de amar. E só no horizonte de um amor maior não se consomem na pretensão e não se resignam, mas caminham juntas rumo a uma plenitude da qual o outro é sinal”.
Só no horizonte de um amor maior é possível não se consumir na pretensão, cheia de violência, de que o outro, que é limitado, responda ao desejo infinito que desperta, pretensão que torna impossível a realização de si e da pessoa amada. Para descobrir esse amor, é preciso que a pessoa esteja disposta a seguir a dinâmica do sinal, permanecendo aberta à surpresa que essa dinâmica reserva.
Leopardi teve a coragem de correr esse risco. Com uma intuição penetrante da relação amorosa, o poeta italiano vislumbra que o que procurava na beleza das mulheres de que se apaixonava era a Beleza com B maiúsculo. No ápice da sua intensidade humana, o hino À sua dama é um hino à “cara beleza” que busca em cada beleza; todo o seu desejo é de que a Beleza, a idéia eterna da Beleza, assuma uma forma sensível [10]. É o que aconteceu em Cristo, o Verbo que se fez carne. Foi por isso que Luigi Giussani definiu essa poesia como uma profecia da Encarnação [11].
Essa é a pretensão de Jesus, que encontramos em alguns textos que à primeira vista podem nos parecer paradoxais. “Não penseis que vim trazer paz à terra. Não vim trazer paz, mas espada. Com efeito, vim contrapor o homem ao seu pai, a filha à sua mãe e a nora à sua sogra. Em suma: os inimigos do homem serão os seus próprios familiares. Aquele que ama pai ou mãe mais do que a mim não é digno de mim. E aquele que ama filho ou filha mais do que a mim não é digno de mim. [...] Aquele que acha a sua vida vai perdê-la, mas quem perde a sua vida por causa de mim vai achá-la. Quem vos recebe, a mim me recebe, e quem me recebe, recebe ao que me enviou” (Mt 10,34-37; 39-40).
Nesse texto Jesus se apresenta como o centro da afetividade e da liberdade do homem. Pondo a si mesmo no coração dos próprios sentimentos naturais, põe-se com toda a propriedade como sua raiz verdadeira. Dessa forma Jesus revela o alcance da promessa que a sua pessoa constitui para aqueles que o deixam entrar. Não se trata de uma ingerência de Jesus ao nível dos sentimentos mais íntimos, mas da maior promessa que o homem já pôde receber: sem amar Jesus, a Beleza que se fez carne, mais que a pessoa amada, esta última relação murcha, pois é Ele a verdade dessa relação, a plenitude à qual um remete o outro e na qual a sua relação se realiza. Só permitindo-lhe entrar é possível que a relação mais bela que pode acontecer na vida não se corrompa e, com o tempo, morra. Essa é a audácia da Sua pretensão.
Neste momento aparece em toda a sua importância a tarefa da comunidade cristã: favorecer uma experiência do cristianismo como plenitude de vida para qualquer homem. Só no horizonte dessa relação maior, como dizia Rilke, é possível não se consumir, pois cada um encontra nela a sua realização humana, descobrindo em si uma capacidade de abraçar o outro na sua diversidade, de gratuidade sem limites, de perdão sempre renovado. Sem comunidades cristãs capazes de acompanhar e sustentar os esposos na sua aventura, será difícil, se não impossível, que eles a levem a realizar-se positivamente. Os esposos, por sua vez, não podem se eximir do trabalho de uma educação da qual são os protagonistas principais, limitando-se a pensar que pertencer à comunidade eclesial os liberte das dificuldades.
Nisso se revela plenamente a natureza da vocação matrimonial: caminhar juntos rumo ao único que pode responder à sede de felicidade que o outro suscita constantemente em mim, rumo a Cristo. Assim se poderá não passar, como a Samaritana, de marido em marido (cf. Jo 4,18), sem conseguir satisfazer a própria sede. Jesus fez com que ela percebesse que a consciência da sua incapacidade de resolver por si mesma o drama que vivia, nem mesmo mudando cinco vezes de marido, era um bem tão desejável, que ela não pôde evitar gritar: “Senhor, dá-me dessa água, para que eu não tenha mais sede” (Jo 4,15).
Sem uma experiência de Cristo como plenitude do homem, o ideal do cristianismo para o matrimônio se reduz a algo impossível de se realizar. A indissolubilidade do matrimônio e a eternidade do amor parecem quimeras inacessíveis. Na realidade, elas são fruto de uma tal intensidade de experiência de Cristo, que surgem para os próprios esposos como uma surpresa, como o testemunho de que “para Deus nada é impossível”. Só uma experiência assim pode mostrar a racionalidade da fé cristã, como totalmente correspondente ao desejo e às exigências do homem, também no matrimônio e na família.
Uma relação vivida assim constitui a melhor proposta educativa para os filhos, que, por meio da beleza da relação entre os pais, são introduzidos, como que por osmose, no significado da existência. Sua razão e sua liberdade são constantemente solicitadas a não se separar dessa beleza; a mesma beleza que resplandece no testemunho dos esposos cristãos que os homens e as mulheres do nosso tempo precisam encontrar.

Notas
[1] Bento XVI, Abertura do Congresso Eclesial da Diocese de Roma sobre Família e Comunidade Cristã.
[2] Cf. Pavese, C. O ofício de viver. Tradução de Homero Freitas de Andrade. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 1988, p. 209.
[3] Deus caritas est, 2.
[4] Deus caritas est, 4: “Os gregos – aliás, de forma análoga a outras culturas – viram no eros sobretudo o inebriamento, a subjugação da razão por parte de uma ‘loucura divina’ que arranca o homem das limitações de sua existência e, neste estado de transtorno por uma força divina, faz-lhe experimentar a mais alta beatitude. Desse modo, todas as outras forças, quer no céu quer na terra, resultam de importância secundária. ‘Omnia vincit amor – o amor tudo vence’, afirma Virgílio nas Bucólicas, e acrescenta: ‘et nos cedamus amori’ – rendamo-nos também nós ao amor”.
[5] Deus caritas est, 5.
[6] Leopardi, G. “Aspásia”, vv. 33-34. In: Cantos. Tradução de Mariajosé de Carvalho. São Paulo, Max Limonad, 1986, p. 133.
[7] Id., ibid., vv. 44-48, pp. 133-134.
[8] Ct 8,6-7: “Grava-me, como um selo em teu coração, como um selo em teu braço; pois o amor é forte, é como a morte! Cruel como o abismo é a paixão; suas chamas são chamas de fogo, uma faísca de Iahweh! As águas da torrente jamais poderão apagar o amor, nem os rios afogá-lo. Quisesse alguém dar tudo o que tem para comprar o amor... Seria tratado com desprezo”.
[9] Lewis, C. S. Surpreendido pela alegria. Tradução de Eduardo Pereira e Ferreira. São Paulo, Mundo Cristão, 1998, p. 224.
[10] Leopardi, G., “A sua dama”, vv. 45-47: “Se és uma das idéias imortais/ A quem sensível forma recusou/ A eterna sapiência...”. In: Cantos. Op. cit., pp. 88-89.
[11] O tema é enfrentado mais amplamente em: Giussani, L. Le mie letture. Milão, Rizzoli, 1996.

Cartas do P.e Aldo 71

Asunción, 10 de junho de 2009.

Caros amigos,
Carrón nos dizia na sua carta de alguns meses atrás, comentando a famosa carta do Papa: “Esta carta tem um ‘respiro’ que nos obriga a agradecer ao Papa, tanto mais quanto mais aumenta a rigidez daquels que reduzem a vida cristã a um moralismo sufocante. Nada mais que uma carta assim faz me sentir orgulhoso da minha pertença eclesial, cheio de confiança de que no dia em que eu tiver errado seria tratado com uma misericórdia do mesmo tamanho” (a carta, publicada no jornal espanhol "La razón", pode ser lida na íntegra clicando aqui; ndt).
Desde março, quando eles nos disse isso, para mim, para os meus doentes e pobres, essa carta se tornou o sentido do nosso estar, do nosso conviver com todos. No fundo, naquela frase está contida a graça do meu modo de olhar para os doentes, para as mulheres de rua, para os homossexuais, para as lésbicas, para os travestis que acolho na minha clínica. Eles têm necessidade daquilo que eu tenho necessidade: O CARINHO DO NAZARENO... sentir-se perdoados, abraçados. Muda-se quando se é olhado assim e apenas assim.
Dia desses, um homem foi preso por pedofilia, depois de ter abusado de algumas das minhas crianças. Deixo a vocês imaginar a dor e a “raiva”. Pois bem, com o coração na mão, sem me preocupar com ninguém, foi abraçá-lo. É o mesmo com cada homem... porque é escandaloso dizer isso, mas mesmo com alguém que é chamado de “pedófilo”: este também é Cristo. Sim. Mesmo ele é Cristo, como o é qualquer pessoa nascida de um homem e de uma mulher. Mesmo os meus travestis são Cristo. E é assim que eu olho para eles, é assim que eu lhes dou a minha pobre vida. Uma coisa é o delito, mas o homem é Cristo. É CRISTO. E relação com o Mistério.
Como posso ter amigos, e mesmo padres, que não entendem isso? Mas, Cristo morreu por mim, morreu pelo perverso, pelo homosexual, pelo pedófilo, pelo homem de rua, morreu mesmo por Hitler... ou não? Todos os dias vivo com aqueles que são chamados o “lixo” da sociedade... porém, em nenhum homem vi, como neles, o sinal inconfundível do Mistério.
Ontem, recebi um email. Vejam o que é o cristianismo, o que quer dizer olhar para um lugar onde há alguém que olha o homem desta maneira... “Caríssimo Padre Aldo, ontem meu marido veio buscar algumas coisas suas – separamo-nos há muitos anos e já lhe contei isso –, e tão logo entrou eu o abracei e lhe dei um beijão como NUNCA havia feito!!! E a culpa é SUA!! Se você vê Jesus nos seus doentes, eu também quero vê-Lo em todos, especialmente naqueles que a vocação me deu”.
Todos os dias, com os meus sacerdotes, rezamos por aqueles que ofendemos para que nos perdoem e por aqueles que nos ofenderam para que saibamos perdoá-los. De forma que cada um de nós, padre ou não, tem que prestar contas com a própria miséria e com a dos outros... de forma que eu me pergunto o que fizemos com aquela provocação de Carrón?
Aqui, comigo, tem uma bela mulher, que é a responsável última das Casinhas de Belém. O braço direito do ditador Stroessner, torturou, matou e desapareceu com seu pai, de forma que há anos não sabem onde colocaram o seu corpo. Na Escola de Comunidade, um dia, eu lhe perguntei: “Jasmin, o que você sente pelo torturador e assassino de seu pai?”. Chorando, ela me disse: “Veja aquele crucifixo na parede... Pois bem, no lugar daquela cabeça de gesso representando o rosto de Jesus eu coloco a cabeça do torturado de meu pai... Sou cristã e não posso viver de outra forma”. E dizia isso chorando.
Então, amigos, rezemos ao Sagrado Coração de Jesus para que também entre nós refloresça a caridade no meio de toda a nossa miséria... que a caridade sustente as instituições... porque ou o coração de tudo é o homem ou somos, de fato, fariseus.
“Paixão por Cristo, paixão pelo homem”: pensava nisso enquanto encontrava e abraçava aquele pobre homem de que lhes falava.
Com afeto
P.e Aldo

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Cartas do P.e Aldo 70




Asunción, 07 de junho de 2009.

Caros amigos,
estou de volta da Bolívia, onde estive para rever a experiência de fé começada pelos jesuítas há 300 anos atrás, na selva de Chiquitânia, e ainda hoje visível nas pessoas que, não obstante a teologia da libertação, continuam vivendo o cotidiano no modo mais belo e concreto da relação pessoal com Cristo.
Vi crianças sujas e famintas tocando violino, contra-baixo, órgão... Vi essas crianças de 5 a 10 anos, cadavéricas, tocando o violino tendo a partitura de “La donna è mobile”, de Verdi, à sua frente. Imaginem a minha comoção! No meio da selva, onde só havia cabanas e uma igreja belíssima – fruto da fé dos jesuítas e dos índios – com três naves ladeada de casebres de barro e palha. Nada de estradas, apenas trilhas. Como na Idade Média: um povo gerado pela fé que vive em cabanas pobres, desagradáveis, entre as quais se ergue a majestade e a beleza da igreja.
Estando com estas crianças, pensava no que o Papa disse nos funerais de Giussani: “na sua casa tinha pouco pão, mas muita música”. Exatamente como na selva Chiquitânia: as crianças não têm pão, mas tocam violino, contra-baixo, flauta, harpa, viola. Aquilo que, para vocês, é uma escola – para aqueles que, economicamente, podem – ali é um fato que cada criança vive. Pode-se ficar sem comer, mas não se pode viver sem o violino. Meu Deus! De fato, na selva, encontrei o Movimento, um movimento como o de Marcos e Cleuza, como este de São Rafael: um movimento onde aquilo que é chamado “lixo” do mundo vive comovido, esperando a morte. Esperando-a com a música ou pintando – como as pinturas que mando para vocês.
Aquilo que Carrón nos dizia nos Exercícios (refere-se ao Exercícios da Fraternidade de Comunhão e Libertação; ndt), falando da positividade das circunstâncias – que, para mim, são o sorriso, a ternura de Deus – eu o vivo com paixão, a cada dia, e experimento sua beleza, exatamente como aqueles curumins que tocam violino em circunstâncias impensáveis.
Duas circunstâncias em particular, nestes dias, me educaram a ver a positividade do real:
1. Hoje, uma jovem mãe com dois filhos, que emigrou há alguns anos sozinha para a Espanha, voltou em coma para o Paraguai, graças à piedade cristã de algumas irmãs que pagaram o avião para a família. Chegou viva por milagre e, agora, já está na nossa clínica. Sua chegada foi dolorosa para os seus filhinhos que a viram partindo para a Espanha, em busca de fortuna, saudável. O que eu poderia dizer a eles? Abraçá-los e fazê-los sentir a ternura de Jesus que, mesmo se em condições terminais, permitiu a eles revê-la ainda viva.
Certamente que as perguntas são tantas... uma jovem mãe obrigada a emigrar, a dureza do período na Espanha, os filhos distantes, a solidão e, finalmente, a doença e o coma... Não é possível não se perguntar onde está a positividade disso tudo. Então, me volta à mente a Escola de Comunidade onde Giussani fala do “desejo de um bem árduo”, da “inevitável incerteza”, do “caminho que é caracterizado pela fadiga” e “a força de Jesus”. É como chegar a dizer que o positivo desta situação é, para mim, viver estas palavras de Giussani, viver a certeza de que Cristo é o sentido de tudo (doença e saúde) e, por isso, o caminho é o mesmo que Jesus seguiu até o calvário. É uma certeza – cheia de raiva, às vezes, cheia de obscuridade – como a de Jesus no Getsêmani, mas é uma certeza que torna mesmo a raiva da impotência e da solidão um grito: “Não a minha, mas a Tua vontade seja feita” ou “nas tuas mãos eu entrego o meu espírito”.
“A Tua graça vale mais do que a vida”: todas a semanas, nas “horas”, rezamos estas palavras... mas, aqui, o instante é que nos “obriga” a reconhecer esta verdade. Então, se a graça, Cristo, vale mais do que a vida, vocês entendem por que não existe dor, sofrimento, que não seja positivo? Então, vocês entendem por que esta mulher foi acolhida por nós, vinda da Espanha, como se acolhêssemos Jesus, em coma? “A Tua graça vale mais do que a vida”: o nosso hospital é a memória disso.
2. Marciana, uma bela garota que está morrendo de câncer, tem 20 anos. Se Deus não faz um milagre, os seus dias estão contados. No entanto, é feliz na certeza de estar na reta final.
Olhem seus últimos quadros, pintados nestes dias, com uma fadiga enorme, com os olhos cheios de letícia, mesmo que cheios de dor. Tem metástases para todo lado, dores imensas... mas, não é a morfina que lhe acalma as dores, mas a fé mais forte do que o granito. Ela repete continuamente: “a vida é bela... padre, estou bem”. Pinta com fadiga, sustentada pelo seu pai... e pinta com cores vivas, pinta a realidade. Não é abstrata a sua pintura, porque ela vive a realidade, vive o câncer, vive cada circunstância com a intensidade das cores dos lapachos (como são conhecidos os ipês – Tabebuia impetiginosa –, no Paraguai; ndt) amarelos, brancos e rosas, quando florescem. Para ela, ou a pintura descreve a realidade ou não é uma pintura, porque a doença que ela viva não é abstrata, é concreta, concretíssima e não lhe permite sonhar, fugir da concretude das dores terríveis da metástase óssea. Os seus quadros são lindíssimos porque afirmam o que existe, a realidade, e, nesta consciência, o olhar de Marciana, pintando aquilo que vive, gritam: “Ele existe”.
Vejam o que ela me escreveu... e algumas frases escritas como dedicatórias atrás de dois quadros de que lhes mando as fotos.
“Chamo-me Marciana Elizabeth Estigarribia, tenho 20 anos de idade, fui abandonada pela minha mãe quando nasci. Cresci com minha avó paterna. Com ela, tive uma infância bela e nunca me faltou nada, até que ela morreu. Pela primeira vez experimentei o maior sofrimento da minha vida: minha “mãezinha” morta (era como eu chamava minha avó). Fui para a casa de meu pai e ele continuou a me dar todo o calor que nós, seres humanos, precisamos na nossa vida.
O meu calvário: alguns dias antes do Natal de 2008, manifestaram-se os primeiros sintomas da minha doença. Passado o Ano Novo, fiz alguns exames e descobri a minha doença: hepatocarsinoma. Depois de percorrer hospitais públicos e privados, ficamos sem nenhum recurso financeiro. Meu pai não podia mais trabalhar e os remédios para o meu tratamento custavam muito caro.
Meu pai, no seu desespero, começou a vender os meus quadros, que eu havia pintado para saldar as minhas despesas. Porém, a minha situação era cada vez mais crítica.
À noite, rezávamos juntos a Deus e a Nossa Senhora, pedindo-Lhes pela minha saúde e por todos os necessitados. O Senhor nos escutou e guiou para chegarmos a esta Clínica, onde estou circundada por pessoas maravilhosas. Graças a eles, estou melhorando e peço a Deus que me dê força para continuar a fazer coisas bonitas até o último momento da minha vida.
Aos jovens, eu gostaria de dizer que não desperdicem as suas vidas, que valorizem aquilo que Deus lhes deu.
O meu afeto especial ao Padre Aldo por me ter oferecido tanto amor no momento mais difícil da minha vida. Que Deus infunda nele abundantes bênçãos, para que continue a ajudar os doentes.
Que Deus abençoe a todos vocês”.

Foto 1: Amigos. É aqui – junto com amigos – que ela sofre, esperando a morte... isto é, esperando a vida na sua plenitude.
Foto 2: “As coisas belas e sinceras nascem do coração e nunca mais morrem”.
Foto 3: “Que tristeza me dá saber que existem pessoas que não veem as maravilhas que Deus lhes dá para viver”.