sábado, 30 de maio de 2009

Cartas do P.e Aldo 69



Asunción, 03 de março de 2009.

Escola de Comunidade com as cozinheiras, lavadeiras e faxineiras da clínica

A cada semana, mesmo o gato, se o tívessemos, sentiria a exigência de participar da catequese. O ponto de partida é sempre a realidade. E, para os funcionários da clínica, a realidade é, de fato, o corpo de Cristo, como escreve São Paulo aos Colossenses. Escutem o que alguns dos que participam disseram na última Escola de Comunidade:
1. Modesta: disse à brasileira que veio ajudar na clínica durante as férias de Carnaval, em companhia de outros amigos de CL e do Grupo Adulto, depois de ser perguntada sobre como fazia para preparar bem e pontualmente o almoço para todos os doentes: “eu sei que preparo o almoço para Jesus”.
2. Ainda Modesta: “Padre, outro dia, fui dar comida a Angel – aquele que tem um enorme câncer (cerca de 1kg) no rosto e que já tomou, inclusive, a sua boca, de forma que é preciso ir devagar com ele. A um certo ponto, saiu da sua boca um fio de sangue que começou a aumentar. Fiquei com medo e corri... mas, quando já estava no corredor que tem o Santíssimo no fundo, levantei o olhar e meus olhos cruzaram com a Hóstia Branca e... então, voltei para trás, para Angel, e vi que a enfermeira já estava com ele. Jesus me indicou a realidade que me chamava”.
3. Perla (uma das faxineiras): “Padre, eu estava limpando o quarto onde está Reinaldo – um homem joven ainda, com um grande câncer no rosto. Deve pesar um quilo este câncer. A enfermeira estava tirando dele dezenas de vermes, muitos dos quais tinham caído no chão e estavam caminando para o quarto ao lado. Fiquei assustada com o nojo daquilo e corri dali. Cruzei, então, com Modesta que me viu assustada e me perguntou por quê. Contei-lhe o que tinha acontecido e ela, com um rosto angelical, me disse: ‘vem aqui, pega a pá de lixo, a vassoura, peça ajuda a Jesus e vai limpar’. Obedeci e, ao invés de sentir vontade de vomitar, experimentei muita alegria” .
4. Reinaldo (o paciente com o horrível câncer). Durante o dia, continuamente, as enfermeiras devem limpá-lo, desinfetar aquela massa de carne podre. Aproximaram-se dele, um dia, e, antes que começassem a trabalhar, ele disse: “tenham paciência comigo”. Enquanto estam cuidando dele ou dando remédio para a dor, ele aperta os punhos e, ao invés de se lamentar com a enfermeira que sempre lhe pergunta se ele está mal ou sentindo dor, ele responde: “Não! Continue!”... Obviamente, ele o diz com um fiozinho de voz apenas. Força de vontade? Não. O Santíssimo Sacramento é, para nós, o coração da questão. Todos entendem isso: médicos, enfermeiras, os chefes do hospital... A saúde seria resolvida completamente, porque a ciência é só um complemento. Mas o fator, o coração da questão, é o eu nas suas relações com o Mistério. Também os médicos e amigos brasileiros – entre os quais enfermeiras e médicos – tocaram isso com as mãos e voltaram para a casa com o coração transbordante de gratidão.
Uma nota final: como seria belo que, em cada ambiente, se fizesse a Escola de Comunidade com quem vive o ambiente. Porém, é necessário acreditar no seu valor sacramental.
Com afeto
P.e Aldo
P.S.: as fotos mostram Patrícia no dia do seu Batismo, Crisma e Primeira Comunhão. Foi no domingo passado.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Cartas do P.e Aldo 68



Asunción, 21 de fevereiro de 2009.

1ª foto
Celeste uma semana depois da chegada à nossa clínica, para morrer
2ª foto
Celeste ontem à noite, no bar comigo.

Amigos,
Quem tem a última palavra sobre o homem: os médicos ou Deus?
O meu hospital existe apenas e exclusivamente para responder a esta pergunta.
P.e Aldo

Cartas do P.e Aldo 67

Asunción, 06 de fevereiro de 2009.

Caros amigos,
O texto enviado ao senhor Presidente da República italiana é o seguinte (…). O texto foi encaminhado à embaixada de Asunción, redigido como segue.
O secretario
Guillermo Lesmes

Estimado Senhor Presidente da República Italiana

S.r Giorgio Napolitano,

Depois que V.Ex.a negou a assinatura – segundo suas palabras, “porque inconstitucional” – do decreto urgente adotado pelo governo para obstar a suspensão da alimentação e da hidratação de Eluana Englaro, em coma há 17 anos, venho expressar a minha RECUSA ao título que V.Ex.a me concedeu de “Cavaleiro da Ordem da Estrela da Solidariedade Italiana”, em 2 de junho de 2008.
Como eu posso, cidadão italiano, receber semelhante honra de Cavaleiro da Ordem da Estrela da Solidariedade da República Italiana, quando V.Ex.a, com a sua intervenção, permite a morte de Eluana, em nome da República Italiana?
Estou indignado e repito a minha recusa ao Título concedido por V.Ex.a.
Padre Antonio Trento
Missionário no Paraguai

Cartas do P.e Aldo 66


Asunción, 29 de maio de 2009.

Caros amigos,
voltei da Itália, onde pude respirar o sabor dos exercícios de Rímini (refere-se aos Exercícios Espirituais da Fraternidade de Comunhão e Libertação, que acontecem a cada ano, nesse período; ndt), que devorei, lendo o livrinho em bem pouco tempo. Quantos encontros e quanta alegria encontrei naqueles que já estão trabalhando sobre aquilo que Carrón nos disse nos exercícios. Nós, em Asunción, faremos os exercícios na metade de junho, assistindo ao vídeo gravado na Itália.
Contar para vocês os momentos belos que vivi na Itália seria impossível: alguns muito particulares, outro com tantas pessoas... mas, particularmente a alegria de rever, depois de quase 40 anos, alguns daqueles poucos rapazes do liceu de Battipaglia onde, nos anos 70, eu estive e descobri a ternura com a qual Deus me pegou pelos cabelos, salvando a minha vida. Nem sei como agradecer a eles por me terem acolhido como me acolheram depois de quase 40 anos. Revi, ali, em pé, adultos comovidos. Que Deus os abençoe, porque sem eles eu não seria este pobre, humilde pecador de quem deus pode dispor para fazer ver a misericórdia eterna do Seu amor por cada homem.
Enquanto escrevo, tenho diante de mim a pequena Cristina que está gemendo, Victor que aperta os punhos de dor e meu filho Aldo com sua grande, enorme, cabeça, roncando. Acabei de colocar na cama os outros 24, com a mãe Cristina e, agora (são quase 23h), estou um pouco no silêncio da noite com os menores de todos que sofrem, com as minhas pequenas hóstias brancas que, agora, são 6 – além dos três, tem ainda Celeste (está cada vez mais bonita e já está aprendendo a falar), Wilson (de 14 anos e cheio de metástases) e Mário (de 12 anos, com hidrocefalia grave). Escrevo e olho para eles. É, de fato, rezar, ver os sinais inconfundíveis do Mistério que se faz presente nos gemidos dos meus pequeninos. Nunca os abandonarei. Eles são a evidência de que cada um de nós é o fruto do Mistério, é relação com o Infinito. Se não fosse assim, seria terrivelmente absurdo. Mas não é assim porque eles são Jesus – me entendem? –, eles são Jesus na cruz... e, então, entendem por que não consigo me afastar? ou por que a cada vez que devo deixá-los experimento uma dor nova, porque eles são a minha riqueza: me fazem ver Ele que me faz, fazendo eles. Dessa forma, não existe cansaço, porque o Mistério é repouso, doçura, paz. Olho-os sofrendo e sorrio porque, encontrando Jesus, encontro a ironia, ou seja, a liberdade de olhar cada circunstância como dom, como positividade.
Voltei à meia-noite e meia (horário da Itália), nesta segunda-feira, da Itália... e fiquei um dia em São Paulo. Saí da Itália no domingo passado às 15h, do aeroporto Fiumicino. Cheguei em São Paulo, na segunda-feira, às 5h da manhã: Marcos e Cleuza me esperavam. Fui embora de São Paulo às 22h, para chegar em Asunción à meia-noite e meia.
Em São Paulo, um dia com os Amigos. Não poderia – mas o cansaço não existe em certos relacionamentos – não ficar e passar 12 horas com os amigos Marcos, Cleuza, Julián, Alexandre etc. Foi fantástico.
Esperaram por mim por duas horas no aeroporot, por causa do atraso do avião: “mas, para nós, esperar um amigo foi uma alegria, estávamos desejosos de ver você”.
Em seguida, fomos para a casa deles: um café da manhã que nem lhes conto! E uma cama para descansar e dormir um pouco. Os nossos diálogos, de repente, se concentraram sobre o retiro de Rímini, particularmente sobre “circunstâncias”... e esta circunstância que nos foi dada para viver. Às 11h, com Enzo – o “novo jovem” do grupo adulto (trata-se de Vincenzo Franschini, 65 anos, da casa do Grupo Adulto de São Paulo; ndt) – fomos para a sede da Associação. Nem lhes conto como fui acolhido! Não podia acreditar nos meus olhos. O almoço solene, junto com os velhos do Movimento e com a nova safra que nos está arrastando a todos... como em Battipaglia, há 40 anos atrás, mas com uma espessura maior.
No Galpão, milhares de jovens (3 mil a cada dia) passavam para se informar, nos respectivos stands organizados pelas universidades privadas de São Paulo, sobre em qual faculdade se apoiarem. Enquanto que, em uma salinha ao lado, a cada meia hora, uns cinquenta jovens escutavam as condições para fazer parte da Associação. Um espetáculo impossível de descrever. As nossas banquinhas em frente das universidades eram mesmo apenas banquinhas comparadas com isso. Mas, para além dos números, o que impressionava era a qualidade do respiro que se vivia, que se sentia. Uma febre de vida. Somente as pedras não saberiam se comover.
Depois do almoço solene, eles prepararam um espetáculo de samba belo de se ver, com as bailarinas clássicas. Meia hora de verdadeiro repouso. Mas a surpresa foi mesmo quando, na rua, enquanto estávamos no carro, Marcos me dá uma bolsa, belíssima, com uma foto dentro (vocês podem vê-la em anexo) e mil dólares para a Casinha de Belém. Quando me deu a bolsa, Marcos me disse: “é a nossa caritativa mensal, para nos lembrarmos do rostos de vocês. A caritativa é para que nós revivamos, a cada dia, a memória de vocês, nossos amigos”. Nunca tinha visto sendo definida assim a caritativa. “Neste mês, para sermos fiéis a esta amizade, cozinhamos, fizemos bolos, vendemos refrigerante nos sinais de trânsito e em lugares públicos, porque, de agora em diante, somos uma mesma coisa e a obra de São Rafael é nossa”, me dizia Cleuza.
Escutava a tudo isso comovido, enquanto via desfilar diante dos meus olhos dezenas de jovens universitários pobres e um monte de pessoas humildes... todas protagonistas do próprio destino.
Nunca havia visto uma coisa igual, um modo tão simples de ajudar os irmãos mais pobres, como os meus doentes e velhos.
É exatamente a febre de vida que move tudo. Ali, a posição das pessoas é a de responder sempre e rápido à realidade.
Finalmente, o encontro da Nossa fraternidade, das 16h às 21h30, na casa de Marcos e Cleuza. E ficaríamos ainda mais se eu não tivesse que tomar o avião. Tema: os exercícios do CLU, com Carrón (ocorrido em dezembro de 2008, com o titulo “O desafio do presente”; ndt). Uma leitura e, em seguida, a vida, a realidade. Eu estava cozido de cansado, mas não me dava conta de tão evidente o ar do Tabor (refere-se à passagem da transfiguração de Cristo, no Monte Tabor; ndt) ali. Depois, a Missa, o jantar... e que jantar! Para, então, Marcos e Cleuza me levarem ao aeroporto.
Que ternura, que atenção, que gratuidade! Exatamente como vi na Itália... tocada a mesma coisa pelo calor dos que seguem a Carrón... porque, como eles dizem, quem segue a Carrón é mais feliz e, portanto, é capaz de uma gratuidade única. Brasil. Paraguai.. é, de fato, uma esperança, um movimento, um Fato... aquele Fato que aconteceu para mim em Battipaglia se tornou adulto na minha vida.
Com afeto
P.e Aldo

Cartas do P.e Aldo 65





Asunción, 11 de fevereiro de 2009.

Olhem que milagre: Celeste!
Os médicos disseram: “veio para ser enterrada e, agora, não é mais uma doente terminal. Estava pior do que Eluana quando chegou e, agora, olhem para ela: que bela! Que alegre!”.
Amigos, Giussani continua a me escutar.
De fato, o homem é um mistério e a realidade é o lugar onde se manifesta.
É mesmo bela a minha Celeste!
P.e Aldo

Cartas do P.e Aldo 64

Asunción, 28 de dezembro de 2008.

Caros amigos,
Chegou hoje! Se pode servir, me permito, mantendo o anonimato, inviar este email às centenas de pessoas que me escrevem e têm o mesmo problema.
Que belo ver como Jesus se serve mesmo dos pobres para dar esperança a quem perdeu o desejo de viver.
Com afeto,
P.e Aldo

Caríssimo P.e Aldo,
escrevo para agradecer ao senhor, porque o seu testemunho marcou uma reviravolta na minha vida.
Não nos conhecemos pessoalmente e, no entanto, sinto uma grande familiaridade com o senhor, porque o vínculo que nos une é mais forte que o vínculo de sangue.
Neste verão, não podendo ir ao Meeting, segui pela internet alguns dos encontros que eram apontados por amigos que haviam ido. Assim, me deparei com o seu testemunho. Fiquei fulgurante, porque o senhor falava de mim: também eu sofro de depressão, devo tomar sempre alguns medicamentos e estava com raiva porque a minha vida era triste e difícil. Não aceitava dever ser sempre assim. Mas as palavras do senhor – “a depressão é uma graça” –, ditas com a consciência e o sofrimento de quem a experimentou verdadeira na própria vida, mexeram comigo. Nunca acreditei nas alegrias fulgurantes, mas a história da vida do senhor, em alguns aspectos muito semelhante a minha, suscitou em mim um esperança inimaginável. Naqueles dias, eu havia escrito para um amigo dizendo que eu nunca seria uma protagonista, mas sempre e apenas ninguém. Sentia-me um nada e de nada valiam as palavras de quem me dizia o contrário. Aí, me parecem Vicky, as palavras do senhor e tudo adquire, devagarzinho, cor e espessura outra vez.
Estou vivendo um momento de graça que não pensava que pudesse acontecer na minha vida. Agora, eu sei que é possível viver assim! Não peço mais ao Senhor que me cure da depressão (se acontecer, será benvindo) porque entendi que não existe obstáculo para a graça. Deus pode fazer correr os rios para cima e eu me sinto assim: contra as leis da natureza, a minha vida está caminhando no máximo. Não faço grandes coisas como o senhor faz, mas nas minhas condições de mulher e de mãe, de professora e de amante da música e do canto, tento fazer frutificar os talentos que Deus me deu como posso. A depressão não é mais um obstáculo. E, por isso, devo agradecer ao senhor.
Quando eu vi o senhor falando, na tela do meu computador, eu chorava porque me identificava com o seu sofrimento, entendia a sua angústia, mas a vitória de Cristo sobre a depressão era ainda mais evidente. Desejei que acontecesse também comigo: se Cristo venceu a morte, como pode parar diante de uma depressão banal?
Hoje, mesmo sendo Natal, me sinto como um daqueles ícones russos nos quais o nascimento era representado com o presságio da morte e da ressurreição: eu estou viva, ou melhor estou renascida, estou ressuscitada! Sei que a doença poderá colocar outra vez na minha boca palavras de morte e de desespero, mas a verdade a estou dizendo agora: Cristo venceu a morte e, portanto, venceu também a minha depressão!
Espero muito poder encontrar o senhor, poder falar com o senhor, um dia, porque, como Giussani nos ensinou, quero buscar, a cada dia, o rosto dos santos para conseguir conforto em suas palavras.
Desejo ao senhor todo o bem e peço-lhe para rezar por mim e por todas as pessoas deprimidas.
Abraço o senhor em Cristo.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Cartas do P.e Aldo 63


Asunción, 28 de maio de 2009.

Amigos,
olhem para eles: que belos! Só um milagre pode arrancar-lhes da morte. Mas, estão contentes. O câncer não pode nada contra eles, porque neles é claro o que move a minha pobre vida: “eu sou Tu que me fazes”!
Wilson, 15 anos, tem metástases para todos os lados. Os seus dias estão contados... mas, por Jesus. Domingo que vem, lhe darei a Crisma. Saturnino tem a minha idade: também ele está para morrer. Mas, onde estão os sinais da morte? No rosto deles existe já a certeza da ressurreição. É mesmo bela a realidade, vivida com este olhar.
Ciao
P.e Aldo

Cartas do P.e Aldo 62



Asunción, 05 de dezembro de 2008.

Caros amigos,
o milagre continua.
Eis Celeste e meu filho adotivo – Aldo Trento – participando do dia de convivênci com outras crianças.
Quem diria?! Seguramente não os médicos que me confiaram Celeste para enterrá-la... apenas quem tem fé e acredita que a vida é um contínuo milagre.
Leiam o evangelho de hoje, sexta-feira, por favor.
Que dom Giussani seja, de verdade, uma presença que, através de Carrón e da Escola de Comunidade nos segue e nos educa.
P.e Aldo.

Cartas do P.e Aldo 61


Fuça daqui, fuça dali, encontrei mais um monte de bilhetes do P.e Aldo... que vou publicando! Bom proveito, amigos.


Asunción, 30 de novembro de 2008.

Vocês se lembram da Celeste?
Trouxeram-na para cá, do hospital para crianças gravemente doentes de leucemia, para morrer. Olhem para ela: renasceu.
Há semanas estamos pedindo um milagre a dom Giussani... e estes são os efeitos. O médico responsável pela clínica declarou: não é mais doente terminal. Continua paralizada, mas já move os braços, sorri, anda na cadeira de rodas e... SORRI feliz. O que me dizem? Giussani está vivo e, assim como me curou... continua me curando e, comigo, aos meus Amigos.
Amigos, acreditemos em Jesus, e acreditar é acreditar e basta. É como dizer: “para mim, o viver é Cristo”.
Pensem na minha alegria entre tantas outras: domingo que vem, Celeste vai fazer a sua primeira comunhão.
Com afeto
P.e Aldo

Cartas do P.e Aldo 60


Encontrei um bilhetinho do P.e Aldo, no meio das minhas cartas arquivadas. Aí vai!
Asunción, 25 de novembro de 2008.

“O Verbo se fez carne e habita entre nós”.
Eis o último nascido na Casinha de Belém. Chegou ontem e se chama Giovanni. É o irmãozinho de Celeste e tem 8 meses. Agora, os meus filhos são 24, entre saudáveis e doentes.
P.e Aldo.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Cartas do P.e Aldo 59




Pessoal, havia me esquecido dessa carta de 09 de outubro de 2008. Aí vai! Essa, portanto, é a última carta antiga que tenho do P.e Aldo. Se alguém tiver cartas anteriores à última de setembro de 2008 e quiser me mandar para traduzir, ficarei contente... e, tenho certeza, ficarão também contentes os que têm tão fielmente visitado este blog desde que comecei a postar as cartas do P.e Aldo.


Asunción, 09 de outubro de 2008.
Caros amigos,
Meu coração se rasga ao ver os meus três filhinhos, Cristina, Victor e Aldo, marcados pela dor. Há dias que sofrem terrivelmente. Cristina chora, soltando gemidos indescritíveis. Tem cerca de dois anos, é cega, surda, hidrocéfala e tem outras deficiências. Quando a pegamos nos braços, não sabemos onde apoiar sua cabeça. Está ali, na sua caminha, beijo-a com ternura, coloco meu rosto perto do dela... e ela se aquieta um pouco e, depois, recomeça a chorar. Não tem ninguém no mundo, tem apenas os nossos, os meus carinhos. A sua doença – dizem os meus caros médicos – tem origem nos mal-tratos que sofreu quando nasceu. Está há mais de um ano comigo. Ao lado dela, o meu pequeno Victor, que todos já conhecem. Estes dias são terríveis para ele. Febre de 39°, emplastros de água fria, a cada 10 minutos devemos medir a sua temperatura, convulsões contínuas, aperta fortemente os pequenos punhos, respira com dificuldade, o seu peito enche e esvazia pelo esforço contínuo de respirar. Geme continuamente. Estou assentado ao seu lado, tenho os olhos mais que vermelhos e o coração em pedaços... rezo, estou em adoração, faço-lhe um carinho nas mãozinhas, o aproximo de mim, beijo-o delicadamente, o chamo suavemente. Não podemos movê-lo com facilidade, a sua cabeça, que é um pequeno lago, não nos permite. No entanto, as minhas caras e ternas enfermeiras o fazem, porque atrás da cabeça já tem três grandes feridas de decúbito. São feridas abertas, que aumentam a sua já grande dor. Qualquer um que o veja não consegue ficar mais de alguns minutos sem o risco de desmaiar. Todos cheios de perguntas e, particularmente, “por quê? Para quê?”.
Eu, com as minhas enfermeiras, estamos ali com ele. Pessoalmente, não consigo deixá-lo sozinho, apesar dos tantos empenhos que me obrigam e eu sofro ainda mais. Hoje, por exemplo, é domingo: acordei às 4h45. Tinha um retiro com as crianças da primeira comunhão na fazenda que temos a 40km de Asunción, onde vivem os doentes de AIDS não terminais. Depois, às 13h, corri para casa, onde me esperavam as crianças das duas Casinhas de Belém para um churrasco. São 20 crianças de 6 meses a 12 anos de idade, confiadas a mim. Uma grande mesa com a mamãe Cristina e nós 4, sacerdotes: um espetáculo único. Todos juntos, comendo, cantando, rindo. Os recém-nascidos nos carrinhos com a mamadeira nos braços. Mas, que bela família somos!, eu disse num certo momento. Mas, o meu coração estava na clínica... e, assim, voltei para ver as minhas pequenas hóstias brancas. Fiquei com eles, recitando o breviário, rezando por todos vocês. Desta vez, fixei os olhos de Aldo, o meu filho adotivo, com a sua cabeça de 50 cm de diâmetro e um corpo longo e fino como um palito de dentes. Quando se mexe, primeiro gira a enorme cabeça e, por consequência, todo o resto do corpo vai junto. Faz já 15 dias que não ri mais, não vai mais bagunça com os objetos que lhe colocamos nas mãos. Está sempre virado para o imóvel e dolorido Victor. Desde quando Victor e Cristina pioraram ele também piorou. Comove-me, coloca-me em adoração porque vejo concretamente o que é o corpo místico de Cristo... que sofre quando um outro sofre, que faz bagunça quando o outro goza de alegria. Como explicar de outra maneira este estranho relacionamento entre as três crianças?... das quais epenas o meu filho adotivo – mas também os outros são meus filhos, mesmo que não reconhecidos pela lei – vê e escuta, porém é mudo... e que, segundo o acordo com o juiz, lhe demos 10 anos de idade, com data de nascimento fixada no dia de Natal: 25 de dezembro de 1998... A única explicação, de fato, é que o Mistério que os faz em cada momento, os coloca juntos, fazendo deles três um movimento de fé único e indispensável para mim, para vocês, para a Igreja, para o mundo!
Sofro tanto quando os olhos e os olhos 24 horas por dia e cuido desta minha pequena comunidade com muito ciúme... cuido desta comunhão que é, de fato, libertação, isto é, exaltação do meu eu, da minha consciência de ser relacionamento com o Mistério. Os gemidos terríveis e fortes de Cristininha, ou os gemidos fracos, sutis mas mais dolorosos de Victor e o silêncio cheio de tristeza do meu pequeno e comprido Aldo, me fazem entender que a beleza da vida está no meu nexo ontológico com o Mistério. Fenomenicamente falando, parecem “inúteis”, diria o diabólico mundo (para mim, são belíssimos mesmo no aspecto, como o é cada filho, como é o mendigo cheio de sujeira que chega ao meu hospital moribundo e podre), mas ontologicamente são Jesus, entendem?... São Jesus: é a minha pequena companhia de Jesus, é a minha pequena “Redução” que faz o mundo respirar. Cabe a mim cuidar deles e cabe a vocês sustentar-nos com a oração.
Depois da Missa das 15h, voltei para dar um beijo de boa noite aos meus outros filhinhos das duas Casinhas de Belém. Estavam todos assentados em torno da grande mesa com a mamãe Cristina, enquanto os bebês já estavam nos seus berços dormindo. Assentei-me com eles. Estavam felizes. É difícil, para eles, entenderem aquele estranho relacionamento entre mim (o papai) e Cristina (a jovem mamãe que ficou sozinha com um filho natural e as outras duas pequenas mortas na minha clínica... e com o marido morando na Espanha, para trabalhar), mas a virgindade é uma linguagem, é a única linguagem que mesmo as crianças compreendem e, por isto, nos querem um bem do outro mundo. As crianças me pularam no pescoço e, depois de tantos beijinhos, contamos piadas por meia hora. Mas, que bela é a virgindade! Faz viver uma ternura com Cristina que, depois, se torna paternidade, maternidade por estas crianças.
Às 21h, todas estavam na cama. Dei em cada um beijinho de boa noite, rezamos... e, depois, agora, já sabem vestir o pijaminha, de forma que tenho um trabalho a menos. São 8 meninas, 4 meninos e 3 bebês. Algumas têm AIDS, outras foram violentadas por seus “padrinhos”, outras são filhas de ninguém. Ou melhor, Deus as deu para mim. Por último, saúdo Cristina com um beijinho na testa (é pequena e bela) e volto para o convento, na companhia dos meus confrades. Porém, antes, vou à clínica porque me esperam... mesmo as belas enfermeiras do turno da noite. Beijo os meus pequenos doentes, toco-lhes e me faço o sinal da cruz, um beijo (são os últimos do turno), passo pelo Santíssimo Sacramento para confiar-Lhe o dia. Às 23h vou para a cama... um pouco de sonífero com um pouco de anti-depressivo (como veem, obedeço até mesmo ao médico... e não me dá fastídio usar aquilo que a ciência nos presenteia para viver melhor... tudo o que é bom vem de Jesus) e durmo, durmo o necessário, já que às 04h45min deverei estar de pé para a hora de ginástica – corro, recitando os 4 mistérios do Rosário, assim, desde segunda feira e a cada dia, inicio contemplando toda a vida de Jesus.
E, na segunda-feira que vem, pela manhã, receberei o Vice-Presidente da República, o Vice-Ministro das finanças e, na próxima semana, virá também o nosso amigo Ministro das Instrução Pública para recitar as laudes comigo, Paolino e Daf (o último sacerdote que P.e Massimo nos presenteou).
Ciao e boa noite.
P.e
Aldo
Anexo as fotos dos meus três filhinhos.

terça-feira, 26 de maio de 2009

O coração do homem, segundo Eastwood


História de um anti-herói pobre, mas que sabe em quem acreditar: Cristo. Isto é Gran Torino. E o povo lota as salas de cinema para assistir ao filme

Por Luca Doninelli

Decerto muitos de vocês já assistiram a Gran Torino, a obra-prima de Clint Eastwood. Comentamos muito a respeito entre amigos e estou certo de que muito se falará ainda. Não lhes conto a história, em respeito aos que ainda não viram, mas pretendem fazê-lo. Não me deterei no valor cinematográfico nem nos numerosos assuntos tratados no filme. Quero dizer apenas que é um filme cristão, não apenas no sentido de que o cristianismo é afirmado como sentido exaustivo de toda a história, mas no sentido de que nos apresenta um tipo de homem que cresceu com uma atenção à realidade.
No princípio, o protagonista parece detestar o catolicismo, mas logo se percebe que, sob sua postura dura, existe uma idéia a respeito da santidade da vida, a de Cormar McCarthy, fique claro, e que, de acordo com o diretor do filme e do escritor, geraram os Estados Unidos, a sua força, o seu fascínio.
É sobre este ponto que quero me deter. Ou melhor, sobre o fato de que este filme, que não recebeu a mesma propaganda que outros (pois, compreende-se, não tinha cowboy gay nem moças maltratadas pelas freiras), obteve um sucesso sempre crescente, ao ponto de ser recorde de bilheteria em muitos países.
É estranho. O sentido deste filme coincide com algo que todos gostariam (assim parece) de eliminar da face da Terra. O cristianismo como significado total da existência humana. Mas, o mundo não havia mudado? Não havia já sido decidido que era hora de nos desembaraçarmos destas coisas? Porém, ao contrário, eis a surpresa: um filme repleto de memória cristã – e sem um fio de nostalgia dos bons tempos passados – se torna o filme do ano. E, não para nossos avós. Não! Mas, para as nossas gerações que se assemelham mais aos filhos do protagonista (vazios, sem outro objetivo que o dinheiro) do que a este velho octogenário e doente.
Quer dizer que o coração do homem não mudou. Não mudou ainda. A humanidade que fascina é aquela, não a que vem nas propagandas da TV ou das revistas. Uma humanidade pobre mas convicta daquilo em que crê. O protagonista descobre que aquilo em que crê não é nos Estados Unidos, mas sim, em Jesus Cristo.
É certo que é preciso mais para edificar a Catedral, a fim de que, como diz Elliot, o sangue dos mártires volte a escorrer no sagrado. Mas também, para destruir o coração do homem é preciso mais. O sucesso deste filme nos recorda que, embora os operários sejam poucos, a messe continua a ser imensa.
Como é estranho o nosso coração! Ocupado com tantas ninharias, porém sempre pronto, diante de Cristo – “mendicante do coração do homem” – a dizer “sou teu”.

A experiência da família: uma beleza para reconquistar

Encontro organizado pelo Centro Cultural de Milão
em ocasião da Semana da Cultura 2009, da Diocese de Milão.

A experiência da família: uma beleza para reconquistar
De Julián Carrón

Um novo início
A família está, nos últimos tempos, no centro do debate público. A tentativa de regular novas formas de convivência diversas do matrimônio concebido como relacionamento definitivo e fecundo entre um homem e uma mulher desencadeou uma apaixonada discussão. Não é algo de totalmente novo, mas o cume de um processo começado há anos.
Este debate colocou em evidência, por um lado, que toda a propaganda de uma mentalidade contrária, através da mídia (cinema, televisão, jornais), mesmo tendo à sua disposição meios tão potentes, não impediu que tantas pessoas continuem a fazer uma experiência positiva da família. Diante deste impressionante uso das forças midiáticas e ideológicas, pareceria inevitável que a família perdesse o interesse. Pelo contrário, há um fato que somos constrangidos a reconhecer quase com surpresa: este impressionante aparato demonstrou-se incapaz diante da experiência elementar que tantos de nós viveram na própria família, a experiência inextirpável de um bem. Um bem do qual somos gratos e que queremos transmitir às futuras gerações, para partilhá-lo com elas. Mas, por outro lado, este bem experimentado não conseguiu bloquear socialmente as tentativas de transformar o matrimônio em outras formas diferentes. A isto é preciso acrescentar um dado não menos significativo: este processo começou quando a maior parte das leis sobre o matrimônio defendia a concepção tradicional derivada do cristianismo. Todas essas leis não impediram o alargamento de uma mentalidade contrária ao matrimônio, não deram conta de conter a mudança.
Como isso pode ter acontecido? Como é possível que a clareza a que havíamos chegado acerca do matrimônio e que havia sido confirmada nos séculos, em tão pouco tempo, tenha sido colocada em discussão de um modo tão generalizado? Tentar entender a situação que estamos vivendo me parece particularmente decisivo para poder responder a essas perguntas.
Na sua última encíclia – Spe Salvi –, Bento XVI ofereceu uma chave de leitura para entender o que está acontecendo, quando afirma que “um progresso adicional é possível apenas em campo material. Aqui, no conhecimento crescente das estruturas da matéria e em correspondência com as invenções sempre mais avançadas, se dá claramente continuidade ao progresso em direção a um domínio cada vez maior da natureza. Porém, no âmbito da consciência ética e da decisão moral não existe uma possibilidade similar de crescimento, pelo simples motivo de que a liberdade do homem é sempre nova e deve sempre, novamente, tomar as suas decisões. Essas decisões nunca são tomadas para nós, por outros – em tais casos, de fato, não seríamos mais livres. A liberdade pressupõe que, nas decisões fundamentais, cada homem, cada geração seja um novo início” [1].
Novo início. Será difícil encontrar uma expressão mais adequada para descrever o presente. Se cada momento é um novo início, exatamente porque tem no meio a liberdade, o nosso será propriamente um novo início porque aquilo que era transmitido pacificamente de uma geração a outra não existe mais. É um novo início porque não se pode dar por óbvio nada daquilo que até bem pouco tempo atrás era claro para todos. É preciso começar do início.
Olhando bem para a nossa situação, nos damos conta de que não é muito diferente daquela do início. Basta recordar a reação dos discípulos quando ouviram Jesus falar sobre o matrimônio. “Naquele tempo, se aproximaram dEle alguns fariseus para colocá-Lo à prova e Lhe perguntaram: ‘É lícito a um homem repudiar a própria mulher por algum motivo?’. E Ele respondeu: ‘Vós não lestes que o Criador, no princípio, os criou homem e mulher e disse: por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher e os dois serão uma só carne? Assim, não são mais duas, mas uma só carne. Aquilo, portanto, que Deus uniu, o homem não deve separar’. Disseram-Lhe, então, os discípulos: ‘Se esta é a condição do homem em relação à mulher, não convém se casar’” [2]. Não devemos nos surpreender, portanto. A mesma coisa que a tantos dos nossos contemporâneos, hoje, e tão frequentemente a nós mesmos, parece impossível, parecia também aos discípulos.
Isto não quer dizer que nada do que se aprendeu ao longo dessa história milenar sirva, mas quer dizer que esta riqueza acumulada não se transmite mecanicamente. Prossegue, de fato, o Papa: “Certamente, as novas gerações podem construir sobre conhecimentos e sobre experiências daquelas gerações que as precederam, assim como podem chegar ao tesouro moral da humanidade inteira. Mas podem também refutá-lo, porque ele não tem a mesma evidência das invenções materiais. O tesouro moral da humanidade não está presente como estão presentes os instrumentos que se usam; ele existe como convite à liberdade e como possibilidade para ela” [3]. A transmissão, no campo moral, não é tão fácil de acontecer, porque os seus conteúdos não podem ter a mesma evidência das descobertas científicas. O tesouro moral é um convite à liberdade. Por isso, devemos parar de sonhar “sistemas de tal forma perfeitos que mais ninguém teria necessidade de ser homem” [4]. Isto serve, antes de mais nada, para que não sejamos diferentes dos outros. Dolorosamente, constatamos como, entre nós, existem tantos amigos que não conseguem estar inteiros diante das numerosas dificuldades externas e internas por que atravessam. E quanto a nós, não é suficiente conhecer a verdadeira doutrina sobre o matrimônio para resistir a todos os desafios da vida. O Papa nos lembrou disso: “as boas estruturas ajudam, mas sozinhas não bastam. O homem nunca pode ser redimido simplesmente de fora” [5].

Ganhar o eu outra vez
Como pode acontecer este novo início desejado por Bento XVI? O caminho não pode ser diferente daquele sugerido por Fausto, de Göethe: “Aquilo que herdaste de teus pais, ganha-o outra vez, para possui-lo” [6]. Para ganhar outra vez, é preciso voltar à origem da experiência amorosa, a fim de redescobrir a sua verdadeira natureza. Somente esta experiência pode ser ponto de partida adequado para poder colher de dentro dela o valor da proposta de Cristo ao amor entre dois esposos.
Os esposos são dois sujeitos humanos, um eu e um tu, um homem e uma mulher, que decidem caminhar juntos em direção ao destino, em direção à felicidade. Como impostam o seu relacionamento, como o concebem, depende da imagem que cada um tem da própria vida, da realização de si. Isto implica uma concepção do homem e do seu mistério. Afirma ainda o Papa: “a questão do justo relacionamento entre homem e mulher afunda suas raízes na essência mais profunda do ser humano e pode encontrar a sua resposta apenas a partir disso. Não pode ser separada da antiga e sempre nova pergunta do homem sobre si mesmo: quem sou? O que é o homem?” [7].
Por isto, a primeira ajuda que se pode oferecer àqueles que querem se unir em matrimônio é o tomar consciência do mistério do seu ser homens. Somente desta forma poderão focar a sua relação, sem esperar dela algo que, por sua natureza, ninguém pode dar ao outro. Quanta violência, quanta desilusão poderiam evitar no relacionamento matrimonial, se fosse compreendida a natureza da pessoa!
Esta falta de consciência do destino do ser humano conduz o homem a fundar todo o relacionamento sobre um engano, que pode, sinteticamente, ser formulado assim: a convicção de que o tu possa tornar o eu feliz. O relacionamento do casal, deste modo, se transforma em refúgio, tão desejável quanto inútil, para resolver o problema afetivo. E quando o engano se manifesta, é inevitável a desilusão, porque o outro não realizou a expectativa. O relacionamento matrimonial não pode ter outro fundamento diferente da verdade de cada um dos seus protagonistas.
Como eles podem descobrir a sua verdade, o mistério do seu ser homens?

A dinâmica do novo início: beleza, sinal, promessa
É a mesma relação amorosa que contribui, de maneira precípua, para descobrir a verdade do eu e do tu; e junto com a verdade do eu e do tu se manifesta a natureza da vocação comum. O que somos nos é revelado de maneira evidente na relação com a pessoa amada. Nada nos desperta mais, nada nos torna tão conscientes do desejo de felicidade que nos constitui, quanto a pessoa amada. A sua presença é um bem tão grande que nos faz colher a profundidade e a verdadeira dimensão deste desejo: um desejo infinito. Pode-se aplicar, por analogia, ao relacionamento amoroso aquilo que Cesare Pavese disse sobre o prazer: “o que o homem procura nos prazeres é um infinito, e ninguém renunciaria à esperança de alcançar este infinito” [8]. Um eu e um tu limitados suscitam, um no outro, um desejo infinito e se descobrem lançados do amor que têm um pelo outro em direção a um destino infinito. Nesta experiência se revela a ambos a própria vocação.
E no mesmo momento em que se revelam a nós mesmos as dimensões sem limites do nosso desejo, nos é oferecida uma possibilidade de realização. Mais ainda, entrever na pessoa amada a promessa de realização acende em nós todo o potencial infinito do desejo de felicidade. Por isso, não existe nada que nos faça compreender o mistério do nosso ser homens melhor do que o relacionamento entre um homem e uma mulher, como nos lembrou Bento XVI na encíclica Deus caritas est: “o amor entre homem e mulher, no qual corpo e alma concorrem indivisivelmente e ao ser humano se abre uma promessa de felicidade que parece irresistível, emerge como arquétipo [...], diante do qual, à primeira vista, todos os outros tipos de amor perdem a cor” [9]. Neste relacionamento, o ser humano parece encontrar a promessa que lhe faz superar o próprio limite e lhe permite alcançar uma plenitude incomparável, já que “na raiz de toda a realidade viva existe a esponsalidade. E é a esponsalidade que torna tudo promessa, como a própria palavra o diz: esponsal quer dizer uma realidade promisssora, que promete” [10]. Por isso, a história da humanidade – mesmo nas suas diferentes expressões – sempre instituiu uma relação entre o amor e o divino: “o amor promete infinito, eternidade – uma realidade maior e totalmente outra se comparada à cotidianeidade do nosso existir” [11].
Trata-se exatamente da experiência que, de modo insuperável, expressa Giacomo Leopardi no seu Hino a Aspásia: “Raio divino ao meu pensamento aparece, Mulher, a sua beleza” [12]. A beleza da mulher é percebida pelo poeta como um raio divino, como a presença do divino. Através da beleza da mulher é Deus que bate à porta do homem. Se o homem não compreende a natureza desse chamado e não se arrisca a acompanhá-lo, dificilmente pode compreender profundamente o próprio destino de infinito e de felicidade.
A mulher, com o seu limite, desperta no homem, também ele limitado, um desejo de plenitude desproporcional à capacidade que ela tem de responder a ele. Suscita uma sede que ela não tem condições de extinguir. Suscita uma fome que não encontra resposta naquela que a despertou. Daqui nasce a raiva, a violência, que tantas vezes surgem entre os esposos, e a desilusão na qual caem se não compreendem a verdadeira natureza do seu relacionamento. A beleza da mulher é, na realidade, raio divino, sinal que remete a algo além, a outra coisa maior, divina, incomensurável, como descreve Romeu no drama de William Shakespeare: “Faz-me ver uma mulher que seja belíssima entre todas as outras; a beleza dela será apenas, para mim, como uma página onde lerei a beleza daquela que supera tudo com sua beleza” [13]. A sua beleza grita: “Não sou eu: eu sou apenas um lembrete. Olha! Olha! O que eu lembro a você?” [14].
É a dinâmica do sinal, da qual o relacionamento entre homem e mulher se constitui em um exemplo comovente. Quanto mais eles vivem a presença do amado como sinal de outro – que é a verdade do amado –, tanto mais esperam e gritam por este outro.
Se não compreende esta dinâmica, o homem cai no erro de parar na realidade que suscitou o desejo. Como se uma mulher que recebe um buquê de flores e, tomada pela sua beleza, se esquecesse do rosto de quem as mandou, e de quem são sinal, perdendo o melhor que as flores produziam. Não reconhecer no outro o seu caráter de sinal conduz inevitavelmente a reduzi-lo àquilo que aparece aos nossos olhos. E, cedo ou tarde, se manifestará a sua incapacidade de responder ao desejo que suscitou.
Por isso, se cada um não encontra aquilo a que o sinal remete, o lugar onde pode encontrar a realização da promessa que o outro suscitou, os esposos estarão condenados a serem consumidos por uma pretensão da qual não conseguirão se libertar, e o seu desejo de infinito, que ninguém como a pessoa amada desperta, estará condenado a permanecer insatisfeito. Diante desta insatisfação, a única via de saída que, hoje em dia, tantos veem é mudar o casal, dando início a uma espiral na qual o problema apenas é mandado para frente, até o momento em que virá a próxima desilusão.
Mas, entrar nesta espiral não pode ser a única via de saída. Este é o paradoxo do amor entre homem e mulher: dois infinitos se encontram com dois limites; duas necessidades infinitas de serem amados se encontram com duas frágeis e limitadas capacidades de amar. E somente no horizonte de um amor maior não se consomem na pretensão e não se resignam, mas caminham juntos em direção a uma plenitude da qual o outro é sinal. Somente no horizonte de um amor maior se pode evitar o consumir-se na pretensão, carregada de violência, de que o outro, que é limitado, responda ao desejo infinito que desperta, tornando possível, assim, a realização de si e da pessoa amada. Para descobrir isso é preciso estar dispostos a seguir a dinâmica do sinal, permanecendo abertos à surpresa que esta pode reservar-nos.
Leopardi teve a coragem de correr este risco. Com uma intuição penetrante acerca do relacionamento amoroso, o poeta italiano entreviu que aquilo que buscava na beleza das mulheres pelas quais se apaixonava era a Beleza, com letra maiúscula. No vértice de sua intensidade humana, o hino à sua mulher exprime todo o seu desejo de que a Beleza, a ideia eterna da Beleza, assumisse uma forma sensível. É o que aconteceu em Cristo: o Verbo se fez carne. Por isso, Luigi Giussani definiu esta poesia como “uma profecia da Encarnação” [15].
Neste contexto, pode-se compreender a inaudita proposta de Jesus para que a mais bela experiência da vida – o apaixonar-se – não decaia até se tornar uma coisa sufocante.
Esta é a pretensão de Jesus, que encontramos em algumas passagens do evangelho, que, à primeira vista, podem parecer paradoxais. “Não acreditai que vim trazer a paz à terra; não vim trazer a paz, mas a espada. Vim, de fato, para separar o filho de seu pai, a filha de sua mãe, a nora de sua sogra: e os inimigos do homem serão aqueles de sua casa. Quem ama o pai e a mãe mais que a mim não é digno de mim; quem ama o filho ou a filha mais que a mim não é digno de mim; quem não toma a sua cruz e não me segue não é digno de mim. Quem tiver encontrado a sua vida, a perderá: e quem perdeu a sua vida por minha causa, a encontrará. Quem acolher a vós, acolherá a mim, e quem acolher a mim acolherá Àquele que me enviou” [16].
Neste texto, Jesus se apresenta como o centro da afetividade e da liberdade do homem. Colocando a si mesmo no coração dos mesmos sentimentos naturais, coloca-se a pleno direito como a raiz verdadeira dos sentimentos. Dessa maneira, Jesus revela o alcance da promessa que a sua pessoa constitui para todos aqueles que o deixam entrar. Não se trata de uma ingerência de Jesus no nível dos sentimentos mais íntimos, mas se trata da maior promessa que o homem já recebeu: sem amar a Cristo (isto é, a Beleza feita carne) mais que a pessoa amada, este último relacionamento resseca, porque é Ele a verdade deste relacionamento, a plenitude à qual remetem um e outro e na qual a sua relação se realiza. Somente se permitimos Sua entrada nesse relacionamento será possível que o relacionamento mais belo que pode acontecer na vida não se corrompa e, com o tempo, morra. Tal é a audácia da Sua pretensão.
Como Jesus respondeu ao susto dos discípulos diante da verdade sobre o matrimônio que estava anunciando? Podemos dizer com uma fórmula: fazendo o cristianismo. Ele não parou no anúncio da verdade do matrimônio, mas introduziu uma novidade nas vidas deles que permitiu viver o matrimônio segundo aquela verdade.
Que esta novidade seja algo assim real e correspondente à natureza do homem se vê no fato de que sobre ela se pode apostar com certeza toda a vida. É isso que a tradição cristã chama de virgindade.

Matrimônio e virgindade
À reação assustada dos discípulos sobre a natureza original do matrimônio, que vimos antes, Jesus opõe uma frase que pode parecer ainda mais enigmática: “Ele lhes respondeu: ‘nem todos podem compreender isso, apenas aqueles a quem foi concedido compreender. Há eunucos que nasceram assim do ventre de suas mães; há os que foram tornados eunucos por homens; e existem outros que se fizeram eunucos pelo reino dos céus. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça’” [17].
Nestas palavras, Jesus acrescenta uma nova categoria de eunucos àquelas já conhecidas: aqueles que se fazem eunucos pelo reino dos céus. Obviamente que se trata da escolha livre de renucia ao casamento que fazem aqueles a quem foi concedido reconhecer o valor único do reino dos céus. Comentando este trecho, João Paulo II disse o seguinte: “no chamado à continência ‘pelo Reino dos céus’, primeiro os próprios Discípulos e, depois, toda a Tradição viva, descobriram rápido aquele amor que se refere a Cristo mesmo como Esposo da Igreja e Esposo das almas, às quais Ele deu a Si mesmo até o fim, no mistério da Sua Páscoa e na Eucaristia. De tal modo, a continência 'pelo Reino dos céus’, a escolha pela virgindade ou pelo celibato por toda a vida, se tornou, na experiência dos discípuulos e seguidores de Cristo, um ato de resposta particular ao amor do Esposo Divino e, por isso, adquiriu o significado de um ato de amor esponsal, isto é, de uma doação esponsal de si, com o fim de retribuir de modo especial o amor esponsal do Redentor; uma doação de si, entendida como renúncia, mas feita, sobretudo, por amor” [18].
À luz disso se compreende o que é a virgindade: o novo relacionamento absolutamente gratuito que Cristo introduziu na história. A virgindade é viver as coisas segundo a sua verdade. E como entrou no mundo a virgindade? Entrou no mundo como imitação de Cristo, isto é, como imitação do viver de um homem que era Deus. Nenhuma outra razão pode sustentar uma coisa assim grande como é a virgindade no viver a existência, a não ser a identificação com a modalidade através da qual Cristo possuia a realidade, isto é, segundo a vontade do Pai.
A pessoa de Jesus é um bem de tal forma grande e precioso que Ele é o único que corresponde plenamente à sede de felicidade do homem. É exatamente por causa dessa correspondência única, que a Sua pessoa constitui para quem O encontra, que é possível um relacionamento com o real absolutamente gratuito. Por isso, quem abraça a virgindade pode ser livre para não se casar.
Como aqueles que são chamados à virgindade contribuem para a edificação do reino de Deus? Os chamados à virgindade foram escolhidos para que “gritem diante de todos, a cada instante – toda a sua vida é feita para isso –, que Cristo é a única coisa pela qual vale a pena que o mundo exista. [...] Este é o valor objetivo da vocação: a forma da sua vida se joga no mundo por Cristo, luta no mundo por Cristo. A forma mesma da sua vida! [...] É uma vida que, como forma, grita: ‘Jesus é tudo’. Gritam isso diante de todos, de todos aqueles que os veem, de todos aqueles que se encontram com eles, de todos aqueles que os escutam, de todos aqueles que os olham” [19].
A vocação à virgindade é estritamente ligada à vocação ao matrimônio. Respondendo ao chamado, os virgens gritam aos casados a verdade do seu amor. Sigamos ainda as palavras de João Paulo II: “à luz das palavras de Cristo, como também à luz de toda a autêntica tradição cristã, é possível deduzir que tal renúncia é, ao mesmo tempo, uma forma particular de afirmação daquele valor, do qual a pessoa não casada se abstém coerentemente, seguindo o conselho evangélico. Isto pode parecer um paradoxo. É notável, todavia, que o paradoxo acompanha numerosos enunciados do Evangelho, e frequentemente os mais eloquentes e profundos. Aceitando um tal significado do chamado à continência ‘pelo Reino dos céus’, tiramos uma conclusão correta, sustentando que a realização deste chamado serve também – e de modo particular – à confirmação do significado esponsal do corpo humano na sua masculinidade e na sua feminilidade. A renúncia ao matrimônio pelo reino de Deus coloca em evidência ao mesmo tempo aquele significado em toda a sua verdade interior e em toda a sua beleza pessoal. Pode-se dizer que esta renúncia por parte de indivíduos, homens e mulheres, seja de certa maneira indispensável para que o mesmo significado esponsal do corpo seja mais facilmente reconhecido em todo o ethos da vida humana e, sobretudo, no ethos da vida conjugal e familiar” [20].
A virgindade é a autêntica esperança para os casados; é a raiz da possibilidade de viver o matrimônio sem pretensão e sem enganos: “à força deste testemunho, a virgindade mantém viva, na Igreja, a consciência do mistério do matrimônio e o defende de toda redução e de todo empobrecimento” [21].
“Por isso, a virgindade é a virtude cristã ideal para qualquer relacionamento, mesmo do relacionamento entre um homem e uma mulher casados. E, de fato, o cume do seu relacionamento, o momento culminante do seu relacionamento está lá onde se sacrificam, não onde expressam a sua posse. Porque, por causa do pecado original, o agarrar, de fato, faz escorregar. É como se a pessoa desejasse uma coisa e correndo em direção a ela, na medida em que se aproxima, corre ainda mais e bate o nariz contra: escorrega, tropeça. É por isso que nós dizemos que a virgindade é uma posse com uma distância dentro” [22]. A verdadeira posse que experimentamos é uma posse com uma distância dentro.

O lugar da família: comunidades cristãs vivas
Aparece, aqui, portanto, em toda a sua importância, o objetivo da comunidade cristã: favorecer uma experiência do cristianismo pela plenitude da vida de cada um. Somente no âmbito desta relação maior é possível não se divorciar, porque cada um encontra nela a sua realização humana, surpreendendo em si mesmo uma capacidade de abraçar o outro na sua diversidade, uma capacidade de gratuidade sem limites, de perdão sempre renovado.
Sem comunidades cristãs capazes de acompanhar e sustentar os esposos na sua aventura, será difícil, se não impossível, que eles a levem à realização de forma feliz. Os esposos, por sua vez, não podem eximir-se do trabalho de uma educação – da qual são os principais protagonistas –, pensando que a pertença à comunidade eclesial os libere das dificuldades. Deste modo se revela plenamente a natureza da vocação matrimonial: caminhar juntos em direção ao Único que pode responder à sede de felicidade que o outro desperta constantemente em mim, isto é, em direção a Cristo. Assim se evitará passar, como a Samaritana, de marido em marido, sem conseguir satisfazer o desejo pessoal autêntico. A consciência da sua incapacidade de resolver, sozinha, o próprio drama – nem mesmo mudando de marido cinco vezes! – lhe fez perceber Jesus como um bem tão desejável que só podia gritar: “dá-me desta água, para que eu não tenha mais sede” [23].
Consciente da situação atual, Bento XVI afirma a necessidade de que “as família não fiquem sozinhas. Um pequeno núcleo familiar pode encontrar obstáculos difíceis de superar se se sente isolado do resto de seus familiares e amigos. Por isso, a comunidade eclesial tem a responsabilidade de oferecer sustento, estímulo e alimento espiritual que fortifique a coesão familiar, sobretudo nas provações e nos momentos mais críticos. Neste sentido, é muito importante o papel das paróquias, assim como das diversas associações eclesiais, chamadas a colaborar como estrutura de apoio e mão amiga da Igreja para o crescimento da família na fé” [24]. Este convite cheio de ternura e de realismo é, ao mesmo tempo, a indicação de um objetivo: a família como tal tem necessidade de um lugar para viver, e esse lugar pode ser apenas constituído de comunidades cristãs que, por sua vez, vivam em plenitude contemplativa e operativa a própria fé. Em uma entrevista, Giussani utilizava a seguinte imagem: “Um povo nasce de um acontecimento, se constitui como realidade que quer se afirmar, defendendo a sua vida típica daqueles que a ameaçam. Imaginemos duas famílias que começam a crescer sobre palafitas no meio de um rio. A unidade destas duas famílias, depois de cinco, de dez família, na medida em que crescem as gerações, é uma luta pela sobrevivência e, finalmente, uma luta para afirmar a vida. Sem querê-lo, afirmam um ideal que é a vida. Assim, as pessoas que se referem a um povo veem, inexoravelmente, a vida como positiva. Pelo conhecimento racionalmente impenhado que tenho da vida do indivíduo e da sociedade, estas condições da ideia de povo tocam o vértice de concepções e de atuações no anúncio do Fato cristão, no qual, para nós, se cumpre aquilo que qualificou em toda a história o grande ethos do povo judeu e a sua tensão a mudar a terra” [25].
A pertença de um ser humano à própria família se dilata, então, na pertença à Igreja e, portanto, àquele pedacinho de Igreja no qual cada um de nós experimenta a presença universal de Cristo. O aproximar-se fraternalmente, o criar moradas hospitaleiras: é esta a maior contribuição que os cristãos podem dar para favorecer e acompanhar a experiência da família como caminho facilitado em direção à plenitude constituída por Cristo. “A superação da solidão na experiência do Espírito de Cristo não aproxima o homem aos outros, o escancara a eles até as profundidades do seu ser. [...] A comunidade se torna essencial à vida mesma de cada um. [...] O ‘nós’ se torna plenitude do ‘eu’, lei da realização do ‘eu’” [26].
Sem a experiência de plenitude humana que Cristo torna possível, o ideal cristão do matrimônio se reduz a algo impossível de se realizar. A indissolubilidade e a eternidade do amor aparecerão como quimeras inatingíveis. E, na realidade, elas são fruto tão gratuitos de uma intensidade de experiência de Cristo que, aos esposos, aparecem como uma surpresa, como o testemunho de que, de fato, “nada é impossível para Deus” [27]. Somente uma tal experiência pode mostrar, hoje, a racionalidade da fé cristã, uma realidade que corresponde totalmente ao desejo e às exigências do homem, mesmo no matrimônio e na família.
Este testemunho é a contribuição que podem dar, hoje, os esposos cristãos diante das dificuldades nas quais se encontram tantos de seus concidadãos. É um testemunho gratuito que desafiará a razão e a liberdade de quem, buscando uma autêntica resposta à própria exigência de felicidade, não consegue encontrá-la. É um testemunho que buscamos dar na consciência de que “guardamos este tesouro em vasos de argila, para que se evidencie que esta potência extraordinária vem de Deus e não de nós” [28].

Notas
[1] Spe salvi, 24.
[2] Mt 19,3-6.10.
[3] Spe salvi, 24.
[4] T.S. Eliot, Choruses from “The Rock”, 6 («By dreaming of systems so perfect that no one will need to be good»).
[5] Spe salvi, 25.
[6] J.W. Goethe, Faust, 682-683 («Was du ererbt von deinen Vätern hast, Erwirb es, um es zu besitzen!»).
[7] Benedetto XVI, Famiglia e comunità cristiana: formazione della persona e trasmissione della fede.
[8] C. Pavese, Il mestiere di vivere, Einaudi, Torino 1973, p. 190.
[9] Deus caritas est, 2.
[10] L. Giussani, Affezione e dimora, Biblioteca Universale Rizzoli, Milano 2001, p. 130.
[11] Deus caritas est, 5.
[12] G. Leopardi, Aspasia, 33-34.
[13] W. Shakespeare, Romeo and Juliet, I, I, («Show me a mistress that is passing fair, What doth her beauty serve, but as a note Where I may read who pass’d that passing fair?»).
[14] C.S. Lewis, Sorpreso dalla gioia, Jaca Book, Milano 2002, p. 160.
[15] L. Giussani, Le mie letture, Biblioteca Universale Rizzoli, Milano 1996, p. 30.
[16] Mt 10,34-40.
[17] Mt 19,11-12.
[18] Giovanni Paolo II, Udienza generale, 28 aprile 1982.
[19] L. Giussani, Il tempo e il tempio. Dio e l’uomo, Biblioteca Universale Rizzoli, Milano 1995, pp. 20-21.
[20] Giovanni Paolo II, Udienza generale, 5 maggio 1982.
[21] Familiaris consortio, 16.
[22] L. Giussani, Affezione e dimora, Biblioteca Universale Rizzoli, Milano 2001, p. 250.
[23] Gv 4,15.
[24] Benedetto XVI, Incontro festivo e testimoniale per la conclusione del V Incontro Mondiale delle Famiglie.
[25] L. Giussani, L’io, il potere, le opere. Contributi da un’esperienza, Marietti, Genova 2000, p. 251.
[26] L. Giussani, Il cammino al vero è un’esperienza, Rizzoli, Milano 2006, p. 110.
[27] Lc 1,37.
[28] 2Cor 4,7.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Cartas do P.e Aldo 58

Amigos, publico a última carta antiga do P.e Aldo que tinha nos meus arquivos. Agora, só publicarei as cartas recentes que ele enviar. Esta carta foi escrita pouco depois do Meeting de 2008, quando ele contou sua experiência para um público de milhares de pessoas em Rímini.

Asunción, 20 de setembro de 2008.

Caros amigos,
Fico, a cada dia, mais surpreso com o povo que o Senhor fez surgir depois daquelas pobres mas sinceras palavras ditas no Meeting de Rimini acerca da minha insignificante pessoa. Centenas de emails, aos quais tento responder e não consigo fazê-lo, porque cada carta é um grito, é uma ferida, é o humano na sua verdade mais profunda, mais verdadeira, mais dramática... Todas cartas que não têm necessidade de respostas, de discursos, mas de uma companhia humana, a mesma companhia que Giussani fez para mim, que P.e Alberto fez para mim. Aquela companhia que não precisa de hora marcada, de secretária, de colóquios, mas de um afeto que abraça tudo do outro nas 24 horas do dia.
Relendo muitas vezes as coisas que vocês me escrevem, ou melhor o grito de vocês, revivo aquele drama terrível e belo de quando Giussani, em maio de 1989, em Riva del Garda, me disse: “como seria belo se alguém fizesse companhia para você nos próximos meses”. Levantei a cabeça, surpreso e cheio de dor e lhe disse: “Mas, dom Gius, onde encontrarei um padre, um leigo, que sempre têm tanto para fazer, dispostos a fazer companhia para um deprimido?”. Lembro-me de seus olhos cheios de ternura e de suas palavras: “pois bem, levo você comigo e pagarei tudo para você”. Mas, vocês entendem, caros amigos – vocês que sofrem, vocês que, nos seus emails cheios de dor, de feridas, daquela humanidade que cada um, seriamente comprometido com o próprio eu, carrega dentro de si –, o que quer dizer encontrar um homem que diz algo assim? Depois disso, Giussani encontrou apenas P.e Alberto, de Forlí – e que, hoje, está no Equador –, de quem Giussani disse: “é um homem inteligente e humilde”.
Eu gostaria, e lhe digo com o coração na mão, de ser, para cada um de vocês que sofre, um pouco como estes homens, de quem Deus se serviu para fazer de mim um homem. Sinto a minha impotência... que ofereço a cada manhã, levantando-me às 4h45min para ficar diante do Santíssimo com vocês, na Sua companhia... para que Ele se ocupe de cada um de vocês.
Depois, é verdade que todos temos testemunhas para quem olhar, pequenas ou grandes que sejam. Peçamos a graça de nos darmos conta de onde estão, porque o clericalismo (inveja, ciúmes, esquematismo) pode destruir a todos. Particularmente, olhemos para Julián Carrón: a pessoa que mais vive, sente, ama fazendo vibrar, o carisma de dom Giussani. Vendo-o falar, eu não tenho como não dizer como os que escutavam Jesus: “este sim fala com autoridade”. Lembro-me bem da primeira vez que o ouvi: me parecia escutar o Gius. E era o meu coração a me dizer, tanto é verdade que, depois, voltei para casa como aqueles dois de Emaús, dizendo: “não nos ardia o coração enquanto falávamos com Ele?”. A ele devemos olhar, porque não é um “padre”, mas um homem e apenas um homem pode fazer companhia para o homem.
E, hoje, olhando para cada um de vocês, sinto que não me buscam porque eu seja um “padre”, mas um pobre homem, porém homem, confiado a Jesus. No sofrimento mais agudo – como aquele que Pavese definia como “o mal de viver” –, Deus me faz conhecer toda a minha humanidade, que, por anos, me dava nojo e medo, porque é terrível descobrir-se aquilo que de fato se é: um misto de lama e de grandeza... Porém, através desse desespero, encontrei uma grande companhia e me confiei completamente. Depois de quase 20 anos posso gritar pela alegria de viver. Alegria que não tem nada de emotivo, mas que é a certeza de ser a cada instante escolhido por Jesus.
Vivo comovido, pensando, a cada dia, naquele homem que, a despeito do meu irmão e de todos os experts e, talvez, até mesmo de todos os formadores de consciência, ao invés de mandar ao neurologista de Feltre, me mandou para o Paraguai, dizendo-me: “agora, me sinto seguro de você”. E eu, mais incrédulo que o apóstolo Tomé, obedeci... e olhem o que Deus está fazendo com este deprimido. Por isso, sofro muito quando leio ou escuto certos comentários ao escolher uma pessoa para um trabalho ou para qualquer iniciativa. Vejo o abismo que há entre a posição de Giussani no olhar para mim e a posição da maioria daqueles que escolhem as pessoas para o trabalho. Digo sempre: imaginem-se nas minhas condições... imaginem se eu tivesse apresentado o projeto daquilo que Deus fez aqui às pessoas de dever... me teriam colocado no manicômio com uma razão a mais: “mas, você, que já é meio esquizofrênico, não vai querer se deixar levar pela imaginação, fazendo uma obra impossível como essa, que custa milhões de euros, né?”. Qualquer pessoa que me tivesse visto naquelas condições teria reagido deste modo. Mas Deus, uma vez mais, quis mostrar que “está se lixando” dos nossos pensamentos, dos nossos equilíbrios, dos nossos projetos. E a minha história é uma evidência. Por isso, quando me dizem que devo repousar, devo isso, devo aquilo, respondo sempre: “desculpe-me, mas eu não faço nada... eu descanso. É Ele que faz e me pede apenas que eu anuncie a todos aqueles com quem me encontro aquilo que Ele é para mim. Eu não tenho relacionamentos econômicos, políticos ou sociais, tenho apenas relacionamentos missionários: comunicar a beleza de Cristo a todos”.
Caros amigos, desejo para cada um de vocês aquele abraço com o qual Giussani me fez reviver, desejo para todos vocês que me escrevem, tão frequentemente rasgados pela dor, que possam encontrar um padre que seja um homem, um leigo que seja um homem que, acolhendo a cada um de vocês como eu fui acolhido desde quando encontrei Giussani, permita a cada um de vocês descobrir a beleza dramática da vida.
De minha parte não conheço cansaço, nem horário para responder a vocês, para dizer a vocês os milagres que vejo todos os dias. Espero apenas que vocês sejam simples e não tenham medo da humanidade de vocês... e nunca procurem os medíocres, os “intelectuais”, os “experts” ou os “diretores espirituais”, isto é, aqueles que só conseguem receber vocês com hora marcada para lhes dar conselhos... procurem homens verdadeiros. Não digam que é difícil, porque tudo depende das perguntas que cada um tem. Perguntas pequenas, respostas pequenas, homens pequenos. Quando alguém está mal, procura o melhor para ser curado.
Obrigado a todos pela amizade que me testemunham.
P.e Aldo

Cartas do P.e Aldo 57

Asunción, 22 de setembro de 2008.

Caros amigos,
“Começar o dia quando o sol ainda está dormindo”, porém olhando para o verdadeiro sol que ilumina – Jesus Eucarístico, exposto tanto na paróquia quanto na clínica, 24 horas por dia – e respirar o perfume do milagre cotidiano.
Como a cada segunda-feira, esta manhã, pontualmente, como um relógio, escoltado até o pescoço, chegou o Vice-Presidente da República – nestes dias, Presidente interino, já que Lugo está nas Nações Unidas – para rezar as laudes e ficar alguns minutos em adoração diante do Santíssimo. Éramos ele, a sua escolta e eu, já que Padre Paolino está na Argentina. Dessa forma, o Vice-Presidente fez o leitor e eu o resto. Em seguida, tomamos café da manhã juntos, como a cada segunda-feira. Uma ocasião para ver os fatos acontecidos e preparar a semana. Por exemplo, nesta manhã, foi interessante ver os pontos que o presidente Lugo sublinhou no seu discurso diante da Assembléia da ONU, particularmente sobre os temas do terceiro mundo. Pontos que refletem a doutrina social da Igreja. Interessante até mesmo a aproximação com o Presidente Lula e, espero, o progressivo distanciamento de Chávez. “Lugo é Lugo e Chávez é Cháves”, disse ele antes de partir.
Em suma, é impressionante como um pobre padre, dois pobres padres (também P.e Paolino) que levam a sério aquilo que Carrón nos diz, se arriscam de ser o pólo positivo até mesmo do governo.
Tudo isso me comove, porque é o acontecer da profecia que foi Giussani. Graças ao seu amor a Cristo e à Igreja, graças à sua clareza humana, à sua “audácia ingênua” muito distante de tantos clericalismos que enchem a cabeça e o coração, nos instilou até o miolo uma coisa: o problema é o eu no seu relacionamento com o Mistério. E desta identidade, uma capacidade de dialogar com todos, abraçar, valorizar tudo. Até chegar a este este momento, no qual mais uma vez o Presidente interino reiterou a sua estima e o interesse do Executivo em colaborar totalmente com esta comunidade... e nos encontrarmos com o braço direito de um dos maiores empresários latino-americanos do grupo Vierci.
O motivo do encontro: o conselho administrativo do grupo Vierci decidiu financiar o nosso jornal “O observador da semana”, que sai a cada quinta-feira com o jornal “Ultima Hora”, e o livrinho do Papa que sai a cada última sexta-feira do mês no mesmo jornal (trata-se de uma publicação com todos os discursos do Papa, a cada mês). A decisão do conselho administrativo se baseia no fato de que, graças a estes dois instrumentos (20 mil cópias a cada semana, num país quase analfabeto, com 6 milhões de habitantes) as vendas do jornal quase duplicaram.
Uma coisa do outro mundo no terceiro mundo, no qual o drama não é tanto econômico, mas educativo. Sou infinitamente grato a Giussani por nos ter educado a publicar a cada semana, como mínimo, um juízo sobre aquilo que estava acontecendo. E são quase 30 anos que, da mesma forma como me confesso a cada semana, exprimo publicamente um juízo, a partir da Escola de Comunidade, sobre aquilo que acontece. Assim, de um folheto, passando por um boletim paroquial, chegamos a um jornal semanal, com juízos cheios de autoridade sobre a sociedade que serve de instrumento catequético até mesmo nos vilarejos mais perdidos (onde é fotocopiado e levado para a selva).
Não bastasse isso, eles acrescentaram: “o senhor Vierci (o empresário), quer abrir conosco um hospital completo com 150 quartos, moderno e para os pobres. Ele fará tudo e pede para vocês a gestão, a partilha humana”. Obviamente comecei a rir... mas o seu representante disse: “Mas, nós não estamos brincando... confiamos em CL e, em breve, traremos o projeto”. Coube-me apenas dizer-lhe: “mandarei tudo para os meus amigos responsáveis de CL. Eles verão tudo e dirão o que pode ser feito”. E fiz isso imediatamente, porque são coisas muito grandes para homens pequenos assim como somos nós, aqui. Porém, muito além do que possa acontecer (é um problema da Divina Providência e não meu), o importante é ver como, levando a sério o próprio eu com relação com o Mistério, a realidade nos busca, nos quer, nos deseja. Uma coisa inimaginável para nós, para vocês, porque não fomos nós que procuramos, fizemos ou projetamos... pelo contrário, preocupamo-nos apenas com o nosso “eu” e com o fato de que este “eu” esteja bem... porém, exatamente por isso, a realidade nos procura e exige respostas. E a única resposta é levar ainda mais a sério o próprio “eu” e confiar aos amigos mais velhos todo o resto. Será, no final, sempre como Deus quer... é Ele quem realiza... como, a cada dia, eu toco com a mão. A companhia das obras que vive aqui, na nossa comunidade, nasceu e vive assim: levando a sério o próprio “eu” nas circunstâncias cotidianas. E é um respiro a plenos pulmões.
Obrigado por me terem escutado... precisava lhes contar o que aconteceu esta manhã.
Com afeto
P.e Aldo

sábado, 23 de maio de 2009

Cartas do P.e Aldo 56

Asunción, 07 de outubro de 2008.

Caríssimos,
um amigo meu me disse que o Papa, na abertura do Sínodo dos Bispos, fez uma afirmação do outro mundo, que não apenas os bocconianos ou os Chicagos Boys – espero! – são capazes de entender, mas cada um de nós, positivistas como somos: “Desabam os bancos, apenas a palavra de Deus é realidade sólida”. Isso é o que minha mãe, que tinha apenas a quarta série, sempre me ensinou, quando, de joelhos, me fazia repetir: “Santíssima Providência de Deus providenciai para nós”. Graças a ela, toco a Providência com a mão há 62 anos. Viva este Papa que Jesus e Nossa Senhora nos deram de presente!
Aqui, é evidentíssimo aquilo que o Papa disse... mas, a evidência mais evidente é este asno, que sempre foi “insuficiente” na escola, com o título da quinta série conferido pelo Estado Italiano... porque os meus superiores de então nunca quiseram arriscar de me deixar fazer os exames do Estado... devido aos meus poucos dotes intelectuais: um quociente baixíssimo. Tão logo cheguei ao sacerdócio... o resto vocês conhecem. Mas, Jesus cavalgou um asno... e este asno é feliz por poder levar sobre si Jesus... e mesmo de poder terminar com Ele na cruz, onde, há muito tempo, Ele me mantém.
Obrigado ao amigo que me enviou esta frase, porque me fez feliz e, junto comigo, todos os amigos que trabalham aqui.
P.e Aldo

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Cartas do P.e Aldo 55




Asunción, 21 de maio de 2009.

Aniversário de Celeste
Vejam-na no dia do seu aniversário!
É mesmo um MILAGRE.
Já começou até a falar.
De fato, dom Giussani me escuta.
Da morte à vida.
P.e Aldo

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Cartas do P.e Aldo 54


Asunción, 13 de outubro de 2008.

Caros amigos,
Não apenas a depressão é uma graça, mas também a loucura. Eu o digo pela graça de saber que domingo, 13 de outubro, o Papa beatificará a mãe e o pai de Santa Teresinha do Menino Jesus. Todos nós conhecemos a vida dramática de seu pai, que alternava momentos de loucura e de lucidez, vivendo entre o manicômio e a casa. Aquilo que, antes, para a Igreja, era um impedimento à santidade é reconhecido, agora, oficialmente e se torna uma graça. Que belo! Isso quer dizer que não existe nenhuma condição que impeça ao homem o mínimo de liberdade necessária que lhe permita reconhecer o Mistério, reconhecer que é relacionamento com o Infinito. Isso tudo me comove, porque me lembro de quando, nos intermináveis anos da minha depressão, assustava-me a idéia da loucura. Lembro-me de que tremia só de passar diante de um manicômio ou de quando me falavam de loucura. E, no entanto, no tempo, vi o milagre de que tudo é graça, até o ponto de, hoje, prestar contas, ternamente, com os doentes mentais.
Conto-lhes o que me aconteceu nesses dias. Temos, na clínica, uma paciente terminal de câncer que é esquizofrênica e já tentou tirar a própria vida. Tem 36 anos, 14 irmãos, pai e mãe... mas, todos a abandonaram. Ninguém a visita. Trouxeram-na para cá e desapareceram. Depois de alguns dias, o sinais da sua esquizofrenia nos colocaram em dificuldades, mesmo porque o nosso hospital não foi feito para esses casos. Porém, a realidade que se nos apresentou era aquela e não a que havíamos escrito no regulamento... e – sim ou sim – devemos prestar contas sempre com a realidade, como nos ensina a parábola do Bom Samaritano. Reunimos o comitê de bioética. Estudamos atentamente cada detalhe. Interná-la em um manicômio? Sedá-la de modo a fazê-la dormir todo o tempo? Uma bela discussão cheia de humanidade. Pessoalmente, fiz uma intervenção no final da discussão, cortando, dessa forma, a cabeça do touro: “amigos, mandá-la para o manicômio seria a solução mais cômoda e mais desumana, porque nos livraríamos de um problema que – sim ou sim – nos tomaria até aos ossos. Sedá-la, dopá-la para que durma todo o tempo e evitar os riscos não seria introduzir um início de eutanásia? Não seria um modo parecido ao primeiro de nos livrarmos dela, de não envolvermos o nosso próprio eu em uma relação impossível para o homem ou, ao menos, desgastante? Pois bem, amigos, é a realidade que nos deve guiar, e a realidade, pensando na minha história, me faz entender que ela é uma graça. Uma graça para ela, porque nos momentos de lucidez recebe a comunhão e até já se confessou. Em nenhuma pessoa podemos pensar que o Mistério não possa agir... e que o paciente não tenha um segundo de lucidez, de liberdade que lhe permita reconhecer a grande Presença. É uma graça para nós porque, deixando-a acordada, mesmo que usando os medicamentos adequados, ela nos obriga a estar ao seu lado 24 horas por dia. É uma graça porque nos educa a reconhecer o Mistério, aquele Mistério – como já foi tantas vezes testemunhado – que, mediante a nossa presença amorosa ao seu lado, lhe permite até mesmo ficar tranquila no seu quarto, sem aquelas reações esquizofrênicas que manifesta quando está sozinha. Em suma, amigos, Irna – é este o seu nome –, assim como o pequeno Victor, é uma graça porque nos lembra que não existe condição humana que não seja humana, que impeça a quem sofre, conhecido ou não, e a quem o assiste, viver o nexo com o Mistério”.
A reunião terminou com uma oração: “Senhor, dá-nos um coração grande para amar”. E, desde quinta-feira passada, Irna não foi mais dopada como antes, nem está mais dormindo todo o tempo: está desperta e amorosamente assistida, em turnos, por nós. E o seu rosto é outro. “O homem não pode viver sem amor, seria incompreensível”, escrevia João Paulo II. Mas, “o amor é Jesus Cristo”. Por isto, somente um encontro com Ele permite estes milagres.
Um abraço.
P.e Aldo
P.S.: Domingo próximo, viverei, com alegria, a beatificação dos pais de Santa Teresinha do Menino Jesus.

* Na foto, os pais de Santa Teresinha do Menino Jesus, Louis Martin e Zélie Martin.

Cartas do P.e Aldo 53




Asunción, 22 de outubro de 2008.

Caros amigos,
É preciso partir sempre da vida, da realidade e não do fato de que somos casados, consagrados, solteiros ou qualquer outro papel, porque é a vida que pede a eternidade. Quantas vezes cantamos isso em “Povera voce”... mas, é como se tudo fosse óbvio.
Hoje é um dia difícil para mim, por causa da insônia que, além de me deixar cansado, me faz suar de um modo estranho. Assim, com a temperatura de 40° e esta minha situação, deixo para vocês imaginarem o meu estado de ânimo. Mas, há 20 anos estou aprendendo a repetir para mim mesmo: “eu sou Tu que me fazes”, “mesmo os cabelos da minha cabeça estão contados”, “antes de te formar no seio de tua mãe, pronunciei o teu nome”, “tu és como a pupila dos meus olhos”. Pois bem, a revelia de quem não suporta a palavra depressão, como bom amigo, eu a desejo para vocês... assim, vocês entenderão o que quer dizer se tornar homem e não continuar sendo imbecis burgueses cheios de si mesmos... nesta situação, emotivamente negra, não é este estado de ânimo que me define, mas a certeza de que Ele me ama assim como sou.
Hoje, estou facilmente irritável e, no entanto, ninguém se dá conta disso, ninguém se dá conta de como estou cansado... mas, a paz, a alegria do coração vence tudo.
Movo-me, há tempos, somente porque Ele me move e o meu estado de ânimo é absorvido, santificado por esta certeza. De modo que, hoje, pude acolher (vejam as fotos) esta menina – Celeste é o seu nome – que já está no final da vida por culpa de uma leucemia mal-cuidada, por causa da pobreza de sua família. A mãe tem 31 anos e 8 filhos. Não sorri há tempos. A sua vida foi feita de pobreza, dor, miséria, violência. Hoje, nas condições em que eu me encontrava, a escutei. Os meus olhos vermelhos não conseguiam sustentar o seu olhar cheio de dor. “Padre, sou filha da violência como todos os meus 8 filhos. Violentada, surrada, tive que fugir das garras de um homem que me destruiu. Tive que abandonar os meus filhos nas mãos desse animal. Agora, a dor da minha filha de 12 anos me acorrentou aqui, na sua clínica... peço-lhe que me ajude. Não tenho mais lágrimas para derramar... sinto-me como uma estátua...”. Eu olhava para ela, vendo no seu rosto uma tristeza infinita como na maioria das mulheres deste país, reduzidas a animais, embrutecidas pela violência. No entanto, uma ternura e ela já era uma outra. Olho para a sua filha, já sem cabelos, fortes dores, não fala mais... me olha fixo e não sorri. Quanta dor! O meu coração, muito frequentemente, tem medo de que não resista; mas a Providência me recupera rápido.
Algumas horas antes eu havia celebrado o funeral de um “travesti”, um filho de Deus de 28 anos, morto de AIDS. Estavam presentes os outros doentes de AIDS, estes meus filhos prediletos. Na breve homelia, eu disse: “meus filhos, estamos aqui para celebrar a misericórdia de Deus. Olhem para ele, olhem para este rapaz: viveu como um animal e morreu como um santo. Vocês se lembram de como era o seu rosto quando chegou aqui... olhem, agora, para ele: é o rosto de um verdadeiro homem. É, de fato, o triunfo da misericórdia que não distingue os seres humanos entre normais, homossexuais, travestis, hermafroditas, mas que olha para cada um como filho. Amigos, vocês entendem que somos Suas criaturas? Para Deus, somos filhos, somos criaturas Suas”. Eles olhavam para mim comovidos... eles, os marginalizados; eles, os leprosos do século XXI; eles, julgados pela perversão do vício... eles que me querem bem, a quem a cada manhã eu beijo e me ajoelho diante (não me importando se deformados por feições femininas ou masculinas fingidas). Eles que me pedem para serem ouvidos em confissão, que me perguntam se o seu companheiro ou companheira com a mesma doença podem vir visitá-los. E, assim, como me dizia a irmã, aproveito para anunciar também a eles a misericórdia de Deus.
Victor, que todos conhecem, e sobre quem nasceu uma reação em cadeia em nível mundial, dividindo os que me escrevem em dois partidos: o dos que querem que ele viva, e o dos que querem que o deixemos morrer. Quanto me dói este segundo partido. Se o vissem gemer, sofrer, se dariam conta do por que Jesus morreu por mim e também por eles. Mas, por que querer eliminar a dor do mundo, quando esta, desde o pecado de Adão, é condição inevitável? É como se eu quisesse arrancar de mim a depressão, arrancar de mim as noites de insônia, arrancar de mim a ânsia. Mas, não é possível. Posso tomar – e o faço – comprimidos para ajudar a minha louca emotividade, mas não posso, não peço a Jesus que tire de mim a fadiga, porque seria repetir a Jesus o que, naquele dia, Pedro lhe disse, pedindo-lhe que não aceitasse a dor... e Jesus lhe respondeu: “afasta-te de mim, Satanás, porque pensas segundo o mundo e não segundo a vontade do meu Pai”. Claro que Victor sofre... eu o vejo sofrendo 24 horas por dia. E há os que se permitem me dizer: “deixe-o morrer”... quando não sou eu que o faz viver, mas o Mistério que o cria em cada instante. Será possível que não entendemos que a vida, não importa as condições com as quais se manifesta, é sempre a afirmação do “eu sou Tu que me fazes”? Victor tem até mesmo o pequeno tórax encurvado pela dor, pela dificuldade para respirar, pelas convulsões. Tem a cabeça, apoiada no travesseiro, cheia de feridas de decúbito... não pode se mover... mas, vocês entendem que, para cada um de nós, é Jesus? É Jesus! Victor não se reduz à sua dolorosíssima doença, porque é Cristo. E então se é Cristo, vocês entendem que é o Paraíso na terra?
Eu não consigo ficar sem contemplá-lo, porque é o meu conforto, como nesses dias em que o cansaço fica mais evidente. Olhar para ele, beijá-lo, é sentir vibrar a doce Presença de Jeuss que me faz um carinho nos momentos difíceis. Certamente que sem levar a sério a vida – como nos lembra Giussani n’O Senso Religioso, citando aquele pedaço de um diálogo entre Richard e a velha avózinha Henrie –, é impossível reconhecer nestes fatos a grande Presença, o Mistério que dá sentido e beleza a tudo... Quando se reconhece isso, podemos dizer o que, outro dia, Cristina, a jovem mãe de uma das Casinhas de Belém, com 14 crianças de 0 a 11 anos, me disse: “padre, desde quando Deus me tirou as minhas únicas duas filhas – Nageli, de seis anos e Natali, de nove anos – e me chamou para ser mãe de todas estas crianças, entendi que, para mim, ser mãe significa não possuir nunca os meus filhos. A cada instante eu as olho, eu as amo imensamente, mas sei que nunca serão minhas e que, cedo ou tarde, vão embora. Mas esta é a minha vocação. Tortura-me o coração, porém se Jesus quer isto é também verdade que me presenteou com um verdadeiro coração de mãe: fazê-los crescer e, depois, deixá-los ir embora, seguindo o desígnio bom de Deus... e eu permanecerei, sempre recomeçando de novo e rezando”. Esta é a santidade.
Obrigado a todos que são meus amigos.
P.e Aldo