quinta-feira, 30 de abril de 2009

Aviso aos navegantes...

Pessoal,
amanhã, bem cedo, estarei a caminho de Asunción... Uma visita à piccola città della carità e ao caro amigo P.e Aldo. Vou ficar por lá, na companhia de outros muitos amigos, até domingo!
Na medida do possível, vou tentar mantê-los à par do que for acontecendo. Uma amiga - a Mari - me sugeriu de escrever um "diário de bordo" (valeu, Mari!). Não sei se conseguirei ser fiel, mas gostei da idéia e já estou municiado: bloco e caneta no bolso, 24h por dia.
Inté mais vê!
Abraços

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Cartas do P.e Aldo 43



Asunción, 11 de novembro de 2008.

Caros amigos,
Novembro nos recorda uma “máxima” cristã que me é familiar desde pequeno: “memorare novisima tua et in aeternum non pecabis” – recorda-te dos novíssimos e nunca mais pecarás. E os novíssimos são quatro: morte, juízo, paraíso e inferno.
Este pensamento, que desde pequeno me acompanha, há alguns anos é a constante que domina os meus pensamentos, presenteando-me com uma grande paz, uma dinamismo que não dá trégua, uma criatividade incessante e um amor impressionante pelo instante no qual jogo o meu destino aqui e depois.
O hospital é um grande momento para fazer esta memória e, por isto, é um desafio contínuo à razão, à vida, a levar a sério a realidade. Para mim, a clínica para pacientes terminais é a evidência de que a vida, a realidade pede a eternidade.
O ponto é a vida, é a realidade e não o papel ou as coisas a fazer que, se não entram nesta perspectiva, nos asfixiam.
Acompanhado, cada dia, pela Escola de Comunidade, que neste momento nos desafia com o capítulo sobre a obediência – da obediência a uma companhia – vivo a clínica como o conteúdo desta amizade. A clínica é este “alguém que caminha diante de mim”. Cada doente é este “alguém que caminha diante de mim”, porque, por exemplo, olhando para Celeste, a menina que sofre de leucemia (olhem que bonita que ela está nas fotos que mando junto), não posso não me perguntar: “mas, porque ela é tão diferente de mim que perco a coragem tão facilmente, tenho medo; enquanto que ela, no meio da dor terrível que sente, transpira uma paz, uma serenidade que só Jesus lhe pode dar?”. E, assim, fico ali, do seu lado, olhando-a, fazendo-lhe um carinho, rezando e aprendendo. Tenho tanta vontade de ficar com ela, assim como de ficar com Victor que geme continuamente e que tem o tórax todo incurvado pelo esforço enorme que faz para respirar, enquanto que seu coração resiste inexplicavelmente – parece uma locomotiva a vapor. Dou-me conta de que não posso não obedecer a eles, porque eles, constantemente, me remetem àquilo que meu coração deseja, de tal forma que, quando acontece de eu apresentar ainda alguns traços da depressão (que tomam conta de mim), não me deixo “levar” pelo estado de ânimo e repito sempre “eu sou Tu que me fazes”. E, assim, o meu caminho não é bloqueado pelo mal estar que sinto no estômago ou pela angústia que me anuvia a vista e todo o resto... Pelo contrário, entendo sempre mais aquilo que São Paulo diz quando afirma “completo na minha carne o que falta aos sofrimentos de Cristo, pelo seu corpo que é a Igreja”.
Olhando para estas minhas crianças, entendo que o ponto é a vida e não o estado de ânimo; mesmo se o estado de ânimo faça parte da vida, não define a vida. Olho para eles e me dou conta de que eles e eu não somos e não podemos ser definidos nem pela leucemia, nem pela falta de um crânio, nem pela água que Victor carrega dentro da cabeça e mantida ali por uma pele fina, nem pela minha depressão (quando ela toma conta de mim). É a vida a questão e a vida pede a eternidade.
Assim, se entende o testemunho de uma enfermeira daqui, quando fala de sua relação com uma doente de AIDS que morria entre seus braços:

Foi uma tarde de domingo muito triste

Já era uma da tarde e eu fui ao quarto de Bernardina. Encontrei-a muito mal. Respirava com muita dificuldade. Saí correndo para chamar Sílvia e dizer-lhe como estava Bernardina. Fomos juntas até ela e lhe perguntamos: “Como está, Bernardina? Tem alguma coisa incomodando você?”. E ela responde: “Estou bem!”. Olhamo-nos e dissemos uma a outra: “Meu Deus! Com o que está sofrendo, ainda diz que está bem!”.
Ficamos ali, tomando conta dela. Sílvia ligou para a D.ra Olmedo, que sugeriu alguns
medicamentos. Bernardina estava sozinha. Justamente naquela manhã o seu marido tinha voltado para casa. Pedi a Diana que ligasse para a família. Bernardina estava morrendo... estava com a respiração artificial. Às três da tarde, chegou uma senhora dizendo que era a cunhada de Bernardina. Ficou 5 minutos com ela. Em seguida, entrou um senhor que parecia ter medo dela.
Às quatro e quinze, enquanto celebravam a Eucaristia no Bloco A, disse a Sílvia que ficaria com Bernardina: “não quero que ela vá embora sozinha. As pessoas que vieram vê-la já foram embora”. Fomos até Bernardina, fizemos-lhe um carinho no rosto e nas mãos e limpamos a sua boca que estava espumando. Às quatro e cinquenta, passou a Procissão do Santíssimo, que ficou um bom tempo diante dela.
Logo depois, chegou uma senhorinha que me perguntou: “minha cunhada está muito mal?”, e eu respondi que sim. Ela me disse, então: “Telefonaram para mim e me pediram para vir... trouxe os seus filhos – estão lá embaixo –, vieram para a sua mãe”. Perguntei a ela: “Vai ficar com Bernardina?”, e ela disse que sim. Fui, então, vestir um doente. Antes que eu começasse a vesti-lo, bate à porta aquela senhora me dizendo que Bernardina estava muito mal. Saí correndo para vê-la, mas ela já estava morta. Fiquei angustiada. Bernardina morreu sozinha... a sua cunhada tinha descido para chamar seus filhos, mas eles não chegaram a tempo de ver sua mãe ainda viva.
Fui chamar Sílvia e lhe disse que Bernardina estava morta. Sílvia ficou muito mal. Fizemos todos os cuidados postmortem. Tínhamos que tirar o corpo de Bernardina dali... saia líquido de todos os lados: pela boca, pelo nariz e até pelos olhos.
Sílvia me dizia que tinha um nó na garganta... fui buscar os lençóis e, quando voltei, encontrei Silvia chorando inconsolavelmente. Enquanto limpávamos Bernardina, eu dizia a Sílvia: “força! Tranquila!”. Colocamos seu corpo na liteira e a levamos para a capela. Diana nos fez rezar por Bernardina, mas não conseguíamos rezar por causa do choro. Demos um beijo no rosto de Bernardina e saímos chorando, enquanto seus filhos estava fora. Não entraram na capela enquanto rezávamos. Pedimos-lhes que entrassem para ver sua mãe e, só então, entraram.
Para nós, foi um domingo muito triste. Agradecemos por ter tido Bernardina conosco na Clínica e por nos lembrarmos da última coisa que nos disse sem se importar com o quanto estava mal: “ESTOU BEM!!!”.

Teresa, como as outras enfermeiras, comove pela consciência que tem de cada doente. É como se o Mistério que nos envolve e nos cria em cada momento a tornasse capaz de uma ternura, de um envolvimento com os pacientes, até o ponto de sentir o que eles sentem, a dor dos outros. Bernardina tinha chagas espalhadas por todo o corpo – escaras de decúbito – nas quais cabia uma mão e se podia ver o osso... mesmo assim, a limpavam com um amor e com uma delicadeza inexplicáveis.
O encontro que faço semanalmente com elas, com os médicos, com o pessoal da limpeza, da lavanderia ou da cozinha, me enche de vida, porque é como se eu pudesse ver a Escola de Comunidade encarnada, até o ponto de que aqueles que viviam em concubinato pedem para se casar, outros pedem para se confessar ou para fazer a primeira comunhão. Não sou eu que lhe peço essas coisas, mas é a realidade vivida com paixão que – sim ou sim – me remete e remete a cada um a Cristo. Não partimos de Cristo – arriscaríamos de ser ideológicos –, partimos da realidade, como afirma São Paulo: “é Cristo”. É como dizer que vivendo a vida intensamente, em todos os seus aspectos, a pessoa ou vai embora ou se abre para o Mistério... até o ponto de alguém me dizer como os apóstolos no capítulo 6 de São João: “mas, padre, para onde podemos ir... esse lugar nos educa à beleza da vida, nos faz ver a morte como abertura para a vida eterna”.
Quando, a cada dia, por três vezes, fazemos a Procissão Eucarística, ajoelhando-me e beijando doente por doente – não importando o que ele tem (se a tuberculose ou a saliva lhe saem da boca ou não) –, sinto, sentimos viva a Presença de Jesus. E lhes garanto que são os momentos mais belos! Momentos nos quais o meu estado de ânimo, tão frequentemente flutuante, é submetido pela clareza do juízo, ou seja, pela certeza de que o Mistério e o sinal coincidem. De tal forma que vocês podem imaginar o que quer dizer esta consciência, quando, saindo da clínica, passo para ver os velhinhos na casa – família criada para eles como alternativa aos frios asilos com dezenas de idosos – ou quando, a cada dia, pela manhã, encontro minhas crianças para levá-las para a escola ou, à noite, para colocá-las na cama. Que impressão me causa vê-los comendo todos juntos, vê-los se levantando quando a mãe adotiva se levanta, ver como cada um leva para a pia o seu prato (no qual não fica nem mesmo uma migalha... eles só podem se levantar quando comeram tudo... porque, assim, se entende o que é a Providência)... ver, depois, como tem sempre aquele que pega a vassoura, aquele que pega o pano de chão ou o rodo... cada um trabalha... pois a casa é a casa deles. E eles têm apenas entre 4 e 11 anos de idade. E pensar que, em fevereiro, eram como se fossem animaizinhos.
Outro dia, como há cada quinze dias, me encontrei com o conselho de família (as duas mães, a psicóloga, a assistente social, o advogado, a responsável pelas duas casinhas, a diretora da escola) e saí feliz da reaunião, porque a diretora da escola disse: “a maioria das crianças vai ter que repetir de ano [e é justo, porque se não sabem é justo que repitam de ano]... mas, padre, humanamente são irreconhecíveis se comparados a quando chegaram. Há neles o início de uma auto-estima, sorriem, sabem usar o banheiro e sabem se limpar, convivem e brincam uns com os outros, fizeram amizades, os pequenos desvios homossexuais não existem mais. Em suma, de zero passaram a um, de nada passaram a alguém”, ela disse. Juro para vocês que não tinha ninguém mais contente do que eu ali!
No fundo, eu pensava: “o que vivemos com estas crianças é o caminho da Escola de Comunidade”. Porque, o que é a fé, a confiança, a correspondência, o coração, a liberdade, a obediência, se não o fato de uma criança se confiar a um adulto que, vivendo a realidade, infunde nela a ternura e a segurança.
Um exemplo para encerrar. Rosita é uma menininha de um ano cheia de problemas. Não conseguia, até bem pouco tempo atrás, ficar sentada no chão ou em qualquer outro lugar. Devagar, comecei a colocá-la assentada, protegendo-a com os meus braços fechados, em forma de círculo em torno do seu corpinho. Foram suficientes alguns dias para que aquele recinto feito pelos meus braços lhe infundissem segurança até o ponto de ela começar a viver um equilíbrio. Porém, quando eu tirava os braços, ela chorava desesperadamente e caia. Pois bem, depois de um pouco de tempo, aconteceu o milagre: mantenho os meus braços comigo e ela, sorridente, fica assentada sozinha. A obediência a uma amizade, a uma paternidade, torna-nos livres e capazes de andar com as próprias pernas. Amigos, isto é viver, educar. Mas, isto vale também para os dois rapazes doentes de AIDS – Luciano e Alcides – que me foram confiados no fim da vida e com o caixão pronto para enterrá-los. A mesma paixão tida pela Rosita é a que tenho por toda a clínica. Agora, eles comem, caminham, riem e contam para todo mundo o milagre. Em breve, eu os levarei para a fazenda onde moram outros rapazes nas mesmas condições, recuperados para a vida.
Mas, o bonito é que o mesmo acontece com os meus “doidos”, que se parecem tanto comigo. Chegam aqui sem cabeça, como Giorgio, que, atualmente porém, está empenhado com a impressão de dois livros meus: em dois anos recuperou a normalidade. Tem AIDS, porém, para ele, é como ter uma pérola preciosa, porque ele, judeu, encontrou a fé católica e se tornou um católico fervoroso que se confessa frequentemente e vai à Missa todos os dias. Mas, pensem, não tem um só doente que não esteja na graça de deus e não me peça os sacramentos! E, entre eles, existem homossexuais, lésbicas, travestis, concubinos... todo o humano na sua grandeza miserável. E Deus tem para todos uma surpresa: encontrar o gosto pela vida e a beleza da morte para chegar a Ele.
Desejo a todos que a liturgia deste fim de ano nos faça descobrir e saborear os quatro novíssimos.

Cartas do P.e Aldo 42


Asunción, 18 de novembro de 2008.

Que dor e que barbárie matar Eluana.
Olhem para o meu pequeno Victor. Sofre e oferece a vida para que Deus perdoe este homicídio.
O seus gemidos são o grito de um corpo, o corpo místico de Cristo que, a cada instante, se oferece como hóstia de expiação pelas nossas atrocidades contra os inocentes.
Nunca pensei que um tribunal do meu país pudesse chegar a tamanha desumanidade, assim como nunca pensei que pudesse existir um pai que pedisse a morte da própria filha. Digo isso com uma imensa dor, porque eu sou, de fato, o pai de Victro e de Celeste, de André (tudo deformado, com 22 anos e 15 kg de peso), de Cristina e de Aldo.
Olhem para eles... Eluana está viva e os meus filhos são ela viva.
Com afeto
P.e Aldo

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Cartas do P.e Aldo 41


Asunción, 24 de novembro de 2008.

Caros amigos,
como posso não comunicar a vocês a alegria de ter tocado com a mão alguns dos sinais inconfundíveis da Presença de Cristo entre nós, como nos repete sempre Carrón?
1. Fui a Quito, no Dia de Início de Ano. Uma surpresa imprevista diante destes sinais, a ponto de ter preferido não dizer nenhuma palavra, depois de ter escutado, por três horas, a 3 mil metros de altitude, Amparito (que, nos próximos dias, estará na Espanha e na Itália, por ocasião das Tendas de Natal) e as suas amigas negras que contaram suas histórias (como a de Vicky) cheias de dor, de angústia... e, finalmente, o encontro com Estefânia – uma pessoa do Grupo Adulto – que lhes mudou a vida. Não apenas suas vidas de discriminação (todas descendentes de negros trazidos da África há alguns séculos atrás), mas também de morte, de atrocidades impensáveis. Um encontro e a vida muda. Mando-lhes alguns de seus testemunhos.
2. Da mesma forma em Lima (no Peru), onde estive por alguns dias, por ocasião do Happening, para escutar e aprofundar o mote que definia a vida de Andrea Aziani, o amigo memor que morreu este ano: “Febre de vida”.
500 pessoas atentas e comovidas! Pareciam crianças nas quais vibrava o frescor do início. Algo bem diferente do burguesismo ou do olhar para Giussani como um mito! As referências a Carrón como pai, mestre e amigo, são já familiares. Sente-se no ar um frescor, frequentemente desconhecido no primeiro mundo. Sim, exatamente assim! Febre de vida.
3. Por três dias, na volta, tive a graça de estar com os Zerbini – Marcos e Cleuza – em nossa casa. Contar tudo o que aconteceu é impossível. Porém, é suficiente sublinhar que, para mim, foi como reviver o encontro com Giussani ou aqueles breves mas intensos encontros com Carrón. Seja caminhando juntos, seja almoçando ou jantando, qualquer coisa que enfrentássemos, tudo era determinado pelo Mistério presente “nos sinais inconfundíveis” de cada fragmento da realidade. Foi uma retomada contínua de cada palavra da Escola de Comunidade, do ensinamento de Carrón. Era evidente, entre nós, que Giussani não é e não pode ser um mito, mas uma presença viva, visível no frescor das referências, dos sinais inconfundíveis da Sua Presença, a Presença do Mistério. Muitas vezes viz lágrimas nos olhos de Marcos: seja quando visitamos juntos cada paciente da clínica, seja quando fazíamos a procissão com o Santíssimo, seja quando encontramos os responsáveis desta pequenina cidade da caridade, na qual o Mistério revela o Seu rosto misericordioso.
Todos ficamos surpresos: este homem, este deputado – o mais votado da cidade de São Paulo (uma cidade com mais de 20 milhões de habitantes) –, com lágrimas nos olhos ao ver os “sinais inconfundíveis do Mistérios” que, através dos meus filhos, se manifestam. Sinceramente, só vi Giussani comovido assim diante da realidade e, mais recentemente, também Carrón. Quem de nós, padres (somos duros...) ou leigos, olhando os sinais inconfundíveis da Sua Presença, chora? Quem, vendo as minhas crianças doentes, entre os padres ou os leigos, chora como Marcos? Vi apenas ele. E não por uma emoção, como ele sublinhou, mas por um juízo: olhando para os doentes, escutando os testemunhos dos responsáveis de toda esta caridade, viu a Presença do Mistério.
Era a primeira vez que, em 20 anos de missão, me senti como no dia em que Giussani, abraçando-me e olhando-me nos olhos – eu com esta minha cabeça desnorteada, com a depressão – me disse: “agora, me sinto seguro de você e, por isto, mando você para o Paraguai”. Ver, depois de 20 anos, um homem que me toma pela mão, me olha, nos olha e chora, me convenceu ainda mais de que não apenas eu, mas tudo é obra do Mistério e, por isto, as fotos que tenho eu as mando para vocês – fotos que, para alguns, são justamente uma provocação que desconcerta, são belas, porque a beleza é o esplendor da verdade. Eles são o esplendor, para nós que confundimos a beleza com a simpatia, com o esteticismo... nós que a uma mulher que corresponde aos cânones de Miss Paraguai (aqui existe uma dessas, que trabalha como secretária do nosso semanário) chamamos de bela e olhamos, enquanto que alguém como Victor é escandaloso. Mas a beleza é o se manifestar da verdade, e somente a verdade comove, muda a vida. A realidade sempre é bela. Torna-se feia quando a manipulamos, segundo um destino que não é o seu. Como quando uma mulher é olhada não como sinal do Mistério, mas como um objeto para ser usado ou um instrumento ou um interesse particular. Victor e Celeste são belíssimos, porque são a realidade como Deus permitiu que se manifestasse, porque são o esplendor da verdade, porque é o Mistério que os faz, os mantem vivos. Por isto, suscita não emoção, mas grito para que a nossa vida mude.
Estou escrevendo estas linhas ao lado da pequena hóstia branca Celeste: uma criança solitária, gravemente doente de leucemia. Ela está fazendo um carinho no meu cotovelo... sinto a sua dor, vejo Jesus, ela o torna palpitante e me comove. Gostaria tanto – e peço isso a Jesus, através de Celeste que me olha com seus olhos pretos, apertando um pequeno ursinho de pelúcia – que todos nós, os velhos do Movimento, pudéssemos reaver o coração dos Zerbini. Falar de política, de economia, fazer pregações, ou conferências sem os olhos úmidos como os de Marcos, para mim, é como se tivéssemos reduzido Giussani a um mito. Deus nos perdoe, me perdoe, depois de tudo o que vi, toquei, se ainda não somos capazes de comoção.
Então, vocês entendem, lhes pergunto, o que quer dizer ver um homem tocado pelo Mistério, um homem que leva a sério realmente a Escola de Comunidade e a Carrón, como Marcos, comovido até as lágrimas no ver e escutar os meus amigos, pequenos, doentes e todos os meus amigos leigos, casados ou não, pessoas simples que formam aquilo que vocês chamariam de um conselho administrativo?
Nunca me havia acontecido uma coisa igual... e como gostaria que cada dia tivesse a espessura que tem para estes meus amigos do Brasil.
Com afeto.
P.e Aldo
P.S.: Milagre de amor: Celeste depois de anos de dor e tristeza sorri (veja na foto anexa).

Cartas do P.e Aldo 40


Asunción, 27 de novembro de 2008.

Caros amigos,
Olhando, ontem à noite, para a minha pequena Cristina, que dorme no mesmo quarto de Victor e do meu filho Aldo, vi, na sua posição física, a concretude daquilo que Giussani afirma na Escola de Comunidade (...): “o verdadeiro seguir é uma amizade”. Aquilo que nós chamamos de obediência é realmente uma amizade e, de fato, São Paulo, falando de Jesus, dizia que por amor ao Pai se fez obediente até a morte, exatamente até o fim, porque tinha entendido que aquilo que o Pai lhe pedia era justo por uma misericórdia, por uma piedade pelos homens (que comoção... até as lágrimas... eu que convivo 24 horas por dia com a dor e a morte), a fim de salvar os homens, pela liberdade dos homens (entende-se por que existem Victor, meu filho ou Cristina deitada em forma de cruz... E há quem me peça discrição no mostrar as fotos... mas, no fundo, é a mesma maldita “discrição” que se quer quando se pede para retirar os crucifixos das escolas... escandaliza ver a beleza da dor, da morte feita carne... não se suporta o espetáculo do Mistério crucificado na sua carnalidade... para poder nos trazer para a felicidade). Meu Deus, vocês entendem porque eu falo da depressão como um graça? Da doença como uma graça?...
Por favor, leiam “Getsemani” de Peguy, especialmente aquele trecho em que ele fala da “neurastenia” (que todos traduzem com a palavra “depressão”), para nos lembrar que apesar de Sua natureza divina, Jesus era um homem e, por isso, obediente... a Sua pessoa, o Seu eu, o Seu coração divino, porque eram da mesma substância do Pai, eram um ímpeto de amor (porque “Deus é amor”, como escreve São João), não podiam DIZER NÃO. Ele compreendia aquilo que o Pai lhe pedia e sabia como atuar... imitava o Pai, que tinha criado o mundo por amor.
Com lágrimas nos olhos, gostaria que as centenas e centenas de pessoas que me escrevem, atormentadas por todo tipo de doença – das mais terríveis (como as psíquicas) às físicas – pudessem repetir, de joelhos, milhares de vezes ao dia, certas palavras... Mas, então, vocês entendem por que escrevo certas coisas, porque, no Meeting, disse aquelas coisas que constroem um mundo de bem no mundo inteiro.
Ontem à noite, depois da Escola de Comunidade, uma pessoa me disse: “Padre, há 20 anos, quando você chegou, ao ouvi-lo falando, nós nos dissemos: ‘mas, quem é este louco?’... literalmente, nós dissemos ‘esquizofrênico’... porém, sentíamos vibrar em você algo que nos escapava e que sentíamos correspondente ao nosso coração... e, por isso, nós procuramos você”.
Fiquei comovido, porque é verdade: a minha doença foi a graça que me permitiu à minha aparente não-liberdade aderir ao desígnio de Deus, mesmo quando as obsessões pareciam ser as senhoras absolutas do meu não-pensamento (porque a minha cabeça era constantemente torturada). Não seria capaz de acreditar que aquilo que a Escola de Comunidade diz fosse verdadeiro e que fosse a graça maior mesmo para mim. Deus se serviu de mim – julgado como doido (e, de fato, talvez eu o fosse e o “seja) – para mostrar a Sua Onipotência, a Sua Misericórdia.
Como não sentir Giussani vivo na Escola de Comunidade? Como não “nos alimentarmos dele”, possuir a Escola de Comunidade? Como gostaria que os médicos em particular – que, muito frequentemente, se creem “Deus” – colhessem aquilo que Giussani nos diz! Seria uma revolução na medicina e mesmo na psiquiatria.
Leiam, por favor, “Getsemani” de Peguy.
Que o Advento nos faça reflorescer quanto ao que respeita à dor e à morte.
P.e Aldo.

sábado, 25 de abril de 2009

Cartas do P.e Aldo 39




Asunción, 05 de dezembro de 2008.

Caros amigos,
Estamos ou não estamos convencidos de que Providência e de que o princípio da economia é o Santíssimo Sacramento e a Adoração?
Nesta manhã, como todas as demais, desde cedo eu estava, com alegria, diante do Santíssimo exposto, em adoração, quando tocou o celular:
“Alô! É o Padre Aldo”, eu disse. “Padre, sou a deputada Olga Ferreira... gostaria de lhe comunicar que o parlamento votou, por unanimidade, o aumento do financiamento ordinário da Clínica de 1 bilhão e 270 milhões de Guaranis para 1 bilhão e 400 milhões de Guaranis. Sua amiga e ‘ex-aluna’, a senadora Zulma Gomez, presidente da comissão de saúde do Senado, venceu. Padre, estou feliz... e mesmo ainda sendo noite, gostaria de lhe comunicar a minha alegria. Um abraço e bom dia”
Quem tem ouvidos para ouvir, que ouça. Voltei para diante do Santíssimo comovido, em lágrimas. Uma vez mais Ele resolveu tudo... sim, porque Ele e apenas Ele é o Paróco, o ecônomo, o diretor de saúde, o chefe...
Note-se: pensar que a senadora Zulma Gomez, quando era nossa aluna na faculdade de medicina de Villarica, comia os pedaços de carne que encontrava no lixo. Que grande história vivi com ela, pobre garota com 4 filhos, 25 anos de idade, e sozinha... agora, é o que é.
E, além do mais, se tivéssemos pedido 2 bilhões de Guaranis, ao invés de 1 bilhão e 300 milhões, ela teria conseguido tudo. Ela me disse: “no próximo ano, padre Aldo, me arranjo para fazer o pedido ao Parlamento e pedirei 2 bilhões... o que significam 400 mil dólares. Com esta soma, cobriremos 60% das despesas ordinárias da Clínica. Ficam faltando ainda os 1 milhão e 300 mil dólares para a construção da nova Clínica, que a Providência, certamente, também através de você, nos fará conseguir”.
Ontem à noite, esteve aqui o Vice-Presidente da República, D.r Franco (vejam as três fotos acima). Participou da Missa, fez a leitura, viveu com alegria o gesto conclusivo do ano escolar e comeu com as minhas crianças.
Ele, num certo momento, disse: “mas, padre, aqui se vê o que quer dizer educação... nunca vi algo semelhante”.
De fato, Giussani está vivo e o “Educar é um Risco” é palpável, presente... levá-lo a sério muda tudo e todos.
Obrigado a Jesus e à Virgenzinha por estes presentes.
Porém, sem dor, sem adoração contínua, tudo isto seria impossível. É Ele, apenas Ele, que faz... CLARO!
A universidade é útil, mas apenas se vivida nesta posição, nesta certeza.
Com afeto.
P.e Aldo

Cartas do P.e Aldo 38





Asunción, 09 de dezembro de 2008.

Caros amigos,
Olhem o milagre de Dom Giussani: Celeste faz a primeira comunhão, enquanto um “condenado” à morte pelos médicos, Dionísio, doente terminal (se vocês o vissem nas condições em que chegou aqui... ninguém teria imaginado este milagre... a nossa inteligência é muito euclidiana...), celebra o seu casamento.
Só o maravilhamento permite ver a grandeza do mistério presente. Mesmo na pior condição, o homem é desejo de felicidade e pode ser feliz. É a minha vida e a dos meus moribundos que grita isso para que os surdos, os burgueses – como os chamaria Peguy –, escutem e se comovam. Vejam o rosto de Celeste: vocês não veem o sinal potente do Mistério? “Eu sou Tu que me fazes”, nos repete constantemente Carrón. Acreditamos ou não nisso?
Hoje, faz um calor de 48°... mas, como vivo olhando estupefato para Celeste, o meu coração está fresco como uma rosa bela.
Se vocês querem um milagre, repitam o máximo que conseguirem “eu sou Tu que me fazes” e “até mesmo os cabelos da minha cabeça estão contados”. É Celeste quem nos diz isso.
P.e Aldo.
P.S.: As crianças que vocês veem nas fotos são os meus filhos da Casa de Belém.

Cartas do P.e Aldo 37


Asunción, 11 de dezembro de 2008.

Caros amigos,
Que bonita a Escola de Comunidade desta manhã, com as mulheres da limpeza e da cozinha da clínica.
Vejam algumas das intervenções.
1. De Modesa, a cozinheira:
Há 4 anos trabalho na clínica. Quando cheguei, me assustei ao ver que todos os dias morriam pessoas... e também por ver os corpos dos pacientes com os membros apodrecidos... Por meses, eu sentia até febre diante dessa situação. Cheguei a um certo ponto em que eu estava tão destruída que pensei até mesmo em me suicidar, porque eu não podia suportar que Deus permitisse toda esta dor humana. Precisei de 4 anos de caminho na fé, através da Escola de Comunidade, para poder chegar, hoje, a afirmar: a morte é algo de belo. Agora, sei com certeza que a morte, tal como é vivida aqui, é uma graça. Repito continuamente: “Senhor, seja feita a Tua vontade”. Agradeço a Jesus por estar aqui.
2. De Irene, a lavadeira:
Outro dia, experimentei um grande desespero. Eu estava passando pelo corredor, quando vi sendo aberta a porta do quarto onde está internado Giovanni e, lá dentro, vi aquele pobre homem vomitando. Aproximei-me para ajudá-lo enquanto a enfermeira vinha. Porém, foi terrível a minha surpresa ao ver que ele vomitava os vermes brancos que lhe enchem a garganta já apodrecida [trata-se de um homem recolhido de uma favela, que chegou aqui já com a garganta naquele estado]. Comecei a rezar, enquanto segurava a bacia. Eu achava que morreria de infarto durante esta coisa que eu nunca tinha visto. O desespero tomou conta de mim... mas, de repente, eu disse a mim mesma: “é uma provação do Senhor para que eu aprenda a valorizar o que eu sou e o que Ele me dá”.
3. Maria, uma das faxineiras:
Há dois anos que estou aqui, trazida pela Misericórdia do Senhor. Em cada dia eu vivo a alegria e a tristeza da vida. A alegria de ver que Ele existe, está presente. A tristeza de ver este mar de dor que vejo e que se torna também meu. Mas, tudo isso me educa a dizer, quando estou alegre, “Jesus, obrigada”; ou quando estou triste, “Jesus, eu te ofereço”.
Quando se obedece à realidade, ela nos educa a esta beleza, a ver a beleza dramática da morte e a não sentir um embrulho no estômago, como no caso de Irene. A realidade é a grande amiga do homem. É preciso alguém que nos indique isso. Isto, para nós, é a Escola de Comunidade e o que o Carrón nos tem ensinado.
Ciao.
P.e Aldo
P.S.: Dom Giussani continua a fazer o milagre... olhem que bela foto: Celeste já está brincando!

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Cartas do P.e Aldo 36


Asunción, 24 de abril de 2009.

Caros amigos,
“Padre Aldo, você acredita nisso?” – sinto-me como que perguntado por Jesus, enquanto tenho o coração despedaçado, olhando o cadáver da minha filha Alice, que acabou de morre, com 22 anos... enquanto embalo a pequena Yasmina, a mais velha de suas três filhas.
Yasmina vive comigo, junto com outras 20 crianças, na Casinha de Belém. Tem 8 anos.
Recolhi Alice na rua, destruída pela AIDS. Sozinha no mundo, usada e abusada por todos. Entrava e saía da nossa clínica. O amor por ela sempre foi grande, mas a sua liberdade muito frequentemente lhe fechou os olhos e, como o filho da parábola, no final, ela sempre seguia seus próprios pensamentos. Mas, ela sabia sempre que o meu coração estava com ela. E, assim, depois de meses, ela voltou, mas para morrer. Era muito bonita e, agora, vendo-a ao meu lado morta, é ainda mais bela. A morte, quando a misericórdia de Deus entra na liberdade humana, transfigura até mesmo o corpo, mostrando o “já” da ressurreição.
Yasmina está aqui comigo e com a mãe adotiva, Cristina – a mãe das 20 crianças. Perguntei-lhe, enquanto fixava seus belos olhos negros em mim, “onde está a mamãe?”, e ela respondeu: “no céu”. Rezamos juntos o rosário e, depois, mandei-a de volta para a Casinha de Belém. Ela não derramou uma única lágrima, diferentemente de mim. Mas, conhecendo-a, sei que o seu pequeno coração, desde que foi concebida, só conheceu a dor. Que dor, para mim!! Sim! Porque a virgindade torna o homem um pai, como nenhuma outra vocação no mundo. Sinto fisicamente a dor, de tal forma que sinto vontade de dizer a Jesus o que Marta disse – “se Tu estivesses aqui antes...”. Mas, Ele me responde: “Padre Aldo, Eu sou a ressurreição e a vida, quem acredita em Mim não conhecerá a morte. VOCÊ ACREDITA NISSO?”. “Sim, Senhor, acredito. Como acredito também que não tem nada no mundo que impeça esta certeza: nem a depressão, nem o câncer, nem a AIDS”.
Ao lado de Alice, jaz, morta por um câncer, Carmen, de 53 anos, enquanto que, no quarto ao lado, está morrendo Susanna, uma senhora sozinha no mundo depois de um acidente aéreo que matou os seus 5 jovens filhos, o marido e todos os parentes. Quanta dor!
Porém, vejo em mim a familiaridade com Cristo, porque este é o problema – mesmo na dor maior –, porque quanto mais você é consciente de ser todo de Cristo, tanto mais sente como sua cada dor do homem... mesmo na grande dor, vivo a certeza da positividade do real.
Alice, graças à AIDS, saiu da rua, veio para cá e aqui encontrou Jesus. Quando li o seu diário pessoal, fiquei desconcertado de ver todas as violências que sofreu, desde o nascimento. E, no entanto, Deus, que não esquece nenhum de seus filhos, a conduziu até aqui, onde ela viu o Seu rosto e, olhando para o rosto de Deus, morreu.
Caros amigos, tenho, de fato, uma grande graça – a graça da esperança, que é já visível em mim e nos meus moribundos do Paraíso; a graça da realização da minha humanidade e da humanidade de vocês.
Outro dia, na Escola de Comunidade com os doentes terminais ainda “hábeis”, Marciana, uma bela garota de 20 anos, já perto do fim, disse: “agradeço a Deus de estar aqui, neste lugar, porque vejo que a esperança é um fato presente, é o ar que eu respiro. Estou contente e ofereço tudo a Jesus”.
Amigos, para mim, a Escola de Comunidade sobre a esperança é tocada com a mão. É como se a morte cotidiana dos meus moribundos me fizesse tocar fisicamente cada palavra de Giussani e de Carrón. Então, mesmo as noites de insônia, o mal humor, o cansaço, as dificuldades, a dramática situação do país (com o caos do Presidente-Bispo – ou melhor, ex-bispo – que, pior do que um terremoto, está desconjuntando a Igreja e a sociedade), tudo se torna possibilidade para dizer: “... mas Cristo ressuscitou”. Ressuscitado a tal ponto que, no último domingo, uma das nossas enfermeiras quis se casar depois de 10 anos de concubinato. Casou-se na clínica, circundada por nós, que carregamos os sinais da morte nos olhos. E ela quis isso porque aqui – palavras suas – encontrou a fé, a esperança e a caridade.
Com afeto
P.e Aldo
Amigos, rezem por mim porque, de verdade, como diz São Gregório, “se não fóssemos Teus, seríamos criaturas finitas” e exauridas.
Olhem a foto da minha Alice há um mês atrás, quando chegou aqui para morrer.
“Morte, onde está a tua vitória?!”
Alice, agora, é verdadeiramente a minha Alice.

Cartas do P.e Aldo 35

Asunción, 15 de dezembro de 2008.

Caros amigos,
“pode uma mãe abandonar os seus filhos?”... “Pois bem, Eu nunca te esquecerei”, disse o profeta.
Um fato ocorrido na clínica me encheu de alegria. Foi internado, recentemente, um velho, doente grave de câncer na próstata. Vivia numa espelunca do famoso “Mercado 4” – conhecido em todo o Paraguai por ser uma imundície onde se vende de tudo a baixo preço e também por ser centro do tráfico. À noite, é muito perigoso passar por ali. Encontraram-no só, sujo, abandonado. A mulher – uma pessoa anônima – nos disse ao telefone: “vão até lá... e encontrarão um homem sozinho que está sofrendo”. Parecia-me escutar o anúncio dos anjos, naquela noite, em Belém, aos pastores: “ide e encontrareis...”. E foi assim, para nós. Trazido para a clínica, limpo e de banho tomado e colocado numa bela cama branca, num quarto com ar condicionado no máximo da refrigeração (do lado de fora, estava fazendo uns 48°... demais!). Uma vez ambientado, desafogou o seu drama terrível. “Padre, obrigado! Obrigado, padre!”
“Nasci numa região italiana (por respeito, não direi nem o nome, nem os lugares). Fiquei órfão muito novo e fui colocado num instituto agrário gerenciado por religiosos. Nasci em 1922. Estudei naquele instituto, me tornando técnico agrícola. O fascínio por aquela congregação me fez desejar ser um religioso. Vivi, até o final da Segunda Guerra Mundial, em um convento na Itália.
Mais tarde, os superiores me mandaram para o Paraguai, onde vivo há 50 anos. Fiz de tudo nas diversas casas da congregação. Mas, acabei perdendo a cabeça por uma mulher e a minha vida se tornou um inferno. Todos me abandonaram: eu era como um condenado à morte... aquela morte moral e que destrói o homem.
Fiz de tudo, padre. Somente alguns confrades se lembravam de mim [mesmo na Igreja, acrescento eu, acontece aquilo que diz o profeta a propósito da mãe]. Pecado, solidão, desespero... e, agora, estou aqui. Padre, me escute em confissão, me perdoe”.
Com o coração dolorido e com os olhos úmidos, eu o escutei e absolvi... juntos, renovamos os votos religiosos... no fundo, mesmo eu seria um ex-religioso, mas, como nunca antes, sou porém todo de Jesus.
Olhando para este meu irmão, eu sorria, sentindo uma vez mais aqueles braços de Giussani que me acolhiam, na casa da Rua Martinengo, 17, naquele dia 25 de março de 1989.
Se, de um lado, ele declara que serviu e amou àquela que o abandonou por causa do seu pecado; sempre, por outro lado, a Igreja o acolheu, abraçou e amou.
Que bela clínica: tem lugar apenas para os desgraçados e pecadores como eu.
O velho Oscar, agora, está comigo e revive a sua vida religiosa, depois de ter renovado os seus votos e reconhecido os seus pecados. Raras vezes eu vi e ouvi uma confissão como a dele. Eu diria: se, para saborear assim o sentido do ser pecador e, sobretudo, para saborear assim uma confissão como ele a saboreou, fosse necessário viver uma vida desordenada como a que ele viveu... valeria a pena...
Encontrei um santo... Se vocês vissem como ele recebe a Eucaristia, como suporta o câncer que o consome, como ele me olha... Somente os pecadores, ou seja, os que encontraram a Cristo, têm um olhar assim.
Sinto-me um fariseu, comparado com ele.
Os inocentes Victor, Celeste, Cristina, Aldo convivem com a inocência e sustentam o hospital com os santos inocentes recuperados que, graças à dor tornada confissão, graças à Eucaristia, recuperaram a inocência doutrinal.
Um abraço
P.e Aldo

Cartas do P.e Aldo 34

Asunción, 18 de dezembro de 2008.

Caros amigos,
Muitos dos emails de vocês estão cheios de dor, de perguntas, de medos e muitíssimos são a expressão comovida da alegria de coração dos simples, comovidos e cheios de gratidão ao Senhor. Muitos estão também cheios de “raiva”, diria que de “desespero”, particularmente quando recordo aquilo que Giussani dizia e vivia e que Carrón, incansavelmente, nos repete: “a realidade é amiga e amiga sempre”. Não me cansarei de repetir essas palavras, nem mesmo hoje quando o meu estado de ânimo é preto como o carvão e um peso – algo que conheço bem e com o que convivo há 20 anos – me oprime o estômago, fazendo-me suar o dobro do normal.
O calor é de 48°, a vida exigente, os doentes, as crianças, os velhos, a colônia de férias, a catequese nos diversos setores, a construção do novo hospital, as respostas aos emails (que são, para mim, uma alegria), todos os momentos... tudo isso vivido a partir do deserto interior e, além do mais, com aquela fera no estômago que mora ali há 20 anos... mas tudo isso não apenas não me determina, mas me impulsiona a repetir infinitamente “eu sou Tu que me fazes” e a olhar, em cada instante, para Cristo. Além do mais, à noite eu não conseguia dormir e fiquei um pouco de saco cheio... mas, mesmo isto, me fez dizer: “Jesus, te ofereço”... eu pensava no Getsêmani e dizia de novo: “até mesmo os cabelos da minha cabeça estão contados”. Aí, decidi tomar o sonífero e dormi até as 10h desta manhã. Quando acordei, sendo que estou habituado a um ritmo e a uma regra precisos, me encontrei com todos os meus planos mudados. E a primeira reação foi de raiva, porque os meus bons projetos sempre precisos deveriam ser deixados de lado. Mas, bastou um segundo: “esta é a realidade à qual obedecer”... e no segundo seguinte: “eu sou Tu que me fazes”... e comecei bem o dia às 10h da manhã, ao invés de começá-lo às 05h.
Obedecer à realidade é esta coisa simples: prestar contas com a vida e reconhecer que é um Outro que conduz você. Quanta paz! Mesmo que eu não tenha podido dar a comunhão para os doentes, ou fazer a procissão e recitar as laudes com meus confrades... coisas que, para mim, são tão caras. A realidade é amiga mesmo quando você não dorme ou tem que tomar um remédio porque sabe que no dia seguinte deveria almoçar com os 120 dependentes da Fundação São Rafael e jantar com o Vice-Presidente da República e os seus 90 colaboradores.
Mas, mais do que a essa minha falação, escutem o meu pequeno Luís que estava há alguns meses na clínica, escutem a sua mãe.
Luís morreu recentemente. Peço-lhes que escutem bem o que ele dirá... Mas, antes, gostaria de lhes contar o que uma amiga me disse enquanto eu estava escrevendo esta carta, diante do Santíssimo Sacramento: “Padre, posso falar? O Senhor me, nos está amando tanto... é para que possamos mudar, nos converter. Fanny, a minha irmã mais nova, neste momento, está na sala de operações para extrair um câncer no seio; minha irmã mais velha tirou um câncer no cólon; a terceira está prostrada no quarto e não pode mais se mover. Fanny já tinha perdido um filho de 15 anos e, além do mais, estava envolvida num processo injusto, há anos, com seu marido. Porém, padre, Deus permite tudo isto porque nos ama, nos quer Seus”. O que mais dizer? Cada dia, a minha vida vê estes milagres.
Agora, deixo o meu pequeno Luisito, morto, dizer algo para vocês. Ele tinha apenas 12 anos e recebeu recentemente a sua primeira comunhão e a crisma, aqui na clínica, antes de morrer.

A HISTÓRIA DE LUÍS
QUE BELEZA, QUE AMOR!
Luís, uma criança de 12 anos, estava indo embora. A sua respiração era, cada vez mais, profunda e espaçada. Apenas abria os olhos. Mal escutava direito. Olhava para a Virgenzinha, olhava para sua mãe.
À pergunta do sacerdote “você ama Jesus? Está pronto para se encontrar com Ele?”, ele respondeu: “Sim, padre”.
Sua mãe tinha reunido toda a sua família para que dissessem adeus para Luís. Foi um momento belo e feliz para todos.
Quando foram embora, a mãe deixou estas linhas, fruto das noites de insônia enquanto velava, como a Virgem Maria, seu filho inquieto e atormentado pela dor de uma metástase que o consumiu totalmente:
“Deus meu, estou diante do meu filho que está morrendo. Eu seria mentirosa se afirmasse que estou resignada. Estou triste e com medo, mas em paz porque fiz tudo o que era humanamente possível para curá-lo.
Ó Deus, meu filho está nas Tuas mãos...! Tu podes fazer o milagre de curá-lo, se quiseres. Senhor, não digo isso como uma reprovação, mas Te peço com todo o meu coração. Mas, se meu filho está destinado a voltar com Teus anjos para o Paraíso, eu fico feliz. Senhor, te peço uma vez mais que Luís não sofra, que não sinta dor... e Te agradeço por me ter dado ele como filho.
É uma criança especial: alegre, afetuoso, sempre pensa primeiro nos outros.
Lembro-me de que, quando o mandava à padaria para comprar pães, na volta, ele dividia, caminhando, com os seus amigos e me dizia: ‘mamãe, não fique com raiva. Tire o que me toca e dê para os meus irmãos’.
Lembra-Te, Senhor, de quando ele pedia a seu pai que cantasse, tocando violão, durante a Missa na capela?
Este meu filho, Senhor, Tu o escolheste para nos dar uma lição na vida: como combater, nesta vida, conhecendo-Te, ‘Deus meu’, como ele frequentemente dizia.
Agradeço-Te, Senhor, porque graças à doença do meu Luís, ajudaste meus outros filhos a saírem do poço sem fundo no qual haviam caído e começarem de novo o Teu caminho. Agradeço-Te, Senhor, por me teres permitido tê-lo por perto um ano a mais; ele me ajudou a me aproximar de Ti, ó Deus, porque, apesar de tudo aquilo que vejo e sofro, seu que ele vai para o céu, porque em todo este longo tempo de doença ele só disse ‘ai’ duas vezes: quando estava se recuperando da cirurgia e quando lhe picaram os pulmões.
Obrigada, Senhor, porque através da doença, Luís chegou à esta clínica da ‘Divina Providência’, para estar mais perto de Ti e conhecer-Te melhor.
Peço-Te que me ajude a ser, cada dia mais, forte na minha fé, Senhor, e tem piedade desta pobre pecadora e manda a Tua misericórdia sobre a minha família”.

Poucos dias antes de morrer, Luís escreveu uma carta a Jesus:
“Ó Jesus, antes de ter esta doença eu já Te conhecia, mas muito pouco.
Ao ficar doente conheci-Te mais, pouco a pouco. Agora, sei que Tu és o meu Salvador, porque todas as coisas que Te pedia ou tudo aquilo que Te peço, Tu sempre me deste. Lembro-me de que, uma vez, Ti pedi pela saúde de minha mãe e Tu me escutaste, Senhor: fizeste mamãe se sentir melhor e, agora, ela não tem mais aquela sua doença das vertigens. Ou então quando me faltava o ar e eu estava me asfixiando, Tu me deste o respiro para dizer estas palavras. Tu vieste para a terra para morrer por mim e quando decidires que devo ir para perto de Teu Pai, eu irei. Obrigado, Senhor, por tudo! Obrigado pelos dias que me deste para viver! Obrigado pela luz! Obrigado por estar ainda com minha mãe, com meus irmãos, com todas as pessoas que mais amo.
Luís”

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Num mundo de fugitivos...


In a world of fugitives the person taking the opposite direction will appear to run away. If the truth has made us odd, if we have not accommodated ourselves out of all recognition, then it will appear to some people that we're running away, that we're living an escapist existence, that we're outsiders, even outlaws – whereas the truth is that we're the insiders, because we're bearing God's reality, not the world's. We are the true establishment, because we are building and inhabiting God's basilica, the commonwealth of eternity, not earth.


* ELIOT, T.S. The family reunion.

Não emprego meios extraordinários...


Há algum tempo (para falar bem a verdade, há um tempo bastante razoável... já que era a época em que eu estava escrevendo meu doutorado... ou seja, há pelo menos 5 anos atrás), um amigo me enviou este trechinho, dizendo-me que era atribuído a Santa Teresa da Cruz - Edith Stein (1891-1942). Confesso que já virei meio mundo para descobrir de onde ele tirou isso... e mesmo para saber se é mesmo de Edith Stein. Apesar da incerteza da fonte, publico assim mesmo, pois é uma ajuda (e me acompanha em muitas das minhas atividades de trabalho cotidianas, desde então). Por enquanto, fica como "atribuído a". Se alguém souber a fonte, por favor, me comunique. Ficarei contente e grato.
Abraço.


“Não emprego meios extraordinários para prolongar o meu tempo de trabalho. Faço aquilo que posso. A capacidade aumenta, certamente, com a quantidade das coisas necessárias. Quando não existe algo muito premente, a mesma termina muito mais cedo. O céu, com certeza, entende dessa economia. Já não é mais necessário o que ainda aparece depois de nove horas. Se na prática não ocorre tudo racionalmente, é porque não somos espíritos puros. Não faz sentido rebelarmo-nos contra tal fato.

Ó Senhor, meu Deus, dá-me tudo, tudo,
O que for guia para chegar mais a Ti.
Ó Senhor, meu Deus, arranca-me tudo, tudo,
O que me distancia e me desvia de Ti.
Ó Senhor, meu Deus, tira-me toda de mim
E apropria-te totalmente do meu ser!”

* Texto atribuído a Edith Stein

Cartas do P.e Aldo 33




Asunción, 19 de dezembro de 2008.

Caros amigos,
Olhem as burrices que um jornal de intelectualóides de esquerda escreveu, no último dia 17 de dezembro, depois de ler, no jornal “Tempi” de setembro, uma carta minha.

Il Manifesto, 17 de dezembro de 2008
As loucuras de um missionário
Aconteceu, por acaso, de eu ver na internet (Tempi.it de 23 de setembro) a fotografia desconcertante de uma criança irremediavelmente doente, e de ler as palavras ainda mais desconcertantes de padre Aldo Trento (missionário no Uruguai [sic]), a respeito da infeliz criatura. Recorto algumas frases: “o pequeno Victor de um ano... geme continuamente... mmm, ah, ah, ah... A sua cabeça é enorme e, improvisamente, a parte inferior é afundada deixando uma pequena fossa, ali onde não tem crânio... Atravesso de um aparato médico, retiraram toda a água da cabeça... outro dia, o olho direito saiu da órbita: restou uma cavidade vazia que deixa escapar de tudo... Victor, o meu filhinho, não apenas é um cadaverzinho que vive, mas é todo deformado, ferido, cheio de tubos que entram e saem do seu corpo... O mundo diz: por que não o deixam morrer?... Victor é Jesus, o meu pequeno Jesus que agoniza, que sofre, que geme... Beijo-o, beijo-o sempre... os gemidos se acalmam. Acaricio-lhe o rosto... não é mais uma cabeça, murcha, com a pele afundada como um laguinho de montanha... e sinto que acaricio a Jesus... Como gostaria que este escrito, com a foto, chegasse a quem decidiu que Eluana ‘deve’ morrer. Não, não pode morrer se Deus não decidiu ainda. A vida é Sua, de Deus... se a matarem, seremos todos mais pobres e desgraçados”. Não seriam necessários comentários. Limito-me a observar que atribuir a Deus a decisão de fazer morrer cada homem numa hora estabelecida por ele, é uma absurdidade, já que devemos atribuir a Deus a responsabilidade da morte de criaturas ainda no seio materno, ou recém-nascidas; crianças arrancadas dos genitores, genitores arrancados de seus filhos. Teologicamente impossível. Seria uma ofensa ao Criador. Padre Trento, neste caso, está persuadido de que cabe a Deus querer que continue o suplício daquele serzinho “cheio de tubos”. Ele, o bom padre Aldo, na espera da decisão divina, enquanto o acaricia, o mima – ao “cadaverzinho deformado” – persuadido de que está mimando a Jesus na cruz; e tem, além do mais, a coragem de tirar fotografias do “pequeno Jesus que agoniza”, o que, cegos pela dor, os apóstolos nunca teriam feito, na absurda hipótese de que pudessem fazê-lo. Uma só pergunta ao missionário: tubinhos e remédios que impedem Victor de abandonar a cruz devem ser atribuídos a uma decisão do Senhor?


Entendo uma coisa e me é claríssima: o problema é se Deus existe ou não. Se não existe, qualquer bobagem é possível e o “Il Manifesto” é a evidência maior disso. A minha resposta é a foto dessa velhinha que é hóspede da nossa Casa Família para idosos – “São Joaquim e Sant’Anna” – adjacente à clínica.
Alguns dias atrás, quando eu estava na selva, uma irmã me ligou – uma dos tantos anjos da guarda que vivem entre os “escombros humanos”: “Padre Aldo, por favor, me ajude. Encontrei uma senhora na sarjeta. Mas, paciência... o problema mais grave é que todas as noites ela é abusada sexualmente pelo seu neto. As violências sofridas destruíram até mesmo a consciência de ser uma mulher, de ser um ser humano: não fala mais, vive com medo de tudo e de todos e, quando a noite chega, grita. Padre, me ajude!”.
Ei-la comigo em uma bela casinha. Ainda tem um terrível medo, porém o sentir-se acariciada, beijada delicadamente no rosto por mim e pelos amigos, permitiu que ela recuperasse um pouco de paz. Está destruída em todos os níveis. As suas partes íntimas são uma ferida só e a sua psiqué está destruída. Mas, tenho a certeza de que o amor de Deus – e Deus existe! – a transformará e ela voltará a descobrir a sua dignidade belíssima de mulher.
Amigos, o que podem entender disso tudo aqueles do “Il Manifesto” e de outros jornais aparentados a ele? O meu coração, cada dia, é destroçado por mil dessas violências e, como nos recorda o Papa, “quanto mais a pessoa ama a Cristo, mais sofre”.
Por isso, ler certas coisas me dilacera o coração, porque Victor é Jesus. Victor, como esta senhora que se chama Verônica, faz parte de um desígnio amoroso de Deus. Não é Deus que criou a dor, ou a morte. Foi o pecado. Porém, é também verdade que tudo, tudo o que acontece, faz parte da Providência Divina que ama os seus filhos. São Paulo escreve: “tudo concorre para bem daqueles que amam a Deus”. Para mim está claro como o sol, como é claro que 20 anos de depressão foram e são uma graça para que o meu coração se purifique e para que Deus pudesse fazer com este asno o que Ele está fazendo.
Uma noite dessas, veio jantar aqui o caro amigo Vice-Presidente da República com todos os homens do seu governo. No seu discurso de fim de ano, ele disse: “Estou aqui, estamos aqui, na companhia do padre Aldo e de seus confrades porque este lugar é a evidência do ‘céu novo, da terra nova’. Estamos aqui para aprender como construir o novo Paraguai. Esta terra que pisamos é o caminho do meu governo, é um exemplo a seguir. E, por isto, como ceia de Natal e de Fim de Ano, escolhemos este lugar para economizar e para dar uma ajuda a esta grande obra de caridade”.
Certamente o nosso Vice-Presidente não é um intelectualóide de esquerda; pelo contrário, é um liberal... mas, sobretudo, é um homem. Um homem que, a cada semana, vem buscar a nossa companhia, recitando, às 6 da manhã, as Laudes, tomando café da manhã conosco e falando comigo quase todos os dias por telefone, para nos lembrar de uma coisa apenas: “eu sou Tu que me fazes”, que aprendeu não apenas de cor mas como constitutivo do seu “Eu”.
Somos subdesenvolvidos, do terceiro mundo, mas, se no primeiro mundo – não apenas aquele do Il Manifesto mas de qualquer outra classe social – se aprendesse aquilo que Carrón nos tem ensinado (“eu sou Tu que me fazes”), entenderia mais não apenas a minha vida, mas entenderia que tudo isso é obra da Divina Providência... e entenderia também o quanto é necessário que Eluana viva.
Que tristeza! Soube que a levarão para a minha cara Udine para morrer... justo ali, onde, há 20 anos, iniciou para mim a vida.
Perdoai-nos, Jesus.
Com afeto
P.e Aldo.

Cartas do P.e Aldo 32




Asunción, 22 de dezembro de 2008.

EDUCAR É UM RISCO

Caros amigos,
É mesmo bonito educar. Educar é introduzir a criança no conhecimento da realidade segundo a totalidade dos fatores que a constituem, nos ensina Giussani. É sempre comovente, para mim, repetir esta novidade em todos os momentos que estou com as pessoas. A Escola de Comunidade nos diz que “compreender” significa afirmar, em cada momento, o nexo entre o instante que vivo e o destino. Pois bem, estas fotos indicam como tentamos educar as crianças a compreender o que significa que a realidade é amiga, como nos recorda Carrón.
Vivo no Paraguai, de tal forma que é necessário ensinar tudo, até mesmo como usar o banheiro. As fotos indicam como as crianças aprenderam a importância da cama, dos lençóis, o porquê dos lençóis, do travesseiro, da fronha etc.; antes porém, aprenderam o valor da vassoura... como segurá-la e como usá-la.
Entre a cama e o altar existe uma relação profunda e, por isto, estamos na igreja e o motivo eu o expliquei às crianças. É algo de verdadeiramente belo... e as crianças, na semana passada, aprenderam o valor, a beleza da cama... de tal forma que, agora, não dormem como as vacas, mas de um modo humano.
Ciao
P.e Aldo.

Cartas do P.e Aldo 31


Asunción, 25 de dezembro de 2008.

Caros amigos,
Mando-lhes uma foto do Presépio Vivo que reuniu e representou todos aqueles que estão mais perto do Reino dos Céus: seja quem está perto por causa do sofrimento, como os doentes; seja quem está perto por causa do olhar, como as crianças.
É um espetáculo incrível, que abre o coração, ver como todos se envolveram: as crianças cantavam no coro dos anjos, os doentes levaram os presentes dos Reis Magos, São José não podia ser mais perfeito – Jorge, um doente de AIDS de origem judaica. E também as velhinhas da Casa de Acolhida, que aclamaram o Senhor vestidas como pastoras, enquanto na palha chorava o recém-nascido Arnaldito, criança soropositiva da Casinha.
Um Presépio bonito assim e comovente assim abre o coração para a vinda do Senhor.
Bom Natal de todos os hospedes da clínica e das crianças da Casinha.
P.e Aldo.

Cartas do P.e Aldo 30





Asunción, 28 de dezembro de 2008.

Caríssimos amigos,
hoje é a festa da Sagrada Família, e para nós da paróquia é o dia no qual, durante a Santa Missa das Crianças, às 08 da manhã, benzemos as vassouras (vejam as fotos) e as damos a cada criança. O motivo é educativo.
Não se esqueçam das três regras fundamentais do caminho educativo que levou este não-povo a ser povo, comunidade viva. Três regras que nascem da consciência de “eu sou Tu que me fazes” e que “a realidade é uma grande amiga do Homem”, como Carrón nos lembra a cada dia.
1) Calos nos joelhos: o Homem é súplica, oração.
2) Calos nas mãos: o nexo entre a realidade e o destino se chama trabalho. E a vassoura é o primeiro instrumento para que a casa, a memória do Senhor, possa ser limpa e bela. Minha mãe foi a primeira pessoa a me dar de presente uma vassoura. E assim, desde pequeno, a vassoura se tornou para mim o instrumento principal da relação com a realidade cotidiana. Por isto, é um instrumento que aprecio e estimo tanto, até o ponto de reservar um lugar para ela na minha casa. Além do mais, não posso esquecer que São Martin de Porres, o santo peruano, chegou à santidade usando a vassoura e, por isso, é representado sempre segurando uma entre as mãos. E, para os meus filhos, é uma honra receber a vassoura benzida. No fundo, é uma pequena aplicação do “Educar é um risco” (refere-se à obra de Luigi Giussani; ndt).
Tudo se joga nos mínimos detalhes... porém, se a pessoa não vive dramaticamente as 24h do dia, se torna um elefante ou um intelectualóide. E seguramente não educa.
3) Calos no cérebro: o valor do estudo, que permite contemplar as leis do cosmo e a beleza da realidade. Olhem para a fachada da nova clínica (vejam as fotos): é uma réplica toda em pedra de uma igreja das Reduções Jesuíticas. Faltam ainda dois andares e muitos detalhes. Na pedra, vocês podem ver representados os motivos florais da Eucaristia: a uva e a “flor de Mburucuya”, ou maracujá, flor sagrada para o povo Guarani. Ainda mais: os anjos cantores que adoram o Menino Jesus nos braços da Virgem. Este longo baixo-relevo é igual àquele que se encontra na grande e bela igreja da Trindade, uma redução na qual trabalhou o grande arquiteto jesuíta Primoli, natural de Milão. Da leitura dos baixo-relevos, agora muito visíveis na clínica, pôde-se entender quais instrumentos musicais se usavam nas reduções.
Pois bem, as minhas crianças, os meus idosos e os meus doentes vivem hoje em um ambiente cultural que recorda a Europa medieval (a escola e a pizzaria são as duas partes de um edifício que lembra o castelo de Lorena) e as reduções jesuíticas (a clínica). Uma síntese entre o velho mundo da fé e o novo criado pela fé. É como dizer que esta pequeníssima cidade do amor educa também com as paredes, com as pedras e com os tijolos.
Mas, o coração de tudo é apenas e exclusivamente a Divina Providência que “move o sol e as outras estrelas”. Não tenho absolutamente outro princípio econômico... aprendi este com minha mãe e meu pai.
Providência que se move particularmente na medida em que se leva a sério aquilo que Carrón nos tem repetido continuamente. Que belo o seu artigo! “O Natal e a Esperança”. Eu o li em todas as Missas destes dias; o traduzi; fiz milhares de cópias e o distribui em todas as partes. Sairá como editorial nas páginas do hebdomadário que editamos e que sai junto com o cotidiano nacional “Última Hora”. Comoveu-me, comove-me, porque Carrón descreve, de maneira belíssima, a minha história, descreve a eleição que Deus fez e faz de mim, a obra que a Divina Providência, através deste asno, está realizando. Sim, porque, como disse o Vice-Presidente da República do Paraguai, “nesta obra se vê o início do Paraguai ao qual todos aspiramos. Não posso mudar o país com um decreto, mas se vê aquilo que a Divina Providência pode mudar...”.
Por isto, sou muito grato ao Carrón, porque me faz reviver aquela companhia de Giussani, quen ão me deu conselhos, não enviou controladores ou experts para ver o que eu fazia ou não fazia... simplesmente sempre me fez companhia. Como, hoje, Julián que nos chama a atenção continuamente para o coração de tudo: a obediência ao próprio coração, à própria humanidade.
Que comoção receber este bilhete da irmã de dom Giussani, na Vigília de Natal:
“Quero enviar os meus votos de um feliz Natal ao amigo que tanto amou o meu querido irmão e que conheci em Rímini. Lembro-me de você nas minhas orações, para que o Senhor abençoe a sua missão sempre sob o olhar sorridente do Gius! Lívia.”
Não esperava por uma coisa assim... chorei. Nestas palavras tem tudo... naquele “sob o olhar sorridente do Gius” está presente o milagre da minha vida. E hoje aquele sorriso é tudo o que nos indica Carrón, tudo o que sublinha, não nos deixando nunca tranquilos. Nestes últimos dias do ano, agradeço a Deus por estes dois grandes amigos e pais, junto com alguns outros (não importa quantos) amigos que são, para mim, uma consolação, uma companhia e que me indicam com voz clara – como o apóstolo João naquela noite, no lago: “É o Senhor!”.
Desejo à fila de amigos que me escrevem os seus dramas, os seus grandes e pequenos sofrimentos, que a minha insignificante pessoa possa ser, junto com este povo que Deus me deu, motivo de conforto e de certeza.
Ajudemo-nos a repetir até o infinito: “eu sou Tu que me fazes”.
Bom Ano Novo
P.e Aldo

terça-feira, 21 de abril de 2009

Amar a Cristo sem moralismos

Uma amiga me mandou este trechinho de D. Gius... e achei por bem postá-lo aqui.
Obrigado, Rê!
Um abraço!

O cristianismo - que é o nosso modo de viver o mistério de Cristo presente - o que é no mundo, se não aquele grupo de homens, aquele pedaço de humanidade que reconhece que Deus tornou-se uma pessoa entre nós, e pronto? É talvez o grupo de homens perfeitos, aqueles que não dizem mentiras e que não roubam, que não fazem mal aos outros, que usam bem do próprio corpo e do corpo de outros? É este o grupo de cristãos? Isso talvez, se acontece, é o milagre dos milagres. Mas a grande questão, a coisa nova é que os cristãos são os seguidores de Cristo (assim os antigos escritores falavam dos cristãos: "São os seguidores de Cristo"), isto é, aqueles que O reconhecem (recordamo-nos dos primeiros, daqueles que andavam atrás Dele), aqueles que vivem a consciência da Sua Presença. Ora, existe uma coisa mais impressionante do que o fato de que ninguém perceba a Sua Presença? "Veio entre os seus, e os seus não O acolheram. Veio à casa deles, e eles não O receberam". E nós, com todo o nosso discurso cristão, com a fé que temos, com as práticas que fazemos, podemos viver como se Cristo não existisse! Então toda a nossa moral o que é? A nossa moral não é mais moral, isto é, não é mais o comportamento verdadeiro; a nossa moral é pagar o pedágio a um medo ou a uma presunção, a um colocar no lugar as coisas, isto é, a um contrato, a um cálculo, vale dizer: é um moralismo.
Ao contrário, toda a lei é amar a Cristo, é a afeição a Cristo (...). Não é preciso arrancar nada para fora, não devemos arrancar nada de nós: é preciso converter-se! É uma outra questão. Quando um homem quer bem, começa a querer bem a uma mulher, se ele quer verdadeiramente bem, entra nele um coração diferente, mas não se arranca nada de si: o dinheiro que tem, o temperamento que tem, etc. É certo que, depois, com o tempo, se "educa", se ordena, se torna capaz, se quer verdadeiramente bem, se torna capaz de coisas das quais antes não era capaz.
Mas isso com o tempo, como uma conseqüência! A questão central não é ser capaz de fazer assim e assim, respeitar as leis assim e assim, mas é a afeição a Cristo.

* O texto acima é um trecho do livro de Don Giussani, La fraternitá di Comunione e Liberazione publicado em ocasião do 20º aniversário de reconhecimento pontifício da Fraternidade, no Jornal Corriere della Sera do dia 15.10.2002

Cartas do P.e Aldo 29

Asunción, 01 de janeiro de 2009.

31 de dezembro, meio-dia, calor de 40°. Estamos em 6 pessoas no cemitério à leste desta Capital: a secretária, o motorista da ambulância, Lorenzo – filho de Roberto Fontolan –, uma mulher com um homem que ela diz ser seu marido e eu. Acompanhamos o salesiano italiano idoso que morreu como um santo, no dia 30 de dezembro, às 14h.
Desta vez, derramei-me em lágrimas. Não apenas porque é o 50º filho do Pai que sepulto no nosso cemitério – enquanto outros 450 estão em algumas tumbas onde seus parentes lhe deram sepultura –, mas muito mais porque estou diante de um homem do Piemonte, órfão, educado pelos Salesianos e salesiano ele mesmo por muitas décadas. Missionário no Paraguai desde 1957... depois, por circunstâncias misteriosas – que pertencem à liberdade de Deus e do homem –, deixou a congregação. Há apenas 20 dias, Deus o havia conduzido até nós.
A congregação o havia abandonado... será por que ele a havia abandonado? É uma pergunta que me faz mal. E me deixa ainda pior porque apenas um salesiano o visitou enquanto estava no nosso hospital, e apenas um salesiano o visitou depois de morto. E, ainda mais, porque nas 24 horas em que o corpo sagrado deste homem ficou comigo... ninguém... exceto aquela mulher – uma mulher que somente Deus sabem quem é e quem era para ele. Eu a olhava: uma vez mais era apenas uma mulher ao seu lado... talvez seja aquela para quem ele deixou tudo... quem sabe? Mas, o que importa? O importante é que ainda uma vez o reino da beleza, do amor humano estava ali. Estava ali comigo, ali... enquanto, com os coveiros, eu o colocava na tumba. A pecadora e este pecador demos o último beijo naquele santo pecador. Eu chorava como uma criança porque sentia – palpitante em mim – que apenas Deus perdoa, apenas Deus não olha para os adjetivos ou para os substantivos – “bom”, “mau”, “religioso”, “consagrado” – ou para o club ou para a congregação ou para o carisma a que pertença.
Sim, somente Deus é misericordioso! Para Ele, existe tão somente o homem, existe tão somente o filho. Não o filho “bom” ou “mau”; existe o filho e basta. Como num relâmpago, veio-me à mente o dia em que deixei a minha congregação há vinte anos atrás... mas, a mim foi concedido um privilégio: dois braços me acolheram e abraçaram... aquele homem que, como me escreveu no Natal a Irmã Lívia, “do céu, está sorrindo para mim”. Entre mim e este salesiano existe esta grande diferença: eu, pecador pior do que ele... abraçado por Giussani. E ele, quem sabe?... por outros braços diferentes, que apenas Deus conhece.
Tristemente, estes braços o levaram a viver como um mendigo, num dos mais feios e folclóricos mercados do mundo: o Mercado 4, de Asunción. Um mercado onde se vive na sujeira. Foi ali que a assistente social o encontrou, depois de ter sido avisada por aquela mulher que, hoje, estava comigo no cemitério. Ela o encontrou a dois metros do chão, numa espécie de mezanino de um depósito a 40cm da telha de zinco. Do lado de fora fazia um calor de 48°. Imaginem o calor que fazia debaixo daquele telhado! Naquele lugar, ele fazia tudo: era o cúmulo da sujeira. Quando chegou à clínica, ele disse à bela enfermeira que cuidou dele: “Senhorita, não adianta... porque tanto faz morrer limpo ou sujo... não muda nada... além do mais, não seria suficiente para lavar-me toda a água de Asunción!”.
Depois daquela ducha, sua alma voltou a ficar bela. Recebeu todos os sacramentos, renovou os votos de pobreza, castidade e obediência... que se tornaram não mais uma obrigação moral, mas a expressão da liberdade reencontrada, ou seja, da Virgindade dada a ele de novo pelo Mistério. Reviveu a beleza do seu batismo e morreu dizendo: “Obrigado, ó Pai do céu, porque não perdi a fé”. Eis a verdadeira questão, amigos. Como não chorar escutando palavras como essas? Quis velar seu corpo durante toda a noite... mas o meu cansaço me impediu e, assim, o deixei sozinho na companhia do pároco – o Santíssimo Sacramento! Porém, foi difícil dormir... e dormi mal. Como Jesus: nenhum salesiano, ninguém vigiando com ele?
Que dor quando um carisma se torna um instrumento para o uso! Que dor quando um carisma se torna um partido, se torna um grupo! Que terrível quando a pessoa é sua amiga apenas porque você pertence ao club... sim, porque mesmo um carisma pode se tornar um club... e não partir da amizade que aponta, em cada momento, para aquilo que Carrón nos repete: “eu sou Tu que me fazes”.
A obediência é uma amizade. Que conforto... agora, sei com certeza que, também para mim, a morte me encontrará como este homem: entre os braços de uma companhia... não importa se feita de 5 ou 6 pessoas mais os coveiros. Mas é sempre uma amizade... o sinal visível de que apenas Deus perdoa, de que apenas Deus é misericordioso.
Voltei do cemitério com o coração fixo na misericórdia de Deus, que me olha e me ama assim como eu sou: como um homem. Que espetáculo! O último dia do ano ser testemunha de que somente Deus é misericórdia, é perdão.
Todos poderão me julgar, condenar, abandonar, mas DEUS ABSOLUTAMENTE NÃO.
Vivo apenas por este certeza.
Bom Ano Novo.
P.e Aldo

Cartas do P.e Aldo 28

Asunción, 02 de janeiro de 2009.

Caros amigos,
“olhar para aqueles pontos nos quais é evidente o sinal inconfundível do Mistério”: isto é o que nos repete Carrón.
Mando para vocês o breve testemunho de uma jovem mãe que divide com a gente o trabalho de catequese. Estes são os milagres que temos necessidade de ver e tocar.
P.e Aldo

“Senhor, o mar é tão grande e o meu barco é tão pequeno... mas, se Tu o sustentares eu não terei medo.”
Quando padre Alberto, há 18 anos, visitando casa a casa, me convidou a fazer parte da catequese da paróquia, eu não podia imaginar que esta proposta se tornaria uma das coisas mais bonitas da minha vida; porque, para mim, a catequese nunca foi um serviço, mas uma “grande necessidade” que consegui preencher os vazios da minha alma.
Os meus filhos sempre brincam comigo dizendo que eu me apresento assim: “sou Fátima, tenho seis filhos e sou catequista”. É porque sempre fui orgulhosa de ser assim. Não sei o que seria da minha vida se não fosse a catequese. Por isso, desde que – há 15 dias – diagnosticaram, em mim, um câncer no estômago, não consigo mais parar de pensar em todos estes anos de trabalho com sacerdotes e catequistas... uma
companhia que me ensinou a pensar de maneira diferente diante dos momentos difíceis.
Creio que quando Deus permite que enfrentemos algumas provações é para que, no meio delas, possamos encontrar a paz.
Devemos nos deixar em Suas mãos, porque “o vaso se aperfeiçoa nas mãos do oleiro”. No meu caso pessoal, tenho entendido este momento como um tempo de “poda” – como a que se faz na videira para que possa dar frutos melhores e mais abundantes. Sinto-me amada e abençoada por Deus, já que, nestas circunstâncias, reconhecemos com maior profundidade a nossa humanidade e isto nos torna mais humildes e mais disponíveis a reconhecer a Sua grandeza.
Não conheço aquilo que Deus preparou para mim, porém aceito a Sua Vontade, como naquela canção que cantávamos durante o catecismo e que sempre teve um significado especial para mim: “Muito além dos meus medos, muito além das minhas inseguranças, / quero dar-Te a minha resposta: / estou aqui para fazer a Tua Vontade, / para que o meu amor seja dizer / sim até o fim”.
Obrigada, padre Aldo, por ter-me acompanhado durante todo este tempo, por ter-me ensinado tantas coisas e por ter-me preparado a viver um momento como este.
Fátima

sábado, 18 de abril de 2009

Cartas do P.e Aldo 27

Asunción, 05 de janeiro de 2009.

Caros amigos,
Hoje, Celeste é testemunha da grandeza da Misericórdia Divina. Nela, há 11 anos, o mal (refere-se à sua leucemia; ndt) não pemitiu que entrasse um outro mal pior no seu coração: o mal de duvidar do rosto bom do Mistério; o mal da falta de confiança... confiança que, mesmo para um “condenado à morte” – como foi declarada ela, pelos médicos –, permite ver tudo o que lhe acontece como estupendamente positivo, como parte de um desígnio bom que nos é dado já experimentar. Se os hospitais não existissem por isso, para que serviriam?
Ontem, internamos um travesti com AIDS, tuberculose, abandonado num canto de um hospital. Há tempos não comia e não tinha ninguém que se interessasse por ele. Tão logo pôs os pés aqui, e sentindo-se abraçado e beijado, disse: “já estou ressuscitado”. Pediu que lhe cortassem os cabelos loiros, as unhas de mulher e que lhe tirassem o esmalte. Hoje, ele pediu para se confessar. Isto sim é um hospital como a Igreja nos ensina: “o pobre não é um fardo, mas um irmão” (em italiano, a frase tem um jogo de palavras que não conseguimos traduzir: “il povero non è un fardello, ma un fratello”; ndt).
Mas, voltemos a Celeste. Hoje, depois de anos de silêncio, ela pronunciou a primeira vogal: “A”! E a está repetindo continuamente. Além do mais, já recomeçou a escrever e a fazer contas de adição e de subtração... Que belo! Que comoção! Ela veio para cá para ser sepultada.
Como é possível viver sem se comover até as lágrimas, como Marcos Zerbini quando veio até aqui... e que, nos próximos dias, encontrarei em São Paulo, para estar na sua companhia e na de Cleuza... que depois virão aqui, de novo, entre o dia 17 e o dia 22 de janeiro, com 30 universitários para gozar daquela certeza: “eu sou Tu que me fazes”, contemplando os doentes e visitando, juntos, as reduções que, para nós, são como São Bento e São Francisco foram para a Europa.
Um abraço
P.e Aldo.

De uma amiga... para todo mundo.

Pessoal, recebi este email de uma cara amiga de Belo Horizonte... e grato, grato, grato por me ter revelado o que eu não via, resolvi publicá-lo aqui.
Marcela, tão cara, obrigado também pela amizade - isto é, por me testemunhar uma vida mudada pelo encontro!
Um abraço meu n'ocê e nos amigos todos.
Paulo, querido
Abri hoje seu blog pela primeira vez. Comecei a ler, com todo cuidado do mundo, as cartas do Pe. Aldo que você, com tanto carinho, traduz uma a uma. Estou lendo como que tocando a roupa, o leito, o corpo de cada pessoa acolhida por esta companhia: com respeito, carinho, comoção, esperança e certeza no futuro.
É impressionante ver os rostos marcados pela doença, pela dor, mas com uma dignidade sem tamanho, que só pode mesmo existir porque Ele está ali fazendo a realidade a cada minuto de vida (e de morte), com uma concretude e amorosidade imensas.
Penso em você traduzindo cada palavra, sem retirar qualquer peso, expressão que possa escancarar o drama de cada pessoa, nos ajudando a entrar mais a fundo na experiência de dor, compaixão e beleza.
Estou longe deles, mas perto porque você fez isso por mim, por nós, por Cristo.
Obrigada pela amizade!!
beijo grande
Marcela Bertelli

Cartas do P.e Aldo 26




Asunción, 24 de janeiro de 2009.

Caros amigos,
Dias de paraíso, dias nos quais revivo a aventura do primeiro encontro, da “audácia ingênua”, quando a humanidade, o ímpeto missionário de Giussani me permitiu descobrir que o Cristianismo é a plenitude da realidade, da vida. Porém, hoje, com a consciência dos 62 anos.
Os Zerbini são a evidência daqueles “sinais inconfundíveis da Presença do Altíssimo”. Que graça passar uma semana com eles! Dou a vocês uma pequena entrada para, depois, lhes oferecer o almoço e o jantar.
1. “Voltamos aqui para continuar a seguir o que o Carrón nos indica, porque a única modalidade para manter vivo Giussani é seguir o que o Carrón nos indica”. Imaginem a minha comoção e as minhas perguntas! Mas, eu vivo com esta obediência e simplicidade de coração?
2. “Estamos aqui para crescer na amizade iniciada, para aprender a vencer a ‘OBVIEDADE’ das coisas, o descontentamento nas relações. Vocês têm um tesouro nas mãos e devem lutar contra ‘A OBVIEDADE E O DESCONTENTAMENTO’. Em nenhum lugar encontramos a beleza que encontramos no Movimento Comunhão e Libertação. Por isto, precisamos custodiar com muito afeto tudo o que encontramos hoje. Tudo isso deve ser sempre vivo, porque Giussani está vivo e está vivo se seguirmos a Carrón e aquilo que ele nos indica. De outra forma, Giussani se tornará um mito e não um fato hoje”.
Amigos, dois socos maravilhosos no meu estômago... que me fizeram pular de alegria.
A Cleuza disse: “Quem segue a Carrón e aquilo que ele indica é feliz e contente. E isso se pode ver...”. De fato, isto é evidentíssimo neste lugar, nesta realidade, nestes dias de convivência.
Um abraço
P.e Aldo

P.S.: As duas fotos que mando para vocês são da nossa fraternidade de padres da América Latina, com seus quatro bispos: isso é a evidência!
Que paraíso as férias no mar, com estes homens. Não eram bisos ou padres, mas homens. O amor deles, o nosso amor por Giussani consiste, hoje, no seguimento radical e afetuoso daquilo que Carrón nos indica; por isso, nossos rostos de homens livres estão felizes nos três dias que passamos juntos. Nos diálogos eram todos sobre o humano, e não sobre a pastoral, os problemas paroquiais, mas a vida, o mar, a escuta dos Zerbini e também deste asno que escreve para vocês. Pagaram-me tudo para que eu estivesse com eles... que comoção! Mas, isto é CL, isto é o que Carrón nos indica. Uma fraternidade que existe desde o início das missões na América Latina e que criou um povo: 45 padres, ou melhor, homens e 4 bispos que, como crianças, seguem a Carrón com afeto. De fato, a América Latina está se tornando o continente da esperança. Estou feliz. Voltei ao início, mas com a espessura da idade.
Rezem para que eu seja fiel e saiba oferecer a minha vida pelo Movimento e por Carrón.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Cartas do P.e Aldo 25

Asunción, 13 de janeiro de 2009.

Caros amigos,
A realidade se impõe e obedecer a ela é a coisa mais dramática, difícil e bela. Difícil, mas simples: basta olhar para ela. Difícil porque partimos dos estados de ânimo, do humor, dos preconceitos, do quanto respiramos o sistema dominante – mais ou menos conscientes disso. Eis então alguns fatos que me comovem, porque a realidade é mesmo bela e dramática.
1. Voltei do Brasil, há pouco. O calor é terrível, aqui, e estavam me esperando para a segunda parte da Colônia de Férias de verão. A primeira parte tinha sido em dezembro. Deixo a vocês imaginar o que quer dizer, para mim, com 62 anos, com um calor impressionante, colocar-me imediatamente ao trabalho com as crianças mais todo o resto. Porém, a realidade é amiga e eis-me aqui, desde as nove da manhã, no meio das crianças. A educação só acontece assim: estando e comunicando a paixão pela realidade. Como posso deixar todas estas crianças na rua ou vendo televisão etc.? Não, a realidade pede uma outra coisa... e, então, deve-se obedecer.
Por isso, digo sempre que é muito mais difícil obedecer à realidade que aos superiores. Neste caso, a realidade me pede uma coisa que os superiores não pediriam e um burguês diria: “estou pronto... fiz tudo o que tinha sido pedido e, sendo que é verão, mereço, agora, umas férias”. A realidade, ao não me deixar “repousar”, me faz repousar, porque, com este calor toda manhã, com as crianças que são um terremoto, devo colocar-me de joelhos... e este é o repouso.
2. As férias com os Zerbini... um mundo que sempre vivi aqui com alguns amigos, mas que certamente – desculpem-me se sou impertinente – não via mais desde quando Giussani, por causa da doença, não pôde mais guiar o movimento. Dou-me conta de que somente Carrón poderia – e nos está testemunhando isso – fazer-nos reviver, rejuvenescer no carisma de Dom Gius. Meu Deus! Não tem uma única palavra desse homem que não me faça “chorar” de comoção. Com ele, voltei ao início, a quando encontrei Giussani. Como é evidente que, para os simples de coração, ele tem uma única preocupação: levar-nos para o coração do carisma. Com ele, Giussani não é mais um mito ou um “era uma vez...”, como nas fábulas, mas alguém que existe hoje, alguém que é possível hoje, que acontece hoje. O encontro com os Zerbini foi viver com intensidade esta posição, esta aventura. Depois de anos em que vivi quase sozinho ou com poucos amigos a aventura da primeira hora, da grande história dos inícios e que os velhos como eu – sim ou sim – se recordam; depois desses anos, reencontrei, de modo surpreendente e comovente, como João e André, o rosto humano do Mistério. Olhar para os Zerbini foi rever a minha humanidade. Olhando para eles e, com eles, olhando Carrón, o meu eu se manifestou a mim, uma vez mais, em todo o seu esplendor. Alguns exemplos:
a) o entusiasmo pela realidade que reconhece em tudo os sinais inconfundíveis de Cristo. Passamos horas e mais horas falando da realidade, quer dizer, falando de Cristo, porque, como diz São Paulo ao Colossenses, “a realidade é o corpo de Cristo”. Ele não diz que “o corpo de Cristo é a realidade”. É partindo da realidade, na sua totalidade, que posso tocar e abraçar o leproso que tenho na clínica, ou o doente de AIDS com tuberculose. Se fosse o contrário, eu teria uma imagem de Cristo que não me permitiria fazer nada disso. Com Cleuza, Marcos e Bracco (responsável nacional de Comunhão e Libertação no Brasil; ndt), viajamos horas de carro, com um calor que, para mim, é um sofrimento, porém se nos darmos conta, porque estávamos falando de tudo e em tudo era claríssima a Presença de Cristo. Era como, quando comia, saia de férias, fazia uma boa caminhada, em Corvara, com ele. Ele nos fazia saborear Cristo em tudo. Nele, tudo era unido. Ele se comovia com as agulhas dos pinheiros. Velhos amigos, vocês se lembram ou não? Ou será que nos tornamos – como disse Cleuza – os exegetas, os intermediários de Giussanie ou da Escola de Comunidade?
Com os Zerbini é impossível reconduzir as coisas a Cristo, porque eles nos fazem descobrir dentro de todas as coisas a res, a presença de Cristo.
b) o ímpeto missionário. Vocês se lembram quando nós fazíamos um mar de filipetas, ou quando íamos para a praia ou para a montanha para panfletar, ou para vender as revistas, quando uma comunidade visitava a outra, quando se rezava “as horas” (refere-se às horas litúrgicas da tradição da Igreja – basicamente, Laudes, Hora Média, Vésperas e Completas –; ndt) na frente da escola, na universidade, quando a vida era “uma audácia ingênua”, como dizia o Gius para se referir ao ímpeto missionário? Vocês se lembram quando a gente julgava tudo e se retinha o valor? Vocês se lembram quando, em todos, o ideal da virgindade fascinava e o desejo de missão queimava a “bunda”? Pois bem, para mim, sempre ficou assim por pura garça, mas hoje vejo a mesma coisa brilhar nos Zerbini. Eles são aqueles que a gente era, mas com um maturidade impressionante. Eles fazem o que a gente – burgueses e cômodos, como diria a Cleuza – não faz mais. Vocês entendem como o Brasil inteiro está marcado por esta presença? Vocês entendem por que só agora eu compreendo o que Paulo VI disse: “a América Latina é a esperança da Igreja”? Mas, como isso pode ser possível se, aqui, um bispo se tornou Presidente? Como, se toda a América Latina segue a teologia da libertação? Carrón, no Natal, nos falava do tronco seco do qual desponta o brotinho: é isto o que está acontecendo aqui, entre nós... aqui onde finalmente vejo a realização da profecia de Paulo VI. Estes homens que guiam mais de 100 mil pessoas – eu as vi e passei alguns dias com eles – estão carregando a semente de uma novidade destinada a dar a todos uma esperança, um ardor novo... sempre que somos “humildes e simples”, como nos lembra Carrón. A panfletagem que eles fizeram em São Paulo – dois milhões de panfletos – me faz reviver o que sempre vivi. No Natal, aqui neste país pobre, nós distribuímos 20 mil panfletos com o artigo do Carrón. Agora vocês conseguem entender por que o Vice-Presidente da República, parlamentares, ministros, mendigos, bêbados, vêm para cá, para nos encontrar. Estando com os Zerbini e vendo tudo isto, eu revi toda uma história que, hoje, se parece com aquela que vivi há 35 anos atrás, mas com uma espessura única. A política: mas quem faz politica como eles, com a consciência que eles têm? Cleuza – o grito dos pobres, a “sindicalista” que grita – e Marcos – o deputado calmo, preciso, que escuta, acolhe e leva avante, com clareza e amor o grito dos pobres, no parlamento... Se os nossos políticos os vissem, se vissem o que a periferia de São Paulo, onde eles moram, está se tornando, se entusiasmariam... se fossem simples de coração.
c) a Escola de Comunidade. É a vida, a realidade que fala. Não se faz exegese. Uma breve leitura do texto, 15 minutos de meditação – ali mesmo, no salão com 2 mil pessoas – e, em seguida, perguntas ou relatos de fatos, de experiências de vida. E a vida muda.
d) o acolhimento: o coraçao de tudo é a necessidade, a necessidade de cada um. Por isso, me senti abraçado, acolhido. Não me deixaram sozinho nem por um segundo. Levaram-me para o aeroporto... E, como eu havia me enganado de aeroporto, e vendo-me nervoso, Cleuza me disse: “padre, é a Providência... é a Providência... assim, podemos ficar uma hora a mais com você”. E me levaram de um aeroporto a outro... E enquanto eu não desapareci por detrás dos vidros, eles não me deixaram. Era como se eu tivesse voltado 20 anos no tempo, quando Giussani me acompanhou a Linate (aeroporto em Milão; ndt) para tomar o avião para o Paraguai.
Marcos e Cleuza me levaram para conhecer o ginásio onde será realizado o encontro com Carrón, na metade de fevereiro. Pediam-me conselhos... que humildade! E, finalmente, decidiram, com 30 universitários, virem para Asunción, para ver o que o Mistério está fazendo aqui. Exatamente como sempre foi para mim, quando eu ia encontrar as pessoas, visitar comunidades, relatar experiências em todas as partes do que eu havia encontrado. O Brasil vem ao Paraguai e o Paraguai vai ao Brasil.
Onde existem pontos inconfundíveis do Mistério, quem é vir – homem – sente o fascínio da atração, do desejo de ir. Vocês se lembram, sexagenários como eu, de como era 30 ou 40 anos atrás? Agradeço a Deus que permitiu, a mim, pecador, ser ainda assim e ser feliz. Dessa forma, uma vez ao mês eu irei viver um dia com eles. Preciso olhar para eles, porque olhando para eles reencontro eu mesmo. Estes dias foram um presente, um belo presente para os meus 62 anos que estão chegando.
Tchau!
Com afeto
P.e Aldo